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Filosofia (27)

A gnose e a "morte de Deus"

Considerando concretamente, na seqüência histórica dos fatos, o ateísmo não é mera negação teórica da existência de Deus, mas uma "opção contrária" e uma atitude vivida em face da religião. Toma essa recusa dois aspectos na história do Ocidente. Escreve o autor: "São Paulo apresenta dois modos de o homem recusar a Deus: o do pagão pela idolatria e o do judeu pela infidelidade. O pagão idólatra não quer conhecer a Deus, o judeu infiel não O quer reconhecer". Ambos substituem a Deus, na relação religiosa de pessoa para pessoa, por uma projeção do próprio homem. Para Martin Buber, a modalidade principal dessa recusa se encontra na gnose, que reduz a atitude religiosa a uma forma de filosofia. "Ela e não o ateísmo no sentido restrito é que suprime Deus (enquanto conhecido e amado) [...] ela é o verdadeiro adversário da realidade da fé".

Desenvolvimentistas e descontentes da civilização

Sabemos que cada virtude ocupa uma posição entre dois vícios opostos. O virtus in medio expressa uma distinção qualitativa e não uma média quantitativa entre esses dois afastamentos. Compara-se a virtude à crista de uma elevação, da qual à direita e à esquerda, representando os vícios, divergentes descem as vertentes. Não realiza, por exemplo, a coragem, uma homogênea média entre a temeridade e a covardia.

Além das estrelas que ladram

 

Parece que os compêndios de lógica inculcam a ingênuos principiantes a sólida e errônea convicção da quase impossibilidade de serem cometidos certos sofismas.

Cristianismo e comunismo

[...] Nesta ocasião, gostaria de examinar [a coalizão de alguns católicos com os comunistas] sob o aspecto mais central e, por assim dizer, do interior da oficina onde destilam os seus venenos. Já disse uma vez que inúmeros clérigos e laicos cristãos estavam sendo empurrados implacavelmente para as garras poderosas dos comunistas, por conta de equivocadas convicções hiperdemocráticas. É preciso insistir nesta idéia.

Socialismo e cristianismo

Venho novamente falar da fascinação que o socialismo marxista exerce em alguns católicos, jovens e velhos, ingênuos ou maliciosos. À primeira vista, aqui reside um mistério. Vejo homens que se apresentam como adversários do marxismo, mas que conferem todavia à doutrina ou àqueles que a professam a posição privilegiada de ponto de referência. Nada escrevem, nada fazem, nada iniciam sem antes se perguntar em que posição se situa seus pensamentos e atos em relação ao socialismo e aos adeptos de sua ortodoxia. Parece que sua preocupação dominante é sublinhar as semelhanças (e por vezes as diferenças) de atitudes diante das questões sociais e políticas.

A temperança, virtude desaparecida

Refletir, publicar, escrever sobre a temperança é hoje um desafio. A palavra desapareceu do vocabulário do homem médio, assim como do vocabulário da “elite” intelectual, laica ou religiosa. Quanto a nós, a última vez que a escutamos foi no início do século, em nossa infância, quando o professor instava-nos, à saída da escola, a aderir à uma “sociedade de temperança” ― como as muitas que então havia na Bélgica ― cuja específica finalidade era combater, não as incontáveis formas da intemperança, mas o alcoolismo, que afligia um pouco por toda parte, particularmente na classe operária. O petit Robert dá a ela apenas dois sentidos; um, “didático”: moderação em todos os prazeres do sentido; outro, “corrente”: moderação no beber e no comer, mais especialmente no consumo de bebidas alcoólicas. Ambos se volatilizaram tanto da linguagem da sociedade contemporânea como da terminologia dos moralistas contemporâneos. À exceção de alguns “paleotomistas”, cuja leitura ainda faz nossas delícias, não a encontramos em parte alguma durante um meio-século, nem mesmo nas conversas.

Sartre, filósofo da contestação

 

PERDOE-ME THOMAS MOLNAR. Não tenho a intenção de desmontar ou violar o livro admirável que consagrou a Sartre, filósofo da contestação (Paris, Ed. du Prieuré 1969). Quero apenas transmitir a meus leitores algumas reflexões despertadas por obra tão estimulante. Aqui deixo estas reflexões, esperando que o leitor descubra o encadeamento, que só será perfeito na leitura integral do livro.  

A inteligência em perigo

APRESENTAÇÃO, por ALFREDO LAGE

 
Nenhum pensador atual descreveu com mais dramaticidade — no plano das idéias — a subversão racionalista e idealista da inteligência, e as conseqüências que daí resultam para a cultura, do que Marcel de Corte.
 
A ciência moderna é um processo peculiar de investigação da realidade. Incentivada, de um lado, pelos altos vôos do racionalismo cartesiano e, de outro, pela miúda curiosidade do empirismo, a ciência de si mesma independe dessas conceptualizações. As falsas filosofias que, por um paradoxo da nossa condição, outrora impulsionaram a pesquisa — e que a ciência hoje mais do que nunca dispensa — continuam contudo a espalhar a sua deletéria influência sobre a cultura e as ciências do homem.
 

Filosofia econômica e necessidades do homem

A maioria dos biólogos insiste, com razão, sobre a importância da noção de necessidade como elemento determinante das condutas humanas. Não é de admirar que ela se encontre no próprio âmago dos comportamentos econômicos. A polivalência dessa noção e sua diversidade quase inesgotável tornam, contudo, a sua interpretação científica difícil. Com efeito, a necessidade é uma coisa que varia ao extremo, não somente segundo as civilizações, as sociedades e os grupos no tempo e no espaço, mas segundo os indivíduos, em cada instante da sua existência e segundo as circunstâncias em que se achem. Como apreender uma realidade tão particularizada e tão evanescente? Sabemos, com efeito, que não há ciência do individual, só o universal pode ser objeto de ciência. Não admira, portanto, que a noção de necessidade tenha sido o mais das vezes considerada pelos economistas antes como um postulado da pesquisa do que como um objeto da própria pesquisa. Fala-se constantemente da necessidade em economia e se a noção é indispensável para aclarar os fenômenos econômicos, raramente é ela própria aclarada.

O Discurso de Bento XVI em Ratisbone

Achei por bem apresentar uma análise do discurso que o Papa pronunciou aos acadêmicos de Ratisbone e que causou tanta violência. Lendo o texto percebi que Bento XVI foi severo sim, mas em relação aos cientistas e representantes em geral do mundo acadêmico. E fiquei feliz por não haver, até o momento, fundamentalistas entre os professores universitários. O Papa lhes dirigiu palavras certas e duras contra o materialismo agnóstico das ciências modernas, pregando não somente a necessidade de estudos científicos sobre a Religião, mas também a necessidade da fé dentro do contexto científico. Graças a Deus os senhores professores não agrediram o Papa, não queimaram igrejas, não assassinaram freiras, mesmo tendo sido criticados duramente nos seus dogmas cientificistas. Já imaginaram o que seria se ali mesmo se levantassem de dedo em riste, agressivos, violentos, querendo até mesmo matar o papa?
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