Metafísica (3)
Como os homens, as idéias têm a sua genealogia. E nem sempre ao próprio erro a lógica deixa a liberdade absoluta de escolha dos seus descaminhos. As doutrinas filiam-se nas vicissitudes de sua sucessão e o jogo inelutável dos princípios traça-lhe de antemão as linhas do seu desenvolvimento.
O leitor que não costuma freqüentar com assiduidade os textos deixados pelos filósofos, embora já tenha descoberto que esse coro de vozes é o mais discordante e desafinado que jamais se ouviu, e embora já tenha notado que não há coisa que algum deles não tenha afirmado ou negado, talvez não saiba que houve um filósofo para provar que a matéria não existe. Pois houve. Nasceu em 1685, morreu em 1753, foi inglês e chamou-se George Berkeley.
1. Poder-se-ia pensar que a metafísica, nas épocas de impotência especulativa, brilha ao menos pela modéstia. Mas a mesma época que lhe ignora a grandeza ignora-lhe também a modéstia. Sua grandeza: ser sabedoria. Sua miséria: ser ciência humana.