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Filosofia (24)

Prefácio à Ilusão Liberal

Lançamento da Editora Permanência


"A ILUSÃO LIBERAL"



R$21,00

 

Dom Lourenço Fleichman OSB
 
Pode parecer temerário para uma editora católica, aqui no Brasil, publicar um livro sobre a doutrina dos Liberais, tantos são os equívocos despertados por este assunto. Não poderíamos, portanto, deixar de tecer algumas explicações preliminares ao apresentar este livro de Louis Veuillot.
 
Comecemos pelo autor. Ilustre desconhecido para a grande maioria dos brasileiros, Louis Veuillot (1813 – 1883) é um dos grandes nomes da literatura católica do século XIX, na França. Polemista temido por seus adversários, coube a ele dar vida a um jornal católico da época, L´Univers, que estava em plena decadência. Seus artigos vigorosos em favor da liberdade de ensino, tema que sempre apaixonou os franceses, transformaram o jornal em referência do Catolicismo Romano. Numa França oscilando entre o espírito revolucionário liberal e a restauração da Monarquia, o combate católico era o combate pela liberdade, e isso naturalmente reuniu católicos que defendiam a liberdade da Igreja a todos aqueles que defendiam toda e qualquer liberdade. Com o passar do tempo, Veuillot se afastará dos Liberais, combatendo em favor da restauração da Monarquia. Na época do Concílio Primeiro do Vaticano, apoiará de forma vigorosa o dogma da Infalibilidade papal, sendo defendido várias vezes pelo papa Pio IX contra bispos que o criticavam. Quando Pio IX achou por bem apontar certos exageros nas expressões polêmicas do grande escritor, Veuillot aceitou humildemente a paternal admoestação e procurou melhorar o tom dos seus escritos. Leia Mais
 

Acerca da eternidade do mundo, contra os murmurantes

Suposto, conforme a fé católica, que o mundo não foi desde sempre, como equivocadamente afirmaram alguns filósofos, mas que o mundo teve um começo em sua duração, segundo atesta a Sagrada Escritura, que não pode enganar-se, suscita-se porém a dúvida de se poderia ter sido desde sempre.

Acerca da Mistura dos Elementos

Muitos costumam questionar-se sobre o modo como os elementos estão em um corpo misto.
 
[Teoria de Avicena]  
 
Ora, parece a alguns que, estando as qualidades ativas e passivas dos elementos de algum modo reduzidas por alteração a uma média, as formas substanciais dos elementos permanecem1: de fato, se as formas substanciais não permanecessem, pareceria haver algum tipo de corrupção, e não mistura dos elementos.
 
Por outro lado, se a forma substancial do corpo misto for ato da matéria, não pressupondo as formas dos corpos simples, os corpos simples dos elementos perderão sua razão. Porquanto é de elementos que algo se compõe primeiramente, e os elementos existem nele, indivisíveis conforme a espécie; com efeito, se forem suprimidas as suas formas substanciais, não mais de corpos simples que nele remanesçam, os corpos mistos serão compostos.
 
Porém, é impossível que assim seja. Impossível é, pois, que a mesma matéria receba as formas de diferentes elementos. Se, portanto, as formas substanciais dos elementos fossem salvas em um corpo misto, seria necessário que elas estivessem nas diversas partes da matéria. Mas é impossível à matéria ter diversas partes, a não ser que se subentenda quantidade na matéria; pois, suprimida a quantidade, a substância permanece indivisível, como se vê claramente no livro I da Física2. Ora, o corpo físico se constitui da matéria que existe sob quantidade e da forma substancial que se lhe advém. E assim, as diversas partes da matéria, que subsistem pelas formas dos elementos, recebem a razão de muitos corpos. No entanto, é impossível um corpo físico ser simultaneamente muitos corpos. Os quatro elementos, portanto, não estarão em qualquer parte do corpo misto; e assim, não haverá uma verdadeira mistura, mas uma mistura aparente, assim como ocorre na agregação de corpos que, por sua pequenez, não se pode perceber.
 
Ademais, toda forma substancial requer uma disposição própria na matéria, sem a qual não pode existir: donde a alteração ser via para a geração e a corrupção. Porém, é impossível que a disposição própria que se requer para a forma do fogo, e a que se requer para a forma da água, encontrem-se na mesma coisa, pois, conforme tais disposições, o fogo e a água são contrários. Ora, é impossível que os contrários existam na mesma coisa. É impossível, portanto, que na mesma parte da mistura estejam as formas substanciais do fogo e da água. Se, portanto, uma mistura vier a existir, remanescendo nela as formas substanciais dos corpos simples, segue-se que não se trata de uma mistura verdadeira, mas somente de uma sensação de mistura, como se as partes, insensíveis por sua pequenez, estivessem justapostas.
 
[Teoria de Averróis]
 
Alguns, no entanto, desejando evitar ambos argumentos, incidiram em maior inconveniente: pois, para distinguir a mistura dos elementos de sua corrupção, disseram que as formas substanciais dos elementos de algum modo subsistem na mistura3. Mas, novamente, para que não fossem compelidos a assumir que se trataria antes de uma mistura aparente que de uma verdadeira,sustentaram que as formas dos elementos não subsistem na mistura em sua totalidade, mas reduzidas a alguma média. Com efeito, dizem que as formas dos elementos admitem mais e menos e têm contrariedade entre si. Mas, porque isto manifestamente repugna a opinião comum e os dizeres de Aristóteles, que diz n’As Categorias4 que nada é contrário à substância, e que ela não admite mais e menos, vão mais adiante e dizem que as formas dos elementos são imperfeitíssimas, por estarem mais próximas da matéria prima: donde serem formas intermediárias entre as formas substanciais e as acidentais; e assim, enquanto se aproximam da natureza das formas acidentais, podem admitir mais e menos.  Esta posição, entretanto, é em muitas maneiras inaceitável. Em primeiro lugar, de certo, porque é inteiramente impossível que exista algum intermediário entre substância e acidente, por isso que seria um intermediário entre a afirmação e a negação. Com efeito, é próprio do acidente estar em um sujeito, e da substância não estar em sujeito algum. Embora as formas substanciais de fato estejam na matéria, elas não estão no sujeito; pois sujeito significa “este algo”: a forma substancial, por outro lado, é o que faz com que ele seja “este algo”, sem nunca o pressupor.
 
Do mesmo modo, é ridículo que se julgue haver algum intermediário entre coisas que não sejam de um mesmo gênero. Pois, como se prova no décimo livro da Metafísica5, é necessário que a média e os extremos sejam do mesmo gênero; nada, portanto, pode ser um intermediário entre substância e acidente.
 
Além disso, é impossível que as formas substanciais dos elementos sejam suscetíveis de mais e menos. Pois toda forma suscetível de mais e menos é divisível por acidente, na medida que um sujeito possa participar dela mais ou menos. Porém, segundo seja divisível por si ou por acidente, o movimento é contínuo, como é claro no livro sexto da Física6.  Mudança de lugar, e aumento e diminuição no tamanho, ocorrem segundo o lugar e a quantidade respectivamente, que são por si mesmos divisíveis. A alteração, no entanto, é divisível em conformidade com qualidades que admitam variações de mais e menos, como o calor ou a brancura. Portanto, se as formas dos elementos fossem suscetíveis de mais e menos, tanto a geração como a corrupção dos elementos seria um movimento contínuo. Mas isto é impossível, pois o movimento contínuo evidentemente não é senão de três gêneros: quantidade, qualidade e lugar; como se prova no livro V da Física7.
 
Além disso, toda diferença no tocante a forma substancial varia a espécie; entretanto, o que é suscetível de mais e menos, difere o que é mais do que é menos, e, de certa maneira, é contrário a ele, como o mais branco o é do menos branco. Se, portanto, a forma do fogo fosse suscetível de mais e menos, quer se fizesse mais ou menos, a espécie variaria, e não seria a mesma forma, mas outra. E desse ponto é que o Filósofo diz no livro VIII da Metafísica, que assim como nos números, que variam a espécie por adição e subtração, assim nas substâncias.
 
[Teoria de S. Tomás]
 
É necessário, portanto, descobrir outra explicação que não apenas salve a verdade da mistura, mas também o fato dos elementos não estarem completamente corrompidos, e sim de alguma forma conservados na mistura.
 
Deve ser considerado, portanto, que as qualidades ativas e passivas dos elementos são contrárias umas as outras, e são suscetíveis de mais e menos. Ora, dessas qualidades contrárias, suscetíveis de mais e menos, pode-se constituir uma qualidade média, que tenha o sabor da natureza de ambos extremos, como o cinza entre o branco e o negro, e o tépido entre o quente e o frio. Assim, abrandadas as qualidades extremas dos elementos, constitui-se destas uma qualidade média, que é a qualidade própria do corpo misto, e que difere, todavia, em diversos [corpos mistos] conforme a diversa proporção da mistura: e esta qualidade é, de fato, a disposição própria da forma do corpo misto, assim como a qualidade simples da forma de um corpo simples. Portanto, assim como os extremos se encontram na média, que participa da natureza dos extremos, assim as qualidades dos corpos simples se encontram na qualidade própria do corpo misto. Embora a qualidade do corpo simples de fato seja outra que da sua própria forma substancial, atua em virtude da forma substancial. Caso contrário, o calor apenas aqueceria, sem que, por sua ação, a forma substancial fosse atualizada, já que nada opera além de sua espécie. Assim, portanto, as virtudes das formas substanciais dos corpos simples são salvas nos corpos mistos.
 
As formas dos elementos estão portanto nos corpos mistos; não, em verdade, em ato, mas virtualmente. E isto é o que Aristóteles disse no livro I Sobre a Geração e Corrupção: “Evidentemente, não permanecem os elementos em ato, como o corpo e sua brancura, nem se corrompem, nem um nem os dois: pois sua virtude se salva” 8.
 
Tradução: Permanência
 
Nota: Este opúsculo encontra-se com as mesmas palavras no comentário de Sto. Tomás sobre Aristóteles: Sobre a Geração e Corrupção, livro I, XXIV.

  1. 1. [N. da P.] Avicena, Sufficientia, I,6; Metaphysica, VIII,2.
  2. 2. [N. da P.] Aristóteles, Física, 185b 16.
  3. 3. [N. da P.] Averróis, In De Caelo, III, c. 67
  4. 4. [N.da P.] Aristóteles, As Categorias, 5 3b24 e 3b33-34
  5. 5. [N. da P.] Aristóteles, Metafísica, 9 1057a 19–20 & 1057a 33–b1
  6. 6. [N. da P.] Aristóteles, Física, 5 234b 10–20
  7. 7. [N. da P.] Aristóteles, Física, 3–4 225b7–9 e 226a24–b10
  8. 8. [N. da P.] Aristóteles, Sobre a Geração e Corrupção, 10 327b 29-31

A reencarnação sob o olhar da filosofia

Na primeira parte, o confronto da teoria da reencarnação com a fé católica nos mostrou sua oposição radical. Resta-nos esclarecer o tema à luz da razão natural. A tese com que nos deparamos conforma-se com a realidade? É compatível com a natureza das coisas? A segunda parte de nosso estudo exige notas preliminares. Nosso primeiro ponto de vista fora o da fé, o principal argumento era a autoridade de Deus, que fala pela Tradição, pela Santa Escritura e pelo Magistério da Igreja. Por assim dizer, contribuímos passivamente ao julgamento da reencarnação pelos guardiões da fé.

Ateísmo militante

Ateísmo militante! Expressão nova a designar uma realidade também nova.
 
Como fato individual, a negação de Deus é quase tão antiga como a humanidade. Conhecemos os ateus que se abotoam, tristonhos e silenciosos, na solidão de seu deserto interior; conhecemos também os inquietos que se atiram às aventuras de um proselitismo sem glória. Casos isolados, que se multiplicam com freqüência nas civilizações em decomposição.

Agnosticismo kantista - criticismo transcendental

Do agnosticismo empírico nas suas diferentes modalidades passamos ao agnosticismo subjetivista que reconhece em KANT o seu iniciador nos tempos modernos. Com esta transição variam as razões fundamentais da atitude agnóstica, atenua-se notavelmente a rigidez das primeiras exclusões do positivismo ortodoxo, mas permanece ainda substancialmente idêntico o resultado final, a essência de todo o agnosticismo, constante em afirmar a impossibilidade insanável de chegarmos por via racional a uma certeza da existência de Deus.

Nas origens do agnosticismo contemporâneo

Como os homens, as idéias têm a sua genealogia. E nem sempre ao próprio erro a lógica deixa a liberdade absoluta de escolha dos seus descaminhos. As doutrinas filiam-se nas vicissitudes de sua sucessão e o jogo inelutável dos princípios traça-lhe de antemão as linhas do seu desenvolvimento.
 

A gnose e a "morte de Deus"

Considerando concretamente, na seqüência histórica dos fatos, o ateísmo não é mera negação teórica da existência de Deus, mas uma "opção contrária" e uma atitude vivida em face da religião. Toma essa recusa dois aspectos na história do Ocidente. Escreve o autor: "São Paulo apresenta dois modos de o homem recusar a Deus: o do pagão pela idolatria e o do judeu pela infidelidade. O pagão idólatra não quer conhecer a Deus, o judeu infiel não O quer reconhecer". Ambos substituem a Deus, na relação religiosa de pessoa para pessoa, por uma projeção do próprio homem. Para Martin Buber, a modalidade principal dessa recusa se encontra na gnose, que reduz a atitude religiosa a uma forma de filosofia. "Ela e não o ateísmo no sentido restrito é que suprime Deus (enquanto conhecido e amado) [...] ela é o verdadeiro adversário da realidade da fé".

Desenvolvimentistas e descontentes da civilização

Sabemos que cada virtude ocupa uma posição entre dois vícios opostos. O virtus in medio expressa uma distinção qualitativa e não uma média quantitativa entre esses dois afastamentos. Compara-se a virtude à crista de uma elevação, da qual à direita e à esquerda, representando os vícios, divergentes descem as vertentes. Não realiza, por exemplo, a coragem, uma homogênea média entre a temeridade e a covardia.

Além das estrelas que ladram

 

Parece que os compêndios de lógica inculcam a ingênuos principiantes a sólida e errônea convicção da quase impossibilidade de serem cometidos certos sofismas.

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