Skip to content

Pe. Félix Sardá y Salvany (35)

Qual o problema do espiritismo?

Pe. Sarda y Salvany

Ao leitor

Este opúsculo não tem a pretensão de ser obra teológica ou filosófica, longe disso. É pura e simplesmente uma breve instrução caseira para o uso dos fiéis. Por isso, ao longo dele, e sobretudo na sua primeira parte, apela-se ao bom senso católico do leitor, mais do que a elevadas argumentações científicas. O espiritismo não precisa, para o seu deslustre, mais do que ser conhecido à luz das mais triviais noções da fé cristã e do sentido comum. Decidi, portanto, expô-lo sob estes dois pontos de vistas. Os que desejarem estudos mais profundos, poderão ler a obra excelente do Pe. Pailloux: Le magnétisme, le spiritisme et la possession, e também a série de artigos magníficos publicados em La Civiltà cattolica, e com o título: El espiritismo en el mundo moderno, traduzidos para o espanhol e editados em Lugo, casa editorial de Soto. (Continue a ler)

Da caridade nas chamadas “formas de polêmica”

 

Louis Veuillot

Pe. Félix Sardá y Salvani

(...) Ele [o liberalismo] prefere acusar incessantemente os católicos de serem pouco caridosos em suas formas de propaganda. É neste ponto, como dissemos, que certos católicos, bons no fundo, mas contaminados da maldita peste liberal, costumam insistir contra nós.

Vejamos o que dizer sobre isso. Nós, católicos, temos razão neste ponto como nos demais, ao passo que os liberais não têm nem sombra dela. Para nos convencermos disso analisemos as seguintes considerações:

1°) O católico pode tratar abertamente o seu adversário de liberal, se ele o é de fato; ninguém porá em dúvida esta proposição. Se um autor, jornalista ou deputado começa a jactar-se de liberalismo e não trata de ocultar suas preferências liberais, que injúria se faz em chamá-lo de liberal? É um princípio do Direito: Si palam res est, repetitio injuriam non est: "Não é injúria repetir o que está à vista de todos". Muito menos em dizer do próximo o que ele diz de si mesmo a toda hora. Entretanto, quantos liberais, particularmente os do grupo dos mansos ou temperados, consideram grande injúria que um adversário católico os chame de liberais ou de amigos do liberalismo?

O liberalismo de todo matiz e caráter foi já formalmente condenado pela Igreja?

 

Pe. Félix Sardá y Salvany

 

Sim, o liberalismo, em todos os seus graus e em todas as suas formas, foi formalmente condenado; de modo que, além das razões de malícia intrínseca que o fazem mau e criminoso, todo fiel católico tem acesso à suprema e definitiva declaração da Igreja a respeito do liberalismo: ela o julgou e anatematizou. Não se podia permitir que um erro de tal transcendência deixasse de ser incluído no catálogo das doutrinas oficialmente reprovadas, e aliás foi ele incluído em várias ocasiões.

Já quando apareceu na França, durante sua primeira Revolução, a famosa Declaração dos Direitos do Homem, que continha em germe todos os desatinos do moderno liberalismo, foi condenada por Pio VI.

Mais tarde, essa doutrina funesta foi desenvolvida e aceita por quase todos os governos da Europa, até pelos príncipes soberanos, o que é uma das mais terríveis cegueiras que ofereceu a história das monarquias. Tomou em Espanha o nome pelo qual hoje é conhecida em toda parte: liberalismo.

30. O que se deve pensar das relações que o papa mantém com governos e personagens liberais

Mas então, brada alguém, que devemos pensar das relações e amizades que a Igreja tem com os governos e as pessoas liberais, ou, o que é o mesmo, com o liberalismo?

Resposta. Devemos julgar que são relações e amizades oficiais, e nada mais. Não supõem afeto algum particular às pessoas com quem se mantêm, e muito menos aprovação de seus atos, e muitíssimo menos adesão às suas doutrinas ou sanção delas. Este é um ponto que convém esclarecer, porque sobre ele os sectários do liberalismo armam grande aparato de teologia liberal para combater a sã intransigência católica.

Convém antes de tudo observar que há na Igreja de Deus dois ministérios: um que chamaremos apostólico, relativo à propagação da fé e à salvação das almas; e outro que poderíamos muito bem chamar de diplomático, relativo às relações humanas com os poderes da terra.

O primeiro é o mais nobre; é, por assim dizer, o primário e o essencial. O segundo é inferior e subordinado ao primeiro, do qual é unicamente o auxiliar. No primeiro a Igreja é intransigente e intolerante; vai direto ao seu fim, e prefere romper-se a dobrar-se: Frangi non flecti. Veja-se apenas a história das suas perseguições. Trata-se de direitos divinos e de deveres divinos, e portanto não cabe neles atenuação nem transação possíveis. No segundo ministério, a Igreja é condescendente, benévola e plena de paciência. Ela discute, solicita, negocia, elogia com o fim de abrandar, cala-se às vezes para melhor triunfar, recua talvez para melhor avançar e para tirar em seguida um melhor partido da situação. Nesta ordem de relações sua divisa poderia ser: flecti non frangi. Trata-se aqui de relações humanas, e estas admitem certa flexibilidade e uso de recursos especiais.

Neste terreno, tudo o que não é declarado mau e proibido pela lei comum, nas relações ordinárias entre os homens, é licito e bom. Mais claro: nesta esfera a Igreja julga poder valer-se, e vale-se de fato, de todos os recursos que pode utilizar uma diplomacia honrada.

Quem se atreverá a censurá-la, seja porque envia e recebe embaixadores de governos maus e mesmo de príncipes infiéis; seja porque dá e recebe dos mesmos, presentes, obséquios e honras diplomáticas; porque oferece distinções, títulos, condecorações a seus representantes; honra com frases de cortesia e urbanidade as suas famílias e concorre a suas festas por meio de seus representantes?

Porém logo os tontos e os liberais vêm a nosso encontro: “Por que razão deveríamos detestar o liberalismo e combater os governos liberais, quando o papa trata com eles, reconhece-os, e os cobre de distinções?” Malvado ou estúpido — talvez os dois juntos! —, escuta a comparação que vou fazer e julga em seguida.

Supõe que és pai de família e tens quatro ou seis filhas, a quem educas com a mais rigorosa honestidade. Em frente à tua casa ou simplesmente separadas de ti por uma parede vivem umas vizinhas infames. Tu recomendas continuamente a tuas filhas a não ter nenhum tipo de relação com aquelas mulheres de má vida. Tu as proíbe até de olhá-las e saudá-las. Queres que tuas filhas tenham-nas por perversas e corrompidas e que aborreçam sua conduta e suas idéias; que tomem cuidado para em nada se assemelharem a elas, nem pela linguagem, nem pelas obras, nem pelos trajes. Tuas filhas, boas e dóceis, têm o dever evidente de seguir as tuas ordens, que são as de um pai de família prudente e muito ajuizado. Mas eis que uma questão se suscita entre ti e essa vizinhança sobre um ponto de interesse comum, sobre demarcação de limites, ou passagem de águas, por exemplo; e torne-se preciso que tu, honrado pai, sem deixar de o ser, venha a tratar com uma daquelas infames mulheres, que por isso não deixam de ser infames, ou pelo menos com quem as represente. Deves tratar do assunto e ter encontros, e falas e fazes os cumprimentos e fórmulas de cortesia usuais na sociedade, e procuras de todos os modos entender-te e chegar a um acordo sobre a questão em litígio.

Terão razão tuas filhas, se disserem logo: “Já que nosso pai trata com essas vizinhas más, não devem ser tão más como ele diz. Podemos tratar com elas nós também, reputar como bons seus costumes, modestos os seus trajes, e louvável e honrada sua maneira de viver”?

Diz-me: não falariam como néscias tuas filhas, se falassem assim? Apliquemos agora a parábola ou comparação.

A Igreja é a família dos bons (ou dos que deveriam sê-lo e que ela deseja que o sejam); mas está rodeada de governos perversos em maior ou menor grau. Ela diz então a seus filhos: “Detestai as máximas desses governos; combatei-os; sua doutrina é erro, suas leis, iniqüidade”. Porém, ao mesmo tempo, nas questões que envolvem interesse próprio ou de ambos, ela se encontra na necessidade de tratar com os chefes ou representantes desses governos maus; e efetivamente trata com eles, recebe seus cumprimentos e usa para com eles das fórmulas de urbanidade diplomática usuais em todos os países. Pactua com eles sobre assuntos de interesse comum, procurando tirar o melhor partido possível de sua situação entre esses vizinhos. É isto mau? Sem dúvida, não. Mas não é ridículo que saia logo um católico tomando tal conduta como uma aprovação de doutrinas que a Igreja não cessa de condenar, e como uma aprovação de atos que ela não cessa de combater?

Vejamos: por acaso a Igreja aprova o Corão, quando trata de potência a potência com os sectários do Corão? Aprova a poligamia, quando recebe presentes e embaixadas do Grão-Turco? Pois bem! Do mesmo modo, a Igreja não aprova o liberalismo, quando ela condecora seus reis e ministros, quando lhes envia suas bênçãos, que são simples fórmulas de cortesia cristã que o papa outorga até aos protestantes. É um sofisma pretender que a Igreja autoriza com tais atos o que por outros não deixa de condenar. Seu ministério diplomático não anula seu ministério apostólico; e é neste último que se deve buscar a explicação das aparentes contradições de seu ministério diplomático.

Assim se comporta o papa com os chefes das nações, assim o bispo com os da diocese, assim o pároco com os da paróquia. Cada um sabe até onde vão suas relações oficiais e diplomáticas e qual é o seu verdadeiro sentido; só os infelizes sectários do liberalismo e os que estão contaminados dele ignoram isto, ou fingem ignorá-lo.

29. Que conduta deve observar o bom católico com os ministros de Deus contaminados de liberalismo?

Está bem, dirá alguém ao chegar aqui. Tudo isto é facílimo de compreender, e basta apenas folhear a história para tê-lo por averiguado. Mas o delicado e espinhoso é expor a conduta que deve observar, para com tais ministros da Igreja desviados, o fiel leigo, tão santamente zeloso da pureza de sua fé como dos direitos legítimos da autoridade.

É indispensável estabelecer aqui várias distinções e classificações e responder diferentemente a cada uma delas.

1° - Pode ocorrer que um ministro da Igreja seja publicamente condenado por ela como liberal; neste caso, bastará recordar que todo fiel eclesiástico ou leigo, a quem a Igreja separou do seu seio, deixa de ser católico (quanto ao direito de merecer tal consideração), até que, por meio de uma verdadeira retratação e um formal arrependimento, faça-se outra vez admitido à comunhão dos fiéis. Quando isto ocorre com um ministro da Igreja, trata-se de um lobo; não é pastor, nem sequer ovelha. É necessário evitá-lo, e sobretudo rezar por ele.

2° - Pode dar-se o caso de um ministro da Igreja, caído na heresia, mas sem ter sido ainda oficialmente declarado culpável pela Igreja. Neste caso é preciso agir com maior circunspecção. Um ministro da Igreja caído em erro contra a fé não pode ser oficialmente desautorizado senão por quem tenha sobre ele jurisdição hierárquica. Entretanto, no terreno da polêmica puramente científica, pode ser combatido por seus erros e condenado por eles, deixando sempre a última palavra, ou seja, ou a sentença definitiva à única autoridade infalível do Mestre Universal. A grande regra, a única regra em tudo, estamos a dizer, é a prática constante da Igreja de Deus, segundo aquele adágio de um Santo Padre: Quod semper, quod ubique, quod ab omnibus 1. Pois bem, assim se procedeu sempre na Igreja de Deus. Simples fiéis perceberam num eclesiástico doutrinas opostas às que comumente se ensinaram como as únicas sãs e verdadeiras; deram o grito de alarme contra elas em seus livros, de viva voz e em seus folhetos, pedindo assim ao magistério infalível de Roma a sentença decisiva. São os latidos do cão que advertem o pastor. Não houve heresia no catolicismo que não tenha começado a ser confundida e desmascarada desta maneira.

3° - Pode dar-se o caso de que o infeliz extraviado seja um ministro da Igreja ao qual estamos particularmente subordinados. É preciso então proceder com temperança e discrição ainda maiores. Deve-se respeitar sempre nele a autoridade de Deus, até que a Igreja o declare deposto dela. Se o erro é duvidoso, deve-se chamar a atenção dos superiores imediatos, a fim de que peçam ao suspeito explicações claras. Se o erro é evidente, nem por isto é lícito colocar-se em rebeldia aberta, mas é preciso contentar-se com a resistência passiva à autoridade, nos pontos em que ela se coloca manifestamente em contradição com as doutrinas reconhecidas como sãs pela Igreja. Deve-se, porém, conservar por ela todo respeito exterior que lhe é devido, obedecer-lhe no que não pareça doutrina condenada ou danosa, resistir-lhe pacífica e respeitosamente no que se aparte do sentimento comum católico.

4° - Pode dar-se o caso (e é o mais comum) de que o extravio de um ministro da Igreja não verse sobre pontos concretos de doutrina católica, mas sobre certas apreciações de fatos ou pessoas ligadas mais ou menos com ela. Neste caso, a prudência cristã aconselha olhar com prevenção para esse padre contagiado de liberalismo, preferir aos seus conselhos os de quem não tenha tais contágios, e de recordar esta máxima do Salvador: “Um pouco de levedura faz fermentar toda a massa”. Por conseguinte, uma prudente desconfiança é neste caso a regra de maior segurança; e neste ponto, como em tudo, pedir luz a Deus, conselhos a pessoas dignas e de fé íntegra, procedendo sempre com grande reserva contra quem não julga muito retamente ou não fale muito claro sobre os erros da atualidade.

E eis tudo o que podemos dizer sobre este ponto, cheio de inumeráveis dificuldades, e impossível de resolver em tese geral. Não esqueçamos uma observação que derrama torrentes de luz: conhece-se melhor o homem por suas afeições pessoais, do que por suas palavras e seus escritos. Ser amigo de liberais, mendigar seus favores e louvores é, regularmente falando, para um padre, prova mais que duvidosa de ortodoxia doutrinal.

Que nossos amigos reparem neste fenômeno, e verão quão segura norma e quão infalível critério lhes dá.

  1. 1. “O que foi sempre crido por toda a parte e por todos”, São Vicente de Lerins (primeira metade do século V).

28. Se há ou pode haver na Igreja ministros de Deus atacados do horrível contágio do liberalismo

Por desgraça, é muito comum que se encontrem eclesiásticos contaminados de liberalismo, o qual se favorece em grande medida deste fato. Nestes casos, a singular teologia de certa gente converte em argumento de grande peso a opinião ou os atos de tal ou qual eclesiástico; disto tivemos experiências deploráveis em todos os tempos na Espanha católica. Convém, pois, tratar deste ponto ressalvando todos os respeitos, e perguntar com sinceridade o seguinte: Pode haver ministros da Igreja manchados de liberalismo?

Sim, amigo leitor, sim, infelizmente pode haver também ministros da Igreja que sejam liberais exaltados, liberais moderados ou eivados de liberalismo, exatamente como entre os leigos. Não está isento o ministro de Deus de pagar o miserável tributo à fraqueza humana, e por conseguinte, várias vezes o tem pago ao erro contra a fé.

E que tem isto de extraordinário, se não houve jamais uma única heresia na Igreja de Deus que não tenha sido criada ou propagada por um eclesiástico? Mais ainda, é historicamente certo que, se desde o começo não houvesse clérigos a seu serviço, em nenhum século as heresias teriam causado problemas ou se desenvolvido.

O clérigo apóstata é o primeiro fator que busca o diabo para realizar sua obra de rebelião. Necessita apresentá-la com aparência de autoridade aos olhos dos incautos, e para isso nada lhe serve tanto como a firma de um ministro da Igreja. E como infelizmente nunca faltam nela clérigos corrompidos em seus costumes, corrupção por onde mais comumente a heresia caminha; ou cegos de soberba, causa também muito freqüente de todo erro; daí que a este último, sob todas as formas e em todas as manifestações, nunca lhe tenham faltado apóstolos e fautores eclesiásticos.

Judas, que começou em seu próprio apostolado a murmurar e a semear suspeitas contra o Salvador, e acabou por vendê-lo a seus inimigos, é o primeiro tipo do sacerdote apóstata e semeador de cizânia entre seus irmãos. Ora, notai bem, Judas foi um dos doze primeiros sacerdotes ordenados pelo próprio Redentor.

A seita dos Nicolaítas originou-se com o diácono Nicolau, um dos sete primeiro diáconos ordenados pelos Apóstolos para o serviço da Igreja, e companheiro de Santo Estêvão, protomártir.

Paulo de Samosata, grande heresiarca do século III, foi bispo de Antioquia.

Novaciano, padre de Roma, foi o pai e fundador do cisma dos Novacianos, que tanto perturbou a Igreja universal.

Melécio, Bispo de Tebaida, foi autor e chefe do cisma dos Melecianos.

Tertuliano, também sacerdote e eloqüente apologista, cai na heresia dos Montanistas e nela morre.

Entre os Priscilianistas espanhóis, que causaram tanto escândalo em nossa pátria no século IV, figuram os nomes de Instâncio e Salviano, dois bispos, desmascarados e combatidos por Higínio, e condenados em um concílio reunido em Saragoça.

De todos os heresiarcas que teve a Igreja, Ário talvez tenha sido o principal. O Arianismo chegou a arrastar consigo tantos reinos como o Luteranismo o fez hoje; Ário era um padre de Alexandria, ressentido de não ter alcançado a dignidade episcopal. Esta seita teve um clero tão numeroso que por muito tempo, em grande parte do mundo, não houve outros bispos e sacerdotes senão os arianos. 

Nestório, outro famoso herege dos primeiros séculos da Igreja, foi monge, padre, bispo de Constantinopla e grande pregador. Dele procedeu o Nestorianismo.

Eutiques, autor do Eutiquianismo, era padre e abade de um monastério de Constantinopla.

Vigilâncio, o herege taberneiro tão elegantemente satirizado por São Jerônimo, fora ordenado sacerdote em Barcelona.

Pelágio, autor do Pelagianismo, objeto de quase todas as polêmicas de Santo Agostinho, era monge, e doutrinado nos erros sobre a graça por Teodoro, bispo de Mopsuesta.

O grande cisma dos Donatistas chegou a contar com grande número de clérigos e bispos. Deles diz um historiador moderno (Amat, Hist. de la Iglesia de J. C.): “Todos imitaram logo a altivez de seu chefe Donato. Possuídos de uma espécie de fanatismo de amor-próprio, não houve evidência, nem obséquio, nem ameaça que pudesse apartá-los do seu ditame. Os bispos acreditavam-se infalíveis e impecáveis; e os fiéis que seguiam estas idéias se imaginavam seguros, seguindo os seus bispos mesmo contra toda evidência.”

Sérgio, Patriarca de Constantinopla, foi o pai e doutor dos hereges Monotelistas.

Félix, bispo de Urgel, foi dos Adopcianos. 

Constantino, bispo de Natólia; Tomás, bispo de Claudiópolis e outros prelados combatidos por São Germano, patriarca de Constantinopla, caíram na seita dos Iconoclastas.

Do grande cisma do Oriente não precisamos nomear os autores, pois é sabido que o foram Fócio, patriarca de Constantinopla, e seus bispos sufragâneos.

Berengário, o perverso detrator da Sagrada Escritura, foi arcediago da Catedral de Angers.

Wicliffe, um dos precursores de Lutero, era pároco na Inglaterra.

João Huss, seu companheiro de heresia, era também pároco na Boêmia. Os dois foram condenados e executados como chefes dos Wiclefitas e Hussitas.

De Lutero basta recordar que foi monge agostinho de Wittemberg.

De Zuínglio, que foi pároco de Zurique.

De Jansênio, bispo de Iprés, que foi autor do maldito Jansenismo.

O cisma anglicano, promovido pela luxúria de Henrique VIII, foi principalmente apoiado pelo seu favorito, o arcebispo Cranmer.

Na Revolução francesa, os mais graves escândalos na Igreja de Deus foram dados pelos padres e bispos revolucionários. As apostasias que afligiram os homens de bem naqueles tristíssimos tempos causam espanto e horror, e a Assembléia Francesa testemunhou cenas que o leitor pode ler em Henrion ou qualquer outro historiador.

O mesmo sucedeu depois na Itália. Conhecidas são as apostasias públicas de Gioberto, de frei Pantaleão, de Passaglia, e do Cardeal Andrea.

Na Espanha, houve padres nos clubes da primeira época constitucional; padres nos incêndios dos conventos; padres ímpios nas Cortes; padres nas barricadas; padres entre os primeiros introdutores do protestantismo depois de 1869. Sob o reino de Carlos III, houve bispos jansenistas em abundância (veja-se sobre isto o tomo III dos Heterodoxos de Menéndez Pelayo). Muitos deles pediram em suas cartas pastorais a iníqua expulsão da Companhia de Jesus, e muitos a aplaudiram. Hoje mesmo, em várias dioceses espanholas, são conhecidos publicamente alguns padres apóstatas e casados após sua apostasia, como é lógico e natural.

Está portanto constatado que, desde Judas até o ex-padre Jacinto, a raça dos ministros da Igreja traidores de seu Chefe e vendidos à heresia se sucede sem interrupção; que, ao lado e diante da tradição da verdade, há também na sociedade cristã a tradição do erro; que, em contraste com a sucessão apostólica dos ministros bons, o inferno possui uma sucessão diabólica dos ministros pervertidos, o que não deve escandalizar ninguém. Recorde-se a este propósito a sentença do Apóstolo, que não se esqueceu de prevenir-nos: É preciso que haja heresias, para que se manifeste quem são entre vós os verdadeiros fiéis.

27. Terminando a tão oportuna e decisiva citação de “La Civiltá Cattolica”

”Temos defendido, prossegue a Civiltá, contra os liberais, a nossa maneira especial de escrever, demonstrando sua perfeita conformidade com a caridade que tão constantemente nos recomendam. E visto que até aqui falávamos a liberais, ninguém se surpreenderá com o tom irônico que temos empregado com eles, e convencidos estamos de que não é excesso de crueldade opor com algumas poucas figuras retóricas os ditos e feitos do liberalismo. Mas já que tocamos hoje neste assunto, não será talvez ocioso que, mudando de estilo e repetindo agora o que já noutra ocasião escrevemos com o mesmo propósito, terminemos este artigo com algumas palavras dirigidas seriamente e com todo o respeito aos que, não sendo de modo algum liberais, mas antes firmes adversários do liberalismo, possam todavia crer que jamais é lícito, escreva-se contra quem quer que seja, sair de certas formas de respeito e caridade, às quais julguem não estarem talvez suficientemente submetidos nossos escritos.

 

“Querendo responder a esta censura, tanto pelo respeito devido a essas pessoas, como pelo interesse de nossa própria defesa. E cremos não o poder fazer melhor, do que brevemente resumindo aqui o que o Pe. Mamachi, da ordem do Pregadores, diz de si mesmo na introdução ao livro III de sua doutíssima obra, Do livre direito da Igreja de adquirir e possuir bens temporais:

 

“Alguns, diz, embora confessem estar convencidos de nossas razões, declaram-nos contudo amigavelmente que teriam preferido mais moderação nas respostas que damos a nossos adversários. Não temos combatido por nós, mas pela causa de Nosso Senhor e da Igreja, e por mais que nos ataquem com manifestas mentiras e atrozes imposturas, jamais quisemos sair em defesa de nossa própria pessoa. Se empregamos, pois, alguma expressão que possa parecer a alguém áspera ou exagerada, que não se faça a injustiça de pensar que isso provenha de nosso mau coração ou do rancor que tenhamos aos escritores que combatemos; deles não recebemos injúrias, nem sequer os conhecemos ou com eles temos relações. O zelo que devemos ter pela causa de Deus é que nos colocou na situação de gritar e levantar a nossa voz como voz de trompeta.

 

“Mas, e o decoro do homem honrado? E as leis da caridade? E as máximas e exemplos dos santos? E os preceitos dos apóstolos? E o espírito de Jesus Cristo?

 

“Calma, aos poucos chegaremos lá. É verdade que os homens pervertidos e enganados devem ser tratados com caridade, mas apenas quando haja fundada esperança de os conduzir à verdade com tal procedimento. Se não há tal esperança, e sobretudo se está provado por experiência que calar-nos e não revelar publicamente a têmpera e o caráter de quem espalha erros redunda em gravíssimo dano aos povos, seria crueldade não levantar com toda a liberdade o grito contra o propagandista, e deixar de lhe dirigir frontalmente as invectivas que bem merece.

 

“Os Santos Padres, por certo, tinham conhecimento muito claro das leis da caridade cristã. Por isso, o Doutor Angélico, Santo Tomás de Aquino, no princípio de seu célebre opúsculo Contra os impugnadores da Religião, apresenta Guilherme e seus sequazes (que com certeza não estavam ainda condenados pela Igreja) como ‘inimigos de Deus, ministros do diabo, membros do Anticristo, inimigos da salvação do gênero humano, difamadores, semeadores de blasfêmias, réprobos, perversos, ignorantes, imitadores de Faraós piores que Joviniano e Vigilâncio. Por acaso temos nós chegado a tanto?

 

“Contemporâneo de Santo Tomás foi São Boaventura, que entendeu dever increpar com a maior dureza a Geraldo, chamando-o de insolente, caluniador, louco, ímpio, asno chapado, fraudulento, envenenador, ignorante, embusteiro, malvado, insensato, pérfido. Alguma vez chamamos assim a nossos adversários?

 

“Muito justamente — prossegue o Pe. Mamachi — é chamado melífluo São Bernardo. Não nos deteremos a copiar aqui o que escreveu durissimamente contra Abelardo. Contentaremo-nos em citar o que escreve contra Arnaldo de Bréscia, pois havendo este levantado bandeira contra o clero, querendo privá-lo de seus bens, foi um dos precursores dos políticos de nossos tempos. Trata-o, pois, o santo doutor de desordenado, vagabundo, impostor, vaso de ignomínia, escorpião vomitado de Bréscia, visto com horror em Roma e abominação na Alemanha, desdenhado do Sumo Pontífice, glorificado pelo diabo, artífice de iniqüidade, devorador do povo, boca cheia de maldição, semeador de discórdias, fabricador de cismas, lobo feroz’.

 

“São Gregório Magno, repreendendo João, bispo de Constantinopla, lança-lhe à face seu ‘profano e nefando orgulho, sua soberba de Lúcifer, suas néscias palavras, sua vaidade, seu curto talento’.

 

“Do mesmo modo falaram São Fulgêncio, São Próspero, São Jerônimo, o papa São Sirício, São João Crisóstomo, Santo Ambrósio, São Gregório Nazianzeno, São Basílio, Santo Hilário, Santo Atanásio, Santo Alexandre, bispo de Alexandria, os santos mártires Cornélio e Cipriano, Atenágoras, Irineu, Policarpo, Inácio de Antioquia, Clemente, todos os Padres enfim, que nos melhores tempos da Igreja se distinguiram por sua heróica caridade.

 

“Omitirei os cautérios aplicados por alguns destes aos sofistas do seu tempo, ainda que menos delirantes do que os dos nossos, e agitados de menos ardentes paixões políticas.

 

“Citarei apenas algumas passagens de Santo Agostinho, que observou ‘que os hereges são tão mais insolentes quanto menos repreensão sofrem; e que muitos, dirigem àqueles que os repreendem os epítetos de brigões e provocadores’. E depois acrescenta: ‘que alguns extraviados devem ser tratados com uma caridosa aspereza’. Vejamos agora como colocava em prática as regras traçadas por ele mesmo. A vários chama sedutores, malvados, cegos, tontos, inchados de soberba, caluniadores; a outros, impostores de cujas bocas só saem monstruosas mentiras, perversos, maledicentes, delirantes, néscios estúpidos, furiosos, frenéticos, espíritos das trevas, rostos desavergonhados, línguas insolentes. E a Juliano lhe dizia: ‘Ou tu calunias de propósito, inventando tais coisas, ou não sabes o que dizes, acreditando em embusteiros’; e noutro lugar o chama de ‘enganador, mentiroso, de juízo insano, caluniador, néscio’.

 

“Respondam agora nossos acusadores: temos dito alguma vez coisa parecida? E não estamos muito abaixo disto?

 

“Mas basta já desse extrato, em que não pusemos palavra nossa, apesar de termos omitido algumas do Pe. Mamachi, como a indicação da fonte nas obras dos Santos Padres, com intuito de abreviar. Igualmente, não transcrevemos a parte da defesa, em que o mesmo Padre tira do Evangelho iguais exemplos de caridosa aspereza.

 

“De tais exemplos, pois, nossos amáveis censores bem podem deduzir que a sua crítica, qualquer que seja o motivo, quer se baseie em um princípio moral ou em regras de conveniência social e literária, encontra-se plenamente refutada pelo exemplo de tantos santos, dos quais alguns foram excelentes literatos, ou, pelo menos que ela fica muito desautorizada e reduzida a um valor muito incerto.

 

“E se agora, à autoridade dos exemplos quisermos reunir à das razões, muito breve e claramente as expôs o Cardeal Pallavicini, no capítulo II do livro I de sua História do Concílio de Trento. Neste capítulo, antes de começar a provar como Sarpi foi ’perverso, de notória malícia, falsário, réu de enormes traições, depreciador de toda religião, ímpio e apóstata‘, o sábio cardeal diz, entre outras coisas, que ’assim como é caridade não perdoar a vida a um malfeitor, para salvar muitos inocentes, assim é caridade não perdoar a fama de um ímpio, para salvar a honra de muitos bons‘. Toda a lei permite que, para defender um cliente de uma falsa testemunha, se mostre em juízo e se prove tudo o que pode infamar esta última, ato que, em outras circunstâncias, seria castigado com gravíssima pena. Por isso eu, que defendo neste tribunal do mundo, não um cliente particular, mas toda a Igreja Católica, seria vil prevaricador, se não estampasse no rosto das testemunhas falsas as nódoas de infâmia que anulem, ou ao menos enfrequeçam o seu testemunho.

 

“Se, pois, todos julgariam prevaricador o advogado que, podendo demonstrar que quem acusa seu cliente é um caluniador, não o fizesse por razões de caridade, por que então acusar de ter violado a caridade quem cumpriu seu dever contra os perseguidores de toda espécie de inocência? Seria desconhecer a instrução que dá São Francisco de Sales em sua Filotéia, no final do capítulo XX da 2ª parte: “Faço exceção dos inimigos declarados de Deus e de sua Igreja, os quais devem ser difamados tanto quanto possível (sem faltar com a verdade), sendo grande obra de caridade gritar: ‘o lobo!’, quando está entre o rebanho, ou visível onde quer que se encontre.”

 

 

Assim se exprime La Civiltá Cattolica (vol. I, série V, página 27), cujo artigo tem a força de sua elevada e respeitabilíssima origem; a força das razões irrefutáveis que aduz; a força, por fim, dos gloriosos testemunhos que apresenta. Parece-nos que muito menos era preciso para convencer quem não seja liberal, ou miseravelmente contaminado de liberalismo.

26. Continua a bela e contundente citação da Civiltá cattolica

O famoso artigo da Civiltá Cattolica e nossa oportuníssima citação continuam assim: 

”Se os liberais nos pedem a verdadeira caridade, a única que lhes convém e que nós, como redatores da Civiltá Cattolica, lhes podemos e devemos dar, tão longe estamos de querer negá-la que, ao contrário, julgamos tê-la prodigado bastante até agora, senão segundo todas as suas necessidades, ao menos segundo a nossa possibilidade.

 

“Os liberais cometem um intolerável abuso de palavras dizendo que nós não usamos de caridade para com eles. A caridade, una em seu princípio, é variada e multiforme em suas obras. Muitas vezes, o pai que bate fortemente em seu filho, tanto usa de caridade como o que o cobre de beijos. E ocorre freqüentemente que a caridade do pai que beija seu filho seja inferior à do pai que o castiga.

 

“Nós batemos nos liberais, não negamos, e batemos neles com muita freqüência (com palavras, é claro), mas quem poderá concluir deste fato que nós não os amamos, que não temos caridade para com eles? Isto poderia ser dito antes daqueles que, malgrado as prescrições da caridade, interpretam mal as intenções do próximo. No que nos diz respeito, tudo o que os liberais poderão dizer é que nossa caridade para com eles não é a caridade que desejam. Mas nem por isso deixa de ser caridade, sim senhor, e grande caridade; e visto que são eles que pedem caridade, e nós os que lha concedemos em vão, bem poderiam recordar aqui o velho provérbio: ’A cavalo dado não se olhe para o pelo’.

 

“A caridade que queriam de nós, seria a de os louvar, admirar, apoiar, ou de ao menos os deixar agir à vontade. Nós, ao contrário, não queremos fazer-lhes senão a caridade de gritar-lhes, repreendê-los, exortá-los por mil modos a sair do seu mau caminho. Quando dizem uma mentira, semeiam uma calúnia ou pilham os bens alheios, os liberais gostariam que lhes encobríssemos estes e outros pecados veniais com o manto da caridade. Nós, ao contrário, os apostrofamos de ladrões, embusteiros, caluniadores, exercendo assim para com eles a caridade mais excelente de todas, a de não adular nem enganar aqueles a quem queremos bem. Quando lhes escapa algum disparate gramatical, de ortografia, de linguagem, ou simplesmente de lógica, gostariam que fizéssemos vista grossa; e choram, e lamentam-se quando os advertimos em público, queixando-se de que faltamos com caridade. Nós, ao contrário, fazemos-lhe uma boa obra obrigando-os a apalpar com suas próprias mãos uma coisa que não devem ignorar, a saber: que não somente não são mestres, como pensam, mas que não passam de estudantes medíocres. Deste modo contribuímos, na medida de nossas forças, à cultura das belas artes na Itália, e ao exercício da humildade cristã no coração desses liberais que têm, como se sabe, grande necessidade dela. 

 

“Os senhores liberais gostariam sobretudo que fossem tomados sempre muito a sério, estimados, reverenciados, obsequiados, e tratados como figuras importantes. Resignar-se-iam a que os refutássemos, sim, contanto que o fizéssemos de chapéu em mão, corpo inclinado e cabeça baixa em reverente e humilde atitude. Daí vêm suas queixas, quando às vezes são caricaturados, isto é, quando se zomba deles. Deles! Os pais da pátria, os verdadeiros italianos, a própria Itália, como costumam dizer de si mesmos! Quem tem, pois, a culpa, se é tão ridícula essa pretensão que ao próprio Heráclito faria soltar uma gargalhada?

 

“Pois bem! Devemos, para o seu agrado, passar a vida reprimir todo movimento natural de riso? Deixar-nos rir quando certamente não se pode deixar de o fazer é também obra de misericórdia, que os liberais poderiam outorgar-nos de boa vontade, já que por sua parte não custa muito. Todos compreendem muito bem que, assim como fazer rir honestamente, à custa do vício e dos viciosos, é em si coisa muito boa, segundo o dito castigat ridendo mores, e aquele outro ridendo dicere verum, quid vetat?, assim, fazer rir uma e outra vez os nossos leitores, à custa dos liberais, é verdadeira obra de misericórdia e caridade para os mesmos leitores, que certamente não hão de estar sempre sérios e rigorosos, enquanto lêem o jornal. E afinal os mesmos liberais, se bem considerarem, ganham muito em que os outros riam à sua custa, porquanto deste modo todo mundo vem a conhecer que nem todos os seus feitos são tão horríveis e espantosos, como podem parecer, já que normalmente só costumam provocar o riso as deformidades inofensivas.

 

“Não nos agradecerão nunca o caráter ingênuo com que procuramos apresentar algumas de suas picardias? Como não percebem que não há meio mais eficaz para conseguir que se corrijam delas, do que a chacota e o riso daqueles que as vêem por nós expostas em sua devida luz? E como não vêem que não têm direito algum de acusar-nos, quando assim o fazemos, de não obrar com eles como manda a caridade?

 

“Se tivessem lido a vida do seu grande Victor Alfieri, escrita por ele mesmo, saberiam que, quando pequeno, sua mãe que o queria muito bem educado costumava, quando o apanhava em alguma travessura, mandar-lhe ir à missa com a gorra de dormir. E conta Alfieri que este castigo, que não era senão expô-lo um pouco ao ridículo, de tal maneira o afligiu uma vez, que por mais de três meses se portou do modo mais impecável. “Depois disto, diz ele, quando, ao primeiro sinal de travessura, ameaçavam-me com a terrível gorra de dormir, imediatamente eu entrava tremendo na linha de meus deveres. Um dia, tendo caído em certo pecadilho, disse à senhora minha mãe uma solene mentira para desculpá-lo, e por isto fui de novo sentenciado a levar em público a gorra de dormir. Chegou a hora; a gorra fora colocada em minha cabeça, eu chorava e gritava em vão. Meu aio pegou-me pela mão para sairmos e um criado me empurrava por detrás.” Porém por mais que ele chorasse, gritasse e pedisse caridade, a mãe que queria o seu bem, permaneceu inexorável. E qual foi o resultado? “Foi, continua Alfieri, que por muito tempo não me atrevi a dizer outra mentira. E quem sabe se àquela bendita gorra de dormir não devo o haver-me tornado um dos homens mais inimigos da mentira!” Nesta última frase mostra-se de passagem o fariseu, que sempre costuma ter-se por melhor que os outros homens. Nós, portanto, que devemos supor que todos os liberais têm em alta conta os elevados sentimentos do seu grande Alfieri, por que razão não esparíamos nós corrigi-los do vício vergonhoso de dizer mentiras, ou pelo menos impedir de publicá-las, enviando-os com a gorra de dormir malgrado seus gritos, esperneios e apelos à caridade... não à missa, que isso é impossível, mas a dar uma volta pela Itália, e isso nem sempre que lhes escape uma mentira, pois que seria demasiado freqüente, mas ao menos todas as vezes que imprimam um milhar delas de uma só vez?

 

“Não insistam, pois, os liberais na queixa de que não os tratamos com caridade. Digam antes, se quiserem, que a caridade que lhes damos, esta não a recebem de boa vontade. Já o sabíamos. Mas isso só prova que, por seu estragado gosto, precisam ser tratados com a sábia caridade que empregam os cirurgiões com seu doentes, ou os médicos do manicômio com seus loucos, ou as boas mães com seus filhos mentirosos.

 

“Mas ainda que fosse verdade que não tratamos com caridade os liberais, e que os tais nada disso hão de agradecer-nos, nem por isso teriam direito algum a queixar-se de nós. É sabido que nem a todo mundo é possível fazer caridade. Nossas faculdades são muito escassas: fazemos caridade segundo a medida delas, preferindo, como é nosso dever, aqueles que a mesma lei de caridade bem ordenada manda preferir.

 

“Dizemos (entenda-se bem) que fazemos aos liberais toda a caridade que podemos, e cremos tê-lo demonstrado. Mas na suposição de que não a fazemos, insistimos ainda que nem por isso devem fatigar-nos com queixas os liberais.

 

“Eis um fato semelhante que vem muito ao caso. Um assassino de punhal na mão está agarrado a um pobre inocente para cravá-lo em sua garganta. Acontece passar na ocasião alguém que leva na mão um bom taco, e dá no assassino uma forte tacada na cabeça; deixa-o inconsciente, o amarra e entrega à justiça, livrando assim, por sua boa estrela, da morte a um inocente, e de um malfeitor a sociedade.

 

“Faltou este terceiro com caridade em algum ponto? Se escutarmos o assassino, para quem naturalmente lhe dói o golpe, dirá que sim. Discorrerá talvez que, contra a chamada norma inculpatae tutelae, o golpe foi forte demais, e com menos força teria bastado. Mas, à exceção do assassino, todos louvarão o passageiro, e dirão que praticou um ato não só de valor, mas ainda de caridade, não certamente em favor do assassino, mas da vítima; e que se para salvar este, teve de abrir a cabeça do outro sem ter muito tempo para medir escrupulosamente a força do golpe, não foi certamente por falta de caridade, mas porque a urgência da situação era tal que não se podia usar de caridade para com um, sem sacudir bem o outro. Teria ele tempo para demorar-se em sutilezas sobre o mais ou o menos da inculpata tutela.

 

“Apliquemos a parábola. Publica-se, por exemplo, um folheto maledicente, calunioso e escandaloso contra a Igreja, contra o papa, contra o clero, contra qualquer coisa boa. Muitos crêem que tudo naquele folheto é pura verdade, já que seu autor é um célebre, distinto e honrado escritor, qualquer que seja. Se, para defender os caluniados e livrar os leitores do erro, alguém dá umas tantas pauladas no desavergonhado autor, terá faltado com a caridade?

 

“Não poderão agora negar os liberais, eles se encontram mais freqüentemente na situação de salteadores do que na de vítimas. Que haverá de espantoso, portanto, que levem por isto uma paulada? Que haverá de estranho se queixarem de que não são tratados com caridade? Parem de comportar-se como desordeiros e arruaceiros; acostumem-se a respeitar os bens e a honra dos outros; não contem tanta mentira; não levantem tanta calúnia; pensem um pouco antes de falar sobre qualquer coisa; tenham em maior conta as leis da lógica e da gramática; sejam sobretudo honrados, como há pouco aconselhou o barão de Ricasoli, com pouca esperança de bom êxito, apesar da autoridade e exemplos de tal conselheiro, e poderão então queixar-se com razão se não são tratados com o respeito de que, como aquele da liberdade, pretendem ser os absolutos monopolizadores.

 

“Mas já que agem tão mal como escrevem; já que andam sempre com o punhal na garganta da verdade e da inocência, assassinos de uma e da outra com seus feitos e com seus livros, tenham paciência se não podemos em nossos jornais prodigar-lhes outra caridade que aquela algo dura, que cremos, embora contra seu parecer, seja a mais proveitosa, tanto para eles como para a causa dos homens de bem.”

25. Confirmação do que ultimamente disse um ponderadíssimo artigo de La Civiltá Cattolica

Duvidamos que se encontre uma saída a este argumento, porque simplesmente não há. Mas como a questão é da mais alta importância e tem sido nestes últimos tempos objeto de uma acalorada controvérsia, sendo além disso escassa e de pouco peso a nossa autoridade para falar definitivamente sobre ela, pedimos a nossos leitores permissão de reproduzir, em favor de nossa doutrina, um voto de mais reconhecida, para não dizer incontestável e incontestada, competência.

É o da Civiltá Cattolica, o primeiro jornal religioso do mundo, senão oficial em sua redação, ao menos em sua origem, pois foi fundado por um Breve especial de Pio IX, e por ele confiado aos Padres da Companhia de Jesus. Este jornal cujos artigos, ora em forma séria, ora em sátira, não deixam sossegar os liberais italianos, viu-se várias vezes repreendido pelos mesmos liberais por falta de caridade. Para responder a essas farisaicas homilias sobre a moderação e a caridade, a Civiltá Cattolica publicou um graciosíssimo artigo, tão pleno de humor como de profunda filosofia.

Vamos reproduzi-lo aqui para consolação de nossos liberais e desengano de tantos pobres católicos contaminados de liberalismo, que fazem coro com eles, escandalizando-se a todas as horas de nossa tão anatematizada falta de moderação. O artigo se intitula: "Um pouco de caridade!", é como se segue:

”De Maistre diz que a Igreja e os papas nunca pediram para sua causa mais do que a verdade e a justiça. Ao contrário dos liberais, os quais por um respeitoso horror que naturalmente professam à verdade e sobretudo à justiça, não fazem senão pedir-nos a caridade a todas as horas.
 

“Há cerca de doze anos que, por nossa parte, estamos assistindo a este curioso espetáculo dado pelos liberais italianos, que não cessam um segundo de mendigar, com lágrimas, a nossa caridade, suplicando-nos, de braços cruzados, em prosa e em verso, em folhetos e em jornais, em cartas públicas e privadas, anônimas e pseudônimas, direta ou indiretamente, que por amor de Deus tenhamos com eles um pouco de caridade; que não mais nos permitamos fazer o próximo rir à sua custa; que não nos entretenhamos em examinar tão detalhada e minuciosamente os seus sublimes escritos; que não sejamos tão pertinazes em trazer ao público suas gloriosas façanhas; que façamos vista grossa e ouvidos surdos aos seus descuidos, solecismos, mentiras, calúnias e mistificações; que, numa palavra, os deixemos viver em paz.
 

“Pois em última análise, caridade é caridade; e que os liberais não a tenham, é natural e compreende-se bem, mas que não a usem os escritores, como os da Civiltá Cattolica, isso é outra história.
 

“Justo castigo de Deus é que os liberais, que tanto aborreceram a mendicidade pública, a ponto de a proibirem em muitos países sob pena de prisão, se vejam agora forçados a tornar-se mendicantes públicos, pedindo em nome do céu, como ardilosos reacionários... um pouco de caridade!
 

“Com esta edificante conversão ao amor da mendicância, os liberais imitaram aquela outra não menos célebre e edificante, a do rico avarento à virtude da esmola. Este, tendo assistido uma vez ao sermão e ouvido uma exortação muito fervorosa à prática da esmola, de tal modo se comoveu, que chegou a ter-se por verdadeiramente convertido. Em verdade, fora tão fortemente tocado pelo sermão, que dizia ao sair da Igreja: É impossível que esses bons cristãos que o ouviram não me dêem de vez em quando alguma coisa por caridade.

Assim os nossos sempre estupendos liberalaços, depois de haverem demonstrado (cada um segundo os seus meios), por atos e escritos, que têm à caridade o mesmo amor que o diabo tem à água benta; quando depois, ouvindo falar em caridade, voltam a si e se recordam que há no mundo algo que se chama a virtude da caridade e que esta pode em certas ocasiões ser-lhes proveitosa, mostram-se de repente furiosamente enamorados dela e vão pedi-la com gritos ao papa, aos bispos, ao clero, aos frades, aos jornalistas, a todos... até aos redatores da la Civiltá!

“E é preciso ouvir as belas razões que sabem aduzir em seu favor! Se neles crermos, teríamos de pensar que não falam por interesse próprio. Santo Deus, não! Se assim falam, é com o interesse de nossa santíssima religião, que eles têm no íntimo do coração e que por certo sairá muito prejudicada de nossa maneira tão pouco caridosa de defendê-la. Falam no interesse dos próprios reacionários e, especialmente (quem o acreditará?) em nosso próprio interesse, no interesse dos redatores da Civiltá Cattolica.
 

“Que necessidade tendes — dizem, em tom confidencial — de meter-vos nessas querelas? Não tendes já bastantes hostilidades para enfrentar? Sede tolerantes e vossos adversários o serão convosco. Que ganhais com esse triste ofício de cães ululando sempre aos ladrões? E se no final saís batidos e golpeados, a quem dareis a culpa, senão a vós mesmos e a esta indomável obstinação que tendes em procurar as pancadas?
 

“Sábia e desinteressada maneira de discorrer, cujo único defeito é o de assemelhar-se muito àquela que o comissário de polícia recomenda a Renzo Tramaglino no romance Os noivos, quando tentava levá-lo à prisão persuadindo-o, presumindo que, se usasse de força, o jovem não se deixaria conduzir. ’Creia-me, dizia Renzo, tenho prática nessas coisas. Caminha devagarinho e sempre adiante, sem ir de um lado para o outro, e sem que o notem. Assim, ninguém nos reparará, ninguém advertirá o que se passa, e conservarás portanto tua reputação.’ Mas aqui observa Manzoni1 que Renzo não acreditava em nenhuma de suas belas razões. Não podia acreditar que o comissário o estimasse, que se interessasse por sua honra e reputação, ou tivesse verdadeira intenção de favorecê-lo. De sorte que tais exortações só serviram para confirmá-lo no desígnio já pré-concebido de portar-se inteiramente ao contrário do que lhe foi aconselhado.”
 

“Este desígnio, falando com franqueza, nós também estamos muito tentados a formá-lo; porque não podemos persuadir-nos de que os liberais se importem pouco ou muito com o dano que possamos causar à religião, ou que se preocupem com o que possa nos convir. Cremos, ao contrário, que se os liberais julgassem verdadeiramente que o nosso modo de agir prejudicava à religião ou pelo menos a nós mesmos, não somente se guardariam de nos advertir, porém ainda nos incentivariam com aplausos.
 

“Consideremos que mostrarem-se zelosos conosco, rogar-nos que modifiquemos o nosso estilo, são sinais claros de que a religião nada perde com isso, e que os nossos escritos têm alguns leitores, o que para um escritor não deixa de ser sempre uma consolação.
 

“No que diz respeito a nossos interesses e ao princípio utilitário, visto que os liberais têm sido com justa razão considerados sempre como mestres neste ponto, e têm fama de haver aplicado sempre este princípio muito mais em proveito próprio do que em nosso favor, é preciso que nos permitam crer, como temos crido até hoje, que em toda controvérsia sobre nosso modo de escrever contra eles, não somos nós os que saem mais prejudicados, nem tampouco é a religião.
 

“Por conseguinte, havendo manifestado esta nossa pobre opinião, e supondo que as razões que poderíamos chamar intrínsecas e independentes do princípio utilitário, que alegam os liberais em favor próprio e contra nosso modo de escrever, têm sido já muitas vezes refutadas nas séries passadas da Civiltá Cattolica, só nos restaria aqui despedir com bons modos esses mendigos de nova espécie, aconselhando-os que cumpram daqui em diante o seu ofício de advogados em causa própria, melhor do que faziam com Renzo aqueles esbirros do século XVII.
 

“Mas, porque muitos entre eles continuam a mendigar, e recentemente publicaram em Perusa um opúsculo intitulado: Que é o partido chamado católico?, que consagraram inteiramente a mendigar à Civiltá Cattolica um pouco de caridade, não será inútil repetir mais uma vez, no princípio desta quinta série, as mesmas antigas respostas contra as mesmas antigas objeções. E será isto também grande caridade, não certamente aquela que os liberais imploram de nós, mas outra bastante meritória: a caridade de escutá-los com paciência pela centésima vez.
 

Do resto, o tom humilde e queixoso com que, desde algum tempo, eles andam nos pedindo um pouco de caridade, não merece menos.”

  1. 1. Autor italiano do romance em questão (1785-1873).

24. Resposta a uma objeção, à primeira vista grave, contra a doutrina dos dois capítulos precedentes

Uma dificuldade, à primeira vista gravíssima, podem os nossos adversários opor à doutrina estabelecida nos capítulos anteriores. Convém-nos, antes de avançar, deixar nosso caminho livre e desembaraçado de escrúpulos ou outros obstáculos dessa natureza.

O papa, dizem, e é certo, tem recomendado várias vezes aos jornalistas católicos a temperança, a moderação, o respeito e a caridade nas formas de polêmica. Quer que se evitem as maneiras agressivas, os epítetos depreciativos e as invectivas injuriosas. Ora, dirão agora, a doutrina que acabais de expor é diametralmente oposta às recomendações pontifícias.

Com ajuda de Deus, vamos demonstrar que não há contradição entre nossas indicações e os sábios conselhos do papa. E não nos custará, por felicidade, dar a prova evidente.

Com efeito, a quem se dirigiu o Santo Padre nas suas reiteradas exortações? Sempre à imprensa católica, sempre aos jornalistas católicos, supondo-os que o são. Por conseguinte, é evidente que, ao dar esses conselhos de moderação e temperança, o Santo Padre dirigiu-se a católicos que tratavam de questões livres com outros católicos, e não a católicos que travavam contra anti-católicos declarados o feroz combate da fé.

É evidente que não aludiu às incessantes batalhas entre católicos e liberais; porque diante do fato de que o catolicismo é a verdade e o liberalismo a heresia, as batalhas travadas entre seus representantes devem considerar-se, em boa lógica, como batalhas entre católicos e hereges.

É claríssimo que o papa quis que se aplicassem os seus conselhos só em relação com nossas dissidências de família, infelizmente muito comuns, e não pretendeu que com os inimigos da Igreja e da fé lutássemos com espadas sem fio e sem ponta, usadas só em justas e torneios.

Por conseguinte, não há oposição entre a doutrina por nós exposta e a contida nos Breves e Alocuções de Sua Santidade, porque a oposição, em boa lógica, deve ser ejusdem, de eodem et secundum idem, o que não ocorre aqui. E como poderia a palavra do papa interpretar-se corretamente de outra maneira? É uma regra de sã exegese que um texto da Sagrada Escritura deve ser interpretado em sentido literal, quando este sentido não se opõe ao contexto; e só deve recorrer-se ao sentido livre ou figurado quando esta oposição se apresenta. Igualmente, podemos seguir a mesma regra ao tratar da interpretação dos documentos pontifícios.

Poderá supor-se o papa em contradição com toda a tradição católica, desde Jesus Cristo até os nossos dias?

Poderão crer-se condenados por um risco de pena o estilo e a maneira dos mais célebres apologetas e polemistas da Igreja, desde São Paulo até São Francisco de Sales?

É evidente que não. E é evidente que assim seria, se tais conselhos de moderação e temperança devessem ser entendidos no sentido em que (para conveniência de sua causa) os interpreta o critério liberal. Por conseguinte, a única conclusão admissível é que os conselhos do papa, que todo bom católico deve considerar como ordens, não se referiu às polêmicas entre católicos e inimigos do catolicismo, como são os liberais, mas às dos bons católicos, entre si, em suas dissidências e diferenças.

Não, não pode ser de outra maneira, o próprio senso comum o diz. Nunca em batalha alguma o capitão proibiu seus soldados de ferirem gravemente o adversário; nunca lhes recomendou brandura para com eles; nunca afagos nem atenções. Guerra é guerra, e nunca foi feita de outra maneira senão causando danos. É suspeito de traidor quem, no fragor do combate, anda gritando entre as filas dos combatentes: "Cuidado para não incomodar o inimigo! não lhe ataque no coração!".

Que mais dizer? O próprio Papa Pio IX nos deu a interpretação autêntica de suas santas palavras, e mostrou de que maneira seus conselhos de temperança e moderação devem aplicar-se. Aos sectários da Comuna, numa ocasião memorável, chamou demônios, e aos sectários do catolicismo-liberal 1 chamou piores do que aqueles demônios. Esta frase correu o mundo, e saída dos lábios mansíssimos do papa, permanece gravada na testa do liberalismo como estigma de eterna execração. Quem depois dela temerá exceder-se na dureza dos qualificativos?

As próprias palavras da Encíclica Cum multa, de que tanto abusou contra os mais firmes católicos a impiedade liberal, são as mesmas palavras com que nosso Santíssimo Padre Leão XIII recomenda aos escritores católicos que “evitem o tom de violência na defesa dos direitos sagrados da Igreja e recorram de preferência às armas mais dignas da moderação, de sorte que o peso das razões mais que a aspereza e violência do estilo, deem a vitória ao escritor.” É evidente que o Santo Padre não fala aqui senão de polêmicas entre católicos e católicos sobre o melhor modo de servir a sua causa comum, e não das polêmicas entre católicos e inimigos declarados do catolicismo, tais como os sectários formais e conscientes do liberalismo.

A prova está à vista de qualquer um, basta olhar o contexto da admirável encíclica citada.

O papa a termina exortando para que se mantenham unidas as associações e os indivíduos católicos. E depois de ponderar as vantagens desta união, assinala como meio principal de conservá-la, essa moderação e temperança no estilo, que acabamos de indicar.

Daqui deduzimos um argumento que não tem contestação.

O papa recomenda a suavidade do estilo aos escritores católicos, para que esta os ajude a conservar a paz e a mútua união. Esta paz e mútua união, o papa não pode, evidentemente, querê-la senão entre católicos e católicos, e não entre católicos e inimigos do catolicismo. Logo, a suavidade e moderação que o papa recomenda aos escritores só se referem às polêmicas dos católicos entre si, e nunca às que existem entre católicos e sectários do erro liberal.

Ainda mais claro: O papa ordena esta moderação e temperança como meio de alcançar como fim a união. Este meio deve, por conseguinte, caracterizar-se por este fim a que está ordenado. Ora, este fim é puramente a união entre católicos, e nunca (quia absurdum) entre católicos e inimigos do catolicismo. Logo, aquela moderação não pode entender-se aplicada a outra esfera.

  1. 1. Em 18 de junho de 1871, à deputação francesa que foi a Roma festejar o 25º aniversário de seu pontificado, Pio IX declarava: “Meus queridos filhos, é preciso que minhas palavras vos digam bem aquilo que trago no coração. O que aflige vosso país e o impede de merecer as bênçãos de Deus, é a mescla de princípios. Direi a palavra, e não a calarei: o que temo, não são todos esses miseráveis da Comuna de Paris, verdadeiros demônios do inferno que passeiam pela terra. Não, não é isso; o que temo, é esta infeliz política, esse liberalismo católico que é o verdadeiro flagelo. Disse-o mais de quarenta vezes; e vos repito, por causa do amor que vos tenho. Sim, é este jogo... Como se diz em francês? Em italiano chamamo-lo altalena... Sim, justamente, esse jogo de básculo que destruiria a religião. É preciso sem dúvida praticar a caridade, fazer o possível para reunir os que estão dispersos: mas para isso não é necessário compartilhar de suas opiniões.”
AdaptiveThemes