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Gustavo Corção (173)

O

OBSESSÃO
"Qual é a natureza da obsessão? Quanto ao objeto, ela consiste em afirmar "que existe uma coisa e só uma a temer". Quanto ao sujeito, consiste em supor que todas as virtudes devem ser concentradas na direção daquele perigo único. Ora, tanto uma idéia como outra é contrária à noção de vigilância que a Igreja não se cansa de nos inculcar. O vigilante é o homem que, de certo modo, não sabe de onde virá o perigo. Não sabe a hora e o dia. Ou melhor, sabe que ele poderá vir a cada instante (o perigo e a salvação) e de cada direção. O obsedado, ao contrário, é o homem que se gaba de saber precisamente a hora e o azimute do perigo. Ora, essa é a mentalidade do homem técnico, do tático, e não do homem que consulta a prudência propriamente moral. Nas guerras nós sabemos, com certa nitidez, de que lado está o adversário; na vida a Igreja nos ensina que ele está em torno de nós, "ao redor de nós, a rugir como um leão". E não à frente; e não à direita; e não à esquerda.
 
"Ainda mais, convém notar que o mesmo indivíduo pode ser vítima de muitas obsessões. Melhor do que acima dissemos, a obsessão consiste, não tanto na idéia de um objeto único, detestável ou apetecível, mas na idéia da decomposição em partes do domínio moral. O mesmo sujeito pode sofrer a obsessão do pecado contra a castidade e do comunismo. Pode ter mil obsessões sem que o número, por mais elevado que seja, restaure a fundamental unidade do ato moral radicada na razão. Basta uma zona obscura para estar completamente perdida a integridade moral.
 
"A obsessão é uma paixão desgovernada, tornada má por falta da inteireza, e, pelo medo ou pela concupiscência, conduzirá o indivíduo, por caminhos tortuosos, levando-o infalivelmente a perder o que busca alcançar e a abraçar com o espectro que o apavora. [...]
 
"Revista-se embora de aspectos virtuosos, nunca é virtude; seja um mal o que evita, acaba por atraí-lo; seja um bem que procura, só consegue perdê-lo."
(Editorial não Assinado de A Ordem, Março de 1947)
 
OBEDIÊNCIA
"Sim, o Crime da Obediência. Será preciso lembrar que a virtude da obediência é a que exige o mais fino e intransigente dos discernimentos?"
("Remember", artigo sobre o Nazismo, in Patriotismo e Nacionalismo)
 
"(...) diante de uma hierarquia tornada quase invisível, aqueles que mais amam obedecer, são levados por um indizível sentimento de orfandade, e se embaraçam numa invencível dificuldade de obedecer..."
(Editorial de Permanência, no. 52)
 
"Quando Santa Tereza (para obedecer ao confessor) fazia caretas à visão que lhe aparecia, ouviu do Senhor Jesus: "filha, agrada-me a tua obediência".  Mas quando porém se trata da salvação das almas, como silenciar sem desobedecer? Para fingir que obedecemos, desobedeceremos àquele que nos deixou dito: "... sereis minhas testemunhas..." (At 1,8)"
(Editorial de Permanência, no. 52)
 
"E não se diga que o clero e o laicato "progressista" quebraram a disciplina. É pouco. Diga-se que quebraram uma coisa mais profunda e mais preciosa. De um jovem que acha indispensável esbofetear a mãe para afirmar sua maioridade não diríamos que quebra a disciplina. Antes diremos que quis quebrar tudo, céus e terra, e só feriu a autoridade próxima por não ter à mão a Face de um Deus que se encarnou para ser esbofeteado, cuspido e depois crucificado.
 
"Salta aos olhos do mais desatento habitante do século que o espetáculo da morte da autoridade é sinal do desejo da morte de Deus. Andam por aí os padres que não obedecem aos bispos, os bispos que não obedecem ao Papa, e enchem o mundo os filhos que não obedecem aos pais.
 
"Mas não haveria crise de autoridade se o fenômeno se limitasse à desobediência ou se a falha estivesse só do lado dos revoltosos. Não haveria a calamidade de dimensões planetárias sem a outra metade do problema, isto é, sem a omissão dos que deviam exercer e não exercem a autoridade, não apenas por fraqueza ou covardia, mas por uma espécie de simpatia e conivência, ou por uma espécie de descrença profunda."
(A Crise de Autoridade e o Democratismo, Permanência, junho de 1969)
 
OFÍCIOS
"Sempre que medito na variedade dos ofícios humanos sinto uma espécie de vertigem, como se essa multiplicidade separasse e dividisse a espécie humana em miríades de subespécies; e preciso agarrar-me à metafísica para lembrar que essa pluralidade espantosa de habilidades prova a unidade do gênero humano no nível da racionalidade. Somente poderia dominar os seres corpóreos com tal universalidade um ser, embora corpóreo, animado por uma substância ontologicamente superior à substâncias materiais. É a espiritualidade da nossa alma que nos proporciona essa espantosa multiplicidade de ofícios. Mas essa mesma capacidade que glorifica o homem tem seu lado de miséria, porque cada ofício é uma gaiola onde o homem canta sua humanidade à custa da prisão que lhe assegura o alpiste de cada dia, como dizia o Bilac de minha infância."
("A Profissão dos outros e a minha", in Conversa em Sol Menor)
 
"Dias há em que a gente fica triste com o ofício que tem. Imagino como não deve ser enervante para as cozinheiras, nesses dias, a atmosfera das frituras e a companhia das caçarolas; como não deve ser monótono para o ferreiro o gemido das bigornas; como não deve ser triste, muito triste, o vai-e-vem da agulha na mão picada da velha costureira. Cada ofício é uma prisão. Se a gente tem o espírito largo dos santos, a prisão vira clausura de amor e torna-se recanto de paz; mas onde falta a largueza de coração, o ofício é ofício, e a prisão é prisão: as coisas ficam sendo o que são pelo bagaço. E o cárcere do ofício é duro, asfixiante, enervante."
("Não matar", A Ordem, Novembro de 1953)
 
OTIMISMO
"De início quero registrar a chocante impropriedade dessa mistura de confiança em Deus com otimismo. O termo otimismo não tem lugar, a não ser em serviços muito subalternos, no léxico cristão. É em nome da divina Esperança que repilo o otimismo, e que não posso ser otimista diante do tal Homem Moderno. Esse termo foi inventado e posto em circulação para designar uma espécie de bobagem muito humana, humana demais, e não para substituir os termos com que há dois mil anos sabemos exprimir nossa confiança em Deus. "
(O GLOBO 11 de abril de 1974)
 
"Não se trata porém de pessimismo como me escreve um leitor querendo colocar minha posição em termos de pessimismo ou otimismo. Em primeiro lugar, chamo a atenção do leitor para uma esquisita contradição que esses termos produzem na mente dos que os escrevem: o escritor que passou sua vida tomando posições, combatendo sem tréguas poderá parecer realmente pessimista, no sentido vulgar do termo, pelo simples fato de estar quase sempre em defesa de uma causa e contra os adversários. Serão então otimistas, positivos, construtivos aqueles que tudo aceitaram, tudo engoliram e só produzem atos reticentes?
 
"Neste caso prefiro ser pessimista e desde logo digo que, no caso atual da crise da Igreja, não tenho a menor esperança humana. Só espero em Deus."
(Apelos e súplicas sem resposta, O Globo, 10/6/78)
 
OS DESESPERADOS
"Morto o Papa Pio X reorganizaram-se os inimigos da Igreja; e terminada a Guerra Mundial I com a vitória de ninguém, surgiu no mundo um frenesi de viver que era uma réplica nervosa ao frenesi de matar. E começa nosso pobre bravo século de tantas invenções e de conquista da lua (!!!) a percorrer suas derrisórias oscilações entre tempos de depressão e tempos de exaltação. Século ciclotímico. Já em 30 cansa-se o planeta de seu frenesi de viver e entra em crise de depressão que atinge os alicerces econômicos. Logo depois surge nova forma de exaltação. Com nostalgia da guerra, da camaradagem viril, da comunhão do perigo, surgem os "ativistas desesperados" de Malraux que em lugar de sentido da vida, e de doutrinas de verdade só procuram combates, sim, combates que por si mesmos bastem para provar e sentir a coragem como um engajamento sem retorno, ou para satisfazer aquele anseio de fraternidade viril, ou combate puro onde não se quer mais do que desforrar-se da obscuridade da vida... Ativistas desesperados, Malraux, Drieu La Rochelle, Brasillach. Exaltação, procura de heroísmo. Ou procura desesperada de uma exaltação de ventura. "Une grande action quelconque...", "... un mot: bonheur!".
[...]
E com a infiltração do marxismo nos meios católicos franceses, nas revistas Sept, Esprit, Témoignages Chrétiens, Études etc., a heresia do século cresce, incha, torna-se gigantesca, planetária. Agora não é a Razão que se ergue contra a fé, não é a Ciência que julga a Igreja, agora o que reclamam da velha Madre ineficiente é a sua incapacidade de fazer um mundo feliz. Já não é o valor-verdade, para afirmar ou para negar, o que mais se discute, o que mais importa é o valor-vital, é a felicidade, o bem-estar, o paraíso, já, aqui, agora, exigido pelos tempos modernos, imperiosamente reclamado pelos impacientes credores de Deus! Transforme-se a Igreja em eficiente instituição filantrópica, ou em divertido clube de jovens, casem-se ou não se casem os padres, exista ou não exista outro mundo: o que importa soberanamente é comer, beber e coroarmo-nos de rosas, porque amanhã morreremos. Os credores de Deus protestam as sagradas escrituras e penhoram a Casa de Deus. Faliu a Igreja dos santos, a Igreja que prometia uma festa no céu como nas histórias de crianças: cabe agora ao homem libertado de tais alienações a edificação de um novo mundo... E aqui temos o traço principal de todo esse movimento de apostasias que, por eufemismo, chamam de progressismo; é a heresia do século, ou melhor, o somatório, o compêndio, a concentração de todas as heresias do século — com uma orientação dominante: contra a Esperança. Sabemos, pelas especulações teológicas dos melhores doutores, que no ato de dar as costas a Deus e de converter-se às criaturas, a primeira virtude mais diretamente afligida é a da Esperança.
 
"Todo este vendaval de insânias, toda esta tormenta de blasfêmias, de sacrilégio, de profanações que temos diante de nossos olhos — e para os quais contribuímos com a tristeza de nossos pecados, mesmo quando combatemos com argumentos de boa doutrina — todo esse emaranhado de malícia e de estupidez dos católicos que se deixam enlear pelos mais brutais inimigos de todas as transcendências de nossa sorte não é mais do que isto: um imenso e ensurdecedor gemido de desesperança.
"Os imbecis, que se guiam pelo ruído que as palavras fazem, dizem que os progressistas têm confiança no homem e no mundo; dizem que os progressistas são otimistas.
 
Não duvidamos que o sejam; mas sabemos que não há nada mais lúgubre do que o otimismo dos desesperados." 
(Editorial, Permanência no. 27, Dez de 1970)
 
"E ousando imitar o tom do grande papa santo, ouso eu dizer-vos, "aos amigos católicos": bem sabeis qual é a grave e profunda causa desse desespero em que se debate essa geração. Para cúmulo de seus males perderam a estrela que sempre, de algum modo tinham como guia e como última esperança. Onde está ela? Onde a Casa de Ouro que anunciava um Reino que não é deste mundo? Onde a luz sobrenatural? Onde a tradição que de boca para ouvido, pelos séculos e séculos, contava uma história de milagres que acabava na madrugada de um Deus ressuscitado?"
(Um texto singular, O Globo, 3/9/77)
 

N

 
NIETZSCHE
"Nietzsche foi o poeta épico dos pequenos-burgueses, o bardo dos subchefes de seção, ou, então, o profeta que anunciou o advento tumultuoso de três bilhões de deuses..."
(A Descoberta do Outro, pág. 76)
 
NOVOS TERMOS: "LARGUEZA DE ESPÍRITO" E "DIALOGAR"
"O que é isso? A julgar pelos lugares onde já encontrei essa expressão, receio tratar-se de uma disposição para cuja conquista não me sinto atraído. Serei reprovado no vestibular de "largueza de espírito", se por tal coisa se entende a facilidade de "dejeuner chaque jour un crapaud", como dizia Cyrano de Bergerac, ou de comer lagartixas, como hoje diz Nelson Rodrigues. Não, não serei reprovado porque não chegarei sequer a me matricular em tal maratona.
 
"Também não sei o que quer dizer "dialogar", mas pelo que suspeito desde já advirto à leitora desconhecida que não lhe fica bem dizer que "dialogar" não faz mal a ninguém. Na Faculdade Nacional de Filosofia, no início da década de 60, quando o termo explodiu, "dialogar" engravidou várias alunas. Na PUC o mesmo verbo transformou mocinhas egressas do Colégio Sion ou do Sacré Coeur em terroristas, amantes de terroristas e assassinas."
(Resposta a uma leitora. O Globo, 12/9/70)
 
NOSSO DEVER
"Mais do que nunca na história é imperiosa a mobilização de todas as devoções. Temos o direito de reclamar, de acusar, de denunciar, e até de pedir o castigo dos soberbos. Mas todos esses incontestáveis direitos são fracos recursos diante de um dever que pode nos esmagar mas do qual não podemos fugir: o dever de tomar os lugares vazios, as vagas, e o dever de preencher com atos de submissão e de adoração os enormes buracos deixados pelos trânsfugas. Precisamos multiplicar por cem ou por mil as orações de súplica e de adoração, precisamos importunar nosso Pai do Céu com a repetição de nossos atos de Fé, com nossa fidelidade, com nossa incondicional permanência."
(Editorial da revista Permanência, no. 30)

M

MACHADO DE ASSIS
"... sua obra foi um milagre. Dentro de um ambiente de verborréia que ofendia a palavra e traía de modo elementar o espírito de nossa língua, Machado soube guardar-se e, compreendendo que o português é avesso às rotundidades, escreveu como seus antigos, curto de fôlego e enxuto de formas. Foi verdadeiro no instrumento e verdadeiro na obra."
(A Descoberta do Outro, pág. 130)
 
"Tempos atrás, para escândalo de um crítico musical, ousei um paralelo entre Machado e Mozart. E torno a perpetrá-lo, pois não sei de outros, nas línguas ou na música, que saiba entrar com tamanha graça e tão notável desenvoltura. Dêem-nos dois ou três acordes, duas ou três frases, e logo identificamos a inigualável figura de um desses autores."
("Na mesma língua em que chorou Camões", in O Desconcerto do Mundo)
 
"Os autores das modernas filosofias existencialistas optaram pelo absurdo. O que vale dizer que não optaram, e que ficaram detidos, imobilizados, sem ímpeto para atravessar o espelho e entrar no mundo das maravilhas. Dessa paralisação da inteligência resulta um pessimismo real, profundo, desconsolado e degradante, que não era, de modo algum, o pessimismo de Machado de Assis. (...)
 
"Até seus últimos dias, na desolação da velhice e da viuvez, Machado de Assis conserva intacto o senso moral. Se nos romances parece ter atingido um cansaço da vida e um desconsolo supremo, aí está sua correspondência Para nos mostrar o outro lado do homem que persiste em crer no homem e na realidade moral. E a explicação desse dualismo está no Eclesiastes, ou melhor, naquilo que falta no Eclesiastes, que é por assim dizer um livro onde o principal é justamente o que falta: a notícia de nossa transcendência e de nossa ressurreição." 
("Na mesma língua em que chorou Camões", in O Desconcerto do Mundo)
 
MARCEL LEFEBVRE
"De início eu diria ao meu escandalizado leitor que é fácil julgar-se mais católico, mais virtuoso do que Dom Lefebvre, mas que não é tão fácil sê-lo efetivamente.
  
"A Europa inteira está emocionada e aturdida diante da suspensão do venerável ancião que se achou colocado na situação prevista na famosa carta que os cardeais Ottaviani e Bacci dirigiram ao Sumo Pontífice em 1969: «...a promulgação do Novo Ordo coloca o fiel católico diante de uma trágica opção».
  
"Coube à grande alma católica do Bispo fundador de seminários católicos o encargo de condensar em sua obra, em seu coração, o sofrimento de todos os sacerdotes e leigos do mundo que sofrem o mesmo dilaceramento."
("Dom M. Lefebvre fala", Revista Permanência n° 140-141, Julho-Agosto 1980)
 
"Tantos são os sinais mais ou menos graves da ruptura da tradição, que sem hesitação podemos dizer ― com o que aprendemos no regaço da Igreja onde queremos viver e morrer ― que o rumoroso caso de Dom Lefebvre ultrapassa de muito a dimensão de uma questão disciplinar: o que esta em jogo é o valor que damos ao Sangue de nosso Salvador."
("A Necessidade de Explicar tudo", O Globo 2/9/76)
 
"Estas singelas considerações talvez ajudem os católicos que sinceramente amam a Igreja a compreender que não há nenhuma desobediência nas missas rezadas por Dom Lefebvre: ele obedece ao Espírito de sua Igreja; os padres extravagantes citados pelo Pe. Auvray obedecem materialmente ao espírito que inspirou os falsos princípios.
   
"Entre esses dois exemplos há a maioria dos vacilantes, dos tímidos, dos mornos, que obedecem materialmente a papéis marcados com o sinete do Vaticano, e ficam com a consciência em paz enquanto a Religião de Cristo sofre perseguição e as almas se perdem."
("Onde irá parar a Missa?", O Globo 9/9/76)
 
MATEMÁTICOS
"Os matemáticos são os joalheiros do senso comum, mas às vezes entusiasmam-se pensando que o ouro foi também feito por eles."
(Descoberta do Outro, pág. 77)
 
MILITÂNCIA CATÓLICA
"Um dia de aniversário festivo Manuel Bandeira e outro conhecido acadêmico cordialmente me saudaram e me disseram que a Academia reclamava a minha presença. Volto ao mesmo sábado de poesia e de loucura para responder ao convite amável: "Não sei, Manuel Bandeira, se alguma vez, nas vezes das Marias, das Terezas, você encontrou quem lhe dissesse estar comprometido. Digo-lhe hoje eu. Chego a ter, Deus me perdoe, inveja de sua graciosa liberdade, inveja de não poder desatar o prisioneiro que trago. Sou hoje militante. Engajado. Comprometido. Com sete deveres de estado e um noivado no Céu. Ousarei confessar-lhe, ó poeta, que ainda não morreu o poeta-menos-do-que-menor que não fui? Muitas vezes vou visitá-lo às escondidas, como um Nicodemus, e de nossas confabulações trago o pouco que põe a vida e calor nas obras de meus compromissos, dos sete deveres de estado."
 
"(...) não recebi o dom de bem discorrer sobre rosas e rubis para servir as academias. Não posso pois reclamar omissão alguma no país dos homens de letras; mas posso pedir ao leitor a compreensão, a paciência de reconhecer que eu devo continuar a escrever contra os discursos do Congresso Eucarístico de Manaus, os pronunciamentos da CNBB e outros tediosíssimos assuntos. No fim de todo este delírio, conservo a convicção da inutilidade de meu serviço, mas sobeja a certeza de que, feitas todas as contas, Deus quer o meu testemunho.
"E ai de mim se o não der."
(Sereis minhas testemunhas, O Globo, 27/09/75)
 
MISSA
"(...) há hoje todo um esforço de covardia e traição universal para conjurar o insuportável espetáculo da Cruz. E então, para fugir à visão daquele divino pára-raios da cólera divina, para tirar os olhos do sangue, inventaram o recurso de fazer a missa derivar mais da ceia do que da Cruz, e com esse estratagema malicioso e parvo, fizeram da Santa Missa um espetáculo de feira, aonde a assembléia dos fiéis é aquele “respeitável público” dos palhaços de circo".
(O GLOBO 7/4/77 )
 
"Quando nós vamos à Missa não vamos para constituí-la, para fazê-la o que ela é por nossa reunião. Vamos à Missa para usar a oportunidade maravilhosa e misteriosa que Deus nos oferece de estarmos misticamente, mas realmente, ao pé da Cruz, naquele dia e naquela hora da Salvação.
 
"E assim, qualquer católico alfabetizado, e ainda não imbecilizado pela onda de novidades, compreenderá que definir a Missa pela assembléia dos fiéis é sacrílego, herético e estúpido. Dir-se-ia que somos nós, assembléia de fiéis, que fazemos ao Cristo o favor de rememorar seus feitos, e não que é o Cristo que nos faz o infinito e incompreensível favor de nos oferecer uma oportunidade de colhermos os frutos da árvore da salvação, e uma possibilidade de participarmos de sua obra."
(De Roma a Olinda, O Globo 28/7/77)
 
"Sem nenhum prurido latinista eu me pergunto se terá sido boa a substituição da língua universal pelas diversas línguas nacionais. A meu ver há boa dose de exagero nos meios em que tenho visto adotarem a renovação com entusiasmo. A Igreja tem que ir ao povo mas não num estilo que se aproxima da demagogia. Creio que se enganam os que julgam que o povo gosta dos sermões em que o padre diz que está batendo um papo com os fiéis. Estou convencido que se enganam os que julgam que o povo se encontra mais bem representado pela mediocridade, pela chulice, do que pela nobreza do estilo, pela elevação do tom e até pela pompa dos paramentos. Essas coisas, ao contrário do que pensam os que vivem falando na pobreza, constituem a riqueza do pobre. O pobre tem na Igreja o lugar em que alguém lhe fala com elevação e esmero; tem na Igreja a casa das alfaias ricas; tem na Igreja seu luxo, seu requinte, seu apuro. Em todos os outros lugares do mundo, o pobre encontra a pobreza. Em casa, tem a pobreza da necessidade; nos lugares de trabalho tem a pobreza funcional, técnica. Só na Igreja o pobre continua a encontrar o ouro, o incenso e a mirra"
(Reformas Litúrgicas, O Globo, 18/3/65)
 
"É preciso dizer por cima dos telhados, aos gritos, com cólera ou com dor, que nós não precisamos dos conselhos e da colaboração dos protestantes para decidir a feição de nosso culto de adoração, isto é, para observar e apartear o que temos de mais íntimo na vida da Igreja. Esta falsa modéstia, esta falsa humildade, este falso ecumenismo é que clamam aos céus e a nós nos ferem em nossa honra e no nosso amor."
(Editorial Permanência, n°56, Ano VI, Junho de 1973.)
 
MORTE
"Curioso é esse contraste: a morte é o que há de mais certo, a ponto de servir no modelo clássico de silogismo; e é por outro lado a idéia que mais nos custa admitir, e tanto mais custa quanto mais perto nos toca. É uma certeza que anda ao contrário das outras."
(Lições de Abismo, 15a. edição, Agir, pág. 35).
 
"E a morte? Onde ficou a morte em todo esse filosofar? Que relação existe entre o mistério da pessoa e os trinta ou quarenta dias que me são adjudicados?
 
"A relação existe. Deixamos para trás a certeza da morte, que é luminosa na visão essencial, e que evolui em proporção inversa da evidência, transformando-se em surpresa, em estranheza, em repugnância, em estupor, à medida que emerge a realidade da pessoa. Concluímos pois que há na pessoa, no mistério da pessoa, uma força que empurra a morte para trás, que recusa a morte, que denuncia a morte como um espantalho de contradição.
 
"Estarei descobrindo que a alma é imortal?"
(Trecho em que o personagem José Maria descobre a imortalidade da alma. Ibid, pág. 48).
 
MOVIMENTOS CATÓLICOS
"Algum dos modernos, creio que no tempo dos padres-operários, já observou que sempre que surge ardoroso movimento de evangelização, a Igreja o entrava e o bloqueia. E faz bem, porque na maioria dos casos o ardor de novas iniciativas mais se nutre de amor-próprio inquieto e ávido de sucesso do que se inspira de pura e casta caridade. A grande calamidade que aflige a Igreja de nosso tempo tem origem, ou fator dominante, numa inversão de atitude que levou a Igreja, aí pela década dos 40 e dos 50, a ver as efervescências sem a antiga e sábia reserva."
(O Século do Nada, 2a. edição, Record, pág. 173)

L

LEÓN BLOY

"O que admiramos em Bloy é a estrutura gótica de sua alma, o ardor incondicional de sua fé, e, de certo modo, o motivo mesmo que o leva ao univocismo na compreensão do fenômeno histórico. O que nele admiramos, a par da grandeza de escritor que nem sempre tinha razão contra Rafael, Bossuet, ou contra seu diletíssimo amigo Roualt, é a perfeita fidelidade à Dama Pobreza, que fez dele um genuíno descendente de S. Francisco de Assis."
("Respondendo a uma Provocação", A Ordem, Dezembro de 1947)
 
"Léon Bloy testemunhou, e nos fez sentir como ninguém, a invisível presença dos eleitos, o acotovelar dos anjos, o hálito dos vivos e dos mortos. Muitas noites passava a chorar com as almas do purgatório; e muitos dias passava a esperar as notícias distantes dos invisíveis próximos. Sentia a comunhão dos santos como a aranha sente a teia, como o pássaro sente a brisa, como o ouvido de mãe mal adormecida sente os mil rumores de uma casa cheia de filhos, que se agitam, que ressonam, que estremecem... Sentia os passos dos santos como se o chão da eternidade fosse a pele de um tambor.
 
"A Igreja de Deus é verdadeiramente um corpo, aquecido por um sangue e animado por um espírito: as partes se comunicam, se encontram, e muitas vezes se chocam. O Universo não é tão grande como o pintam os astrônomos: é antes uma nave de catedral onde o humilde cochilo de um penitente ressoa em cada nicho e interessa cada alma." 
("Léon Bloy", in Dez Anos) 
 
LIVROS
"Ora, o que eu quero dizer (...) é que existem obras, em arte e filosofia, desprovidas desse interesse profundo e vital, obras que não tratam do homem, que não lhe concernem, e que, nem ao menos para o destruir, procuram atingi-lo. E é nesse ponto, nessa falta de contato, a meu ver, que se localiza a mediocridade. Não são as blasfêmias — nessa ordem de idéias — que excluem a obra de Nietzsche do campo onde os homens se golpeiam ou se abraçam (...) O que imprime à sua obra um sinal de irremediável ridículo são os atentados ao homem em nome do super-homem. O ateísmo dos marxistas não é também, nesse ponto de vista, a mancha mais repulsiva dos seus tratados, mas o atentado contra o homem em nome do sub-homem. Ambos são ridículos porque, sendo o mundo redondo, o super e o sub se tornam relativos e muitas vezes se confundem."
(O Falso e o Genuíno, in Três Alqueires e uma Vaca)
 
LOUCURA
"Há uma divina loucura, que vem do alto, que libera, que eleva o homem acima dos níveis em que estão instaladas as coisas rotineiras, as verdades superficiais e elementares, uma loucura que é feita de asas e de horizontes insuspeitados, que se chama inspiração, que dilata a alma, que dita aos homens os segredos de Deus; e há uma outra loucura, que prende à carne o espírito, que reduz os horizontes às medidas da obsessão e que, segundo o genial paradoxo de Chesterton, consiste na perda de tudo, exceto da razão. Materialmente semelhantes, pela quebra de padrões usuais, pela extravagância dos resultados, pela fuga ao nível dos valores consagrados, os dois casos estão realmente nos pólos opostos da vida da inteligência. Ou melhor: opõem-se como a vida se opõe à morte. Poderíamos ainda lembrar que há uma outra espécie de loucura "from above" e de delírio verdadeiramente divino: é aquela que se traduziu numa descida de Deus, e que em nós atua como força de sobrenatural subida, e como apetite de cruz. Por causa dela estamos sempre em tensão neste mundo. Não há fórmula de repouso ou de cura, não há receita de relaxing que possa resolver as trágicas equações de nossa vida. Em regra geral, no comum dos casos, que a filosofia da mediocridade chama de normal, vivem os homens o cuidadoso equilíbrio ao rés-do-chão. Têm medo das energias internas que pedem superação, e agarram-se aos preconceitos e às fórmulas da pacata existência. E é por isso, precisamente por iso, por causa da parcimônia espiritual, por causa do medo da divina loucura, por apego ao equilíbrio da carne, que ficam doidos da doidice que pede choque elétrico e camisa-de-força. A loucura do alto é o melhor antídoto para a sandice inferior.
 
"Se o mundo tivesse mais santos, se se entregasse com mais generosidade aos vôos líricos dos poetas, se cultivasse com mais amor o delírio que está num quinteto de Mozart ou num poema de Camões, haveria mais vagas nas casas de repouso. Nós andamos na vida com dois doidos por dentro, um a nos ditar obsessões, outro a nos propor um vôo. Voemos. Libertemos o doido que nos libertará. Cantemos com os cantores, e sobretudo aceitemos o divino convite que nos torna divinos."
("Na mesma língua em que chorou Camões", in O Desconcerto do Mundo)
 
LUCRO
"O lucro é o índice de racionalização do empreendimento. Se você me apresenta um balanço de um negócio sem lucro eu tratarei de dizer que está errado, que é preciso aumentar a produtividade ou diminuir as despesas supérfluas; mas se você alegremente me mostra os déficits monstruosos como os da Central do Brasil e tantos outros, alegando que estas empresas não precisam dar lucro, por serem cobertas pelos cofres públicos e pela indeterminada elasticidade do cinto do brasileiro, eu tentarei, com boas palavras, encaminhá-lo para uma clínica psiquiátrica"
(O Globo, "Sobre o Lucro", 13-2-69)
 
"Como todos sabemos, na Idade Média o apetite de lucro comercial foi sempre visto com suspeição, mas, notem bem, era a preocupaçao de defender o homem contra a ilimitada concupiscência que colocava este conceito na cadeira dos réus sob acusação de Justiça e Temperança"
(O Globo, "Sobre o Lucro", 13-2-69)

 

J

JOVENS
"Uma dessas aberrações é a frenética promoção d´O JOVEM. À primeira vista parece simpática, otimista e esperançosa essa exaltação da juventude; melhor reflexão, todavia, revela sua falsidade, e então o que parecia auroreal e otimista torna-se lúgubre e até obsceno. Tomemos por exemplo a frase "eu tenho confiança no jovem" de que muitos Padres e Bispos não conseguiram escapar. Essa frase parece uma proposição inofensiva, um sorriso, uma amabilidade, uma generosidade; na verdade, porém, é uma frase destituída de sentido e carregada das mais dissolventes conotações. De início a proposição é tola porque o jovem, por definição, é algo que ainda não disse ao que veio e, portanto, é alguém de que só posso dizer que tenho esperanças ou inquietações, conforme os sinais que nele observo. Mas dizer que tenho arrematada confiança em quem ainda não deu provas, é dizer um nonsense. A rigor, dos jovens e aos jovens, só podemos dizer com propriedade e sinceridade que cresçam e apareçam.
 
"Com verdadeiro amor só posso dizer aos moços que não tenham tanta jactância de suas imaturidades e que cuidem diligentemente de aprender duas coisas. Primeira -- agradecer a Deus e aos homens o que encontraram feito: água nas bicas e no mar, frutos nas árvores e no prato. O primeiro sinal que me predisporá a ter confiança num moço será essa disposição de agradecer. O segundo será a visível disposição de continuar e prolongar o que encontrou.
 
"Ora, a adulação, com que os padres progressistas cercam os moços, só pode produzir o resultado oposto a essas duas virtudes: sim, só pode produzir fatuidade e soberba."
(O 4o. mandamento, Permanência, no. 59, set. de 1973)
 
"O moço recém-acordado da infância é o menos infantil dos homens e, se não tem a capacidade de uma infância mais alta, a da contemplação que vence o tempo, não pode voltar às figuras do passado nem procurar as estrelas do futuro. Então, só lhe resta o presente, proximidade morna dos outros presentes aprisionados. Sim, só lhes resta esse calor dos gestos sem razão: poderá divertir-se até queimar a carne, poderá sangrar-se até incendiar o mundo. Torno a dizer: prisioneiros do presente. Eis a estranha segregação em que se gloriam os jovens; e ainda mais esquisita e repugnante é a admiração com que os mais idosos assistem ao suplício das almas jovens aprisionadas, no exíguo camarote de um navio-fantasma que não veio de lugar nenhum, e não procura nenhum porto seguro".
(Não sabem o que Querem, O GLOBO)

I

 

IDADE MÉDIA
"Para nós, o esplendor medieval não está no brilho das cortes, na oficialização, na penetração do poder temporal; diríamos até que não está no desenvolvimento da escolástica e na altura das catedrais: para nós, o maior, o único esplendor da Idade Média está numa cruz de carvão que São Tomás traçou numa porta que dava para o pecado e nas chagas que um dia apareceram sangrando nas mãos dum pobre de Assis."
 
"Quem presta ouvidos àquela crônica das derrotas da Igreja, onde se diz que ela perdeu oportunidades e terreno, presta ouvidos aos pruridos e não às palavras da fé. Não lhe passa pelo espírito que foi o mundo que perdeu terreno no reino de Deus e não a Igreja que o perdeu nas cidades do mundo. Não se recorda mais que o banquete de núpcias será completo um dia, ainda que bilhões de convidados inventem as mais engenhosas desculpas para não comparecerem."
(A Descoberta do Outro, pág. 146) 
 
IDEALISMO
"O grande desvio do pensamento moderno tem origem nessa inversão interior pela qual a vontade se arroga um direito de conquista onde somente à inteligência cabe o primado. Todos nós, mais ou menos europeus, estamos impregnados de idealismo filosófico até à medula dos ossos, estamos convencidos de que nossa dignidade mais alta reside nesse subjetivismo obstinado que tenta reduzir todas as coisas do céu e da terra a meia dúzia de opiniões. Muita gente pensa que isso é grandeza e marca de caráter e que a personalidade humana se define por esse fechamento diante dos objetos e se engrandece por essa deformação interior. Diante dos objetos mais simples, o homem liberal, que agasalha suas opiniões, que desconfia de tudo que não seja o morno recôncavo de sua interioridade, cai em guarda numa posição crispada; a vontade mete-se de permeio entre a porta dos sentidos e a inteligência, e como o seu caminho é mais curto, ou porque seja ela mais ágil, sua sugestão chega antes do conceito e gera o preconceito. A inteligência perde a liberdade e a vontade então convence o sujeito de que ele é um livre-pensador"
(A Descoberta do Outro, pág. 66)
 
IGUALITARISMO
“A sociedade de nossos sonhos terá a medida de sua perfeição na riqueza das diferenciações enquadradas na mais forte e vitoriosa unidade moral. O mundo que nós desejamos não é o pesadelo de uniformidade desejado pelos marxistas. Ao contrário, é um mundo de diferenças exaltadas, em que a criança seja plenamente infantil, o homem plenamente varonil, e a mulher plenamente mulheril. O mundo que nós desejamos restaurar é, em poucas palavras, aquele em que a natureza das coisas seja esplendidamente afirmada, e em que tudo se valorize pelo que tem de genuíno. O pão será pão e não pedra. O leite será leite, e não um equívoco líquido esbranquiçado. A poesia será poesia, e não um pretexto de andar na vida sem regras morais. E tudo o mais será assim, verídico e autêntico." (Teologia da História, Ed. Permanência).
 
 
INTELECTUAIS
"Por essas e outras é que sempre aconselho aos jovens intelectuais a prática de trabalhos manuais. Aprendam a consertar torneiras, a descobrir curto-circuitos e assim terão um exercício de docilidade ao real. Não é só com a cabeça que o homem pensa, é também com as mãos. É preciso nunca ter mudado um fusível ou nunca ter pregado um botão nas calças para chegar ao irrealismo profundo dos “intelectuais” que trazem seus brilhantes talentos para pronunciamentos que deveriam versar sobre coisas simples como pão e a água e por excesso de categorias mentais deixam de ver o elefante, o piano e outras coisas mais volumosas."
(O Globo 29/08/1970)
 
IMATURIDADE
"Numa reunião de pais de família, uma pergunta é lançada à madre superiora:
 
"- Então a Sra. acha que não devemos obrigar os filhos a ir à missa?
 
"Houve um silêncio. Um suspense. E então a madre, com voz clara e resoluta, respondeu:
 
"- Não. A missa não deve ser imposta às crianças como um castigo, do qual não se pode escapar. A criança deve ser despertada para o significado e a beleza desse encontro semanal com o Cristo. Os pais devem dar o exemplo e mostrar à criança que ela é livre de fazer a escolha...
 
"E aí está. Tudo isto que pareceu muito bonito a vários pais de família é simplesmente monstruoso.
 
"Em primeiro lugar obrigação não é castigo. Em segundo lugar, a educação consiste essencialmente em preparo e em indicar aos educandos as suas obrigações e os seus deveres para com Deus, consigo mesmos e com o próximo. E educação católica consiste essencialmente em preparar a alma do educando para o cumprimento da vontade de Deus, expressa nos mandamentos.
 
"Todos nós sabemos há mais de dez mil anos, para o que concerne a lei natural, e há quase dois mil anos, para a lei revelada, que essa tarefa tem de ser feita com amor, dedicação incansável, alternativas de persuasão e severidade, e, sobretudo, sabemos que o desnível da autoridade paterna se atenua com o crescimento dos filhos. Ninguém pensará em obrigar um filho de 48 anos a cumprir o preceito dominical; mas também nenhum pai cristão de bom senso deverá consentir que um filho de 7 anos não vá à missa porque não quer. Diremos até que é bom, vez por outra, algum atrito, para lembrar à criança que há uma obrigação a cumprir em relação a Deus, e que nessa matéria ela tem de obedecer como o pai e a mãe obedecem. Chamo a atenção do leitor para um aspecto muito curioso da resposta daquela madre. Na religião nova ou na nova filosofia de vida que ela prega, os pais devem... os pais devem... mas os filhos não devem nem aprendem a dever. Observem especialmente esta passagem: “Os pais devem dar o exemplo e mostrar à criança que ela é livre de fazer a escolha...”. Do lado dos pais o dever, do lado dos filhos a liberdade, a livre opção. (Devemos aqui fazer uma distinção que certamente não ocorreu à freira: livre escolha, toda alma racional possui, se se trata de liberdade interior de autodeterminação da vontade; mas livre escolha dos atos exteriores, no sentido de liberdade, de independência, ou de não-obrigação, esta só temos em termos muito relativos já que todos nossos atos são polarizados no universo moral!)
 
"E aí está um exemplo típico do mundo em que vivemos: um colégio católico, de longa tradição, em cinco anos se transforma num “André Maurois”. Não ensinam os deveres e não se entende bem como será que o jovem descobrirá sozinho o dia e a hora em que deixa de ser um imaturo que só age em função do agrado, para ser um responsável."
(Editorial da revista Permanência n° 7, abril de 1969, Ano II)
 
"Como se explica então tal paradoxo? Como se explica que uma sociedade se gabe precisamente do que não tem, e se glorie justamente no que devia envergonhar-se? Estamos diante de mais uma arma de guerra invisível que se trava nos subterrâneos da história contra a dignidade e a grandeza do homem. Basta um esboço de inquérito para nos revelar o seguinte dado: o termo "Cristão adulto" foi lançado precisamente por uma ala que precisava cativar os ressentidos, os imbecis, os imaturos e os perversos. Servia o termo para designar uma atitude nova, livre, autônoma e supostamente adulta. E qual era essa atitude? A da recusa das estruturas da autoridade. Seria "cristã adulta" a mocinha que chegasse em casa e desfeiteasse a mãe antiquada. Seria cristão consciente o garoto semi-analfabeto que soubesse repetir slogans contra a guerra do Vietnam, e que com isto tivesse o conforto de saber que feriria seu pai ou se avô.
 
"Na verdade, verdadeiramente maduro e verdadeiramente consciente é o homem que sabe não ser ele sua própria lei, e que possui interiorizado o austero amor da obediência ao bem. É o homem que se move por convicções próprias, mas, também, e principalmente, pela convicção central e principal de que não é ele que improvisa os critérios com que se move na vida. As convicções são próprias porque se apropriou delas por um processo de reflexão e de obediência. Em obscuro, se não é religioso, ou claramente se tem fé, esse homem maduro sabe que tem deveres e normas mais altas do que seus caprichos e suas inclinações.
 
"O contrário disso é o imaturo. quando ele pensa estar realizando sua mais radiante epifania, e quando pensa estar atingindo sua máxima afirmação, está apenas cumprindo um ato subalterno ditado pelas inclinações inferiores, ou sugeridas pelo líder da turma. E esses pobres títeres se enfeitam com títulos de nobreza que têm a derrisão de apresentá-los pelo avesso do que são.
 
"(...) A moral subjetiva, que recusa a regra exterior, a lei divina, não faz e ninguém um adulto; ao contrário, fixa inexoravelmente suas vítimas numa perpétua adolescência."
(A moral subjetiva, O Globo, 8-2-69)
 
INFELICIDADE
"É claro que o homem é extraordinariamente engenhoso na arquitetura de sua infelicidade. Ainda que os fatores extrínsecos sejam seguros e bonançosos, o homem traz em si a borrasca. Ainda que os elementos econômicos, afetivos e temperamentais sejam favoráveis, o homem se encarrega freqüentemente de inventar sua desventura."
(Amor, casamento, divórcio, A Ordem, fev/52)
 
INIMIGOS
"Hoje, depois de um século de empulhamentos e do triunfal aggiornamento trazido por uma apoteose de equívocos, querem nos inculcar a amolecida idéia de um cristianismo sem combate, sem inimigos e, por via de conseqüência, sem necessidade do Sinal da Cruz. Ouso dizer que a paz mundial, a paz terrestre, a paz feita de bem-estar e do comodismo, etc...constitui uma das principais preocupações do Demônio. Muito melhor do que nós, ele sabe que a obsessão desse cuidado nos leva ao abandono de qualquer ideal de Bem e de Verdade, e diverte-se em saber também que esse é o caminho da mais espantosa explosão de inimizades que o mundo conhecerá. Por mim, confesso que me apavoro, quando sinto o horror que esta simples palavra provoca nesta atualidade costurada de ecumenismos, cursilhos, diálogos e demais retalhos da fantasia dopada. Uma vez, conversando com um general, usei inadvertidamente este vocábulo: “os nossos INIMIGOS”, e ouvi esta afetuosa observação: Professor, eu prefiro o termo adversário...Calei-me aterrado. Se os padres e os militares não sabem mais o que é o “inimigo”, quem o saberá? Porque, na verdade, as duas instituições que devem ter a viva noção desta entidade, são realmente a Igreja e o Exército. Aqui no Brasil, as desavenças acaso ocorridas entre essas duas instituições se explicam umas vezes pelo fato de não serem “da Igreja” aqueles que em nome dela pretendem falar, outras vezes pelo fato de não saberem, os homens da Igreja, que o Exército, de 64 até hoje luta a seu lado contra o inimigo comum.
 
"Imagino que nesta altura meu leitor esteja a revolver as idéias que aprendeu sobre a Caridade, Evangelho, Perdão e outras grandes noções que auriu no regaço da Igreja. Sendo estudioso, lembra-se que o Concílio de Trento trouxe esta definição lapidar: A Igreja Militante é aquela parte de seus membros (ainda na Terra) que luta contra três cruéis Inimigos: o Diabo, o Mundo e a Carne.
 
"Mas meu leitor também se lembrará de uma palavra de Cristo: Mas eu vos digo amareis vossos inimigos... “Meu Deus, como conciliar tantas idéias aparentemente opostas?! Como poderei amar se devo combater? Respondo dizendo: combatendo! Porque esta é a melhor forma de Caridade a que ele tem direito. Por incrível que pareça são os pacifistas que pecam contra a Caridade quando querem que todos se unam e se misturem na mesma indiferença em relação à Verdade e ao Bem. Sim, não há mais odioso pecado contra a Caridade do que a amável condescendência com que permitimos e colaboramos com a permanência no erro e no mal. Não fazer questão de incomodá-lo, de combatê-lo, de tirá-lo da sua tranqüilidade no erro e no mal, é fazer uma das obras prediletas do Demônio.  
("Livrai-nos Deus de nossos inimigos", O Globo, 25-7-74)
 
"Falando ao prelado em questão de tais personagens, que desfiguram a Santa Igreja, disse-lhe eu que o meu mais ardente desejo não era o da convivência pacífica com tais inimigos. Ao contrário, meu mais ardente desejo, repito-o aqui, é que esses maus levitas, que tão estridentemente apregoam sua apostasia, sob os eufemismos de novidade e progresso, tenham a lealdade última de se afastarem da Igreja. Levem sua aventura até a extremidade de irem comer bolotas com os porcos. Estas palavras duras, caro leitor, são palavras dos santos evangelhos, e portanto, palavras de amor, porque assim fazendo, eles teriam talvez nesta vida a última chance de, um dia, sentirem saudades da Casa do Pai que só espera a volta do filho pródigo"
("A Santa Visibilidade", in O Globo 9/8/75)

 

H

HITLER
"Lembro-me bem da primeira vez que vi em Jacarepaguá, num cinema poeira, a figura de Adolf Hitler, a discursar num cenário wagneriano. Levantei-me, como quem acorda, sem poder sopitar uma exclamação: "Esse homem é um louco!" Minha mulher puxou-me pelo casaco, e eu me espantava com a tranqüilidade da platéia. Naquele momento tive uma fulgurante intuição de que começava um período de demência universal, mas não imaginava que traços tomaria e que intinerários seguiria."
(O Século do Nada, Introdução, pág. 19)
 
HUMOR
"O conteúdo do humorismo, isto é, o humour, vem dum senso lúdico como também a poesia (...) e eu diria até que o humorismo é uma espécie de poesia dos canhotos."
(Chesterton e Maritain, in A Descoberta do Outro)

G

GOSTOS
"Já ouvi dizer inúmeras vezes que gosto não se discute. Ultimamente disseram-me essa frase, que bem figuraria entre as proclamações do direito do homem, a propósito da obra de Machado de Assis e da pintura de Picasso. Estou pronto a concordar que gosto não se discute quando se trata de pratos. Custa-me um pouco, mas reconheço a perfeita legitimidade do gosto pela beterraba. No que concerne à pintura de Picasso ou aos livros de Machado, compreende-se ainda uma certa relatividade na simpatia temperamental, um gosto, mas não posso concordar que o juízo sobre tais coisas se reduza a esse elemento da ordem do sensível. Seria a última concessão da inteligência: a submissão aos sentidos.
 
"Diante de um quadro de Picasso, uma pessoa afetada desse liberalismo subjetivo, convencida da alta dignidade da livre opinião, não hesita em formular uma condenação peremptória ainda que o difícil problema da arte não tenha tomado dez minutos de reflexão em toda sua vida. Antes da reflexão, do estudo, do esforço de procurar, antes de qualquer coisa está o direito, estranhamente glorificado, da opinião."
(A Descoberta do Outro, pág. 67)
 
GUERRA
"Se uma guerra só é justa quando seus dirigentes puderem ter a certeza de poder evitar qualquer excesso, qualquer crueldade acidental, então voltamos ao quadro caricato de uma guerra com espingardas de rolha, baionetas de papelão e bombas de creme. Só essa será justa. E então concluiremos que um cristão é um homem que jamais deve combater em defesa dos valores cristãos. E quanto mais cristã for a razão de sua guerra, mais odiosa e menos justa será essa guerra. Curiosa doutrina? Curioso pacifismo que contradiz toda a civilização cristã e que troca as cores violentas dos vitrais de nossa História por um cinzento budismo ou quietismo de qualquer inspiração sem sangue!"
("Espanha, Roma e França" in O Século do Nada)
 
"O conselho evangélico me diz que será bom para minha vida personalíssima, e interioríssima, isto é, para minha intimidade sobrenatural, oferecer a outra face se me esbofeteiam numa; mas não me diz que seja bom oferecer a face de minhas filhas e de meus netos. O conselho evangélico nos diz que quem com ferro fere com ferro será ferido; mas o preceito, desdobrado em moral natural e sobrenatural, nos comanda a defesa do próximo, a defesa da família, a defesa da civilização cristã, que só pôde durar um milênio porque seus habitantes usavam espadas e preferiam imitar o rei Luís de França, filho de Branca de Castela, a imitar os pacifistas hindus."
("Espanha, Roma e França"  in O Século do Nada)

F

FAMÍLIA
"Em relação aos muros da casa de família há porém um problema semelhante ao das fronteiras das nações. Há casas patrióticas e casas nacionalistas. Poderíamos também mencionar as casas internacionalistas, onde entra e sai quem quer, onde todo o mundo faz o que lhe passa pela cabeça, e onde, em suma, impera tamanha tolerância que não seria impróprio chamá-las casas de tolerância.
 
"As nacionalistas são aquelas que mais abrigam uma quadrilha do que uma família. Não porque sejam os seus membros ferozmente desunidos; antes porque são unidos ferozmente. Unidos contra as outras casas."
(A Casa, O Globo 3/1/76)
 
FILHOS
"Vejam, vejam senhores como o mundo do homem é feito de sucessivas e concêntricas fronteiras que vão, desde aquelas que vemos no mapa com rios e cordilheiras, até a porta fechada da câmara conjugal. Mas agora apreciam o reverso do fenômeno: cada uma dessas muralhas é sucessivamente superada, como barragem de açude que se quer cheio para que transborde em serviço. O dinamismo das fronteiras está voltado para fora. E agora, vejam, vejam nessa nova direção como se expande o mundo do homem.
 
"De fato, se é verdade que os esposos se escondem, em compensação não há nada menos escondido do que o fruto do seu segredo e não há nada mais apregoado, mais publicado do que a criança que nasce. Toca cem vezes o telefone, esse pequeno sino familiar do natal dos homens. É menino ou menina? Expedem-se cartões. Abrem-se janelas. Como se chama? Quanto pesa? Com quem se parece? As vizinhas comentam; as criadas, esquecidas de tudo, enternecem-se, e varrem melhor, lavam melhor, como se o filho, sendo da casa, fosse como pouco delas também; e as tias e as avós emitem vaticínios, ou confirmam profecias de que aliás ninguém mais se recorda.
 
"O segredo tornou-se público. A porta misteriosa foi arrombada por um ladrão recém-nascido. E o aroma de alfazema que sai pelas frestas da casa, que se dilui no ar, no ar da rua, da paróquia, da cidade, já é a primeira suave emanação da amizade cívica, o oxigênio das almas.
 
"A casa nesse dia deu o seu fruto. Fez a sua entrega.
 
"Nasceu hoje uma criança. Nem é preciso telefonar para saber que naquela casa nasceu hoje uma criança. Vê-se de longe. Quem estiver acaso à janela pelas cercanias logo verá que alguma coisa aconteceu naquela casa, naquele navio ancorado: porque no seu exíguo convés, em sinal de festa, tremula uma carreira de fraldas ao vento — bandeiras brancas de júbilo e de paz."
(A Casa, O Globo 3/1/76)
 
FILOSOFIA POLÍTICA
"Seu João soltou então um grande rugido que a custo reprimia.
 
-- Ai, minha senhora, os maçons mataram nosso Rei, e mais o Príncipe Luiz. Estamos sem Rei. É uma desgraça uma grande desgraça...
 
E para bem exprimir seus sentimentos, Seu João, no tom mais respeitoso do mundo, soltava palavrões (...). Foi nesse tempo que ouvi as lições de uma insuspeitada sabedoria que naquele tempo nos fazia sorrir. Foi preciso viver 77 anos para descobrir que valeu a pena prestar ouvido as palavras aladas de seu João. Sobretudo as que exprimiam a sua filosofia política. Uma noite resolvi enfrentar seu máximo furor, e perguntei-lhe porque se apegava tanto à monarquia e tanto se enfurecia contra a república. Com palavras e argumentos precoces para meus nove anos de menino vivo nascido numa república, tentei confundir o lusitano perguntando-lhe porque razão fazia questão de um Rei. Erguendo seus quase dois metros de altura, e ainda avantajando com os braços enormes atirados ao teto, seu João soltou um rugido de leão flechado; mas depois começou a falar pausadamente. O menino era muito novo; a experiência da vida é que ensina. Ora, o que ela ensina é que, para governar um povo nada se inventou melhor do que um rei. E seu João repetia com uma voz grave e lenta: "Um RRRei! Sim, meu menino, um Rei". Sentando-se com as mãos nos joelhos, debruçado e didático prosseguiu: -- O que lá está e se diz presidente, o tal de Bombardino Rachado (Beranrdino Machado), sai à rua com um guarda-chuva e diz que é igual a um de nós, pedreiro como eu ou carpinteiro como José. Ora m'o M'nino, se ele é igual a João Martins Duarte, pedreiro, como é que pode governar Portugal?
 
"E depois de uma pausa para meditação seu João me deixou cravado na memória esse argumento sublime e definitivo: -- Naquele tempo (o da monarquia) m'o m'nino, quando Sua Majestade saía de seu Palácio de Viçosa, quem estivesse nas ruas, alçava-se nas pontas dos pés, quem estivesse nas lojas assomava à porta, quem estivesse em casa chegava à janela, a GENTE VIA O REI PASSAR.
 
"Naquele tempo o menino de 9 anos ria-se do fantástico argumento de seu João Martins Duarte e precisou viver 77 anos para desconfiar que se ria com riso errado."
(O Globo, 5/12/74)
 
"E agora, sem nenhum receio dos adjetivos e advérbios que me atirarão, ouso dizer que, nas circunstância do mundo contemporâneo, para ser razoavelmente bom o regime político deve ser preliminarmente anticomunista e nesta conditio sine qua non deve evitar qualquer sinal de nostalgia democrática. As nações do mundo inteiro estão à espera de um regime onde os dirigentes procuram fazer o bem e evitar o mal. E também ouso dizer que o governo que disso mais se aproximou no século XX foi o governo de Franco na Espanha que durou 39 anos de paz e prosperidade"
(O Globo, 11/5/78)
 
FREUD
"O que há de curioso na obra de Freud, a meu ver, é o seu completo desinteresse pelo centro do homem. Suas admiráveis descobertas vieram revelar a diversidade, a riqueza misteriosa de nosso organismo psíquico. Conclui ele então que o homem é um pobre ser dilacerado e sem unidade. Ora, isto me parece ilógico. A mim, quanto mais diferenciado e decidido se evidenciar nosso psiquismo, mais forte se afirmará o princípio de unificação que apesar de tudo ainda consegue uma vitória, mais penosa, mas por isso mesmo mais valiosa, por ser um domínio sobre numerosos e dispersos elementos. Na doutrina de Freud, ao contrário, a ilógica conclusão a que se chega, ou pelo menos aquela a que ele nos convida com insistência, é a do enfraquecimento de nosso centro de gravidade. Na estrutura que Freud propõe para o nosso psiquismo, como já observou um moderno psicólogo, a parte principal do drama se passa entre o id e o super-ego. O enredo interessante está todo nas obscuras intrigas de nosso inconsciente e nas categóricas repressões policiais da zona exterior do super-ego, ficando no meio do palco, anódino, inerme, com as mãos abanando, o Ego consciente. Vê-se pois que essa psicologia, e suas derivadas, se caracteriza por um forte extrinsecismo, disfarçado, porque chega muito perto do centro, e tanto mais forte e resoluto quanto resiste com maior deliberação à poderosa atração da proximidade. Ao que me parece, essa psicologia, com toda a sua respeitável contribuição, é antes uma força de dissociação do homem do que uma tentativa de descoberta do princípio que faz de um eu a coisa mais una, mais separada, mais brutalmente segregada do universo. Ela contraria, por curiosidade analítica, por dissociação, o primeiro fato bruto da primeira experiência da alma."
(Lições de Abismo, 15a. edição, Agir, pág. 199-200) 

E

EÇA DE QUEIRÓS
"Nos romances de Eça de Queirós tudo é claro, tudo é visível e colorido. Como porém lhe falta o gênio de um Tolstoi ou de um Proust, essa claridade é mais um verniz do que uma radiação própria que venha de dentro das coisas. Sua luminosidade, em suma, é uma superficialidade. No que concerne ao jogo psicológico das situações dramáticas, essa visibilidade chega freqüentemente ate o mau gosto. O autor não deixa nada implícito, não supõe uma vida interior, e nem de longe imagina os abismos inconscientes da alma humana. Tudo se diz, tudo se explica e tudo se compreende (...)
 
O que torno a dizer dos romances de Eça de Queirós, com o acréscimo do que disse acima, é que seu enorme talento de descrever estava ligado a um talento menor de acompanhar os passos das humanas paixões"
("Na mesma língua em que chorou Camões", in O Desconcerto do Mundo)
 
EDUCAÇÃO
"Quem enlouqueceu, leitor, foi o mundo, sim, o mundo na sua efervescente pluralidade e majestosa rotundidade. Foi o mundo, a civilização, a época, o século - ou que outro nome lhe dêem; e um dos muitos efeitos dessa loucura, que reflui sobre os indivíduos na variada proporção da permeabilidade que encontra, está na idéia que atribui aos aparelhos institucionais, às máquinas de educar, o principal papel na formação dos valores humanos. Este erro funestíssimo é próprio de uma época gregária, cujos critérios pegajosos, colantes e massificantes sufocam e estrangulam as iniciativas pessoais, que desde São Tomás, e até desde Aristóteles, são o fator principal da formação dos veros valores da pessoa humana."
(Ensina-te a ti mesmo, Permanência, Jan/Fev de 1975)
 
EMPIRISMO
"O homem filosofa, ainda que freqüentemente filosofe mal. A existência do empirismo prova contra o empirismo. Se as teses do empirismo fossem verdadeiras, não existiria o empirismo. Se o materialismo fosse verdadeiro, o homem seguiria seu caminho sem se deter para apregoar o materialismo. A única filosofia que se pode apregoar com lógica é aquela que permite filosofar.
 
"Em resumo, o homem só pode negar a vida do espírito, embora com veemente falta de lógica, porque é espiritual; só pode negar a liberdade e a lei moral porque é livre."
(O Tecnicismo e suas Origens, in As Fronteiras da Técnica)
 
EROTISMO
"Estamos numa Guerra. A Guerra Mundial III. E contra quem? Contra o homem, contra a Imagem e semelhança de Deus.
 
"No Oriente a Guerra toma a forma de escravidão. No Ocidente, liberal, relaxado, entregue ao igualitarismo e ao mito da liberdade total; no Ocidente que deu à luz o que já se chama a "permissive society" - e que nós traduziríamos por "sociedade do vale tudo" - a Guerra toma a forma da liquefação e putrefação de todo o brio humano. Com violência aturdidora, espalha-se um furor de erotismo, uma febricitante promoção da sexualidade, degradante e destrutiva como se todas as energias humanas se concentrassem no mesmo propósito: levar o homem a descrer definitivamente de todos os seus títulos de transcendência e nobreza."
("A Escalada do Erotismo e a Censura", in Carta Mensal, julho de 1970)
 
"— Ó galata pouco inteligente! geme São Paulo. Ó leitor desatento! Gememos nós. Consideremos o espetáculo dos costumes que aflige tantas famílias, lembremos os casos de tantas e tantas moças que se transviam, que se perdem, que se prostituem, e que ainda respondem aos pais “que eles estão por fora e não entendem nada”.
 
"Pergunto eu: qual é o critério principal que norteia a vida dessas pobres moças embrutecidas? Todos proclamam: “é o hoje” é a “atualidade” unanimemente afinada pelo diapasão do orgulho que esmaga o 4° Mandamento, despreza Deus e diz aos moços que só eles são juizes de seus atos, como, com todas as letras, já foi dito num “catecismo” editado pela Sono-Viso, aprovado pela CNBB e evidentemente inspirado pelo Diabo.
 
"O inimigo evidente das pobres moças que se perdem é “o que todo mundo faz”, é o que se vê nos filmes, nas TV’s, ora, é esse gênio mau que Jesus chama “mundo”. E os jovens idiotas, quando pensam que estão sendo movidos por sua esplêndida e brilhante soberba, quando pensam que estão agindo livremente, COITADOS !!!, é justamente nesses arrebatamentos que estão sendo arrastados, puxados, levados para a sarjeta e para o prostíbulo pelo aparelho da perdição que Jesus chama “mundo” do qual Ele nos veio apartar, do qual nos veio salvar."
 (Editorial da Revista Permanência, n° 76-77, Março-Abril de 1975.)
 
"E nós, herdeiros desse júbilo divino, devemos compreender que a dignidade humana mais depressa começa pelo decoro da veste do que pela conquista da Lua."
(Editorial Permanência, n°18, Ano III, Março de 1970.)
 
ESCRITOR
"Imagino que as pessoas alheias ao ofício julguem que a substância de um escritor é feita de mistura e da soma de outros escritores e que, assim sendo, caberia aqui um largo tópico onde eu discorresse sobre os livros que li e os autores que devorei. Parece-me todavia que um escritor mais se parece com uma salada do que com um panteão ou com uma academia. Salada de quê? De experiências, de cabeçadas, e sobretudo de malogros.
(Quando nasce o escritor? in Conversa em Sol Menor)
 
"Como pode o escritor ser escritor se não tiver o gosto supremo das mais finas exatidões? E como pode o escritor ser escritor, e lograr comunicação, se não possuir nos recôncavos da alma as ressonâncias, os abalos da terra, do chão, do rumor dos passos e descompassos das marchas e das danças?"
(Quando nasce o escritor? in Conversa em Sol Menor)
 
"Mas o escritor não nascerá somente da matéria que lhe dá corpo. Para que ele venha a nascer é preciso que dentro dele nasça a paixão violenta, invencível, de deixar sinais escritos, mots, words, vocábulos, sinais, língua. O escritor nascerá para escrever, para passar a vida pondo tudo o que viveu neste imperativo vital de respirar escrevendo ou neste veredicto de não respirar se não escrever."
(Quando nasce o escritor? in Conversa em Sol Menor)
 
ESPERANÇA
"Nossa esperança, senhores, vem de Deus mesmo. Não somos nós que a inventamos, que a deduzimos, que a fabricamos. Deus mesmo é quem no-la deposita na alma, com as outras virtudes teologais, a Fé e a Caridade, que é a maior. E nós sabemos, agora, que nosso Destino não é a força cega que empurrava o rei Édipo para o parricídio e para o incesto. Nós sabemos que as portas de nossos destinos abriram-se; sabemos que o Filho de Deus deitou-se sobre o abismo de dor e morte para que nós todos, um por um, pudéssemos passar por cima de seu corpo. Nós sabemos que uma festa está sendo preparada para nós, desde toda a eternidade, e, quando apuramos os ouvidos, conseguimos distinguir os ruídos desses preparativos...
 
"Quando éramos pequeninos, nas vésperas dos aniversários, ou das noites de Natal, ficávamos às vezes acordados na cama, nervosos, impacientes; e trocávamos olhares compreensivos com nossos irmãos, noite a dentro, ouvindo os passos, as vozes, os ruídos novos de objetos novos, e trocávamos olhares cheios de suposições, ouvindo a surda azáfama dos pais que povoavam nossa noite de mistérios e esperanças.
 
"Ora, nossa esperança de hoje, essa esperança teologal, parece-se muito com aquela esperança filial de antigamente. Nós sabemos, com a certeza da fé, que há uma festa preparada para nós, e sabemos, desde já, que os preparativos escondidos não nos estão inteiramente escondidos. Ouvimos sinos que batem, ouvimos passos em procissão, ouvimos, como um rio de amor, um murmúrio de orações - e sabemos que é aqui mesmo, aqui em baixo, aqui e agora, entre velas, cálices, e pães, que o Cristo Jesus e sua Mãe preparam, para nós!, as garantias da ressurreição..."
("O valor da vida", in As Fronteiras da Técnica)
 
"Bem sabemos, Senhor, que a beleza maior da Igreja, a beleza sem par, está guardada para o céu. Bem sabemos, Senhor, que aqui na jornada nossas alegrias são de esperanças e portanto de lágrimas. Mas não é só por nós mesmos, por nosso pobre irmão corpo que nos apegamos às alegrias deste chão tão doce de pisar, desta água tão bela de beber, deste sol que comemos com os olhos. Não é só por nós e para nós que rogamos um reflexo de esperança nas nossas pobres coisas, esta mesa, os livros, a casa lá dentro, a pobre família mal amada... não é só por nossa casa que rogamos uma beleza de vergel, uma largueza de mar, uma suavidade de jardim, é também, Senhor, para vossa Igreja que rogamos a beleza da terra. E perdoai-nos, Senhor, a fraqueza de nossa esperança..."
("Encruzilhada de Traições" in O Século do Nada)
 
ESTUDO
"Na vida do estudante temos a supervalorização da Universidade: os moços esperam demais da universidade. Sim, esperam receber dela não apenas uma iniciação, não apenas um aperfeiçoamento a ser continuado, mas quase a substância plástica de sua personalidade profissional.
 
"Abrem-se as torneiras das aulas e os estudantes se enchem daquela "matéria dada". Ora, nós sabemos que, ainda hoje, qualquer profissional que se destaca é quase totalmente um autodidata. Aprendeu sem dúvida alguma coisa nos bancos escolares, mas sobretudo aprendeu por iniciativa própria muitíssimo mais. Não contraponho aqui o estudo à prática da vida, como se costuma fazer num esquema convencional; contraponho o estudo escolar com o estudo por iniciativa própria, o estudo solitário, o estudo personalíssimo, que é o único capaz de formar elites criadoras de que o mundo precisa constantemente para seus repetidos emperros.
 
"Os moços de hoje acreditam demais na universidade, e acreditam de menos no valor próprio, no esforço próprio, e na fecundidade desse esforço procurado na solidão da alma. Nós sabemos há mais de mil anos que o agente principal da educação e do ensino é a atividade imanente do próprio educando, sabemos que o mestre, e portanto toda a universidade, é um agente ministerial secundário, mas os moços de hoje perderam essa noção que só é individualística na cabeça das pessoas que raciocinam com o ruído das palavras."
("O Valor Próprio", in A Tempo e Contratempo)
 
"Qualquer transmissão de experiência viva, qualquer magistério, só pode funcionar com o primado da palavra e por isso qualquer pedagogia tem de ser fundamentalmente passiva. Esse vocábulo é considerado hoje obsceno; mas para um cristão ele tem o mais elevado sentido e com ele afrontamos o ridículo do mundo, porque toda nossa vida consiste em ser compassiva."
(A Descoberta do Outro, pág. 176)
 
EUTANÁSIA
"Às vezes tentamos esse empreendimento de medir o que é incomensurável, e tomamos o metro da dor física para concluir que é melhor que morra o paciente se o pouco que lhe resta de vida está condenado ao sofrimento. A eutanásia é a ilógica conseqüência do excesso de lógica. Ela aconselha a matar baseada na certeza da morte próxima, e no direito sobre a dor. Ora, se a morte é próxima, porque abreviá-la? E qual é a diferença essencial entre o moribundo e um de nós? Se é por causa da dor qual é o critério, a medida, o grau centígrado de dor que perdoa ou condena? E quem poderá dizer o significado de cinco minutos de vida?"
("O valor da vida", in As Fronteiras da Técnica)
 
EVOLUCIONISMO
"Parece-nos indispensável marcar bem a intolerância em relação à Evolução dos evolucionistas, que tira o mais do menos, que faz passar a potência ao ato sem nada que esteja em ato, o que consiste precisamente em ser um processo autocriador que torna sub-repticiamente aceitável a criação “ex-nihilo” sem um Deus Todo Poderoso, desde que essa criação se torne infinitesimal e suficientemente lenta para que as inteligências tardas não percebam o mecanismo do absurdo, e fiquem, de tantos em tantos metros, ou de tantos em tantos séculos, diante de uma situação de fato.
 
"É preciso denunciar a absoluta inaceitabilidade do evolucionismo dos racionalistas e dos empiristas."
(As Descontinuidades da Criação, Ed. Permanência, 1992)

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