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Blog de admin

Coronavírus: Entre o medo e a audácia

Abril 4, 2020 escrito por admin

Dom Lourenço Fleichman OSB

Mais uma vez me vejo na obrigação de esclarecer nossa posição católica, diante de crises que se abatem sobre a nossa sociedade. Nosso mundo anda mergulhado no que lhe parece ser um grande sol a iluminá-lo, quando na verdade é apenas uma escravidão consentida e desejada. Sim, os tecnológicos homens desse mundo pós-moderno sabem, percebem sua incapacidade de fugir da compulsão das redes sociais, das massificantes notícias e informações, e sobretudo da sensação que tomou conta de todos, de serem livres como um passarinho a voejar entre galhos de árvores e fios elétricos. 

Poderíamos perguntar a nós mesmos o porquê dessa doença; creio que responderia que o homem busca companhia. Até certo ponto, convenhamos, essa busca é natural, visto a definição mais do que antiga feita pelo Filósofo, segundo a qual o homem é um animal político: vive na companhia dos seus semelhantes. Ora, como o mundo moderno desenhou no pé da mesa do computador (eu sei, eu sei, já não é mais no computador, é deitado na cama ou no sofá com o celular nos dedos, mas não atrapalhem, por favor, a minha história!)... então, retomemos: como o mundo moderno desenhou no pé da cama, ou da mesa, uma bola de ferro virtual, e disse ao ser debruçado na máquina: – veja, caro amigo, esta é uma bola de ferro virtual, nada mais “real” do que o virtual. Portanto, você está preso, velho escravo. Não se mexa, não saia daí.

Edição Hors Série

Março 30, 2019 escrito por admin

A ressurreição de Cristo

Maio 2, 2021 escrito por admin

Meditada pelo Padre Leonardo Castellani

 

“Ao terceiro dia ressurgiu dos mortos”: não significa dizer que Cristo Nosso Senhor tenha estado três dias no sepulcro, senão que, morto na Sexta-feira, ressuscitou e saiu do sepulcro no Domingo de manhã. Esteve no sepulcro por mais de 30 e menos de 40 horas.

A Ressurreição de Nosso Senhor é um acontecimento histórico, o evento sustentado com maior peso de testemunho histórico do que qualquer outro evento no mundo.

Os quatro evangelhistas narram os fatos do Domingo de Páscoa de forma totalmente impessoal, assim como o resto da vida de Cristo; não há exclamações, comentários, afetos, espantos ou gritos de triunfo. Os Evangelhos são quatro crônicas inteiramente excepcionais: o cronista registra uma série de eventos de maneira inteiramente enxuta e concisa. Aqui, os fatos são as aparições de Cristo revivido, as quais viram, ouviram e tocaram aqueles que iriam dar testemunho.

Este testemunho pode ser resumido brevemente pelas seguintes circunstâncias:

1° - São quatro documentos distintos, escritos em momentos diferentes e sem conivência mútua, cujos autores não tinham o menor interesse em fabricar uma enorme e incrível impostura, mas, pelo contrário, arriscaram a própria vida ao escrevê-los.

2° - Os Fariseus e Pôncio Pilatos não fizeram nada. Eles teriam que ter feito alguma coisa para criar uma impostura, e seria uma impostura facilíma de se inventar: bastava mostrar o cadáver. Depois julgar e condenar os impostores. Mas, ao invés disso, mentiram e usaram de violência para fazê-los calar.

3° - Na manhã de Pentecostes, os antes amedrontados apóstolos corajosamente saíram para pregar à multidão que Jesus era o Messias e que havia ressuscitado. Na multidão havia muitas testemunhas oculares das obras de Cristo, inclusive de Sua Paixão e Morte. A multidão acreditou nos apóstolos.

4° - No espaço de uma vida humana, por todo o vasto Império Romano havia grupos de homens que acreditavam na Ressurreição de Cristo, e se expunham aos piores castigos por crer e confessa-la.

5° - Três séculos depois, todo o Império Romano, ou seja, todo o mundo civilizado acreditou na Ressurreição de Cristo; e a religião cristã era a religião oficial de Roma; para chegar até aí, houve milhares e mesmo milhões de mártires, entre as quais as doze primeiras testemunhas que deram suas vidas em meio a tormentos atrozes. “Eu acredito em testemunhas que dão suas vidas” - disse Pascal no século XVII.

Claro que havia incrédulos no Império Romano: sempre os há. Contra eles, Santo Agostinho escreveu seu famoso argumento: "Os Três Incríveis".

INCRÍVEL é que um homem tenha ressuscitado dentre os mortos; INCRÍVEL é que tantos tenham acreditado nesse incrível; INCRÍVEL é que doze homens rudes, simples e plebeus, sem armas, iletrados e desconhecidos, tenham convencido o mundo, sábios e filósofos, daquele primeiro INCRÍVEL.

 “O primeiro INCRÍVEL não queirais crer; no segundo INCRÍVEL, não tens outro remédio que constatá-lo; de onde tereis que admitir o terceiro INCRÍVEL. Mas esse terceiro incrível é uma maravilha tão assombrosa quanto a Ressurreição de um morto

Assim dizia Santo Agostinho; e isso é o que o Concílio Vaticano I chamou de "o milagre moral" da Igreja.

 

Padre Leonardo Castellani, em “El Rosal de Nuestra Señora”, Buenos Aires, Ediciones Nuevas Estructuras, 1964 – páginas 103 a 105.

Satanás, onde te escondes?

Março 13, 2021 escrito por admin

Pe. Gabriel Billecocq, FSSPX

No alvorecer do dia 13 de outubro de 1884, enquanto fazia a sua ação de graças, Leão XIII viu o diabo sendo desacorrentado no nosso mundo contemporâneo. Como age hoje em dia o anjo caído para atrair as almas? É o que veremos no presente artigo.

 

Por modo de ausência

Um espião invisível é bem mais poderoso do que um inimigo descoberto. Eis a razão do demônio gostar de ser esquecido: quanto menos se fala dele, menos é notado e denunciado, tornando-se mais poderoso e satisfeito. Pois, desse modo, os homens não se previnem.

É o que ocorreu no fim do século XX. O diabo se esconde por detrás de todos os erros que promovem o homem. Poderíamos pensar, inicialmente, no ceticismo. Realmente, o racionalismo e, sobretudo, o cientificismo, são engenhosos esconderijos para o príncipe deste mundo. O cientismo particularmente, que busca demonstrar tudo por meio da ciência moderna postulando a inutilidade de Deus, o poderio do homem e, portanto, a ausência do demônio. Auguste Comte o formulou muito bem, ele, que chegou a inventar a religião cientista, na qual o gênero humano seria o sacerdote da natureza.

Infelizmente, a igreja conciliar tomou a frente desse mecanismo diabólico. O ecumenismo, cujo fundamento é a relativização de toda verdade, tem por sucedâneo uma tamanha tolerância que tudo se torna verdadeiro desde que os homens assim o pretendam. O mal não existe mais, as forças diabólicas não têm razão de ser. Como disse recentemente o Papa Francisco a propósito do vírus universal: o homem agrediu a natureza e ela lhe deu o troco com esta doença.

Exit Deus da vida do homem. Exit portanto o demônio, que reina melhor quanto mais escondido está.

 

Por modo de sugestão

O fato de ser ignorado não significa que ele não age, muito ao contrário. E seu modo de agir é velho como o mundo. Desde Eva e até o final dos tempos, a estratégia é a mesma. A tentação passa pelos sentidos exteriores, penetra a imaginação para excitá-la antes de se propagar mais profundamente na alma, com o intuito de arrancar da vontade o consentimento.

O ponto de partida não é difícil de se conhecer: são as três concupiscências. O amor dos prazeres sensuais e grosseiros, a posse imoderada de riquezas e bens desse mundo, o desejo de poder e o orgulho, tais são, infelizmente, as tristes engrenagens de toda alma humana manchada pelo pecado original. Não há nada de novo, a tática é sempre a mesma, mas funciona.

No tocante ao católico que combate e faz sacrifícios, o demônio percebe logo que as sugestões grosseiras tem menos influência. É por isso que, antes de tentá-lo no sentidos, obceca a imaginação ao ponto de perturbar a sua inteligência. Ele quer que o vejamos por toda parte, que sua presença assombre a tal ponto a alma que o pobre católico creia que atua de modo universal em todos os acontecimentos da sua vida. Essa obsessão engendra a necessidade impulsiva de falar do diabo a todo tempo, chegando ao ponto de pedir um exorcismo. Sugestão terrível e diabólica que nos faz pensar no gato que brinca sem parar com uma bola de meia.

 

Por modo de temor

Para além da sugestão a se mostrar por toda parte, o diabo concentra a alma do infeliz homem. Então, a alma vive no temor, enxerga pecado em tudo, dá à vida humana um aspecto pessimista e sombrio, em seguida engendra o descorajamento interior.

Nisso, o demônio é fortíssimo. Ele insiste em uma verdade essencial: é preciso combater o pecado e não abandonar a nossa alma no mal. Mas, insiste a tal ponto nessa verdade, que nos faz esquecer o correlativo necessário e redentor: a luta contra o pecado passa primeiro pelo amor de Deus. Assim, a alma humana, ao invés de se entregar à confiança e à esperança teologal, fecha-se num temor desmedido do demônio.

O mundo moderno que tanto escraviza os homens estimula o medo nas almas humanas. O demônio se aproveita desse temor onipotente, aguça-o para afastar as almas de Deus. O medo do demônio domina a alma e faz com que se dê ao demônio demasiada importância. Quanto mais nos ocupamos dele e nos concentramos na sua presença, mais nos esquecemos de que a alma é feita para Deus e que, pela graça divina, ela está nas mãos do seu Criador.

 

Por modo divino

Finalmente, excetuando-se os católicos que conhecem o demônio, obcecam-se por ele e caem nas suas redes, há ainda outros homens que o conhecem bem. Infelizmente, não são católicos. Estes votam-lhe um verdadeiro culto.

Essa é a vitória mais terrível do demônio, na qual toma o lugar de Deus para ser honrado. Pense-se nos sacrifícios humanos, bem mais numerosos do que parece. Pensem nas missas negras e comércios de crianças para cumprir esses ritos. Pense-se finalmente como os príncipes da igreja conciliar se entregam agora ao jogo do globalismo e da maçonaria, tornando o príncipe desse mundo mestre do universo inteiro.

 

Um brilho sublime de esperança

Em vista desse quadro, haveria motivo para se desesperar ou, ao menos, para desanimar. Mas isso seria esquecer duas coisas:

A primeira, que nós não pertencemos àquela raça de fariseus que procuravam a felicidade aqui embaixo. Os sequazes de Satanás podem fazer o que querem, mas não podem nos fechar o Céu. Antes, é o Céu que se fecha para eles.

A segunda é a palavra de Nosso Senhor aos seus apóstolos: “tende confiança, eu venci o mundo”, subentende-se aqui o império de Satanás. E acrescenta: “Eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo”.

Se Nosso Senhor está conosco, quem será contra nós?

(Tradução: Permanência. Le Chardonnet, nov/2020)

A unidade... por acréscimo!

Fevereiro 21, 2021 escrito por admin

A unidade por acréscimo

Ao criticar as reações de alguns católicos diante das decisões episcopais tomadas em resposta às restrições de culto impostas pelo governo, um bispo francês afirmou, numa recente emissão de rádio, que ele era o “garantidor da unidade” da sua diocese. Para além da banalidade dessa observação – pois toda autoridade legítima e reconhecida é, em si mesma, garantia da unidade do organismo do qual está à frente – essa afirmação causa espanto: esperaríamos antes que um bispo se apresentasse como “garantidor da fé”, como ensina o catecismo.

Sem dúvida, deve-se atribuir a esse episódio um caráter talvez aproximativo, próprio do discurso verbal; o autor talvez não escreveria o que disse. Pois, desde quando garantir a unidade do rebanho que lhe foi confiado é a função primeira de um bispo? Não seria antes a consequência de outro atributo da função episcopal? De todo modo, é uma definição incompleta.

 

Que unidade?

A unidade é certamente um bem e, a esse título, merece ser procurada. Mas, a unidade pode servir a fins diferentes, nem todos necessariamente honestos: é possível haver unidade no erro -- nesse caso, a unidade já não é um bem. De modo análogo, quando reconhecemos que a união faz a força, isso nem sempre é bom, pois a união faz a força... tanto para os bons, como para os maus, infelizmente!

Desse modo, é preciso definir de que unidade se trata. A unidade pode ser constituída de diversos modos: ao redor de um homem, de um princípio, de uma tarefa a ser realizada... Pode haver uma unidade exterior, formal, visível, circunstancial, que se traduza em atos concretos, mas não implique em uma unidade interior acerca dos princípios ou dos fins a serem alcançados. A unidade pode ser substancial, como a do corpo humano, apesar da diversidade dos seus órgãos. Pode ser uma unidade simplesmente de ordem, como a que há em uma família ou em um exército.

Portanto, há diferentes formas de unidade; nem todas possuem o mesmo valor ou força. Dizer-se garantidor da unidade é, por conseguinte, insuficiente para definir uma função.

Contudo, objetarão alguns, Nosso Senhor disse: “(...) que sejam todos um, como tu, Pai, o és em mim, e eu em ti, para que também eles sejam um em nós, a fim de que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17,21). Sim, mas, quando disse isso, Nosso Senhor não se dirigia aos apóstolos, antes, pedia uma graça ao seu Pai. A Pedro, Jesus não disse: “guardai os teus irmãos na unidade”, e sim: “E tu, uma vez convertido, conforta os teus irmãos” (Lc 10, 32). Ao enviar os apóstolos, não disse: “uni as nações!”, mas: “Ide, pois, ensinai todas as gentes, batizando-as em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19).

 

Um princípio de unidade

No seu tempo, Santo Agostinho ensinava: “In necessariis unitas, in dubiis libertas, in omnibus caritas.” (Nas coisas necessárias, união; nas debatidas, liberdade; em todas as coisas, caridade”). Para esse grande doutor da Igreja, a unidade devia ser procurada, portanto, antes de tudo nos princípios. E até em época recente, a união dos batizados se fazia em torno dos princípios da fé, como o símbolo de Nicéia-Constantinopla, ou nas três grandes referências: a Santa Virgem, a Missa e o Papa.

Mas, nos nossos dias, em favor da abertura ao mundo preconizada pelo Vaticano II, um desvio realizou-se: a união é frequentemente procurada não mais em torno da adesão a princípios claros, mas ao redor de uma participação ativa em atos exteriores. Por exemplo, pede-se aos padres apegados à missa tradicional marcar a sua unidade com o seu bispo participando da missa crismal. O novo rito do batismo leva a ver o sacramento mais como uma acolhida pela comunidade eclesial do que o apagar da mancha original e a recuperação da vida sobrenatural.

A união, portanto, não é mais marcada pela afirmação de uma mesma fé, mas pela participação em um novo cerimonial. Claro, a participação em uma cerimônia marca uma certa forma de unidade, mas de nível inferior. A unidade espiritual em torno dos dogmas da fé é de ordem superior pois ela conduz a outra unidade, dessa vez exterior: a participação em ações comuns. O inverso não é verdadeiro: podemos participar em uma cerimônia sem, contudo, partilhar da mesma fé. Os encontros de Assis são prova disso.

 

Unidade na verdade

Portanto, é necessário buscar a unidade na verdade: antes de tudo, é preciso que haja união na fé, união em Jesus Cristo. Era essa unidade na fé que produzia a união da Europa, antes da Reforma a ter implodido; isso apesar das lutas, por vezes ferozes, entre os diferentes reinos.

A unidade europeia quebrou-se quando o catolicismo deixou de ser a referência comum. A Europa moderna marcha para a sua perdidão pois busca recuperar sua unidade em torno de valores materiais: dinheiro, fronteira, defesa... recusando toda referência às suas origens cristãs.

Pois há uma unidade do gênero humano que Nosso Senhor não quer: aquela que se faz sem Ele. A única e verdadeira fonte de união é a que se faz na fé e na verdade ou, se quisermos, a união pela verdade ou em torno da verdade.

É por isso que, bispos ou não, a atitude que devemos ter deve se inspirar no Sermão da Montanha (São Mateus, capítulos 5 e 6), em que Nosso Senhor declara o seguinte:

Buscai pois, em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo

 

(Action Familiale et Scolaire, 247. Tradução: Permanência)

A Missa é um freio ao globalismo

Dezembro 26, 2020 escrito por admin

Pe. Xavier Beauvais, FSSPX

 

Durante este encarceramento a que estamos em vias de nos submeter, vimos surgir um grande furor contra a Missa nas nossas capelas e igrejas.

É certo que, golpeando-se a Missa, a Igreja é enfraquecida. Nós já o vimos em 1969, com o novo rito de Paulo VI. Para que a Igreja vacile no tocante ao dogma e à disciplina, é preciso combater a Missa. Esse era (e ainda é) um dos melhores meios de evacuar e substituir, pouco a pouco, a moral católica, os usos e costumes da catolicidade.

O governo francês atual sabe muito bem disso quando nos impede de celebrar a Missa.

Sabemos que o alinhamento dos costumes de todo o mundo à ética maçônica está o coração do globalismo em marcha. Todo freio – e a Missa é um freio – todo obstáculo a esse projeto deve ser tiranicamente suprimido. O principal adversário do globalismo é a renovação do Sacrifício da Cruz, pois sabemos que a Missa é o remédio individual, social e político ao vírus e aos males dos tempos modernos.

Em face da liberdade desenfreada, ela clama ao dom de si.

Em face da igualdade absoluta, apela ao senso de hierarquia.

Em face da fraternidade fundada sobre o homem, lembra da caridade, ou seja, do amor na verdade que os homens devem uns aos outros, em nome de Deus.

Toda a ordem da civilização repousa sobre o altar, eis o porquê de ser preciso lutar sem cessar pelo tesouro oferecido por Nosso Senhor e gritar: “Devolvam-nos a Missa”.

É justamente nesse espírito que o Pe. Davide Pagliarani, superior geral da Fraternidade São Pio X, lançou no dia 21 de novembro um apelo enérgico a uma cruzada de orações até a Quinta-Feira Santa, 1º. de abril de 2021.

Unamos nossas forças para obter do céu a liberdade incondicional de rezar publicamente e de assistir à Missa». A Santa Missa é o bem mais querido para nós. Assim, ela precisa ser rezada de novo com total liberdade: ela contém a solução a todos os males, a todas as doenças, a todos os temores (...)

Ficaremos então insensíveis à situação atual? « Todo aquele que pede recebe, e a quem bate abrir-se-á » (Mt 7, 8), promete-nos Nosso Senhor. Façamos nossa parte: as graças são obtidas somente se pedimos com insistência.

Caros amigos, eu vos convido a todos, adultos e crianças, leigos e pessoas consagradas, e vos suplico de se juntarem a esta cruzada de oração pelas Missas e pelas Vocações. Os cruzados partiam para libertar o túmulo de Nosso Senhor Jesus Cristo; partamos então para libertar o tesouro de Cristo Rei, seu testamento de amor! (...)

Quem liderará esta cruzada? Aquela que permaneceu de pé aos pés da Cruz.” Dessa cruz que venceu o mundo, o vírus do pecado.

A Missa é a renovação do sacrifício da Cruz, e compreende-se que, se a Cruz venceu o mundo, ela é para nós o mais eficaz dos meios de redenção, de salvação e, para nossos inimigos, o maior obstáculo ao seu designo perverso.

A assistência a Missa que consiste na imolação interior a Jesus Cristo, a fim de unir-se e de associar-se a Ele no oferecimento do Sacrifício, é a função mais alta do caráter batismal. A Santa Missa é a ação católica por excelência, aquela que atua, renova, intensifica nosso pertencimento à Santa Igreja, e que dá testemunho disso.

A Missa é também a fonte de toda santidade, o meio privilegiado de entreter e desenvolver a vida de Cristo Jesus em nós.

Uma vez que o fundamento da nossa santidade consiste em render a Deus o culto que lhe é devido, sabemos que o centro do culto perfeito que podemos prestar a Deus é a Santa Missa.

Toda a nossa vida espiritual e toda a nossa religião são e devem ser marcadas por essa oblação interna de nós mesmos que é devida a Deus como Criador e Senhor.

Essa oblação deve ser manifestada de modo externo e sensível.

O primeiro e o supremo dever do homem é dar-se inteiramente a Deus e colocar-se exclusivamente sob sua dependência.

Compreende-se por que o laicismo quer a morte da Santa Missa. Daí esses abusos de poder dos governos que querem nos interditar a Missa com a assistência das nossas igrejas.

Há aí uma ingerência inadmissível do Estado sobre a Igreja ao impedir os fiéis de cumprirem um dos mandamentos dessa mesma Igreja.

O que o exercício do culto tem a ver com o Estado, desde o momento em que este último pretende ser laico, neutro?

A exclusão pura e simples dos fiéis das Missas nesse período de encarceramento, para lutar contra uma pandemia organizada, é também o apogeu da crescente incapacidade da igreja conciliar de pesar de modo eficaz nos debates das nações.

Nós nos voltamos para a Santíssima Virgem, de pé aos pés da Cruz; é ela que invocamos pois no final o seu Coração Imaculado triunfará.

Deus é tudo

Dezembro 12, 2020 escrito por admin

Um monge beneditino

 

São Bento morreu 1360 anos antes de São Pio X escrever sua encíclia Pascendi em 1907, descrevendo o modernismo. Apesar dos vários séculos que separam esses dois homens da Igreja, eles tinham pensamentos sobre a sociedade muito semelhantes. São Bento, no Capítulo IV da sua Regra, afirma que o monge “não deve preferir nada a Cristo”. São Pio X, no começo de seu pontificado, declarou que seu objetivo, como Vigário de Cristo na terra, era “… restaurar todas as coisas em Cristo”. Apesar desses dois estarem tão distantes na história da Igreja, eles desejavam que tanto a alma individual quanto a sociedade como um todo fossem consagrados a Cristo.

O modernista, de acordo com um autor, tem “… a ambição de eliminar Deus da vida social”. O homem que tenta remover Deus da vida social já O removeu da sua alma. Como diz o adágio, “a natureza abomina o vazio”. Se removermos Deus da humanidade, o vazio precisa ser ocupado com alguma coisa. O modernismo substitui Deus pelo homem, negando a Deus seus direitos como nosso Pai. São Pio X explica que o modernismo crê numa “imanência vital”, que nada mais é que a vida humana transcorrer sem Deus. Na sua Regra, São Bento também repreende comunidades monásticas instáveis que substituem a vontade de Deus pelos seus caprichos pessoais. Tudo de que eles gostam é considerado lícito, e seus desgostos são ilícitos.

Todo pecado é uma declaração de independência a Deus e a sua Igreja. Nós, como pecadores, substituímos a vontade de Deus pela nossa vontade própria. Nós, injustamente, usurpamos sua autoridade e convencemo-nos de que não precisamos de seu auxílio. A crise dos nossos tempos, tanto na Igreja, quanto na sociedade, não é um ataque externo, mas interno. É uma espécie de decadência intelectual da capacidade do homem de raciocinar. Através do orgulho, o modernista se convence de que tudo vem dele e de que toda a realidade depende da sua opinião pessoal. O depósito da fé imutável revelado por Deus e confiado à Igreja, agora, está sujeito ao julgamento pessoal e à opinião de cada homem. O conceito modernista de verdade se desenvolve dentro e através do homem, não existe mais fora do pensamento humano. A verdade de Deus não mais transcende, vinda de cima como um dom de Deus, mas desenvolve-se pelo complexo progresso do pensamento humano. Com esse mindset, os deveres religiosos do homem, o conteúdo de sua fé e seu comportamento moral estão excluídos da autoridade da Igreja. Todas as suas decisões vêm de dentro e não mais dependem de Deus e da Igreja. Essa evolução confirma a frase darwiniana “sobrevivência dos mais aptos” no campo do pensamento.

O modernista considera a coerência contínua da fé do ensinamento da Igreja como um grande obstáculo ao progresso da humanidade. Essa doutrina constante e estável impediria o desenvolvimento natural do homem e, portanto, seria maléfica à sociedade. Eles, em essência, afirmam que a estabilidade da Verdade bloqueia o processo evolutivo necessário do homem. Se perdermos de vista nossa absoluta dependência de Deus como nosso Criador e Autor de toda a verdade, criamos um mundo artificial sem Pai. O modernista substitui Nosso Pai celestial por alguns slogans idealistas e torna-se um órfão numa sociedade sem Pai. O modernista declara, em essência, que ele é Deus.

A sociedade de hoje é órfã. A vida de um modernista existe por imanência vital, que se desenvolve por uma energia interior impossível de ser controlada. Essa é a mesma ideia de evolução que Teilhard de Chardin proclama: “… é uma condição geral, à qual todas as teorias, todas as hipóteses, todos os sistemas devem reverência e que eles devem satisfazer daqui em diante se anseiam ser cogitáveis e verdadeiros. A evolução é uma luz que ilumina todos os fatos, uma curva que todas as linhas devem seguir”. Karl Rahner também afirma que “a graça pode ser considerada como pertencendo à existência do homem”. Dessas ideias, o modernista conclui que ele se tornou Deus, não precisando, assim, de um Pai.

Esses erros levam às sublevações em geral que vemos na sociedade de hoje. As crianças de hoje podem escolher seu sexo se não estiverem satisfeitas com a maneira como nasceram. Pode-se, legalmente, casar-se com outra pessoa do mesmo sexo e adotar filhos. A estranha doutrina do transhumanismo proclama que o homem pode e deve direcionar, material e intelectualmente, seu processo evolutivo. Ele pode, portanto, melhorar, com a ciência moderna, suas capacidades físicas e intelectuais. Eles até mesmo pensam em como viver eternamente, vencendo a morte através da ciência. Eles também falam de transferir seus intelectos a algum tipo de robô para que, através da tecnologia, eles possam continuar a existir. Eles não querem um Pai.

A associação moderna chamada Black Lives Matter tem sido um catalisador de muitos protestos violentos pelos EUA. Eles buscam uma sociedade sem paternidade, tal como a conhecemos. De acordo com a declaração oficial de sua missão, eles afirmam desejar “desmantelar as práticas patriarcais” e também “romper a estrutura familiar nuclear ocidental, que requer que um ajude o outro como famílias extendidas e ‘vilarejos’ que se preocupam uns com os outros coletivamente...” Isso é um novo tipo de sociedade comunista sem um Pai e é um grito de independência de Deus.

São Bento nos pede que aceitemos Cristo como a fonte e o centro de nossas vidas. Ele nos ensina sobre um Deus transcendental que nos ama como um Pai, não o deus modernista da imanência vital. A Divina Providência continua envolvida no desenvolvimento de nossos corpos e nossas almas. Ela nos pede que, humildemente, pratiquemos a caridade com os mais velhos, os mais novos e os enfermos, sabendo que aquilo que fazemos aos menores fazemos a Cristo: diferentemente da ideia de Darwin de sobrevivência do mais apto. Nossa maior glória é que temos um pai na pessoa do superior do mosteiro, que exerce o papel de Cristo em nossas vidas. Se pudéssemos resumir a Regra de São Bento, ela é como o eco de Nosso Senhor, ensinando-nos a rezar: “Pai nosso, que estais no Céu...”

(The Angelus, Set-Out 2020)

É chegado o tempo do anticristo?

Novembro 28, 2020 escrito por admin

Pe. Pierpaolo Maria Petrucci, FSSPX

São Pio X, na sua primeira encíclica, constatando a existência de uma “guerra ímpia suscitada contra Deus, que progredi em quase toda a parte”, chega a se indagar se “uma tal perversão dos espíritos” não seria “o começo dos males anunciados para o fim dos tempos”, e se “o filho de perdição de que fala o Apóstolo” já não teria “feito o seu advento entre nós”1. É claro que o papa fala do anticristo. Mas, o que ele é?

Segundo São João, “Quem é mentiroso senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Este é um anticristo, que nega o Pai e o Filho”2. E ainda: “porque muitos sedutores se têm levantado no mundo, que não confessam que Jesus Cristo tenha vindo em carne; estes tais são os sedutores, são o anticristo”3. São Paulo nos diz que o anticristo virá num tempo de apostasia e o apresenta como o homem do pecado, o filho da perdição, e diz que ele se oporá a tudo que se chama Deus. É o iníquo cuja vinda é por obra de Satanás, e que se apresentará como se fosse Deus. Empregará todo tipo de poder e sinais prodigiosos. Virá no dia do Senhor, ou seja, antes do julgamento final, para seduzir o mundo4.

São João apresenta a sua vinda como iminente5. Contudo, é preciso compreender essa passagem no seu contexto: ele fala dos precursores do anticristo. Com efeito, São Paulo escrevia aos tessalonicenses para não se deixarem quebrar facilmente, nem se alarmar, como se o dia do Senhor fosse iminente. Com efeito, um obstáculo retém a manifestação do anticristo e terá de ser levantado antes que ele venha6. Alguns Padres da Igreja, como São Cirilo, julgaram que esse obstáculo fosse o Império Romano, mas Santo Tomás afirma que se trata do Império Romano espiritual, ou seja, a Igreja católica e o Papa, sobre o qual ela se funda, único poder capaz de deter as forças do mal7.

Estamos nos tempos do anticristo? É o que podemos nos perguntar. Que diria São Pio X dos nossos tempos, ao ver as leis ímpias que regem os Estados outrora católicos? Que diria diante dessa crise terrível que assola a Igreja, na qual o próprio papa tornou-se a ponta de lança da revolução, e se insurge contra a fé e a moral católica8. A ditadura sanitária a qual o mundo inteiro se submeteu atualmente, é um indício suplementar: o poder capaz de reter a manifestação das forças das trevas parece desfalecer e, sem uma intervenção da Providência, é bem provável que as forças das trevas avancem até às últimas consequências.

Contudo, se é lícito nos colocarmos essas questões diante desse mistério de iniquidade, convém nos lembrar que o plano de Deus é sempre regido por seu amor misericordioso. É Ele que detém as rédeas da história e de todos esses acontecimentos, para o grande bem dos que o amam.

Nosso futuro está nas suas mãos -- logo, está em mãos excelentes. Qual deverá ser o nosso papel? Devemos, à luz da fé, buscar enxergar claro nessa época tão difícil, e combater pelo reino de Jesus Cristo; instaurá-lo nas nossas almas pela vida da graça, pela prática das virtudes e pelo cumprimento quotidiano das vontades divinas: preservar nossas famílias do espírito mundano, pois elas são os últimos bastiões contra as trevas atuais; esforçarmo-nos, enfim, para conquistar almas pelo nosso espírito apostólico. Assim, aconteça o que acontecer, alcançaremos a vitória sobre a terra e, na hora de nossa morte, Nosso Senhor nos receberá como bons e fiéis servidores.

(Le Chardonnet, Outubro de 2020)

  1. 1. E Supremi apostolatus, 4 de outubro de 1903
  2. 2. 1Jo 2, 22
  3. 3. 2Jo 1, 7
  4. 4. 2Ts 2, 3
  5. 5. 1Jo 2, 18
  6. 6. 2Ts 2, 6
  7. 7. in II Epist. Ad Thessal., c. II, lect. I
  8. 8. Ver Amoris Laetitia, 19 de abril de 2016, e a declaração de Abu Dhabi, 4 de fevereiro de 2019

Batinas e uniformes

Novembro 21, 2020 escrito por admin

Rafael Gambra

 

Não se vê mais batinas ou uniformes nas ruas, nem padres ou soldados. Todos usam roupas civis, "seculares" em linguagem eclesiástica ou "paisano" em linguagem militar.

Recordo na minha infância distante, a impressão paternal e venerável que a figura do Padre causava nas crianças. Era comum ir beijar sua mão, ao que ele muitas vezes respondia com uma bênção ou com um santinho ou uma pequena medalha de alumínio.

À medida que o padre e o soldado desaparecem do horizonte visual, é muito difícil nascerem autênticas vocações religiosas e militares, porque ninguém anseia pelo que não vê. Hoje, um jovem de 15 anos, pode nunca ter visto uma parada militar em sua vida: para ele, "o serviço militar" nada mais é do que um período absurdo de reclusão.

E o triste é que padres e soldados tiraram seus respectivos hábitos por falhas ou pecados mais incompatíveis ou vexatórios para sua profissão: covardia — vamos chamar de precaução — nos militares, impiedade — vamos chamar de segurança — no clérigo. Deixemos o militar com suas motivações para nos fixarmos nas do eclesiástico.

O sacerdote antes do Concílio Vaticano II, geralmente, sentia amor e um orgulho legítimo pela batina de Cristo, que manifestava sua sagrada dignidade e os poderes sacramentais. Vestido com a batina ou com o hábito, não importava a boa ou a má presença do clérigo, pois a qualidade ou a pobreza da vestimenta era indiferente: para todos era sacerdote, objeto de veneração para muitos, convite à fé para todos.

Uma vez que a batina ou hábito foi removido, a imagem do padre desaparece. Em seu lugar, pode parecer um senhor elegante, em outros, um operário de construção ou um caminhoneiro; aqueles que vestem clergyman cinza, parecem a imagem de um condenado, faltando apenas o número de identificação na gola, e os mais discretos, que vestem preto, dão a impressão de serem um pastor protestante. Em todo caso, desapareceu a imagem do Padre católico e, com ela, os sentimentos que ele inspirava. Porque “o que os olhos não veem, o coração não sente”.

Um Padre madrilenho, que nunca tirava a batina, contou-me que certa vez um jovem se aproximou de seu confessionário e se apresentou como sacerdote. Ele se confessou, e o Padre disse-lhe: "Diga-me, meu filho, você acha que tudo isso teria acontecido consigo se estivesse de batina?" É frequente alegar para justificar a deserção da batina que "o hábito não faz o monge". Expressão muito antiga que se utiliza nesses casos no sentido exatamente oposto ao que tinha em sua origem. Seu verdadeiro sentido era dizer ao frade que tomou o hábito, que aquilo não basta, que ele deve tornar-se um bom frade por dentro, vencendo as paixões, adquirindo as virtudes. Foi uma expressão de exigência, nunca de frouxidão ou desprezo pelo hábito como é usado hoje.

Nunca se conhecerá a relação de causa-efeito que mediou a eliminação da batina e a grande deserção dos clérigos nos anos 60-70, o florescimento dos padres-políticos abertzales1 aqui e dos padres guerrilheiros na América Central, etc. Creio que aquela simples autorização de tirar a batina prejudicou mais o estado eclesiástico do que todo o Concílio Vaticano II com seus erros e ambiguidades.

 

Fraternidade São Pio X, Madrid, Junho de 2002.

  1. 1. Abertzales é o nome que designa os nacionalistas radicais vascos [N. da P.]