UM FIEL MAIS CATÓLICO QUE SEU PÁROCO
“Em vista duma discussão que tive recentemente com um pároco de idade madura, gostaria de saber sua opinião sobre os seguintes pontos:
Primeiro ponto: o sacerdote afirmava que a Sagrada Família deveu fazer frente aos problemas habituais próprios dos seres humanos tais como a enfermidade e, como conseqüência, é possível que a Virgem estivesse enferma e que tenha morrido. Quando lhe respondi que a Virgem, que é a “Imaculada Conceição”, portanto livre do pecado original e de suas conseqüências (a saber, a enfermidade e a morte), não poderia estar enferma nem morrer (com efeito, a Igreja utiliza o termo “dormição” para a passagem da Virgem para a outra vida), o sacerdote afirmou que não havia contradição entre ambas as coisas.
Segundo ponto: quando afirmei que existia um cerco contra a Missa em latim (referia-me à Missa pré-conciliar) e uma suma tolerância com a grande variedade de ritos modernos, muito duvidosos, de sorte que para celebrar a primeira é preciso um “indulto” do bispo, respondeu-me que depois de numerosas petições ele poderia celebrar a Missa em latim sem necessidade de nenhuma “permissão” (a propósito de “permissões”, como caminham as coisas? Temo que este sacerdote tenha se referido à Missa pós-conciliar em latim e não a Missa pré-conciliar).
Terceiro ponto: quando ele elogiou a prática da Missa concelebrada por vários sacerdotes eu lhe fiz saber que se tratava de um “desperdício” de graças pois se, em lugar de concelebrar, os sacerdotes tivessem oficiado várias Missas, as referidas graças teriam se multiplicado; o sacerdote o negou. Esta posição me parece que está ligada a uma idéia protestante da Missa e da Eucaristia na qual se faz só uma “evocação” e não “renovação” como ensina a doutrina católica.
Gostaria de saber sua opinião sobre tudo isso pois cada um é livre para ser católico, budista ou protestante porém não se tem direito de apresentar a doutrina protestante como católica e vice-versa.”
Carta assinada
Antes de tudo, perdoe-me o atraso em respondê-lo.
Primeiro ponto: é de fé que a Santíssima Virgem Maria “ao terminar sua vida mortal foi elevada à glória do céu de corpo e alma” (Munificentissimus Deus, 1º de novembro de 1950), porém Pio XII quando definiu este dogma deixou voluntariamente à margem a questão sobre se a Santíssima Virgem morreu, ressuscitou e depois foi elevada ao Céu ou se foi elevada ao Céu diretamente em corpo e alma sem passar pela morte e ressurreição.
É evidente que Pio XII considerou que os argumentos históricos e teológicos dados a conhecer respectivamente pelos “mortalistas” e os “imortalistas” não eram, todavia, suficientes para dirimir a questão. Sem dúvida é significativo que quando Pio XII aprovou uma oração à Virgem da Assunção em dezembro de 1950, suprimiu a seguinte expressão: “depois de vossa bem-aventurada morte”. Depois do Concílio, prevaleceu o espírito antimariano, enquanto a teologia da Virgem Maria – a verdadeira - está em estado letárgico, de sorte que deve esperar-se melhores tempos para que a questão se esclareça definitivamente.
Segundo ponto: parece que as coisas não são como o Sr. diz. Efetivamente para a Missa tridentina, o “indulto” do bispo é necessário, ainda que não se saiba porque. O indulto é uma benévola concessão da Autoridade que exime o sujeito da obrigação que tem de observar uma lei, porém no caso que nos ocupa não existe nenhuma lei que obrigue a celebrar de acordo com o novo rito, nem nenhuma lei que ab-rogue o rito romano tradicional.
Terceiro ponto: é tristíssimo (ainda que hoje em dia ninguém se dê conta disso) que um sacerdote ignore o valor da celebração múltipla de Missas, que nos aplica todos os méritos que o Sacrifício do Calvário nos obteve, sendo portanto “um insigne instrumento para a distribuição entre os fiéis dos méritos obtidos pela Cruz do Divino Redentor” (Pio XII, Mediator Dei), o que quer dizer que “com várias Missas... multiplica-se o efeito do Sacrifício” e portanto a efusão sacramental do Sangue de Cristo e de qualquer graça sobre a Igreja e sobre toda a Humanidade (Santo Tomás de Aquino, III q. 79 a. 7 ad. 3). A raiz luterana do erro se confirma pela (protestante) Confissão de Augsburgo que se dói do “abominável erro” da Missa-Sacrifício e como daí “se originou a grande quantidade, a quantidade incalculável de Missas”.
Esperando ter respondido às suas perguntas, devemos dizer-lhe, caro leitor, que ninguém tem “direito” de professar a religião que deseja, mas que todos têm o “dever” de professar a religião revelada por Deus, depois de conhecê-la (I Concílio do Vaticano). É certo, não obstante, que com os pobres infiéis se terá mais misericórdia que com os maus católicos, e sobretudo mais que com os ministros de Deus que fazem passar por doutrina católica as heresias luteranas além de muitas outras.
(Sim Sim Não Não no. 115)