A FÉ OU É INTEGRAL OU NÃO EXISTE

 

Um leitor nos escreve:

 

«Conquanto não compartilhe de todo as posições dos senhores (integristas e, por isso, discutíveis), estou de acordo quanto à conveniência de lançar luz sobre esse ecumenismo que, ao que parece, pretende abarcar também mouros e judeus.

Há não muito tempo, os fiéis assistentes da missa foram convidados a rogar pelos que “crêem no Deus único que se revelou a Moisés”, o que me pareceu excessivo, porque não consta que estes últimos, negadores de Cristo, ‘roguem’ pelos cristãos; antes, agem precisamente ao contrário.

Agradecer-lhes-ia um comentário a respeito em seu modesto jornal.»

 

L.G.

 

Resposta:

 

Respondemos-lhe com muito boa vontade, conquanto com atraso por motivo de tempo e espaço.

Antes de mais nada, uma precisão: nossas posições (“integristas e, por isso, discutíveis”) não são “nossas”, não são próprias de nós: são as posições constantes da Igreja, a qual, em matéria de fé, é tão “integrista” quanto nós, e não pode deixar de sê-lo, porque recebeu o encargo não de modificar a revelação divina (e ainda menos de inventar uma nova), mas de custodiá-la e explicá-la fielmente. Por isso Leão XIII escreve: «o mesmo juízo que o Apóstolo São Tiago profere sobre os delitos no campo moral se há de aplicar aos erros de pensamento em matéria de fé: 'Porque quem observe toda a Lei mas infrinja um só preceito vem a ser réu de todos»; com muito maior razão deve dizer-se isso dos erros de pensamento. Com efeito «[. . . ] quem não dá seu assentimento, ainda que seja em um só ponto, às verdades reveladas por Deus, perdeu a fé, já que se nega a submeter-se a Deus, Verdade suma e motivo próprio da fé» (Satis Cognitum).

Examine-se por isso o nosso leitor para ver se se embebeu, sem se dar conta, não de modernismo, mas daquele “espírito modernista” contra o qual põe em guarda Bento XV, porque quem «se contagia dele rejeita de imediato, com náusea, tudo o que tem sabor de antigo».

«Daí que queiramos — prossegue o Papa — que permaneça intacta a conhecida lei antiga: ‘Não modifiqueis nada; contentai-vos com a Tradição’ (Santo Estêvão I); lei que, enquanto por um lado há de observar-se inviolavelmente nas coisas de fé, por outro deve servir também em tudo o que está sujeito a mudança, de modo que também nisto valha em geral a regra: ‘Não coisas novas [mas as mesmas], contudo de modo novo’» (Ad Beatissimi Apostolorum Principis).

Daí que estejamos seguros de não nos equivocar se nos atemos fielmente ao que a Igreja propõe para que o creiamos, seja com seu magistério extraordinário infalível, seja com seu magistério constante ordinário, tão infalível como o primeiro. Em contrapartida, temeríamos muitíssimo desgostar a Deus e já não ser discípulos da Verdade se nos entregássemos a «obedecer aos homens antes que a Deus» (Atos 4, 19) no triunfo atual do “espírito privado” e, por isso, das opiniões humanas. Com efeito, nem sequer ao sucessor de Pedro foi dado o poder de mudar nada do que Cristo revelou, e que a Igreja durante dois mil anos propôs com seu magistério infalível para ser crido, porque «aos sucessores de Pedro se prometeu o Espírito Santo não para que por sua revelação ensinassem uma nova doutrina, mas para que, com sua assistência, custodiassem santamente e expusessem com fidelidade a transmitida por meio dos Apóstolos, ou seja, o depósito da fé» (Vaticano I, Denzinger 1836).

Suposto isto, vamos aos fatos.

O jornal paulino La Domenica (18 de março de 2001), que se distribui aos fiéis nas igrejas católicas, convida a rezar «pelos hebreus e pelos muçulmanos, que crêem no Deus único que se revelou a Moisés, para que possam participar do conhecimento pleno [sic] de Jesus Cristo, revelador do Pai».

Assim se insinua nos católicos a falsa convicção de que aos judeus e aos mouros só falta o conhecimento “pleno” de Jesus, e de que têm algum, ainda que parcial. Mas por acaso é conhecer parcialmente a “Jesus Cristo, revelador do Pai”, e não antes negá-lo, dizer, como fazem os mouros, que Ele não é o Filho de Deus, consubstancial ao Pai, mas tão-somente um profeta (inferior a Maomé, além do mais)? E pode-se dizer que os judeus, que continuam a recusar Nosso Senhor Jesus Cristo como Messias e Filho de Deus, têm d’Ele um conhecimento não “pleno” ainda? Em outras palavras: devemos rezar para que mouros e judeus cheguem ao “conhecimento pleno” de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou para que se convertam a Ele?

Assim o fez sempre nossa Santa Madre Igreja, reproduzindo simplesmente a palavra de Deus: «ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho quiser revelar» (Mt 11, 27), e «Todo aquele que nega o Filho também não conhece o Pai» (I Jo 2, 23). Com efeito, precisamente porque Jesus Cristo é o “Revelador do Pai”, quem não o aceita tem, por isso mesmo, uma idéia falsa e inadequada de Deus. Esta é a situação dos próprios judeus depois da sua rejeição a Jesus Cristo e enquanto persistem no mesmo.

Que marranos e agarenos creiam “no Deus único que se revelou a Moisés” não é doutrina católica: trata-se de um embuste propalado no princípio do século XX pelo célebre apóstata Jacinto Loyson, ex-dominicano, mais tarde carmelita descalço, e por fim secularizado (v. Enciclopedia Cattolica, voz Loyson), e difundida hoje de novo por seus irmãos neomodernistas, que «pervertem a noção eterna da verdade» (São Pio X, Pascendi) também quando nos querem fazer crer que o erro não é erro, mas tão-só uma verdade menos “plena”. Com este sofisma (em boa lógica, dizer “Jesus é Deus” e “Jesus não é Deus” não são de maneira alguma uma verdade “plena” e outra “menos plena”, mas sim uma verdade e uma falsidade, isto é, dois contrários que se excluem reciprocamente); com este sofisma, dizíamos, pretende-se hoje fazer entrar todo o tipo de impiedades, erros e até imoralidades no sagrado recinto da verdade revelada, para que à queda da distinção entre a verdade e o erro se siga fatalmente a queda da distinção entre o bem e o mal.

Para salvar-se do escândalo da hora atual (é imperativo hoje mais que nunca recordar que o julgamento que nos espera é pessoal), para não cooperar com a “autodemolição” da Igreja, não resta outro remédio senão guardar grande fidelidade à revelação divina e imutável, proposta pela Igreja durante dois mil anos para que a creiamos; e isto não é “integrismo”, mas integridade obrigatória, e também, com a ajuda de Deus, reparação pelo pecado de infidelidade que hoje se está consumando diante dos nossos olhos.

 

Paulinus