o triunfo do modernismo sobre a EXEGESE CATÓLICA
21. O ÚLTIMO DOCUMENTO DA «NOVA» COMISSÃO BÍBLICA PONTIFÍCIA
Vimos a «nova exegese» em ação [1]: com a Formgeschichte e a Redaktionsgeschichte, não resta mais nada de certo nos Evangelhos, nem mesmo que Jesus tenha nascido em Belém! E tudo isso sem nenhum fundamento sério, mas somente por «um trabalho de apriorismo, e apriorismo transbordante de heresia» (São Pio X, Pascendi).
É nesse clima de grosseira e generalizada agressão aos próprios fundamentos da Fé, que me dirigia pela segunda vez ao cardeal Ratzinger, Prefeito da Congregação pela Fé, como já disse ao abrir esta série de artigos [2]. Isso poderia parecer ingênuo, dado que o cardeal Ratzinger era também Presidente da «nova» Comissão Bíblica Pontifícia, mas quis tentar tudo. O cardeal Ratzinger me respondeu, como já disse, que o Papa tinha a intenção de intervir pessoalmente sobre a questão bíblica e que, de sua parte, a Comissão Bíblica Pontifícia estava elaborando regras para a exegese católica dos textos sagrados. Após uma longa espera e repetidos anúncios, eis enfim, em novembro de 1994, o livreto de 125 páginas intitulado A interpretação da Bíblia na Igreja.
No domínio da heresia
Creio ter demonstrado que a «nova exegese», partidária da Formgeschichte e da Redaktionsgeschichte, chegou à demolição ab imis da Fé católica partindo da negação, explícita ou implícita, dos quatro dogmas que constituem o insubstituível fundamento de toda exegese que se queira dizer-se ou ser realmente católica.
1. É de fé que a inspiração divina se estende a toda a Sagrada Escritura, em cada uma das suas partes; os «novos exegetas», ao contrário, querem uma inspiração divina limitada somente à «verdade de salvação» ou salvífica, isto é, somente às questões que dizem respeito à fé e à moral.
2. Do dogma da inspiração integral resulta a inerrância absoluta da Sagrada Escritura: porque a inspiração divina se estende a toda a Sagrada Escritura, cada uma das suas partes é isenta de qualquer erro, não podendo Deus ser autor do erro; os «novos» exegetas, ao contrário, restringem ao mesmo tempo a inspiração e a inerrância apenas às verdades de fé e de moral, afirmando abertamente, contra a doutrina constante da Igreja, que há na Sagrada Escritura vários erros, sobretudo científicos, apesar de haver o Magistério, várias vezes, afirmado que a descrição dos fenômenos naturais na linguagem corrente ou como se manifestam aos nossos sentidos não constitui um erro. Com efeito, mesmo hoje os sábios falam, por exemplo, do nascer e do pôr do sol, sem que por isso os taxem de erro [3].
3. A Igreja é a única depositária e intérprete autorizada da Sagrada Escritura; em conseqüência, se o sentido de uma passagem da Escritura foi definitivamente estabelecido, seja pela autoridade eclesiástica, seja por acordo unânime dos Padres, não é permitido aos exegetas afastarem-se desta interpretação para dar uma diferente; os «novos exegetas», ao contrário, reivindicam uma plena «liberdade» de interpretação, atribuem-se até o direito de decidir, em última instância, o verdadeiro sentido da Sagrada Escritura, pondo assim, em contrariedade ao Concílio de Trento e do Vaticano I, a ciência humana acima do Magistério divino da Igreja. É assim que, por exemplo, os «novos exegetas» interpretam hoje as passagens relativas ao Primado e ao pecado original contra o sentido declarado pelo Concílio de Trento e pelo concílio Vaticano I [4].
4. Os Evangelhos são livros históricos - ainda que se trate de um gênero histórico popular e não científico - na medida em que relatam fatos e palavras que realmente aconteceram e foram pronunciadas, garantidos em sua historicidade pelos testemunhos dignos de fé e em particular por dois Apóstolos: Mateus e João, e por dois discípulos dos Apóstolos: Marcos e Lucas. Tal é a tradição constante e ininterrupta da Igreja Católica. Os «novos» exegetas, ao contrário, de diversas maneiras e sob diversos pretextos, põe em dúvida a historicidade dos Evangelhos e negam a tradição constante e ininterrupta relativa a seus autores, para atribuir a «redação» dos Evangelhos a desconhecidos que, escrevendo vários anos depois dos acontecimentos que relatam , não são testemunhas oculares nem auriculares, mas simples testemunhas da «fé pascal» da «comunidade primitiva».
Mas a Congregação pela Fé lava as mãos
Está claro que nos encontramos no domínio da heresia. Toda pessoa que tem fé pode assim concluir. Mas não a Congregação pela Fé, à qual está hoje vinculada a «nova» Comissão Bíblica Pontifícia, e cujo Prefeito, o cardeal Ratzinger, é também, de ofício, presidente desta Comissão [5]. E, com efeito, na p. 28 do documento já citado A Interpretação da Bíblia na Igreja, lê-se: «Não temos aqui a pretensão [sic] de tomar posição sobre todas as questões que são tratadas na Bíblica como, por exemplo, a teologia da inspiração». A «pretensão»? Aqui se trata de um dever. De um dever preciso, urgente e muito grave. A teologia católica da inspiração é renegada pelos «novos exegetas», que fazem sua a undécima tese modernista condenada pela Igreja no decreto Lamentabili, e a Comissão Bíblica Pontifícia, presidida pelo Prefeito da Congregação pela Fé, como Pilatos, lava as mãos?
Não é possível supor que o cardeal Ratzinger e a «nova» Comissão Bíblica Pontifícia ignorem a demolição da Fé operada obstinadamente por uma exegese que só tem de «católica» e de «científica» o nome. Com efeito, lê-se nesse documento, na p. 27, que os «adversários da exegese científica [sic!] [...] acentuam que a exegese científica tem por resultado provocar dúvidas e perplexidades sobre vários pontos até então indiscutivelmente admitidos, e que forçam certos [?!] exegetas a tomas posições contrárias à fé da Igreja sobre questões de grande importância, como a concepção virginal de Jesus, seus milagres e até sua ressurreição e sua divindade». E que responde a «nova» Comissão Bíblica Pontifícia a essas sacrossantas objeções, que ela não pode negar e que, de fato, não ousa negar? Responde impondo inflexivelmente... a Formgeschichte: o «método histórico-crítico é o método indiscpensável» (p. 30); «os exegetas devem [sic] utilizar o método histórico-crítico» (p. 94); «a própria natureza dos textos bíblicos exige que se continue para os interpretar, a utilizar o método histórico-crítico» (p. 119, que é a «Conclusão»). E por «método histórico-crítico» se entende não a verdadeira arte crítica, mas este «artifício qualificado pelo nome de alta critica» já claramente condenado por Leão XIII [6].
O equívoco
É preciso notar que aqui se brinca com o equívoco. Na página 30, afirma-se que o método histórico-crítico é «indispensável» e isso pela seguinte razão: porque a Sagrada Escritura é «Palavra de Deus em linguagem humana», «sua correta compreensão, não somente admite, como também necessita a utilização desse método». Explicação inatacável se se tratasse de verdadeira e sadia critica. Mas o fato é que a «nova» Comissão Bíblica Pontifícia, por «método histórico-crítico» entende não a verdadeira, mas a falsa critica, não a critica sã, mas sim o criticismo insensato, nas duas últimas versões que assumiu com a Formgeschichte e Redaktionsgeschichte.
E isso foi claramente dito logo após, ao ser esboçado a «História do Método: (pp.30-31). Parte-se (para mostrar que pertence à «tradição») de uma alusão inicial a Orígenes, são Jerônimo e santo Agostinho (que não conheceram a Formgeschichte e a Redaktionsgeschichte e que, se as tivessem conhecido, teriam combatido como heréticas) e se chega aos protestantes Dibelius e Bultmann, que inauguraram a Formgeschichte «na exegese dos sinóticos».
Admite-se que «a Forrngeschichte muitas vezes suscitou sérias reservas. Mas - continua o texto imperturbavelmente - este método em si mesmo [?] teve por resultado manifestar [como? por revelação do alto, dado que não se pode absolutamente demonstrá-lo?] mais claramente [?] que a tradição do Novo Testamento tem sua origem e tomou sua forma na comunidade cristã ou Igreja primitiva, passando, [ouçam bem!] da pregação do próprio Jesus à pregação que proclama que Jesus é o Cristo»: afirma-se, portanto, que essa última pregação é substancialmente diferente da «pregação do próprio Jesus»: não teríamos no Evangelho, como a Igreja sempre ensinou, a «pregação do próprio Jesus» (não pela materialidade das palavras, entenda-se, mas pelo sentido que Ele exatamente lhes deu), mas teríamos a «pregação que proclama que Jesus é o Cristo», pregação que «teve sua origem», isto é, foi criada pela «comunidade cristã ou Igreja primitiva». «À Forrngeschichte - continua o documento - veio se juntar a Redaktiongeschichte que procura fazer aparecer a contribuição pessoal de cada evangelista e as orientações teológicas que guiaram seu trabalho de redação. Com a utilização deste último método, a série das diversas etapas do método histórico crítico tornou-se mais completa [...]. Assim se tornou possível uma compreensão mais clara da intenção [?] dos autores e redatores da Bíblia, assim como da mensagem dirigida por eles [e não por Nosso Senhor Jesus Cristo] aos primeiros destinatários. O método Histórico-crítico, conseqüentemente, adquiriu uma importância de primeiro plano».
Não há dúvida possível: O «método histórico-crítico» que seria «indispensável», que os exegetas «devem utilizar», os quais «a própria natureza dos textos bíblicos exige que se continue a utilizar» não é senão a falsa crítica ou criticismo: a Formgeschichte ou «história das formas», revista e corrigida parcialmente na Redaktionsgeschichte ou «história da redação», que são os dois últimos sistemas imaginados pelo protestantismo liberal ou racionalista e fundados sobre a negação do dogma católico, em particular o da inspiração divina e da inerrância que dai resulta, da historicidade dos Evangelhos e da autoridade do Magistério [7]. A «nova» Comissão Bíblica Pontifícia, sob a presidência do cardeal Ratzinger, recomenda fervorosamente, se não impõe, aos exegetas católicos, esse mesmo racionalismo bíblico contra o qual Leão XIII instituiu ( 902) a verdadeira Comissão Bíblica Pontifícia! [8].
Alta crítica = Alta fantasia
Em seguida vêm os «Princípios» e a «Descrição» do «método histórico-crítico».
A «critica literária - pode-se ler - se esforça, portanto, [depois da critica textual] por indicar o inicio e o fim das unidades textuais, grandes e pequenas, e de verificar a coerência interna dos textos. A existência de dobras, de divergências inconciliáveis e de outros indícios manifesta o caráter compósito de certos textos, que são, então, divididos em pequenas unidades, das quais se estuda a eventual dependência a fontes diferentes». É O bisturi do criticismo ou crítica «divinatória» ou «alta crítica» que, à base de critérios internos, unicamente, isto é, extraídos do exame do texto, e ajudada por uma grande fantasia, disseca os textos sagrados e os reduz a gosto, sem nenhuma consideração pelos dados externos, históricos, objetivos, fornecidos pela tradição, pela arqueologia, pela filosofia e por outras ciências auxiliares. Claro está que, com tal «método», tudo se pode discutir e pôr em dúvida, até o fato de que Jesus tenha nascido em Belém, apesar de que o atestem o texto sagrado e uma tradição ininterrompida!
Mas a «nova» Comissão Bíblica Pontifícia, sob a presidência do prefeito da Congregação pela Fé, assegura que «se trata de um método crítico porque utiliza critérios científicos os mais objetivos possíveis [sic!]». «Artifício qualificado de alta critica - como o definiu, ao contrário, Leão XIII em Providentissimus Deus - segundo a qual [crítica] a origem, a integridade, a autoridade de cada livro não deveriam se fundar senão sobre critérios internos, como eles [os racionalistas e os modernistas] dizem. Está claro, ao contrário, que nas questões históricas, tais como a origem e a conservação dos livros, são sobretudo os testemunhos históricos que têm um valor, e que deveriam ser reunidos e estudados com prioridade», O «método histórico-crítico», ao contrário, faz total abstração deles. Dai o subjetivismo mais desenfreado, o arbitrário mais incontrolado. Coisa completamente distinta dos «critérios científicos os mais objetivos possíveis»! Dei um pequeno resumo. A «alta critica», se não é para os que crêem um «apriorismo transbordante de heresia», não é para o verdadeiro crítico uma coisa séria: repito, nela há mais imaginação que conhecimento.
Uma filosofia atéia tomada por guia e regra
O próprio São Pio X não pode deixar de utilizar a ironia para descrever os procedimentos deste «método histórico-crítico», método na realidade dependente do historicismo, porque pressupõe «nos Livros Sagrados uma evolução vital, paralela e mesmo conseqüente à evolução da fé».
«Igualmente, acrescentam, os traços desta evolução são tão visíveis que quase se poderia escrever sua historia.
De fato escrevem eles esta história, e tão imperturbavelmente que se diria que viram com seus próprios olhos os escritores em ação, enquanto que, ao logo dos anos, trabalham para amplificar as Sagradas Escrituras. A crítica textual vem em seu socorro: para confirmar esta história do texto sagrado, empenham-se em mostrar que tal fato, tal palavra, não está no seu lugar, acrescentando outras críticas do mesmo gênero. Poder-se-ia acreditar, na verdade, que construíram certos tipos de narrações e de discursos sobre os quais julgam o que está ou o que não está fora do lugar. [...] Ao escutá-los falar dos seus trabalhos sobre os Livros Sagrados, graça aos quais puderam descobrir nestes tantas coisas defeituosas, pareceria realmente que nenhum homem antes deles as folheou, que não houve uma multidão de doutores, infinitamente superiores a eles em gênio, em erudição, em santidade que os perscrutassem em todos os sentidos: os quais doutores, longe de encontrar o que censurar, redobravam. ao contrário, à medida que os examinavam mais profundamente, em ações de graças à bondade divina, que se dignou falar aos homens deste modo. É que, infelizmente, eles não tinham os mesmos auxiliares de estudos que os modernistas, que têm como guia e regra uma filosofia vinda do agnosticismo, e eles próprios como critério. (Pascendi).
E o documento da «nova» Comissão Bíblica Pontifícia, ao contrário, a titulo de «avaliação» (pp. 34-36) do «método histórico-crítico», afirma, «é um método que utilizado de maneira objetiva [?!], não implica em si nenhum a priori [filosófico]». São Pio X já respondeu: «Parece-nos ter exposto bastante claramente o método histórico dos modernistas. O filósofo abre a caminhada, segue o historiador, depois, por ordem, a crítica interna e a critica textual. E como o próprio da causa primeira é deixar sua virtude em tudo o que segue, é evidente que não estamos aqui em face de uma crítica qualquer, mas sim, agnóstica, imanentista, evolucionista. E por isso que qualquer um que a abrace e a empregue faz profissão, por isso mesmo, de aceitar os erros que ai estão implicados e se põe em oposição à fé católica» (Pascendi).
O próprio documento da «nova» Comissão Bíblica Pontifícia, fruto da «nova exegese», está ai para dar inteira razão ao santo Pontífice.
Mas, para a «nova» Comissão Bíblica Pontifícia, «o método teve por resultado permitir um novo acesso à Bíblia, mostrando [mas não demonstrando] que esta é uma coleção de escritos que, na maioria das vezes, sobretudo para o Antigo Testamento [mas também para o Novo], não são obra de um autor único, mas conheceram uma longa pré-história. inextrincavelmente ligada à história de Israel ou à da Igreja primitiva». Esta «longa pré-história», não decorre, particularmente para os Evangelhos. de qualquer dado histórico, objetivo, mas somente do a priori da «evolução vital [dos Livros Sagrados] paralela e mesmo conseqüente à evolução da fé», da qual fala são Pio X, e que é a perversão modernista da noção católica de «tradição».
Certamente - admite a «nova» Comissão Bíblica Pontifícia - o método histórico-crítico tem também seus «limites» (e quem não os tem neste mundo?), mas somente «porque se limita à pesquisa do sentido do texto bíblico nas circunstâncias históricas da sua produção [eis tudo!]... No entanto, este método contribuiu para a produção de obras de exegese e de teologia bíblica de grande valor». Quanto a essas obras, tive a ocasião de comentar uma delas: a de Fabris. que recebeu a aprovação da La Civilta Cattolica [1] e essa é suficiente para medir o «grande valor» das obras produzidas pelo «método histórico-crítico»!
Terrorismo ideológico
E a exegese católica? A exegese fundada sobre os dogmas da inspiração integral e, portanto, da inerrância absoluta da Sagrada Escritura, a exegese que tem no Magistério infalível da Igreja um guia seguro que a preserva dos caminhos errados e a luz que a impede de tatear na obscuridade? A exegese católica é de agora em diante considerada morta e enterrada: «Todos aqueles que adquiriram uma formação séria nesse domínio [da falsa crítica] consideram de agora em diante impossível [não se volta atrás!] um retorno a um estágio de interpretação pré-critica [sic!] que eles consideram não sem razão [ipse dixit!] nitidamente insuficiente» (p.26).
É o velho sistema modernista da difamação gratuita, do terrorismo ideológico, tão bem descrito por são Pio X: «só se pode estar profundamente surpreso pelo valor que lhe dão certos católicos. Para isso há duas causas: de uma parte, a aliança estreita que foi feita entre os historiadores e os críticos dessa escola, acima de todas as diversidades de nacionalidade e de religião; de outra parte, entre esses mesmos homens, uma audácia sem limites; quando um deles abre a boca, os outros, a uma voz, o aplaudem, gritando pelo progresso da ciência; se alguém tem a infelicidade de criticar uma ou outra de suas novidades, por monstruosas que sejam, em fileiras maciças caem sobre ele; quem a nega é tratado de ignorante, quem a abraça e a defende é elevado às nuvens. Iludidos assim, muitos vão a eles que, se se dessem conta das coisas, recuariam de horror» (Pascendi).
Modernismo hoje, como ontem: quem não quer passar por ignorante, rebaixado a estágio «pré-crítico» da exegese, não tem senão que se alistar entre os amadores da Formgeschichte e da Redaktionsgeschichte. E as declarações do Magistério constante da Igreja? E as graves críticas dirigidas a este «método» pelos autores católicos e mesmo não-católicos? [9]. Ora, tudo isso pertenceria também a um estágio agora ultrapassado: «A confrontação da exegese tradicional com uma abordagem cientifica que, nos seus começos, fazia voluntariamente abstração da fé e às vezes até a ela se opunha, foi certamente dolorosa; na seqüência, porém, ela se revelou salutar [o quê? a confrontação ou a abordagem?]; uma vez liberada dos preconceitos extrínsecos [trata-se, então, da abordagem] permitiu uma compreensão mais exata da verdade da Sagrada Escritura» (p.35).
Claro, a afirmação é fácil: a saliva e a língua não conhecem obstáculos. Mas o pior é que esses «preconceitos» e, portanto, a abstração deliberada da Fé e mesmo a oposição a esta, não são de modo algum «extrínsecos» à abordagem dita «cientifica» mas, ao contrário, tão intrínsecos que, sem eles (esses preconceitos), não há Formgeschichte e conseqüentemente - podemos afirmar com são Pio X - «quem a abraça [esta abordagem] e a emprega, faz profissão, por isso mesmo, de aceitar os erros que estão aí implícitos e se coloca em oposição à fé católica». A «nova exegese» em ação o confirma amplamente. A menos que não se queira pretender que «uma compreensão mais exata da verdade da Escritura Santa» deve comportar a negação de verdades fundamentais, «como a concepção virginal de Jesus, seus milagres e até sua ressurreição e sua divindade», além de «dúvidas e perplexidade sobre inúmeros pontos, até então, indiscutivelmente admitidos» (p.27), começando pelo nascimento de Jesus em Belém!
Quanto ao «caráter científico», não vejo como poderia prevalecer um método que - segundo são Pio X - não é senão «um trabalho de apriorismo, e de apriorismo transbordante de heresias», e que não considera nenhum dos dados históricos e objetivos fornecidos por uma tradição ininterrupta, nem as mais recentes confirmações fornecidas pela arqueologia, a filosofia e a história [10], como a última descoberta do fragmento do papiro na sétima gruta de Qumram (7Q5).
Não nos estendemos mais porque, com todos esses erros e essas besteiras (como a exegese «feminista» pp. 59ss.), não terminaríamos nunca. O que expusemos aqui basta para mostrar que à agressão do dogma católico, a «mova» Comissão Bíblica Pontifícia responde por um discurso ... sobre o método, dizendo que é mais posição em favor desse método que está na origem dessa agressão contra a Fé.
Conclusão
Uma árvore má não pode dar bons frutos. Na verdade, não seria necessário esperar outra coisa dos vinte amadores do «criticismo» que compõem a «nova» Comissão Bíblica Pontifícia, e não se pode também ser tão ingênuo a ponto de esperar qualquer coisa de boa das autoridades que foram escolhidas e instaladas nesse lugar. Não resta senão a fé (heróica em tais circunstâncias, porém mais meritória) no «non praevalebunt». Mesmo nos tempos mais duros, a Providência não abandona a Santa Igreja de Deus e a assiste - não deixando prevalecer a má vontade humana - com essa assistência puramente negativa, que nos preserva somente da imposição formal do erro. E, com efeito, mesmo nesse «documento» da «nova» Comissão Bíblica Pontifícia, que queria o atestado de óbito oficial da exegese católica, com a assinatura e o selo do papa atual, encontra-se uma preciosa indicação: «Na nova confirmação que lhe foi dada após o Vaticano II, a Comissão Bíblica Pontifícia não é órgão do Magistério, mas uma comissão de especialistas ... » (p. 22). Deo gratias! Permaneçamos, pois, na espera da palavra do Magistério infalível da Igreja, palavra que virá - é de fé - e que porá fim a este desvio tão assustador e escandaloso.
Francesco Spadafora
Notas:
[1] SimSimNãoNão de outubro de 1996;
[2] SimSimNãoNão de dezembro de 1994
[3] Leão XIII Providentissimus Deus e Bento XV Benedictus Deus.
[4] SimSimNãoNão de maio de 1995 e SimSimNãoNão de abril de 1995.
[5] SimSimNãoNão de maio de 1996.
[6] SimSimNãoNão de julho de 1996.
[7] SimSimNãoNão de novembro de 1995.
[8] SimSimNãoNão de fevereiro de 1995.
[9] SimSimNãoNão de novembro de 1995.
[10] SimSimNãoNão de fevereiro de 1995.