o triunfo do modernismo sobre a EXEGESE CATÓLICA

20. A NOVA EXEGESE EM AÇÃO

 

Da teoria à prática

Em 1983, a «nova» Comissão Bíblica Pontifícia aprovou, como já vimos [1], o documento De Sacra Scriptura et Christologia (Sagrada Escritura e Cristologia), no qual, para vir em ajuda dos católicos «muito perturbados», qualifica como questão ainda aberta a historicidade dos Evangelhos, historicidade que, bem ao contrário, não somente é certa para todo crítico honesto, mas é também, para o fiel, uma verdade de fé divina e católica transmitida pela Igreja de modo ininterrupto há 20 séculos.

Isso não basta. A «nova» Comissão Bíblica Pontifícia, ela mesma, desfere oficialmente os primeiros golpes de enxada nessa verdade de fé divina e católica: o documento fala de «historicidade mais ou menos densa» das narrações evangélicas [2] e põe em guarda contra o risco de se «admitir com demasiada facilidade a historicidade de todos os detalhes em certos relatos evangélicos» [3].

Onze anos mais tarde, em novembro de 1994, o cardeal Ratzinger estabelecerá que a «nova» Comissão Bíblica Pontifícia «não é [mais] um órgão do magistério, mas uma comissão de especialistas» [4]. Portanto, a Comissão Bíblica Pontifícia, fundada por Leão XIII e considerada por São Pio X igual às outras congregações romanas, não existe há anos. Mas quem sabe disso? A maioria dos fiéis, na ignorância, continuou e continuará a atribuir autoridade a essa simples «Comissão de especialistas» [em exegese modernista] que lhe usurpa o nome.

 Nesse mesmo ano de 1983. aparece na Itália a obra Jesus de Nazareth - Histoire et interprétation [5] de Dom Rinaldo Fabris, antigo aluno do Instituto Bíblico Pontifício, professor de Sagrada Escritura no Seminário de Udine.

Grande surpresa entre o clero italiano, com enormes perplexidades. Alguns, exprimindo sua indignação, perguntam ao professor Fabris: «Diga-nos, claramente, se o senhor admite a historicidade da Ressurreição de Jesus e se o senhor crê nela?» No entanto, quem condenará Fabris? Não serão, certamente, essas autoridades que põem sua confiança na «nova» Comissão Bíblica Pontifícia, cujo documento representa, para a obra de Fabris, o que a teoria é para a prática.

Uma surpresa ainda maior

Com efeito, a surpresa aumenta: no dia 21 de abril de 1984, a Civilta Cattolica, num artigo do padre Giuseppe De Rosa, jesuíta, faz o elogio do livro de Fabris. O padre De Rosa garante: Trata-se de um trabalho meritório, conduzido cientificamente, que preencheria na Itália uma verdadeira lacuna.

Escutemos o padre De Rosa: «Concretamente, quais são os resultados de dois séculos de pesquisas histórico-críticas sobre Jesus e seus Evangelhos? O livro de Dom Rinaldo Fabris, Jesus de Nazareth - Histoire et interprétation, tenciona, precisamente, fazer um "balanço dos resultados da pesquisa histórico-critica desenvolvida sobre os textos evangélicos, em particular durante os últimos 30 anos" (pág. 3) [...] à luz das aquisições cientificas mais seguras da história e da exegese desses últimos decênios. Por isso seu trabalho constitui, a nosso ver, a obra de conjunto mais atual e mais completa sobre Jesus, disponível hoje na Itália.

Dom Fabris ... nos oferece uma «historia» e uma «interpretação» de Jesus. Não nos oferece uma «vida de Jesus», porque de agora em diante lodos os especialistas admitem, em comum, que não é possível escrever uma «vida de Jesus» pois - como observa o padre M. J. Lagrange - "apenas os evangelhos não são suficientes. como documentos históricos, para redigir uma história de Jesus"». E o jesuíta De Rosa remete a J. M. Lagrange, O Evangelho de Jesus Cristo. Brescia 1941. IV (p.VI).

Desnaturação e omissão

Comecemos por esta última afirmação. sobre a impossibilidade de escrever uma vida de Jesus, tese que a Civilta Cattolica pretende avaliar com a autoridade do padre J. M. Lagrange. É preciso ler desde o início o prefácio do padre Lagrange ao seu Evangelho de Jesus Cristo para notar o absurdo que se lhe quer atribuir, sem nenhum fundamento, corrompendo seu pensamento e amputando seu discurso.

Depois de ter louvado as «admiráveis vidas de Nosso Senhor Jesus Cristo escritas em francês», as vidas de Jesus de Fouard, Le Camus, P. Didon, Cl. Fillion em relação à qual «nada se pode encontrar que seja mais completo e de mais palpitante atualidade»; e depois de ter confessado que, «constrangido a consultar as obras já publicadas [ele] teve que renunciar a consultar todas, umas depois das outras, para não ver-se desanimado por encontrar as mesmas coisas já ditas e tão bem ditas», reconhecendo que mina inesgotável constitui o Evangelho, e que nunca se escreve demais a respeito de Nosso Senhor Jesus Cristo, Lagrange exprime assim seu propósito: «Renunciei, portanto, a propor ao público uma vida de Jesus no sentido próprio do termo, para antes deixar falarem os Evangelhos, insuficientes como único documento histórico para redigir uma história de Jesus Cristo como um moderno [a ênfase deveria ser posta sobre essa precisão, mas o padre De Rosa negligenciou o detalhe!] escreveria a história de César Augusto ou do cardeal De Richelieu. mas de um tal valor como reflexo da vida e da doutrina de Jesus, de uma tal sinceridade, de tal beleza, que toda tentativa de fazer reviver o Cristo se calaria diante de sua palavra inspirada. Os Evangelhos são a único vida de Jesus Cristo possível de escrever, na medida em que se chega a bem compreendê-los».

Em resumo: Lagrange, no que lhe diz respeito, quer deixar falar os Evangelhos e oferecer em síntese aos leitores o fruto dos seus trabalhos de exegeta contidos em quatro volumosos tomos sobre cada evangelista mas não tem de nenhum modo a intenção de negar a possibilidade de escrever-se uma vida do Cristo, e ainda menos de negar o valor histórico dos Evangelhos.

Ele diz simplesmente o que se pode ler na «Introdução» ao grande comentário do Evangelho de são Marcos, obra dos padres M. Uricchio-Gaetano e M. Stano, religiosos conventuais: «Trata-se de uma noção particular da história e da historicidade da tradição evangélica: as palavras e os acontecimentos da vida de Jesus são realmente históricos na medida em que aconteceram realmente, foram pronunciados e garantidos na sua historicidade por testemunhos dignos de fé: no entanto. sua apresentação nem sempre segue estreitamente as leis do método histórico moderno. Nessa apresentação não se encontra o gênero histórico cientifico, mas o gênero popular, que relata os fatos realmente acontecidos, sem necessariamente os ligar por uma relação causal» [6].

Tal é a doutrina católica, assim exposta no texto preparado pela Comissão teológica e rejeitado pelos modernistas do Concilio: «Apesar de que os Evangelhos não respondem em tudo (não é necessário que eles respondam) aos critérios de composição histórica em uso entre os especialistas do nosso tempo, no entanto, as palavras e os fatos que relatam, sob inspiração do Espírito Santo, foram escritas conformes à verdade, segundo o testemunho daqueles que, "desde o começo viram pessoalmente e foram ministros da palavra" (Lc. 1, 2ss.)».

Somente truncando a frase do padre Lagrange é que o jesuíta De Rosa pode fazer dele um cúmplice na negação do valor histórico dos Evangelhos.

O tom arrogante do «crítico»

Fabris é categórico: afirma com tom arrogante, não tem dúvidas, não as admite, mesmo se está no caminho errado. Todo o livro é assim: é sempre e somente Fabris que afirma, «julga e condena» ... como lhe parece melhor. Por exemplo, pp. 56 ss: «O método dito da "história das formas" oferece critérios já experimentados. [?] É possível [sic] reconstruir a situação histórica das primeiras comunidades no quadro das quais se aperfeiçoaram essas "formas" literárias que se encontram hoje nos evangelhos». Não é possível, na realidade, «reconstruir» seja o que for, porque não temos, fora dos nossos textos evangélicos, qualquer documento da mesma época. E ainda: «O método da "história da redação" oferece critérios já experimentados [sic] para cercar a perspectiva própria a cada evangelista».

Sempre assim: vago, genérico e ao mesmo tempo categórico.

Mas então, onde nasceu Jesus?

Examinemos um pouco Dom Fabris, com olho «crítico». Examinaremos apenas alguns exemplos, porque necessitaríamos um volume ainda mais grosso que o de Dom Fabris se quiséssemos seguir e criticar passo a passo tudo o que ele diz, tanto que é loquaz.

P.91: «A origem davídica de Jesus é assegurada por intermédio de José, filho de Davi, do qual se relata igualmente a árvore genealógica remontando até Abraão (Mt) e mesmo até Adão (Lc). Mateus a confirma por uma citação bíblica, retomada de Miquéias 5, 1 e 1 Sam. 5,2; [portanto, nada de profecia!]: Lucas, porém, o recoloca no aviso que fazem os anjos aos pastores: "Hoje vos nasceu na cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor" (Lc. 2, 11)». Parece, no entanto, ter escapado a Fabris que o mesmo Lucas, nos versículos 4-5 do mesmo capítulo 2 havia já falado claramente da «cidade de Davi, chamada Belém», alvo da viagem de José «porque ele era da casa e da familia de Davi». Estranho esquecimento, que parece confirmar que os «novos exegetas» têm mais prática em textos da «crítica» racionalista que em textos sagrados.

Notemos, agora, o estilo do critico: «Para justificar [?] este nascimento de Jesus em Belém, Lucas o põe [sic] em relação com um celebre [sic] recenseamento romano na Palestina, ligado ao nome de P. Sulpicius Quirinius (Lc. 2, 1-2). Para Mateus, ao contrário, é natural que Jesus lenha nascido em Belém, porque José mora ai [?! e não se encontrava ai?] em companhia de Maria sua esposa. O primeiro evangelista, em contrapartida [?] deve por em acordo essa tradição com a origem bem conhecida de Jesus, chamado o "nazareno" (Mat. 2, 23)». Ainda uma vez me pergunto se esses amadores da exegese «científica» alguma vez tiveram nas mãos os Evangelhos. Não há lugar, aqui, para polêmica. Basta ler os dois Evangelhos, de Lucas e de Marcos, para constatar que não há nenhuma contradição entre o nascimento de Jesus em Belém e a escolha de residir em Nazaré, depois do retomo da Santa Família do Egito.

O jesuíta De Rosa sustenta, muito seriamente: «houve ao contrário, sob o ponto de vista histórico, uma incerteza sobre seu [de Jesus] lugar de nascimento [Belém na Judéia ou Nazaré?] devida ao fato de que a tradição [?] oscila entre duas pequenas cidades, e sobretudo devida ao fato de que a tradição, que faz nascer [sic] Jesus em Belém está conciliada com preocupações cristológicas e catequéticas que poderiam atenuar com isso seu valor histórico» [7]. E porque isso? Somente porque, como já notava o cardeal Siri, «Segundo certa corrente da [falsa] crítica, não se pode nunca pregar sem alterar» [8].

Mateus em contradição consigo mesmo

Nas paginas 109 e seguintes, Fabris fala explicitamente de «contradição redacional» entre Mt. 3, 13-17, onde «João Batista reconheceria [sic] a identidade messiânica de Jesus, confirmada pela teofania e pela voz celeste depois do batismo», e Mt. 11, 2: «São João Batista, na prisão, envia seus discípulos a Jesus para lhe perguntar: Tu és aquele que deve vir ou devemos esperar outro?». Como se a exegese católica não tivesse jamais afrontado e resolvido esse pequeno problema. Leiamos somente o que escreve a respeito Mons. Garafalo: «Prevendo que seu fim estava próximo, o precursor de Jesus quer orientar definitivamente para Ele seus discípulos. Reconheceu e proclamou a dignidade e os poderes de Cristo (3, 11-12; 14-16; Jo 1, 29-34) e quer que o próprio Jesus triunfe sobre essas últimas resistências de seus discípulos, muito apegados a seu mestre e um pouco ciumentos da popularidade do novo mestre. Uma declaração pessoal de Jesus era mais importante do que o modo pelo qual ele mostrava que queria cumprir seu dever de Messias, que não encontrava apoio na expectativa da grande massa dos judeus [...]. João Batista faz sua uma dúvida que podia ter um efeito perigoso sobre seus discípulos» [9].

Portanto, nenhuma «contradição redacional». Eram os discípulos que duvidavam, não São João Batista. Mas - como já vimos e ainda veremos - é uma outra característica da «nova exegese» descobrir «contradições» lá onde não se encontra nem sombra.

Evangelho ou romance?

Na página 107 lemos que «não é improvável que Jesus, depois do batismo recebido por João no Jordão, tenha feito parte desse grupo de discípulos». O romance substitui os Evangelhos! E inversamente, os Evangelhos são rebaixados ao nível do romance. Assim se passa com todas as páginas consagradas a João Batista e a Jesus de Nazaré (pp. 100-121): «A cenografia [sic] é modelada [sic] sobre os precedentes bíblicos das visões-audições dos quais são destinatários os personagens chamados a representar um papel no plano de Deus: patriarcas e profetas» (p.111). Nega-se, portanto, todo valor histórico à narração evangélica da aparição celeste, com a voz do Pai e a descida do Espírito Santo. E o autor procede sempre assim: elimina rapidamente todo sobrenatural, sobre os passos da Formgeschichte racionalista. E o padre De Rosa lhe faz eco em La Civilta Cattolica: «Mas que sentido deu Jesus ao seu batismo?» [10]. «Para responder a essas interrogações - responde Dom Fabris - não se pode apelar à narração evangélica que atribui [sic] a Jesus a visão do céu aberto, de onde desce sobre ele o Espírito e a voz que o proclama filho amado e fiel». E porque não? Porque «uma tal reconstrução da experiência, além de projetar sobre o plana psicológico o que é linguagem simbólico-religiosa emprestada da Bíblia, cai na mesma simplificação que fazem do batismo de Jesus o momento da sua tomada de consciência messiânica ou profética, numa espécie de extase mistico ou exaltação espiritual.» (111).

O batismo, somente o batismo, aconteceu realmente, e «representa uma volta decisiva no percurso histórico de Jesus», mas somente porque «Jesus vê no movimento dos pecadores que recebem o perdão o sinal dos novos tempos». Isso é tudo. «Por isso, após a captura de João, Jesus começa sua atividade autônoma». Parece, mais uma vez, escapar a Fabris que os primeiros capítulos de são João nos dizem, ao contrário, que a atividade «autônoma» de Jesus havia já começado antes, na Judéia e em Caná da Galiléia.

Redução a quase nada

O jesuíta De Rosa, em La Civilta Cattolica, sintetiza assim a posição (herética, é preciso dizer) de Fabris: «Os dois pontos sobre os quais não há historicamente qualquer dúvida possível são a pregação do "reino de Deus", e a morte sobre a Cruz. Esses pontos constituem - para dom Fabris - as coordenadas segundo as quais é preciso julgar a historicidade das palavras e dos fatos atribuídos a Jesus nos Evangelhos. Para ele, pode-se considerar historicamente digno de fé o que está na linha desses dois fatos, no sentido de que ou isso explicita e torna concreto o anúncio do reino de Deus, ou explica e justifica a condenação à morte» [11].

«Por conseqüência, atualmente (amanhã, quem sabe?) - escreve Fabris (p.138) - no nível da critica histórica, torna-se forçoso reconhecer nas controvérsias evangélicas um nó histórico, representado na maioria das vezes pelo julgamento que resume a posição de Jesus».

Assim, p.120, para comentar Lucas 17, 20-21, Fabris escreve: «O quadro redacional em forma de diálogo é típico do terceiro evangelista, do mesmo modo que sua dificuldade em demonstrar as expectativas a respeito da manifestação do reino de Deus deriva da sua mentalidade (cf Lc. 19,11; At. 1, 6). No entanto, não se pode negar que na base do texto de Lucas haja uma frase de Jesus que chama a menção sobre a qualidade do reino de Deus». Escrever isso é reduzir gravemente a historicidade do Evangelho.

À luz das «mais seguras aquisições científicas»

Em Mt. 26,29, Jesus diz aos seus discípulos durante a última Ceia: «Eu vos digo. não beberei mais do fruto da videira até o dia em que o beberei de novo em vossa companhia no reino de meu Pai».

Fabris comenta (p.122): «Essa fórmula evangélica (Mt 26, 29) posta nos lábios de Jesus ... poderia ter sido sugerida pelo clima da ceia pascal, carregada de expectativas escatológicas. Mas, dado que é difícil estabelecer com certeza o caráter pascal da última Ceia de Jesus, é preferível ver aí expressada sua esperança diante da perspectiva da separação dos seus discípulos, na iminência da tragédia final». E porque, então, seria «difícil» estabelecer com certeza o caráter pascal da última Ceia? Era realmente uma Ceia pascal: os Evangelhos, a Tradição, toda a exegese católica o atestam! Mesmo o protestante J. Jeremias forneceu 20 argumentos para demonstrar que se trata de uma Ceia pascal. Mas para os «novos exegetas», existe alguma coisa que se possa «estabelecer com certeza» na vida de Jesus?

P.135: «Os adversários de Jesus: os fariseus, os saduceus e os anciãos. Estes dois últimos grupos, depois do ano 70, quando a polêmica entre o movimento cristão e o judaísmo oficial se torna mais agudo, não têm mais esse papel de guias influentes que assumem, ao contrário, cada vez mais, os fariseus». Para a exatidão histórica: os Saduceus foram completamente exterminados pelos romanos no ano 70, porque eram ricos e influentes. Fabris parece ignorá-lo. E, no entanto, o jesuíta De Rosa nos assegura que escreveu «sob à luz dos mais seguros conhecimentos científicos da história e da exegese».

P. 148: «O Evangelho de João, no diálogo de Jesus com a samaritana a respeito da legitimidade do lugar de culto em Jerusalém ou sobre o monte Garizim, onde se ergue o templo cismático, força-o a dizer: - os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade (Jo. 4, 23)». «Força-o a dizer»? Então não se trata de um texto autêntico?

«O processo romano» (pp. 295-301). Jesus é conduzido a Pilatos: isso - escreve Fabris - «é também confirmado pelas informações fragmentárias extraevangélicas (Tácito). Na realidade, só existe uma «informação extraevangélica»: a afirmação clara por Tácito nos Anais (XV,44) que o Autor da religião cristã havia sido condenado à morte por Pôncio Pilatos sob o império de Tibério: «Auctor nominis eius Christus Tiberio imperante per procuratorem Pontium supplicio adfectus est». Isso também a exegese de Fabris, conduzida «à luz dos mais seguros conhecimentos científicos da história e da exegese» parece ignorar.

Na síntese do conteúdo dos evangelhos: «Pilotos interroga Jesus que se cala ou responde com reticências». Isso não é absolutamente verdadeiro. A menos que se queira eliminar o Evangelho de São João que completa os sinóticos. A exegese deve justamente ser feita dando o primeiro lugar ao quarto Evangelho.

Como de costume, Fabris, para negar a credibilidade da narração evangélica, fala da «preocupação dominante na redação evangélica do processo romano, que é mostrar que Jesus é absolutamente inocente sob o ângulo político». Mas Ele não o era, realmente?

«A proposta de uma troca com Barrabas entra também nessa perspectiva apologética». E Fabris negará, em conclusão, a historicidade do episódio de Barrabas e de Jesus enviado por Pilatos a Herodes: «certas dificuldades de caráter intrínseco comprometem a credibilidade histórica dessas narrações». No entanto, «pode-se admitir que na base da versão dos fatos fornecidos pelos Evangelhos havia um nó histórico crível». Sempre essa redução ao «minimum».

Pilatos e a historicidade dos Evangelhos

Fabris chega a esta concessão magnânima graças à «convergência substancial» que encontra entre os Evangelhos e as fontes judaicas. Como falar de «convergência»! Há, ao contrário, uma nítida oposição. Eis o que escreve a esse respeito Josef Blinzler: «A imagem de Pilatos que nos vem das narrações evangélicas da Paixão parece estar em oposição irremediável com a que Philon e Flavius Josephe nos dão de seu caráter e dos seus atos. Se Pilatos foi realmente, como sustentam esses autores, um monstro cruel e sanguinário, é difícil crer que tenha tido escrúpulos para enviar ao cadafalso um provinciano insignificante como Jesus; e se era verdadeiramente de uma brutalidade também inflexível, custa-nos compreender como finalmente ele se deixou intimidar e induzir a pronunciar uma condenação. Chega-se, portanto, a afirmar a não-historicidade da representação evangélica» [12].

Essa «conclusão», naturalmente, é avançada pelos especialistas judeus modernos, desejosos de dar unicamente a Pilatos a responsabilidade da morte de Jesus. Assim J. Klausner escreve: «Todas as informações dadas sobre Pilatos por Josephe e Philon descrevem-no como um tirano sanguinário e cruel, para quem a execução de um judeu da Galiléia não tinha mais importância do que matar uma mosca... No caso de Jesus, ao contrário, ele se teria tornado subitamente um homem indulgente e pacífico, querendo evitar toda efusão de sangue e salvar um justo que vai perder-se exatamente porque é justo? Isso é extremamente improvável. Na realidade, todas as informações sobre a reticência de Pilatos para fazer crucificar Jesus são totalmente anti-históricas» [13]. E Fabris, naturalmente, dá às fontes judaicas esse crédito que ele recusa a nossos santos Evangelhos!

«Pilatos - escreve Fabris - é um homem ambíguo, de duas faces: enquanto é submisso e servil ao imperador e seus superiores - com Vitellius legado da Síria - também é intransigente e arrogante com os súditos da província». E faz dele um covarde profissional (p.299). E conclui, no entanto: «Esse perfil histórico [?] do governador romano, chamado a decidir a sorte de Jesus durante sua administração na Judéia, não diverge de modo nenhum [?] daquele que se quer tirar da narração evangélica da paixão, uma vez estabelecido o gênero literário dos Evangelhos e sua intenção catequística e apologética». Em outras palavras: desde que negada a historicidade dos Evangelhos, porque para Fabris, como já vimos, é impossível - quem sabe porque? - catequizar ou fazer apologética sem mentir ou ao menos sem alterar a verdade dos fatos.

Bem ao contrário, sob o crivo da critica (a verdadeira), são os quatro Evangelhos que se revelam históricos, e é o retrato de Pilatos apresentado por Philon e Josephe que se revela falso, quase uma caricatura. O padre Lagrange, apresentando as obras de Josephe, põe o leitor em guarda contra o fraco senso crítico e a facciosidade do historiador judeu: «Como historiador, ele (Josephe) dá, geralmente, prova de pouco senso crítico, e deixa subsistir em suas compilações várias contradições ... manifesta assim um respeito insuficiente pela verdade, quando esta não está de acordo com suas convicções nacionalistas, seu amor próprio ... » [14]. E em particular sobre o retrato de Pilatos: «Pôncio Pilatos ... pertencia à ordem da cavalaria militar ... teria sido bem pior que Verrès, a se acreditar nos autores judeus desta época, Philon e Josephe. Mas quando eles vêm lhe formular acusações positivas, vê-se que sua apreciação é influenciada por um nacionalismo exacerbado ... Os primeiros cristãos foram, pelo contrário, bem menos severos com ele que os eruditos católicos modernos, muito influenciados pelos textos judaicos» [15].

Para documentação e demonstração completas sobre a não-credibilidade das fontes judaicas e sobre a veracidade do quadro histórico fornecido pelos Evangelhos, recomendo meu «Pilatos» [16]. Lembrarei aqui apenas que a historicidade dos Evangelhos a respeito de Pilatos é confirmada por Tácito que, descrevendo o estado da Palestina, afirma sucintamente: «Sub Tiberio quies» (17); afirmação incompatível com o retrato que Philon e Josephe traçam de Pilatos. Mas Fabris, que segue e aplica a Formgeschichte, fizera sua escolha: ainda uma vez é a historicidade dos Evangelhos que ele sacrifica.

Um milagre!

A crucifixão e a morte de Jesus (pp. 301-309): «Os outros detalhes que na narração evangélica servem de quadro à crucifixão foram também interpretados e relidos no tom catequístico e exortativo, mas isso não prejudica sua credibilidade histórica, mesmo se esta deva ser verificada em cada caso». (p.304) Fabris, como bom modernista, não se dá conta da sua contradição e do seu ridículo. «O sorteio das vestes... é relido também segundo as palavras do Salmo, no qual os adversários estão já seguros da morte do justo e, em conseqüência, tiram a sorte sobre as vestes (Salmo 22, 19)» (p.308). Portanto, no Salmo 22 não se encontra qualquer profecia. E na mesma página: «Para adquirir esta imagem escandalosa da crucifixão de Jesus, os Evangelhos sinóticos lhe sobrepõem [sic] a cenografia [sic] teofânica do "dia do Senhor", juízo de Deus. A morte de Jesus sobrevêm num quadro apocalíptico (Mc. 15, 33; cf. Am. 8, 9); a terra treme e os mortos ressuscitam (Mt. 27, 51-53). Jesus morre depois de ter dado um grande grito. O grito inarticulado de Jesus morrendo torna-se [sic] na tradição [?] que se encontra na base das narrações de Marcos e Mateus, a invocação a Deus com as palavras do "justo" perseguido no inicio do Salmo 22,2. [Portanto, ainda uma vez, nada de profecia]. Lucas a transformou [sic] em uma oração de confiança inspirada no Salmo 31, 6; João colocou [sic] sobre os lábios de Jesus as últimas palavras que exprimem sua perfeita fidelidade à missão recebida» (Jo. 19, 30). E assim por diante, para todos os outros detalhes relatados pelos Evangelistas. A "tradição" torna, Lucas transforma, João coloca sobre os lábios de Jesus ... Nenhuma historicidade nos dizeres e atos de Jesus, mas uma negação arbitrária, completamente infundada, da sucessão real e precisa dos acontecimentos. Um único detalhe escapa a essa hecatombe: a presença aos pés da Cruz da Santíssima Virgem Maria e do discípulo que Jesus amava (p.309). Um verdadeiro milagre!

São João dividido e as «piedosas mentiras» da Igreja primitiva

Na nota 44 (p.309), pode-se ler: «Somente o evangelho de João, que lembra a presença aos pés da cruz do "discípulo que Jesus amava", conta também o detalhe do outro [sic] discípulo que seguia Jesus com Simão Pedro (Jo. 18, 15-16). Essa figura é o modelo e protótipo do "verdadeiro" discípulo que segue Jesus mesmo nas mais perigosas condições». Ao contrário, a identidade do «outro» discípulo com o mesmo João evangelista é incontestável. E depois, esse detalhe é considerado como histórico por Fabris, ou é semente um acréscimo «catequístico»? É realmente essa segunda hipótese que parece ser a certa, considerando a explicação ou exortação final e, sobretudo, esse preconceito que sustenta não ser possível instruir sem inventar.

Soa igual o comentário sobre a «Sepultura de Jesus» (p.310-316): «A narração evangélica atual da deposição da cruz do corpo de Jesus e da sua sepultura leva as marcas de uma releitura cristã sobre o modo catequístico e apologética». É uma idéia fixa da «nova exegese», como já mostramos: as palavras e os fatos teriam sido deformados por «digamos, santa tática» - como diz O cardeal Siri - «quando se diz "palavras de pregação" (ou de catequese, ou apologéticas), significa sempre, para essa corrente exegética, alteração da mensagem original [18].

Que se pode salvar do Cristianismo, uma vez que suas origens são reconhecidas como «piedosas mentiras»? Fabris ignora, talvez, que a Igreja Católica sempre proibiu defender a verdade pela mentira? Bastava-lhe apenas retomar seu velho manual de moral.

Na nota 49, p.313, se lê: «Não está excluído [Fabris não O exclui] que o nome do proprietário do sepulcro no qual Jesus foi deposto tenha se tornado o do protagonista da sua deposição de cruz e da sua sepultura». E assim, enquanto as certezas da Fé se dissolvem em suposições, as suposições pessoais de Fabris tornam-se certezas.

As contradições: uma idéia fixa

«É ainda o primeiro evangelista que lembra o desmaio dos guardas no momento da ressurreição de Jesus, e a tentativa dos chefes judeus de fazê-los calar por meio de uma grande quantidade de dinheiro». E assim - diz Mateus - «essa noticia [da retirada do corpo de Jesus durante a noite por seus discípulos] que eles [os soldados] espalharam se repete ainda hoje entre os judeus» (Mt. 28, 15).

Essa última observação revela a intenção claramente apologética [e, portanto, falsificadora] dessa tradição [?] recolhida pelo evangelho de Mateus [da qual a Igreja nos afirma, ao contrário, que ele é testemunha ocular]. Certas incoerências no plano histórico traem certa artificialidade da passagem». E quais seriam, então, essas incoerências? «Os chefes judeus deixam passar uma noite antes de fazer guardar o sepulcro; só os Judeus se lembram precisamente das palavras de Jesus sobre a ressurreição no fim de três dias, e, para evitar surpresas, vão a Pilotos no dia do repouso sabático e se empenham em assegurar a vigilância escrupulosa do túmulo de Jesus ...» (p.316). Conclusão: Fabris é muito cético a esse respeito.

Ele volta a esse assunto na p.333: «O Evangelho de Mateus se faz o porta-voz dessa polêmica... Para desacreditar essa acusação dos Judeus, o evangelista introduziu [sic] no seu evangelho o detalhe dos guardas, do lacre ... (Mt. 27, 62-66; 28, 11-15). Esses detalhes do Evangelho de Mateus, muito incertos no plano histórico, por suas incoerências e suas contradições com os outros Evangelhos, nada representam senão a tentativa apologética [uma outra "piedosa mentira", portanto] do primeiro século, de refutar a interpretação judaica do sepulcro vazio». Incoerências, contradições com os outros evangelhos: essas acusações são, para os amadores da Formgeschichte, tão freqüentes como gratuitas. Essas pretensas contradições, exageradas «a gosto» [19], mais aumentadas do que é permitido e honesto fazer, ao ponto de encontrar no Evangelho contradições onde existe «uma maravilhosa harmonia de fatos e de intenções, de espírito e de coração» [20], revelam, além de ausência de honestidade intelectual, também e sobretudo ausência de fé nos dogmas da divina inspiração, da inerrância absoluta e da historicidade dos Evangelhos, entre exegetas que, no entanto, ainda se pretendem católicos [21].

A história de Jesus termina ... no sepulcro

Fabris conclui textualmente (p.3 16); «a aventura histórica de Jesus, culminando na tragédia da cruz, conclui, como a de todo homem, numa tumba [e não, como esse mesmo Fabris recita todos os domingos no Credo, com a Ressurreição: "resurrexit tertia die"]. A tradição evangélica [?] não conservou essa lembrança [!] sem adornos legendários [estavam faltando as lendas!] e sem tranfigurações simbólicas [logo, nenhuma veracidade dos fatos narrados!]. Ela criou em volta do sepulcro de Jesus um halo de veneração contida e de espera melancólica». Para Fabris. o único «dado histórico» é a morte de Jesus e a reposição do seu corpo no túmulo. Todo o resto é posto na linha das lendas e dos símbolos.

Assim chegamos ao capítulo 9: «A vitória sobre a morte», pp. 317-352. Nas páginas 320-327: «Os primeiros testemunhos sobre a ressurreição de Jesus» com esta conclusão: «Em resumo, os primeiros e os mais antigos testemunhos sobre a ressurreição de Jesus, nas epístolas de são Paulo, tinham acolhido a realidade desta experiência [!], mas relidos num contexto de fé [deformando os fatos, naturalmente], para daí tirar a significação religiosa e as conseqüências sobre o plano de existência dos indivíduos e da comunidade» (p. 327). Na realidade, os testemunhos de são Paulo não são nem «os primeiros» nem «os mais antigos»; são posteriores ao Evangelho de são Mateus em aramaico e também na versão grega, de onde decorrem a 1a. e a 2a. carta aos Tessalonicenses, escritas em 51-52. É ainda outra idéia fica essa «releitura» na «fé» necessariamente deformando, ela também, os fatos, como a catequese, a pregação e a apologética.

Pp. 327ss: «As narrações pascais dos Evangelhos». P. 327: «Certos episódios, integrados na aventura histórica de Jesus, não somente refletem a perspectiva da sua ressurreição, mas poderiam também representar uma prefiguração da experiência pascal, como a transfiguração (Mc. 9, 2-8), ou uma predatação de cenas pascais, como a promessa feita a Pedro (Mt 16, 17-19) e o encontro noturno com os discípulos sobre o lago da Galiléia (Mc 6, 45-52)», que não tem, na realidade, nada a ver com a Ressurreição [22]. E Fabris continua a lenga lenga: «Para reconstruir o quadro histórico dessas experiências [ainda uma idéia fixa], transcritas sob a forma de narração nos evangelhos, é preciso ter presente no espírito não somente o trabalho redacional, a perspectiva teológica e a intenção catequistica [isso é tudo?] de cada evangelista, mas também a relação eventual entre as diversas tradições subjacentes às diferentes narrações» (p. 328). Resumindo: É preciso levar em conta tudo o que pode servir para excluir os verdadeiros autores dos Evangelhos assim como seu testemunho ocular e auricular da Ressurreição de Cristo.

O Evangelho revirado

E passemos à «narração do sepulcro aberto [pp.329-334] e vazio de Jesus».

Escutemos Fabris: «O sepulcro vazio não é uma prova da ressurreição de Jesus, como alardeiam os evangelhos de Lucas e João [o que é completamente falso]: os discípulos não têm necessidade de verificar que o túmulo de Jesus está vazio para crer na sua ressurreição, anunciada por suas palavras, testemunhadas pela Escritura» (p.332). Aqui o «crítico» Fabris afirma exatamente o contrário do que é nitidamente declarado pelo 4° Evangelho. E a célebre perícope da visita de Pedro e João ao Sepulcro (Jo 20, 1-10), perícope definida por Fabris como «Uma catequese sugestiva dramatizada» (p.331) e, portanto, não verídica, conforme o pressuposto gratuito de que não se pode catequizar sem mentir. Ao contrário, trata-se de uma página sugestiva, é verdade, mas justamente porque o testemunho inatacável, fresco, vivo, revela a testemunha ocular: «No primeiro dia da semana, Maria Madalena vem ao sepulcro bem cedo, estando ainda escuro: ela vê a pedra fora do sepulcro. Então vai correndo encontrar Simão Pedro e o outro discípulo que Jesus amava, e lhes diz: "Levaram o Senhor do túmulo e não sabemos onde o puseram". Pedro partiu, pois, com o outro discípulo para irem ao sepulcro. Os dois corriam, mas o outro discípulo era mais rápido que Pedro e chegou primeiro e tendo se inclinado para olhar, viu as bandagens postas aí, mas não entrou. Simão Pedro, chegando em seguida, entrou e viu as bandagens ali postas: e o lençol que estava sobre a cabeça de Jesus posto, não com as bandagens, mas à parte, enrolado como estava antes. Então, o outro discípulo que chegou primeiro no sepulcro, entrou também. Ele viu e creu. Com efeito, eles não tinham ainda entendido a Escritura, que dizia que Ele devia ressuscitar de entre os mortos» [23]. Com razão, o padre Pierre-Benoit O.P. escreve: «A constatação objetiva e indiscutível do sepulcro vazio é o ponto de partida da fé da Páscoa. O fato tem sua própria consistência e João é um bom testemunho. Se comparamos no detalhe essas narrações - Sinoticos e são João - podemos concluir que João representa uma tradição mais arcaica... mesmo se seu Evangelho foi redigido mais tarde. João apresenta, nos seus estratos profundos, lembranças mais arcaicas que as dos Sinóticos» [24].

O primeiro ato de fé na Ressurreição de Jesus é aquele do discípulo amado, são João: «Ele viu e creu». Ato de fé vindo de uma constatação: os lençóis que tinham envolvido o corpo de Jesus, inclusive o sudário, estavam intactos mas aplainados, não mais contendo o corpo do Senhor: lençol, bandagens e sudário permaneciam tais quais tinham sido enrolados ao redor do corpo e da cabeça de Jesus, na sexta feira à tarde, sob os olhos desse mesmo evangelista; apenas não cobriam mais nada. como se o corpo do Senhor tivesse evaporado.

A fábula da ... Ressurreição e da Ascensão

Pode-se imaginar o desastre que ocorre quando Fabris se põe a falar das «Narrações da aparição de Jesus Ressuscitado» (pp. 334-342). Tomemos por exemplo «A cena dos dois discípulos de Emaús» (p.336ss.). Mesmo o Ressuscitado "relê" as Escrituras como da, profecias do Messias, mas não se trata senão de uma ... invenção literária de Lucas: «A narração de Emaús funde [sic] diversos elementos inspirados nas narrações bíblicas da manifestação de Deus e das histórias da aparição - reconhecimento - desaparecimento de um personagem ou ser divino [aqui Fabris se faz eco de Loisy, corifeu do modernismo]. Todas essas reminiscências são fundidas para criar [sic] um quadro de catequese progressiva [uma catequese que ensina fábulas, e não verdades] que vai do encontro de Jesus na palavra ao reconhecimento do sinal da fração do pão, até o anúncio da fé pascal na comunidade dos discípulos reunidos». Há, no entanto, um pequeno «nó histórico»: «Na base dessa construção [sic] de Lucas se encontra a lembrança de uma [sem mais detalhes] experiência pascal de um discípulo chamado Cleofas, que ocorreu nas cercanias de Jerusalém, em Emaús». E assim por diante.

Páginas tão belas e de uma importância fundamental, como as do episódio dos discípulos de Emaús, que falam do Ressuscitado, convidam-no para a refeição e, logo após tê-lo o reconhecido, retornam a Jerusalém para anunciar aos Apóstolos que eles viram o Senhor e o reconheceram na «fração do pão», são assim maltratadas e esvaziadas de todo valor histórico pela pseudo-crítica. Com conseqüências desastrosas para a Fé: «Há um abismo - escreve Feuillet - entre a leitura deste episódio, que procura tirar uma lição de um acontecimento que aconteceu realmente e a que considera a narração como uma simples construção teológica. No primeiro caso, o espírito está convencido enquanto o coração está comovido. No segundo caso, qualquer que seja o atrativo que decorre da narração, o espirito está perturbado e se faz inevitavelmente perguntas de uma extrema gravidade. A realidade da ressurreição de Cristo sempre teve para os cristãos uma importância vital: ainda que originariamente tivessem ousado elaborar puras invenções didáticas sobre esse tema, não se poderia supor que haveriam inventado o próprio fato» [25].

A Ascensão não recebe tratamento melhor: p.338: «Esta singular cenografia [sic] da ascensão de Jesus é própria de Lucas (Atos 1,10-11) ... Sobre a base de uma tradição que se encontra ilustrada em certas fórmulas injustas do Novo Testamento (1 Tim 36), Lucas criou [sic] um quadro inspirado em modelos da tradição bíblica e judaica, onde certos personagens importantes - Enoc, Moisés, Elias - são elevados ao céu». A Ascensão é sic et simpliciter, negada. E Lucas «não percebe qualquer contradição [é Fabris que a percebe] entre o dia único no qual é concentrada a revelação de Jesus ressuscitado no Evangelho e os "quarenta dias" ou os "vários dias" durante os quais ele apareceu a seus discípulos, segundo a afirmação dos Atos 1, 3; 13, 30». Portanto, os «quarenta dias» são uma invenção de Lucas, devida ao fato de que «na tradição bíblica e apocalíptica em particular, os "quarenta dias" representam o tempo da revelação de Deus que habilita à missão profética». E Fabris continua sobre o mesmo tom nas páginas 339-342.

Uma «revolução» já antiga mas ainda devastadora

Nosso interesse é atraído agora para o parágrafo «A experiência "histórica" da Ressurreição de Jesus» (pp. 342-347).

Depois de ter falado da aparição do Ressuscitado a são Paulo no caminho de Damasco e do fato que seus companheiros «escutam a voz mas não vêem ninguém, ou inversamente vêem a luz mas não ouvem nada» (Atos 9,7; 22,9; 26,14), Fabris continua: «Nessa situação, é inútil e fora de lugar [sic] levantar o problema de saber se as aparições de Jesus ressuscitado aos discípulos foram subjetivas ou objetivas, exteriores ou interiores, espirituais ou físicas. Tal pergunta constitui uma curiosidade tão como aquela de alguém que poria tais alternativas a respeito da experiência de Deus, da sua palavra e do seu Espírito». «Inútil e fora de lugar»? «Curiosidade... vã»? Mas não se trata do fato histórico que está na base da nossa fé? É, talvez, indiferente, para efeitos da fé na Ressurreição corporal de Jesus, que as aparições aos Apóstolos, no lugar de serem, como elas foram, objetivas, exteriores e físicas, tenham sido somente subjetivas, interiores e espirituais? Decididamente, o autor da obra exegética «mais atual e mais completa que se tem hoje na Itália» não sabe o que diz.

Já em 1975 Feuillet, no Osservatore Romano, denunciava «o caráter revolucionário», das «idéias insólitas espalhadas atualmente sobre a Ressurreição» e que querem que o encontro com o Ressuscitado seja «puramente interior»: «A tradição cristã - enfatiza - jamais havia, até hoje, interpretado desta maneira os acontecimentos da história da salvação [...].

É inútil entrar na polêmica. Basta ater-se ao que diz o Novo Testamento. A existência de cristofanias pascais exteriores é afirmada desde as origens da pregação apostólica» [26].

A exegese «revolucionária» de Fabris é tão velha quanto o protestantismo liberal e já é antiga mesmo no campo «católico», mas continua ainda muito grave. E ainda mais grave é o aval que lhe dá La Civilta Cattolica, cuja autoridade está de agora em diante a serviço do neomodernismo.

A XXXVIa tese modernista exumada

Contra o decreto Lamentabili de são Pio X, mas em perfeita harmonia com a «nova» Comissão Bíblica Pontifícia [27], Fabris nega que a Ressurreição de Jesus seja um fato histórico.

P.347: «Mas tudo isso não revela ainda o rosto do Senhor Jesus. Isso aconteceu na ressurreição. Mas tal acontecimento, enquanto representa ação poderosa de Deus que se revela Senhor do mundo e da história humana em Jesus, escapa ao controle humano. Deus e sua ação não são circunscritos ao horizonte da historia produzida e controlada pelos homens. Mas a experiência [?] desta ação e desta manifestação poderosa e libertadora de Deus, vivida e acolhida pelos discípulos na fé, transcrita na linguagem religiosa da tradição bíblica, pode ser historicamente ilustrada e verificada. Nesse sentido é legitimo e correto falar de experiência "histórica" da ressurreição de Jesus».

Conclui-se, pois, que apenas é verificável e historicamente ilustrável a transcrição «na linguagem religiosa da tradição bíblica», da «fé» dos discípulos na ressurreição, mas não o fato da ressurreição. que «escapa ao controle humano».

Eis a conclusão, depois de tantas palavras: «A ressurreição do Salvador não é, propriamente falando, um fato de ordem histórica, mas um fato de ordem puramente sobrenatural, nem demonstrado nem demonstrável...»; o que é a 36a. tese modernista condenada pelo decreto Lamentabili. A doutrina católica afirma exatamente o contrário, a saber, que a ressurreição de Jesus é um fato de ordem sobrenatural, certo, mas também propriamente histórico e conseqüentemente demonstrado e demonstrável.

O último parágrafo do capítulo 9 é igualmente escrito ao modo modernista: «A significação da ressurreição de Jesus» (pp. 347-352), mas os exemplos dados já bastam.

A «prova»

«A historicidade dos Evangelhos à prova do método histórico-crítico» é o título do artigo do jesuíta De Rosa que exalta, na Civilta Cattolica, a obra de Fabris.

Pois bem, «à prova do método histórico crítico», a historicidade dos Evangelhos se revela totalmente desagregada, não porque esta historicidade dos Evangelhos, fundada sobre dados positivos incontestáveis, seja nula, mas, ao contrário, porque este «método histórico critico» é que é falso: Formgeschichte e sistemas similares, que se recusam a priori, a tomar em consideração esses dados positivos incontestáveis, entregando-se ao subjetivismo mais desenfreado, às afirmações mais arbitrárias, às mais radicais negativas de toda verdade, sacrificando tudo a certas premissas pseudo-filosóficas, totalmente indemonstradas [28].

Parece-nos justo, portanto, inverter assim o título citado acima: «O método histórico critico à prova da historicidade dos Evangelhos». Ninguém tem o direito, bem ao contrário, é loucura, de submeter a historicidade dos Evangelhos, que é objetivamente fundada, à «prova» de um «método» que não demonstrou ainda a validade objetiva de suas premissas, e não poderá jamais demonstrá-la.

Conclusão

É necessário enfatizar que as negações errôneas e heréticas de Fabris não são nem um caso novo nem um caso isolado. São repetidas cada vez mais em todos os escritos dos «novos exegetas» (e portanto dos «novos teólogos») e inundam hoje as publicações católicas de massa. Se escolhi Fabris, é porque seu livro parecia ser o fruto das diretivas da «nova» Comissão Bíblica Pontifícia, e pode se vangloriar da aprovação entusiasta da Civilta Cattolica, apesar de que mesmo um simples fiel seja capaz de perceber a enormidade das suas asserções. Além disso, mesmo o Osservatore Romano recomendava recentemente «ao maior número possível de leitores, sobretudo neste período das festas do Natal», a nova edição atualizada dos Evangelhos comentados igualmente por Fabris (o leitor pode agora imaginar como): esse «tipo» de comentário - escreve textualmente o Osservatore - é posto menos no horizonte da exegese moderna, com todos os conhecimentos daqui por diante válidos [ipse dixit!] sobre vários pontos, tanto do lado católico como do lado protestante [sic], do que naquele da hermenêutica moderna proposta. [29]. Onde vemos aparecer, atrás do hermetismo do discurso, a conivência clara do órgão oficial da Santa Sé com a «nova exegese». Esta não é uma coisa séria, está entendido, mas o favor que as autoridades romanas lhe concede, é, este Sim, uma coisa séria demais.

Francesco Spadafora

[1] SimsimNãonão de agosto de 1996

[2] Enchiridion Biblicum bilíngüe no. 984.

[3] lbid. no. 959

[4] Prefácio de L'interprétazione della Bibbia nella Chiesa.

[5] Ed. Citadelle, Assis.

[6] Coleção La Sacra Bibbia, ed. Marietti Turim-Roma 1966. p.28.

[7] La Civilta Cattolica 21-4-1984, p. 150.

[8] Cardeal G. Siri Gethsémani, Roma 1980, p.320

[9] La Sacra Bibbia ed. Marietti 1963, pp. 41-42.

[10] La Civilta Cattolica cit. p.151.

[11] Ibid. p.152

[12] J. Blinzler, Il processo di Gesù. IIIa. ed. Brescia, 1966 pp. 234 ss.

[13] J. Klausner, Jesus von Nazareth, Seine Zeit, sein Leben und sein Lehre, IIa. ed., Berlim 1934, p. 481

[14] M. J. Lagrange, Le judaísme avant Jesus-Chríst, Va. ed. Paris 1931, p.15.

[15] M. J. Lagrange, L' Evangile di Gesù Cristo. trad. L. Grammatica, IIa. ed. Brescia, 1935, pp. 540 ss.; V. também von Dobschütz, Pilatus in Realencykl fur protestantische Theologie und Kirche, Leipzig 1904, Bd XV, pp.397-401. M. J. Olivier in Revue Biblique 5 (1896) 247-254, 594-600. F. M. Abel, Histoire de la Palestine, Depuis la conquête d'Alexandre jusqu'à l´invasion arabe. 1 Paris 1952. pp. 434-440. Entre os a-católicos se pode citar ainda: Hase, Hausrath, Renan. Beyschlag, Shailer. Mathews, Woodheuse e outros.

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