o triunfo do modernismo sobre a EXEGESE CATÓLICA

19. O MAGISTÉRIO DA IGREJA DISPENSADO PELA «NOVA» COMISSÃO BÍBLICA PONTIFÍCIA

 

Da inspiração «coletiva» à negação da inspiração

«A árvore má não pode dar bons frutos». É o que se viu com a «nova» Comissão Bíblica Pontifícia, cujos membros foram escolhidos entre os partidários do «criticismo» bíblico.

O primeiro fruto que vamos examinar aqui é o documento «Biblia e Cristologia» que leva o título latino De Sacra Scriptura et Christologia [1]. O texto é muito longo (nos. 909-1039). Vamos nos limitar a alguns trechos.

O documento comporta um «Prefácio» do sulpiciano Henri Cazelles, então secretário que, como atesta o cardeal Bea em 1957, saiu em prantos do Santo Ofício, onde tinha sido chamado a responder sobre suas «novidades» tomadas de empréstimo à Formgeschichte, como a inspiração «coletiva», quer dizer, a inspiração não mais do único autor sagrado, mas da comunidade cristã primitiva inteira [2].

No seu Prefácio, Cazelles escreve que o fim do documento é, entre outros, resumir brevemente tanto as afirmações do Antigo como do Novo Testamento «que exprimem a compreensão da fé que as comunidades cristãs, no fim, tiraram das palavras e dos atos de Jesus de Nazaré; afirmações reunidas através da meditação dos textos aos quais a comunidade judias reconheciam a autoridade divina» (no. 911).

Estamos em plena Formgeschichte: não é o testemunho ocular dos apóstolos Mateus e João nem o testemunho auricular dos discípulos Marcos e Lucas, mas a «comunidade», ou melhor, as «comunidades cristãs» que estão na origem dos evangelhos, os quais não relatam fatos históricos, mas a «compreensão da fé» que essas comunidades «no fim» tiraram das palavras e dos atos de «Jesus de Nazaré» (segundo o teorema modernista da transfiguração pela fé), e além do mais, essas «afirmações» do Novo Testamento - tornando-as mais precisas - são amadurecidas «através da meditação» dos textos do Antigo Testamento, logo, de um modo totalmente humano. Na Formgeschichte - escrevia E. Florit - «não se dá lugar a uma intervenção sobrenatural na composição dos Evangelhos; assim, a inspiração e a inerrância que a seguem são excluídas» [3]. Cazelles, a partir do compromisso da «inspiração coletiva», só fez seguir até o fim o caminho da Formgeschichte.

O inventário

O Prefácio de Cazelles é seguido do texto do documento Bíblia e Cristologia, com um breve preâmbulo no qual se admite que «um certo número de cristãos estão perturbados [o texto latino diz "muito perturbados"] pela variedade de abordagens do problema [cristológico] e pelas soluções que foram propostas» e «a [nova] Comissão Bíblica Pontifícia deseja conseqüentemente ajudar pastores e fiéis» (913). Vejamos como.

Parte-se de um «breve inventário de métodos de abordagem à cristologia» no qual há lugar para todos, sem descriminação: católicos (somente um cantinho: aquele do vilão), não católicos e católicos: Approches théologiques de style "classique" (Abordagens teológicas de estilo «clássico»), de que falaremos à parte; Approches spéculatives de type critique (Abordagens especulativas de tipo crítico), representados por Schoonenberg, o jesuíta Nimègue, colaborador principal do «Catecismo» herético holandês; Christologie et recherche historique (Cristologia e pesquisa histórica): de Strauss a Renan e a Bultmann; Christologie et science des religions (Cristologia e ciência das religiões): ainda Bultmann; La christologie en partant du judaisme (Cristologia partindo do judaísmo) para «compreender melhor as raízes judias do cristianismo» (em negrito no texto), o que - diz a «nova» Comissão Bíblica Pontifícia - «é um preâmbulo necessário para compreender a personalidade de Jesus e [atenção] o papel que o cristianismo primitivo lhe atribuiu [sic] na "economia da salvação"» (no. 930).

E ainda: Christologie et «histoire du salut» (Cristologia e «história da salvação»): Culmann, Pannenberg, Holtmann; Christologie et anthropologie (Cristologia e antropologia) com atenção particular a Teilhard de Chardin, K. Rahner, H. Küng, E. Schillebeeckx. Um grande lugar ainda para Bultmann, um dos pais da Formgeschichte que - diz o texto - «ultrapassou [= jogou no lixo], como seus contemporâneos M. Dibelius e K. L. Schmidt, a crítica literária clássica [= a verdadeira crítica] para recorrer [ de fato ao "criticismo"] à crítica das formas literárias que concorreram à "formação" dos textos (Formgeschichte)» (no. 943). É a «interpretação "existencial" de Jesus Cristo» continuada pelos discípulos de Bultmann, entre os quais K. Käsemann, que La Civilta Cattolica, de 20 de fevereiro de 1993, apresenta como exemplar. Seguem Christologie et engagements sociaux (Cristologia e empenhos sociais) com Proudhon, Marx, Engels, Gutierrez, L. Boff e os camaradas da «teologia da libertação», J. B. Metz, etc; Études systématiques de style nouveau (Estudos sistemáticos de novo estilo): o protestante K. Barth e seu «velho amigo» Urs von Balthasar, e enfim Christologies d´en haut et christologies d´en bas (Cristologias de cima e cristologias de baixo), no qual, entre as tentativas de «reunir os dois pontos de vista», menciona-se também a de Walter Kasper, negador da Ressurreição corporal e da divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo [4], e a de C. Duquoc, para quem o milagre «é um luxo metafísico com o qual não temos absolutamente necessidade de preocupar-nos para viver cristãmente» [5]. Com a exceção da alusão, breve e feita de má vontade, às abordagens especulativas de tipo clássico, temos aqui o inventário benevolente de todas as piores «cristologias».

Absolvições prévias.

Está claro, daqui por diante, que a «nova» Comissão Bíblica Pontifícia já aceitou, em bloco, os erros e as heresias das «abordagens» selecionadas que, com efeito, no correr do documento, além de não encontrarem a crítica que lhes é devida, ainda recebem aprovação explícita ou implícita (e isto, claro, para ajudar pastores e féis já muito perturbados). Assim, no que concerne às «abordagens» de tipo crítico, admite-se como «uma intuição justa» (no. 960) o seguinte princípio de toda heresia, difundido na nossa época por K. Rahner: «aplicar, não somente às obras dos Padres e dos teólogos medievais, mas também às definições conciliares, uma forma de leitura crítica» (no. 918). A partir, naturalmente, do «Concílio de Calcedônia», o grande Concílio cristológico que definiu a unidade das duas naturezas, humana e divina, na Pessoa divina de Cristo Nosso Senhor. A razão? «Se o contexto cultural muda, as próprias formulações podem perder seu vigor» (no. 919). É preciso, pois, que a «leitura crítica» confronte «novamente» as formulações do Magistério infalível com as fontes da Revelação, em particular com o Novo Testamento. Em resumo: o Magistério infalível submetido ao crivo da «crítica», ou melhor, do «criticismo», segundo a pretensão modernista já condenada por S. Pio X no decreto Lamentabili sane exitu, de 3 de julho de 1907, que «reprova e proscreve» as seguintes proposições:

- Art. II. «A interpretação dos Livros Santos pela Igreja [...] é [...] subordinada ao julgamento mais aprofundado e à correção dos exegetas»;

- Art. IV. «O Magistério da Igreja não pode, mesmo por definições dogmáticas, determinar o verdadeiro sentido das Sagradas Escrituras»;

- Art. XXIV. «Não se deve condenar um exegeta que apresenta premissas a partir das quais se pode pôr em dúvida ou negar a autenticidade histórica dos dogmas...» [6]

Como se o depósito da Fé tivesse sido confiado a exegetas e a teólogos ou que o Magistério infalível da Igreja fosse submetido à supervisão!

A Ressurreição, fato não histórico porque sobrenatural

No que diz respeito aos «métodos da história científica» (no.921), de Reimarus a Renan, Bultmann e outros padres partidários da Formgeschichte, aceita-se (no. 968) a distinção, inteiramente inventada por Bultmann, entre «história», que seria a história propriamente dita, e «geschichte», que seria, ao contrário, a narração de fatos não verídicos, mas úteis para a vida espiritual (os Evangelhos, naturalmente, entrariam nessa segunda categoria), e aceita- se sem pestanejar a distinção conseqüente entre o Jesus «histórico» e o Jesus da «história da salvação» ou, para falar como os modernistas, o «Jesus da fé».

Aceita-se o princípio da «subjetividade» da pesquisa histórica («a história nunca é neutra», no.923), mas declara-se «indispensável» essa pesquisa histórica, caso se queira evitar que Jesus seja concebido «como um simples herói mitológico, ou que o seu reconhecimento como Messias e Filho de Deus venha de um fideismo irracional» (no.923).

Nós não vemos, não obstante, como o documento da «nova» Comissão Bíblica Pontifícia poderia fugir desse fideismo, que amplifica o papel da Fé no conhecimento da verdade do Cristianismo, quando diz que a Ressurreição de Jesus «escapa por sua natureza de uma constatação unicamente empírica. Com efeito, esta introduz Jesus no "mundo que vem". Sua realidade pode ser deduzida das manifestações de Cristo glorioso a certas testemunhas privilegiadas, e é corroborada pelo fato de que o túmulo foi encontrado vazio e aberto. Mas não se deve simplificar a coisa supondo que um historiador qualquer, unicamente por meio de pesquisas científicas, possa demonstrá-la como fato acessível a todo observador: aqui também a "decisão da fé", ou melhor, "a abertura do coração" guia a posição que se toma» (no.969)

No entanto, os Apóstolos e depois deles a Igreja, sempre anunciaram a Ressurreição de Cristo como um fato histórico, tão constatável, ou mais, que todos os outros fatos históricos, nenhum dos quais pode reivindicar em seu favor tais e tantos testemunhos assim dignos de fé.

A separação entre fato histórico e fato sobrenatural como se o sobrenatural não pudesse nunca manifestar-se de modo perceptível pelos sentidos, é, ao contrário, próprio da teologia liberal protestante e de Loisy, corifeu do modernismo, que escreve, sobre a Ressurreição, exatamente o que nos serve, para aumentar a perturbação dos católicos já perturbados, a «nova» Comissão Bíblica Pontifícia: «A notícia pascal - diz Loisy - isto é, a descoberta do sepulcro vazio e a aparição de Jesus aos seus discípulos não são, para o historiador, provas físicas da Ressurreição de Cristo e, certamente, não provam que o Salvador haja ressuscitado corporalmente». E por que? Porque «o Cristo ressuscitado não pertence à ordem da vida presente, à ordem do conhecimento sensível» [7], mas ao «mundo que vem», como precisa hoje a «nova» Comissão Bíblica.

É o que resume bem a proposição XXXVI que o decreto Lamentabili sane exitu «reprova e proscreve»: «A ressurreição do Salvador não é propriamente um fato de ordem histórica, mas um fato de ordem puramente sobrenatural, nem demonstrado nem demonstrável...»

Os «olhos da fé»

Está claro que, se assim fosse, a Fé não seria justificada em face à razão (Cf. 1 Co 15, 14-15 ss.), como o quer justamente o fideísmo. Mas não é assim: a Ressurreição de Jesus foi sobrenatural quanto ao modo como sucedeu, mas em si foi uma realidade, um fato provável e provado, como os outros, pelas testemunhas às quais Jesus apareceu ressuscitado; um fato conseqüentemente conhecível, contrariamente ao que escreve a «nova» Comissão Bíblica, assim como todos os outros fatos históricos, sobre a base de testemunhas perfeitamente dignas de fé, por «todo historiador unicamente por meio de pesquisas científicas», sem nenhuma prévia «abertura do coração», menos ainda de «decisão de fé», mas com simples honestidade científica. A «abertura do coração» é uma condição para crer, não para conhecer, e conhecer o fato histórico da Ressurreição não se identifica necessariamente com a Fé na Ressurreição: pode-se chegar à certeza intelectual da Ressurreição (e do Cristianismo), mas recusar-se a crer por razões de ordem moral (Cf. Lc 14, 31: «mesmo se um morto ressuscitasse, eles não acreditariam»).

A graça é, pois, necessária para vencer o orgulho, dissipar os preconceitos e levantar os outros obstáculos de ordem moral, e criar assim a «abertura do coração» que condiciona a Fé, mas não é necessária para conhecer a realidade e o valor de prova dos motivos de credibilidade do cristianismo, dos quais a Ressurreição se encontra em primeiro lugar. Já quanto à necessidade dos «olhos da fé» para conhecer a verdade da Ressurreição e do Cristianismo em geral, não é a doutrina da Igreja, mas um erro da «nova teologia», tomada de Rousselot (Os olhos da fé) e condenada por Pio XII em Humani Generis, onde se confirma a possibilidade de «provar com certeza a origem divina da religião cristã unicamente pela luz da razão» [8]

A historicidade dos Evangelhos, questão «aberta»

No que diz respeito à historicidade dos Evangelhos, lê-se no no. 984: «No domínio dos estudos exegéticos permanecem abertas as questões críticas que se relacionam com os Evangelhos, à formação [sic] das palavras de Jesus que aí aparecem, à historicidade mais ou menos densa das narrações que lhe concernem, à data e ao autor de cada um dos livros, às modalidades e às etapas de sua composição, ao desenvolvimento doutrinário da cristologia». Questão ainda aberta, pois, a própria historicidade dos Evangelhos; questão que, conseqüentemente seria legítimo discutir e mesmo contestar. E isso quando o valor histórico dos Evangelhos «além de ser perfeitamente certo para a crítica, é para o católico uma verdade de Fé divina e católica ensinada pela tradição, pelo magistério ordinário e pelo comportamento quotidiano da Igreja, que sempre utilizou os Evangelhos como textos históricos» [9]. Apesar do monitum do Santo Ofício (22 de junho de 1961) contra aqueles que «colocam em perigo a pura verdade histórica e objetiva... mesmo a das palavras e dos atos de Jesus». Apesar da intervenção de Paulo VI no último Concílio: «O Santo Padre não poderia aprovar uma fórmula que deixaria dúvidas sobre a historicidade [sem nenhum matiz] desses Santos livros» [10]. Apesar da Dei Verbum com seu solene inciso: nossa santa madre Igreja «afirma sem hesitação a historicidade dos Evangelhos» [11].

Méritos que são faltas

Não é, portanto, surpreendente, que as únicas reservas pesadas que manifesta a «nova» Comissão Bíblica Pontifícia visam às abordagens teológicas de estilo «clássico».

De que se trata? De «tratados dogmáticos [...] que apresentam uma elaboração sistemática da doutrina a partir das definições conciliares e dos tratados dos padres da Igreja» (no. 916). Está claro que se trata nada menos do que da teologia católica. E, com efeito, o documento continua precisando escrupulosamente: «Tratado "De Verbo incarnato" (cf. Concílios de Nicéia, em 325; de Éfeso, em 431; de Calcedônia, em 451; de Constantinopla II e III em 553 e 681) e tratado "De redemptione" (cf. Concílios de Orange, em 529; de Trento, sessões V e VI, em 1546 e 1547)» (no. 916).

Quais são os «limites» desses tratados dogmáticos de estilo «clássico», isto é, de cristologia católica?

Mesmo se eles são «hoje [...] enriquecidos com diversos acréscimos» (no. 917) - cita-se como exemplo Galot e Maritain - esses tratados cometem duas faltas imperdoáveis:

1. Levam ainda muito em conta a Tradição;

2. Baseiam-se ainda sobre a plena historicidade dos evangelhos. Assim, a volta é completa: para a «nova» Comissão Bíblica os erros e as heresias são méritos e a fidelidade ao Magistério infalível é uma falta.

«Sola Scriptura»

Assim se exprime, sobre o primeiro ponto, o documento da «nova» Comissão Bíblica: «a formulação das teses cristológicas depende [nesses tratados] mais da linguagem dos teólogos patrísticos ou medievais [em negrito no texto: trata-se dos Santos Padres e de São Tomás] que dos do Novo Testamento, como se esta fonte essencial da Revelação fosse em si, muito pouco precisa para fornecer à doutrina uma formulação bem definida».

Comecemos pela «linguagem». Os fatos demonstram que a questão não é de modo algum uma questão de linguagem.

É a tática posta em ação no Concílio e tão bem resumida por Dörmann: «Os teólogos dirigentes viram, certamente, que nessa questão da linguagem encontrava-se o caso todo da teologia e da Fé. Porque a língua escolástica estava indissoluvelmente ligada à filosofia escolástica, esta à teologia escolástica, e esta última, enfim, à Tradição dogmática da Igreja» [12]

É para notar que o neo-modernismo, que começou, sob pretexto de «retorno» aos Padres, rejeitando São Tomás, que com seu rigor lógico e sistemático não deixava lugar aos seus sofismas, acabou em seguida rejeitando também os Padres, por um «retorno» à Sagrada Escritura que lembra a «sola scriptura» de Lutero. Que a Escritura Santa seja a «fonte essencial da Revelação» não é conforme à doutrina católica, mas é, ao contrário, uma heresia protestante, contra a qual o Concílio de Trento definiu que a Revelação divina «está contida tanto nos livros escritos como nas Tradições não escritas» e declarou que era preciso, conseqüentemente, receber «pari pietatis, affectu et reverentia», com o mesmo respeito e a mesma estima tanto uma quanto outra fonte da revelação: Sagradas Escrituras e Tradição [13], podendo uma doutrina católica de Fé basear-se sobre cada uma delas (2 Tess 2, 14).

Do mesmo modo, a afirmação protestante do caráter absoluto e exclusivamente suficiente da Sagrada Escritura é uma heresia. «Em si mesma», ela é letra morta, incapaz de resolver as eventuais controvérsias e tem, portanto, necessidade de uma interpretação exata (que é o papel do Magistério infalível). Ela contém, sim, a doutrina cristã, mas não na sua forma perfeita e logo, contrariamente ao que queria a «nova» Comissão Bíblica, é exatamente «em si mesma» insuficiente para «fornecer uma formulação bem definida», como atesta, aliás, toda a história da Igreja.

Ainda contra a historicidade dos Evangelhos

Quanto ao segundo «limite» da cristologia «clássica», eis como se exprime o documento da «nova» Comissão Bíblica: «O recurso ao Novo Testamento, marcado pela pressa em defender ou em basear a doutrina dita "tradicional" em sua apresentação "clássica", corre o risco de ser muito pouco aberto a certos problemas críticos [em negrito no texto] de que a exegese não pode subtrair-se. Para dar um exemplo, pode acontecer que se admita muito facilmente a historicidade de todos os detalhes em certas narrações evangélicas [Dom Romalo Murri: "Sou católico, mas... até certo ponto"!], enquanto podem eles ter uma função teológica [a exegese de De la Potterie!] segundo as convenções literárias da época; ou então que se atribua autenticidade verbal a certas palavras que os Evangelhos colocam na boca de Jesus, enquanto que elas são narradas de maneira diferente [mas idêntica em substância] em cada um [exagero!] dos Evangelhos» (no. 959).

Está claro que os «problemas críticos de que a exegese não pode subtrair-se» são os pseudo-problemas nos quais divaga (sem porta de saída) o «criticismo», ou falsa crítica, ou crítica racionalista-protestante, à qual aqueles que a seguem cegamente no domínio católico sacrificam com inacreditável leviandade não somente os testemunhos positivos, ininterruptos e incontestáveis, mas também a voz da Tradição e do Magistério infalível que, respectivamente, provam e afirmam a plena historicidade dos Evangelhos.

O «spiritus sanctus privatus» e a «ciência bíblica» no lugar do Magistério infalível

«Como encarar esses riscos, esses limites e incertezas?» é a pergunta-título do capítulo III do documento. Resposta: «Não seria suficiente [os Dehonianos traduzem: não seria possível] enfrentar todos esses perigos enunciando algumas fórmulas indiscutíveis que representassem a "verdade" definitiva ou elaborando tratados sistemáticos que englobassem todas as questões e de maneira a resolvê-los imediatamente» (no. 987). Assim, sem razão, a «nova» Comissão Bíblica Pontifícia rejeita, com os tratados «clássicos» De Verbo Incarnato e De Redemptione, todas as definições infalíveis dos grandes concílios dogmáticos escrupulosamente citados no no. 916: Nicéia, Éfeso, Calcedônia, Constantinopla II e III, Orange, Trento.

Que será dos pobres fiéis já «muito» perturbados?

O «espírito santo privado» de Lutero e as nebulosidades da «nova exegese». Ao menos se se crê no no. 990, o qual diz textualmente que «para fazer de modo que o leitor fiel possa facilmente discernir na Bíblia essa cristologia integral [que, no plano divino [14], deve, ao contrário, ser haurida, como todas as verdades de Fé, não diretamente e imediatamente na Bíblia, mas através do Magistério infalível da Igreja, porque se a Bíblia está isenta de erro, o leitor, mesmo «fiel», não o está], seria desejável que a ciência bíblica [em negrito no texto], vindo em ajuda dos métodos exegéticos de nosso tempo, fosse mais evoluída do que é no estado atual da pesquisa e da reflexão. De fato, vários pontos permanecem ainda obscuros no que diz respeito ao método de composição que se concluiu pela apresentação atual dos Livros Santos por autores inspirados»; «Aqueles que - continua o texto - para livrar-se das pesquisas desse gênero, se contentariam com uma leitura superficial, considerando-a "teológica", tomariam um caminho errado: as soluções simplistas não podem de modo algum servir de fundamento sólido à reflexão teológica inspirada por uma fé madura»; É a tese herética do jesuíta Schökel e da «central de propaganda» da «nova exegese», o Instituto Bíblico Pontifício, já refutada a seu tempo por Mons. A. Romeo: até a atual virada «criticista» (= neo modernista), todos na Igreja, mesmo os maiores teólogos, os maiores exegetas, os próprios Papas, estariam satisfeitos com uma «leitura superficial» da Bíblica, com «soluções simplistas» e na sua Fé «imatura» teriam tomado um «caminho errado»! [15]. A «fé madura» consiste, por via das dúvidas, no ceticismo, no probabilismo; consiste em discutir ainda, depois de dois mil anos e sem esperança de solução, o que Nosso Senhor Jesus Cristo teria realmente dito e feito!

Mas é preciso, assim mesmo, oferecer alguma coisa aos fiéis e, portanto, contradizendo-se, o documento continua: «Mas a Comissão Bíblica Pontifícia pensa que, além das discussões de detalhe [sic!], os estudos são suficientemente avançados para que todo leitor fiel encontre um apoio sólido em certos resultados [em negrito no texto] para sua pesquisa sobre Jesus Cristo» (no. 990). Vejamos somente alguns desses «resultados» que deveriam oferecer a todo «leitor fiel» um apoio sólido para sua «pesquisa» sobre Jesus Cristo, guiada não mais pelo Magistério infalível da Igreja, mas pelo «Spiritus sanctus privatus» e pela nova «ciência bíblica».

A profissão «imperfeita» de Pedro e a consciência «por etapas» de Jesus

No. 1017: «Jesus permite a Pedro professar, em nome dos doze discípulos, que Ele é o Cristo (isto é, o Messias) [não o Filho de Deus], mas o proíbe imediatamente de falar sobre isso a quem quer que seja, (Mc 8, 30 ss), porque esta profissão de fé ainda é imperfeita [realmente? e o elogio de Jesus: "Bem-aventurado és, Simão, filho de Jonas, porque não foi nem a carne nem o sangue que te o revelou, mas meu Pai que está nos céus" com a promessa do primado?] e Jesus pensa já na sua derrota [sic!] final e na sua morte (Mc 8, 31 etc)»

Como o leitor pode perceber, é - literalmente - a infeliz e herética interpretação «crítica» de Mt 16, 17 fornecida por Bögtle: «Tu és o Cristo, nacionalista belicista, como esperavam erroneamente os judeus» onde, o louvor e a promessa do primado, impossíveis ao menos nessa ocasião, foram inseridas (senão inventadas) pelos redatores desconhecidos do Evangelho «dito» de Mateus [16]. Interpretação retomada e divulgada pelo jesuíta Zerwick, do Instituto Bíblico Pontifício, e que hoje permite a Romano Penna resumir na «Universidade do Papa» a heresia de Loisy: o louvor de Jesus a Pedro e a promessa do primado são um acréscimo posterior da «facção dos discípulos de Pedro» da Igreja de Roma!

No. 1023: «Jesus adquire por etapas uma consciência cada vez mais precisa da missão recebida do Pai, desde a sua juventude até a cruz». É a versão apenas revisada, mas não corrigida, da XXXVa tese modernista reprovada e condenada pelo decreto Lamentabili: «O Cristo não teve sempre consciência de sua dignidade messiânica». E isso basta para julgar a «ciência, a prudência e o sentimento católico a respeito do Magistério eclesiástico» da «nova» Comissão Bíblica Pontifícia [17].

Francesco Spadafora

Notas:

[1] EBB no. 909-1039. Na realidade, o texto original está em francês, e em francês foi discutido e votado pela «nova» Comissão Bíblica Pontifícia em abril de 1983. A versão latina, que é o texto oficial, não foi terminada senão oito meses mais tarde e publicada, com o texto francês à vista, pelas Edições du Cerf em 1984. Essas informações são dadas na note 2 (pp. 916 ss.) do Enchridion bíblico bilíngüe dos Dehonianos, que data o documento de 1984.

[2] V. SimSimNãoNão, maio de 1995.

[3] E. Florit. La méthode de «l´histoire des formes» et son application aux récits de la Passion (O método da «história das formas» e sua aplicação às narrações da Paixão), 1935, pp. 227.

[4] SiSiNoNo de 30 de abril de 1989 e 15 de março de 1993.

[5] V. La Civilta Cattolica, de 4 de dezembro de 1994 de 1994, pp. 425 ss.

[6] Decreto Lamentabili de 3 de julho de 1907, prop. 2, 4 e 24.

[7] A. Loisy, L´Évangile et l´Église.

[8] Para a influência de Rousselot sobre de Lubac ver H. de Lubac: Mémoire autour de mes oeuvres, Jaca Book.

[9] F. Vizmanos S.J., I Riudor S.J. Teologia fundamental para seglares, BAC 1963 p. 297.

[10] V. artigo de G. Caprile S.J. em La Civilta Cattolica de 5 de fevereiro de 1966 pp. 228 ss.

[11] V. SimSimNãoNão de março de 1996, pp. 5 ss.

[12] J. Dörmann L´étrange théologie de Jean-Paul II et l´esprit d´Assise, ed. Fideliter, p. 52; ver também SimSimNãoNão de novembro de 1993, pp. 1 ss.

[13] DB 783; cf. Vaticano IDB 1787.

[14] Vaticano I s. 3, c. 3.

[15] V. SimSimNãoNão de setembro de 1995, pp. 3 ss.

[16] Biblische Zeitschrift N.F.l. (1957) 252-272; 2. (1948); Messasbekenntis und Petrusxerheissung. Para a composição de Mt. 16, 13-23, v. Courrier de Rome de outubro de 1995.

[17] Motu Proprio Sedula Cura de Paulo VI, art. 3: A Comissão Bíblica é formada de especialista em ciência bíblicas «notáveis por sua ciência, sua prudência e seu senso católico do Magistério da Igreja»