o triunfo do modernismo sobre a EXEGESE CATÓLICA

18. CRÍTICA E «CRITICISMO»

 

Verdadeira e falsa crítica

A «nova» Comissão Bíblica Pontifícia, que nasceu em 1972, por vontade de Paulo VI, está composta - segundo o que já escrevia o americano R.E. Brown. em 1973 [1] - «de vinte pesquisadores. todos empenhados no tipo de critica bíblica adotado por Pio XII» [2]. Qual é esse «tipo de crítica bíblica» que teria sido «adotado» por Pio XII? Já ilustramos a leitura neo-modernista da encíclica Divino Afflante Spiritu de Pio XII [3]. Empregando expressões isoladas de seu contexto e fazendo a encíclica passar-se por uma obra prima de duplo sentido, os exegetas neomodernistas do Instituto Bíblico Pontifício, depois da morte de Pio XII e 17 anos após a publicação da encíclica Divino Afflante Spiritu, como enfatizou em seu tempo Mons. Romeo [4], pretenderam e pretendem ainda que a admirável Encíclica rompe com o Magistério precedente. para imprimir orientação completamente nova à exegese católica.

Essa «nova exegese», «livre», isto é, liberada dos princípios dogmáticos que devem regular a exegese católica e, in primis, desembaraçada do Magistério infalível da Igreja, nada mais é do que a falsa «critica» dos racionalistas protestantes, a qual nada tem a ver com a «verdadeira ciência da arte critica», na qual Leão XIII exorta os exegetas católicos a serem «mais eruditos e exercitados» (Providentissimus Deus) e que, Pio XII o recorda em Divino Afflante Spiritu, sempre foi tida em grande honra pela Igreja.

A crítica bíblica

A verdadeira crítica bíblica, de fato, não é somente legítima, mas necessária.

A crítica, em geral, é a arte de distinguir o verdadeiro do falso, o autêntico da contrafação. Aplicada a uma obra literária, é a arte que se propõe a estabelecer sua autenticidade (a saber, se ela pertence realmente ao autor a que é atribuída), sua integridade, historicidade e identidade com o texto original. Ela se divide em critica inferior ou textual, que se ocupa em corrigir o texto para restituí-lo, tanto quanto possível, tal qual saiu das mãos de seu autor, e em alta crítica ou literária, que estuda a autenticidade do livro, a integridade, o gênero literário, etc. um terceiro gênero de crítica é a critica histórica, que procura conhecer a verdade dos fatos relatados; ordinariamente, no entanto, considera-se esta incluída na crítica literária. Aplicada à Sagrada Escritura, chama-se critica bíblica.

Esta aplicação [da crítica às Sagradas Escrituras] é legítima, porque, se é verdade que a Bíblia, escrita sob inspiração divina, tem a Deus por autor principal, é também verdade que o autor sagrado é sua causa segunda ou instrumental. As faculdades humanas desse autor sagrado não foram suprimidas pela ação divina, mas foram elevadas e aplicadas à Escritura (além de terem sido preservadas de todo erro). De onde se pode dizer que Deus exprimiu-se numa dada linguagem humana, segundo uma dada cultura, e que se supõe que tudo isso não esteja em oposição com a veracidade divina absoluta. Assim - como escreve o beneditino H. Höpfl - «constitui tarefa da Introdução especial às Sagradas Escrituras, tratar da origem humana [= do instrumento humano] dos Livros Sagrados, dos autores, da época, do tema, das fontes, da divisão e da integridade de cada um deles; para isso servimo-nos da crítica, conformando-nos em tudo às regras de um método histórico íntegro» [5].

Além disso, o texto sagrado pode ter sofrido as vicissitudes próprias a todos os manuscritos: correções, variações. interpolações etc. A crítica bíblica é, assim, não somente legitima, mas necessária: a inspiração divina e conseqüentemente a imunidade do erro concerne aos textos autênticos da Bíblia, e não a eventuais correções. Um texto tem valor dogmático somente se é seguro de um ponto de vista critico. A Igreja teve em grande honra «desde os primeiros séculos até a nossa época, esses trabalhos de crítica» (Pio XII, Divino Afflante Spiritu); «O zelo daqueles que ambicionam conhecer as divinas Escrituras - escrevia Santo Agostinho - deve aplicar-se antes de tudo a corrigir os manuscritos, a fim de que os incorretos cedam lugar aos corrigidos» [6]. A alta crítica ou critica literária não foi ignorada desde os primeiros séculos.

Argumentos externos e internos

Para estabelecer a autenticidade, a integridade, a historicidade de um escrito, a alta crítica serve-se de uma dupla ordem de argumentos: externos (testemunhos históricos relativos a uma dada obra) e argumentos internos, isto é, deduzidos do exame do próprio texto (estilo, linguagem, idéias, detalhes históricos e geográficos, etc.). É evidente que os argumentos externos são decisivos em relação aos argumentos internos, cuja apreciação depende muitas vezes da avaliação subjetiva do critico. Os argumentos internos são úteis para confirmar os argumentos externos. Assim, no domínio da critica bíblica, aplica-se o seguinte princípio: «Se há uma tradição segura sobre o autor de um livro inspirado, deve-se levá-la em conta antes de tudo, e não é permitido rejeitá-la com argumentos de crítica interna» [7].

O «artifício adornado com o nome de alta crítica» (Leão XIII)

Justamente aí ocorre um dos erros fundamentais da falsa «critica» ou melhor, do criticismo dos protestantes racionalistas (Formengeschichte e Redaktionsgeschichte); os quais, rejeitando os dados da tradição, dão prioridade aos argumentos internos e, desembaraçando-se do controle dos dados externos, objetivos, oferecidos pelos documentos históricos, abandonam-se ao subjetivismo mais desenfreado, com interpretações arbitrárias e fantasiosas, sem nenhuma consistência, perdendo-se num labirinto de conjecturas e probabilidades. Eis como esse erro é claramente denunciado por Leão XIII em Providentissimus Deus: «Esses mesmos professores [os católicos] devem ser, pela mesma razão, eruditos e exercitados na verdadeira ciência crítica. E injustamente, com efeito, em detrimento da religião, que se introduziu um sistema, adornado com o nome de crítica superior, em virtude do qual a origem, a integridade e a autoridade de todo livro deverão ser julgadas por razões unicamente internas, como se diz. Ao contrário, é evidente que nas questões históricas, tais como a origem e conservação das obras, os testemunhos da história são mais importantes que aquelas e devem ser pesquisadas e discutidas com o maior cuidado. Quanto às razões de crítica interna, na maioria das vezes, sua importância não é tanta para que se possa invocá-la, a não ser para uma confirmação.

Com outro modo de agir haverá, certamente, grandes inconvenientes. Os inimigos da religião, de fato, serão sempre mais ardorosos em atacar e combater a autenticidade dos Livros santos: o próprio gênero de crítica mais sublime que eles praticam, ficará reduzido, afinal, ao ponto de deixar cada um seguir sua própria indicação na interpretação, seu próprio preconceito. De onde se deduz que não se obterá nem a luz pedida para a inteligência das Sagradas Escrituras, nem outra vantagem qualquer para a doutrina, mas ao contrário, aparecerá essa prova certa de erro, que é a variedade e a diferença nas maneiras de pensar como já o fazem os próprios partidários principais dessa nova ciência. Poderá mesmo ocorrer que, estando muito impregnados de uma vã filosofia e de doutrinas racionalistas, não hesitem em retirar dos Livros sagrados as profecias, os milagres, e tudo o que ultrapassa a ordem natural» [8].

A traição

Que aconteceu a partir de meados dos anos cinqüenta? Num «crescendo» impressionante, os exegetas do Instituto Bíblico Pontifício desertaram o domínio da crítica íntegra, da verdadeira crítica, para passar para o da falsa «crítica», desse «sistema adornado com o nome de crítica superior» já desmascarado por Leão XIII, e hoje, esses desertores proclamam-se soberanos absolutos da exegese católica. Porque «católico», não se compreende, dado que o método de trabalho, os princípios e as conclusões são copiados tais quais dos protestantes racionalistas.

Assim, hoje, encontramos entre nós o mesmo subjetivismo desenfreado, as mesmas afirmações arbitrárias, as mesmas negações, tão radicais quanto infundadas, do criticismo racionalista. E o triunfo da «crítica divinatória» ou ainda imaginativa, fruto de pura fantasia. que se pretende aplicar até aos Evangelhos, apesar de que sua autenticidade e historicidade sejam confirmadas por argumentos externos bastante sólidos, isto é, por documentos históricos que remontam diretamente ou indiretamente à sua composição, documentos inatacáveis por toda crítica séria. Mas é assim: de sério na «nova exegese» só há o massacre dos textos sagrados, que ela não cessa de perpetrar.

«Exegese» romântica

Várias vezes dei em meus livros algumas amostras, entre as mais escandalosas (ao menos no seu tempo), de uma exegese romântica que se faz passar por «crítica bíblica» ou «científica», mas que rivaliza em ridículo e em fantasia com a critica literária que foi em tempos passados a cabeça de turco da sátira de Romagnoli [9].

Mat. 16, 13-19: é a profissão de fé de São Pedro («Vós sois o Cristo, Filho do Deus vivo») louvada por Nosso Senhor Jesus Cristo, que anuncia antecipadamente a fundação da Igreja e o primado de Pedro: «Bem-aventurado és, Simão Bar-Jona, porque não foi a carne e o sangue que te revelou isto, mas meu Pai que está nos céus. E eu te digo que tu és Pedro. e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja... ».

Texto muito importante para o dogma, ilustrado e defendido com argumentos sólidos, pela exegese católica, contra os ataques renovados do protestantismo.

Pois bem, em 1957, o católico Anton Vögtle, de Friburg, na Baviera, padre, exegeta e diretor da revista católica Biblische Zeitschrift, conquistado pela crítica «divinatória», desvela que, ao contrário, os fatos não se desenrolaram como os narra o evangelista Mateus (que estava presente). Não, a profissão de fé de Pedro, antes da Ressurreição, não podia ser exata e então. (notem bem a ... força dos argumentos): «Vós sois o Cristo» sim, mas acrescenta Vögtle, «nacionalista, belicista, como o esperavam os judeus». Assim - é a conclusão que Vögtle crê poder tirar - é impossível que Cristo tenha louvado Pedro e lhe tenha prometido o primado: este louvor e esta promessa foram postas na boca de Jesus pelo redator desconhecido do Evangelho dito de Mateus (mas que não seria de Mateus), o qual desconhecido até mesmo aperfeiçoou a profissão de fé de Pedro. Nada impede, pois, seja como for - concede Vögtle em sua bondade - que a promessa do primado tenha tido realmente lugar, mas ... somente depois da Ressurreição. Quem sabe onde e quando?

O jesuíta Maximilien Zerwick, do Instituto Bíblico Pontifício, entusiasmou-se com o achado - perdão! - da «exegese» de Vögtle e a espalhou na Itália [10]. Zerwick definiu o versículo 17 («Bem-aventurado és Simão...»  etc), como «uma frase fictícia que o evangelista põe na boca de Jesus». «Mas então - pergunta - o macarismo [=a bem-aventurança; a "mania de novidades" transparece até mesmo na linguagem] é de Mateus, e não de Jesus? Sim - responde - ousemo-lo dizer... ». Sim, coragem e sangue frio, enquanto o bisturi da «crítica divinatória» ou antes, da fantasia mais desenfreada, disseca sob nossos olhos o Santo Evangelho de Deus!

Mons. Settimio Cipriani vai ainda mais longe: Mat. 16. 13-19 (Confissão de Pedro em Cesaréia de Filipos, sobre as encostas do monte Hermon) se identificaria com Jo. 6. 69-71 (Confissão de Pedro na sinagoga de Cafarnaum). Como é possível -  perguntará o leitor - se nos três Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas e no Evangelho de João esses dois episódios são nitidamente distintos? É verdade. Mas, então, que fazemos nós do exegeta? Os textos dizem uma coisa, mas a crítica «divinatória» vai além do texto, no reino da ... fantasia, e, dos dois episódios ela é capaz de fazer um [ela seria, aliás, igualmente capaz de fazer de um texto único, dois...].

Quais são os argumentos de Cipriani? «Alguns manuscritos e versões» no v. 69 do cap. 6 de São João, no lugar de «Vós sois o Santo de Deus», levam: «Vós sois o Cristo, Filho de Deus». Disso Mons. Cipriani deduz:

«A razão dessas alterações voluntárias [sic] do texto, deve-se pesquisar, certamente, [sic!] na convicção de que tanto João como os Sinópticos descrevem o mesmo episodio» [11]. Como se não se conhecesse a tendência de alguns copistas, que se fiam um pouco demais na sua memória e que substituem uma frase por outra de significação semelhante. É supérfluo dizer que, ai também, não se trata, para Cipriani, de idéias suas: a identificação dos dois episódios tinha sido proposta por Loisy, pai da exegese modernista, e retomada em seguida por «críticos» protestantes. Mons. Cipriani escreve: «as divergências que se encontram [entre o episódio de Cafarnaum e o de Cesaréia de Filipos] são devidas exclusivamente a razões redacionais e a motivos particulares de ordem teológica que guiam cada evangelista na composição do seu livro [é a tese típica da Redaktionsgeschichte], mesmo se para nós não é fácil descobrir todas as motivações teológicas» [12]. Cipriani, finalmente, não explica nada. não demonstra nada, reconhece mesmo que não se pode demonstrar nada, mas sacrifica ao Moloch do «criticismo» bíblico o texto sagrado, a autoridade da Igreja e o simples bom senso. Uma tal exegese «critica» não é, claramente, nem católica, nem cientifica. Não é católica porque não leva em conta os princípios dogmáticos que regulam a exegese católica. Não é científica porque não é científico avançar unicamente com os argumentos (se assim pode-se dizer) internos, para fazer que o texto sagrado diga tudo o que se quer. Isso seria, no entanto. segundo os «novos teólogos». «O tipo de critica bíblica adotado por Pio XII».

E este é o «tipo de critica bíblica» no qual «empenham-se todos os vinte pesquisadores» da «nova» Comissão Bíblica Pontifícia, como Brown percebeu desde o início e como os fatos o confirmam cada vez mais amplamente. Brevemente examinaremos seus frutos.

Francesco Spadafora

[1] V. SimsimNãonão de maio de 1996;

[2] R. E. Brown, La conception virginale et la réssurrection corporelle de Jésus.

[3] V. SimsimNãonão de outubro de 1995 pp. 1 ss.

[4] V SimsimNãonão de setembro de 1995 pp. 3 ss

[5] H. Höpft Critique biblique em Dictionnaire de la Bible, suplmento t. II. col. 175-274.

[6] Santo Agostinho De doctrina Christi 2. 21 PL. 34.46. Para uma exposição mais vasta, ver no Dizionario Biblico dirigido por F. Spadafora, verbete crítica bíblica.

[7] H. Höpft, loc. cit.

[8] E. B. no. 119.

[9] E. Romagnoli, Minerva e lo scunmione III ed. Bologne 92 pp. 2 ss.

[10] Rivista Biblica 8 (1960) pp. 80-81 e minha refutação em Palestra del Clero no. 18. 15 de setembro de 1961: Um documento notável para a exgese católica.

[11] Atas da XIX "Semana Bíblica", publicadas por Paidera (Bresein 1967), sob o título São Pedro;

[12] Ibid.