o triunfo do modernismo sobre a EXEGESE CATÓLICA
17. A «NOVA» COMISSÃO BÍBLICA PONTIFÍCIA
O último documento oficial sobre a exegese: «A interpretação da Bíblia na Igreja» «é um opúsculo de 125 páginas publicado pela Livraria Editora Vaticana. O documento foi elaborado pela Comissão Bíblica Pontifícia, organismo vaticano presidido pelo cardeal Ratzinger» [1]
É necessário dizer alguma coisa sobre esse «organismo vaticano» que, sob a presidência do cardeal Ratzinger, deveria socorrer a exegese católica com toda a urgência.
A (outrora gloriosa), Comissão bíblica
De que Comissão bíblica pontifícia se trata? Não, certamente, da que Leão XIII quis opor como um barreira contra o modernismo nos estudos bíblicos, «para não deixar jamais prevalecer entre os católicos a opinião e o método, seguramente censuráveis, que consistem em conceder demais às opiniões heterodoxas [= protestantes racionalistas], como se o verdadeiro sentido das Escrituras devesse ser buscado em primeiro lugar no acervo de erudição alheia», quando «o sentido legítimo da Sagrada Escritura não pode ser encontrado em nenhum lugar fora da Igreja, nem ser dado pelos que rejeitam seu magistério e sua autoridade» [3].
Essa comissão bíblica pontifícia exerceu fielmente sua função durante vários anos (1905-1937) [4], defendendo com seus decretos a «tradição constante universal e solene da Igreja» sobre a historicidade e a autenticidade dos santos Evangelhos: «o apóstolo João, e não qualquer outro, deve ser tido por autor do quarto Evangelho», o qual é «um documento propriamente histórico»; deve-se, com certeza, «afirmar que Mateus, apóstolo de Cristo, é realmente o autor do Evangelho publicado sob seu nome» e, de maneira alguma pode-se duvidar do caráter «propriamente histórico» dos fatos narrados e, em particular dos capítulos que narram a infância de Jesus e das expressões relativas ao primado de Pedro: «Marcos, segundo a pregação de Pedro ... e Lucas segundo a de Paulo são verdadeiramente os autores dos Evangelhos que lhes são respectivamente atribuídos» e «merecem justamente toda a crença que a Igreja sempre lhes devotou»
A oração... fúnebre pronunciada por Paulo VI
Esta Comissão bíblica pontifícia, criada por Leão XIII encabeçada por cinco cardeais e com plenos poderes, é um órgão do magistério. Assimilada por São Pio X (1907) às outras congregações romanas, foi enterrada pelo cardeal Tisserant [5] e Paulo VI pronunciou sua «oração fúnebre» no seu Motu proprio Sedula Cura, pelo qual ele provê sobre a «reorganização da Comissão bíblica pontifícia» [6].
«Com o Motu proprio - explica em nota o novo Enchiridium biblicum dos Dehonianos - a comissão bíblica pontifícia foi completamente restruturada e agregada [melhor: subordinada] à Congregação pela doutrina da Fé, cujo prefeito é, de oficio, igualmente presidente da própria comissão. A constituição apostólica Pastor bonus sobre a reestruturação da Cúria Romana (28 de junho de 1988) só fará confirmar esta organização».
No Motu proprio está todo o papa Montini, com seu espírito e seu estilo «diplomático», no mau sentido do termo. Eis a oração fúnebre da então gloriosa comissão bíblica: «As vantagens que resultaram para um sadio progresso dos estudos bíblicos realizados por esta comissão, desde a sua instituição até hoje, confirmam nossa convicção acerca de sua utilidade» - e a convicção de Paulo VI é tal que ele prossegue - «Nada nos parece mais indicado e eficaz que reorganizar esta comissão bíblica pontifícia com leis novas e mais apropriadas».
Eis algumas:
- os membros da comissão bíblica, cujo número não deve passar de vinte, são nomeados pelo Soberano Pontífice «e são propostos a seu julgamento pelo cardeal presidente, depois de ter consultado as conferências episcopais» (art. 4);
- esses membros devem ser «pesquisadores de ciências bíblicas provenientes de diversas escolas e nações, que se distingam por sua ciência, sua prudência e seu senso católico [e para julgá-los recorre-se às conferencias episcopais?]» (art.3);
- o «secretário» da Comissão bíblica é nomeado pelo Papa sob proposta do presidente da mesma comissão. (art.5);
- sobre «problemas particulares», poder-se-á, com acordo do presidente «pedir a opinião de outros especialistas, inclusive eventualmente não católicos» (art. 7);
- «A Comissão bíblica se preocupará em manter relação com os diversos institutos de estudos bíblicos, tanto católicos [encabeçando o Instituto Bíblico Pontifício, naturalmente], como não católicos» (art. 12).
«Na nova conformação que lhe foi dada depois do Vaticano II - precisará o cardeal Ratzinger - a Comissão Bíblica Pontifícia não é [não é mais] um órgão do magistério, mas antes uma comissão de especialistas» [7]. «Especialistas» em quê ... é o que nós vamos ver.
Os secretários escolhidos por seu modernismo
Em 1974, como secretário da «nova» comissão bíblica, encontramos o belga Mons. Albert Descamps, antigo reitor da universidade de Louvain, afeiçoado «à nova exegese» e seu adepto há anos. Entre os membros dessa comissão, encontramos o americano Raymond E. Brown, autor, em 1973, da pequena obra A concepção virginal e a ressurreição corporal de Jesus, publicada em 1977 em italiano [8] pela casa Queriniana, editora de Mons. Bevilacqua, que foi mestre do jovem Montini.
No seu opúsculo, Brown aplica o «método histórico-crítico»: ele «desmistifica», conservando, da Concepção virginal e da Ressurreição corporal de Jesus, somente o nome. Brown parte desse «a priori», emprestado de W. Panneberg: «Jesus é histórico. Maria é simbólica. Ela pertence a simbologia cristã, mas não à história» [9]. Quanto à ressurreição de Nosso Senhor, Jesus «ressuscitado» é Jesus que «vive» ainda em seus fiéis, para a comunidade crédula dos seus discípulos, mais ou menos da mesma maneira que, para nós, nossos queridos defuntos são ainda vivos [10].
Para sustentar sua heresia, Brown apela a Descamps: «Devemos rejeitar a teoria segundo a qual os evangelhos podem harmonizar-se com um arranjo no qual Jesus teria aparecido mais de uma vez aos doze, primeiro em Jerusalém e depois na Galiléia. Como Descamps demonstrou de maneira persuasiva há alguns anos [foi em 1959], os vários relatos evangélicos narram em substância a mesma aparição fundamental aos doze, sejam situadas em Jerusalém ou na Galiléia... » [11]. E em nota: «É interessante notar que uma das primeiras tentativas católicas de aplicar uma critica bíblica rigorosa aos relatos pascais seja atribuída a um pesquisador [Descamps] que se tornaria bispo e membro [e até secretário!] da Comissão Bíblica Pontifícia».
Para dizer a verdade, o Bispo e secretário da «nova» Comissão Bíblica Pontifícia, Albert Descamps, não parou aí, mas também exumou a distinção modernista entre o «Jesus da história» e o «Jesus da fé» já condenada por São Pio X: «É preciso - disse ele - distinguir entre o Cristo da fé e o Cristo da história procurando, com os refinados meios críticos modernos, chegar a este último [o Cristo da história], que tem uma importância especial em teologia, mais que as formas cristologicas elaboradas depois cia Páscoa [que nos dariam o "Cristo da fé"]» [12].
Aliás, desde 1959, Descamps tinha proposto novamente a tese do modernista Loisy, excomungado por São Pio X, sobre Mt 5, 32, a saber: o inciso «nisi fornicationis causa», foi acrescentado pela comunidade primitiva às palavras de Jesus sobre a indissolubilidade do matrimônio, para assim permitir o divórcio. A Igreja primitiva, em suma, apesar de saber que Jesus é Deus, conhecendo bem sua doutrina, teria ousado modificá-la para permitir o divórcio! [13].
Tão grandes «méritos» modernistas não escaparam ao filomodernista Paulo VI, que em 1971 nomeou Descamps Bispo, depois secretário da «nova» Comissão Bíblica Pontifícia, e que, em 1974, enviou este exemplar «guardião do depósito da Fé» como visitador a Ecône, para destruir esse florescente seminário, obra do grande arcebispo católico, Monsenhor Marcel Lefebvre!
Em 1984, como secretário da «nova» comissão bíblica, encontramos o sulpiciano Henri Cazelles. Esse religioso que, em 1960, tinha saído do Santo Ofício chorando, como me disse pessoalmente o cardeal Bea [14]; esse Cazelles que, na Introdução à Bíblia, de Robert Feuillet, tinha sustentado que a inspiração divina não se aplicava ao escritor sagrado, mas à «comunidade primitiva» (inspiração coletiva) e que a inerrância era limitada somente aos textos bíblicos concernentes ao dogma e à moral, de tal maneira que o Osservatore Romano de 2 de julho de 1958, na primeira página, tinha advertido que sua obra não fosse adotada «nem como livro de texto, nem como material para os exercícios» [15].
Depois de Cazelles, o secretário atual da Comissão bíblica reformada é Albert Vanhoje S.J., antigo reitor do Instituto Bíblico Pontifício que, no rastro de Lutero, favorece o «sacerdócio comum» dos fiéis em detrimento do sacerdócio ministerial, chegando a afirmar que Jesus escolheu ser... um leigo! [16].
Simples mudanças entre os sucessivos secretários da Comissão Bíblica Pontifícia; ... a linha continua sempre a mesma.
Membros de «sensibilidade católica»
Quanto aos membros da «nova» Comissão Bíblica, R. E. Brown escrevia já em 1973: «Do lado eclesiástico pode-se considerar como importante passo avante a iniciativa de Paulo VI, em junho de 1972, de formar uma nova Comissão Bíblica Pontifícia, composta não mais de cardeais, mas de vinte pesquisadores, todos empenhados no tipo de crítica bíblica [que teria sido adotado por Pio XII [em Divino afflante spiritu, segundo a pequena fábula que repetem com gosto os «novos exegetas»] [17] alguns dos quais foram profundamente marcados pelos sofrimentos que tiveram que passar, pelo ano de 1960, depois das tentativas fundamentalistas, que iriam logo malograr, de rejeitar esse tipo de critica». E Brown dá exemplos: «por exemplo David Stanley [do qual não tenho informações] e Stanislas Lyonnet [que, no entanto. foi condenado pelo Santo-Ofício e não pelos "fundamentalistas"]» [18].
Vê-se que Brown sabia bem o que escrevia. Entre os «pesquisadores», atualmente membros da «nova» Comissão Bíblica Pontifícia, basta-nos assinalar aqui Mons. Gianfranco Ravasi, Brendan Byrne e Giuseppe Segalla.
G. Ravasi, antigo aluno do jesuíta Vanhoje (1966-1969), e agora sob a alta proteção do cardeal Carlo Maria Martin S.J., é muito conhecido dos leitores de SimSimNãoNão. Em 1992 redigiu a Introdução à Vida de Jesus, do racionalista apóstata Renan, reeditado pelo editor Rizoli [19]. «Merece esta obra - perguntava ele - ser novamente proposta à leitura atual? A resposta é certamente positiva». Mesmo se, ou melhor, justamente porque, para Renan, a Ressurreição de Jesus deve-se à «imaginação ardente» de Maria de Magdala e se Lázaro manteve-se vivo dentro da tumba para simular o milagre, e «talvez» até Jesus soubesse disso, Ravasi, membro da Comissão Bíblica Pontifícia, entre as «formulações essenciais» de Renan narra o seguinte: «Os Evangelhos são textos aos quais se trata de aplicar as regras comuns da critica [racionalista, entende-se, que rejeita o sobrenatural]»; «Os Evangelhos são lendas; quando narram os milagres, podem conter história, mas certamente não é tudo histórico».
É exatamente o «a priori» que guia (fora do caminho) o outro «pesquisador», membro da Comissão Bíblica Pontifícia, Brendan Byrne S.J., para quem a ressurreição de Lázaro «não transmitia tanto um fato realmente consumado, senão uma simbologia utilizada pela Igreja primitiva», mesmo se, talvez não esteja privada de «fundamento histórico», como poderia ser a cura de uma pessoa próxima da morte, cura «aumentada» em seguida «num sentido teológico pela comunidade cristã primitiva. E, enquanto se debate pessoalmente nas obscuridades teutônicas da Formengeschichte-Redaktionsgeschichte, o jesuita Byrne, com uma inquietação ... apostólica, «convida, seja como for, os católicos, a não dramatizar os resultados dos estudos recentes sobre o Novo Testamento, mesmo se, colocar em dúvida o milagre de Lázaro, para muitos de entre eles seja um "golpe duro "» [20]. É claro, haverá base para «dramatizar» se os «estudos recentes» sobre o Novo Testamento têm a pretensão de nos dizer que a Igreja infalível, ao contrário, enganou-se durante dois mil anos, considerando e propondo como apostólicos e históricos textos de desconhecidos, cuja fidelidade à realidade dos fatos é hoje posta em dúvida pelos membros da Comissão Bíblica que, é verdade, «não é [mais] um órgão do magistério», mas permanece ainda «pontifícia» e, como precisou o próprio cardeal Ratzinger, goza da «confiança do magistério»? [21]
Si Si No No interessou-se igualmente, em razão de uma Crítica da «nova» Bíblia das Paulinas [22], por outro membro italiano da Comissão Bíblica, Giuseppe Segalla, também antigo aluno do Instituto Bíblico (1959-1963), e que atualmente é professor no seminário de Pádua. Para Segalla, que nesta Bíblia teve a incumbência da Introdução e do comentário ao Evangelho de São João, o apóstolo João não teria escrito absolutamente nada: só se pode admitir uma «tradição joânica», mas «meditada e restruturada teologicamente» pela «comunidade» primitiva, e aqui está o sinal de que a historicidade dos fatos é a partir dai imperceptível: «Num segundo período, de fato - escreve Segalla - procurou-se o sentido profundo, cristológico e soteriologico, das palavras e dos fatos transmitidos, e isto à luz do Espírito Santo, o Paráclito, prometido por Jesus, pelo qual a comunidade se via animada [a inspiração "coletiva" de Cazelles!], comunidade na qual vivia a testemunha [imprecisamente identificada]. O trabalho de aprofundamento teológico - agora [com o triunfo do modernismo no domínio bíblico] sabemos - encontra-se atrás de cada um dos evangelhos [nenhum dos quais pertence, então, ao autor que lhe foi atribuído há dois mil anos]. Mas na tradição joânica isto chegou ao máximo; e, em conseqüência, é mais difícil retornar ao Jesus histórico». Isto é somente um exemplo da «alta fantasia» - perdão! - da «alta crítica» desse «pesquisador em ciências bíblicas», membro da «nova» Comissão Bíblica Pontifícia, evidentemente porque se distinguiu - como seus pares - pela sua «ciência, sua prudência e seu senso católico»! [23].
O enigma do «Presidente»
Resta-nos dizer ainda alguma coisa sobre o presidente da Comissão Bíblica Pontifícia, que, depois da reforma de Paulo VI, é O prefeito da congregação pela Fé e assim, atualmente, o cardeal Ratzinger.
Já vimos [24] que ele alterna criticas e observações eficazes sobre a Formengeschichte e sobre o «estado de urgência» atual da exegese católica, com declarações de sinais diametralmente opostos, os quais não deixam entrever nenhuma esperança. Assim, ele parece consciente do fato de que a «recepção pós-conciliar da Dei Verbum - isto é, a interpretação que lhe dão o cardeal Martini S.J., o padre Ignace de la Potterie S.J. e seus «seguidores», Galbiati, Ravasi, Fabris etc. - «praticamente deixou cair a parte teológica [= os princípios dogmáticos sobre a exegese católica] da própria Constituição, como uma concessão ao passado, compreendendo o texto unicamente como uma aprovação oficial e incondicional do método histórico-crítico» [25]. Esboçando a história do método histórico-crítico, escreve ele alegremente: «as teorias multiplicavam-se: sucediam-se umas às outras e formavam uma barreira que impedia o acesso à Bíblia aos não iniciados. Aliás, os próprios iniciados não liam mais a Bíblia, mas antes faziam-lhe uma dissecação para chegar aos elementos a partir dos quais ela foi composta [...]: deve haver aí, atrás das fontes existentes - os livros da Bíblia - fontes mais primitivas, que se tornam a norma referencial da interpretação. Ninguém pode surpreender-se que tal modo de procedimento tenha conduzido a uma abundância de hipóteses, cada vez mais numerosas, até a formação, no fim, de uma selva de contradições» [26].
É o labirinto de hipóteses, de «probabilidades», nas quais perdem-se os seguidores da Formengeschichte e da Redaktiongeschichte; labirinto que o padre Lagrange já havia registrado:
«Uma vez que nos é proposto substituir a Fé tradicional pelos resultados da crítica, temos o direito de perguntar aos negadores se eles estão de acordo sobre esses resultados; e se suas conclusões positivas são contraditórias, não podemos somar quantidades tão diferentes... Aliás, eles próprios são os primeiros a reconhecer que se trata de conjecturas. A soma de probabilidades não equivale a uma certeza, e menos ainda a possibilidades» [27].
Mas não é tudo. O cardeal Ratzinger - já demonstrei amplamente - parece consciente da ruína atual da exegese católica: «O fato que, dessa maneira, depois do concilio, as diferenças confessionais, entre as exegeses católica e protestante praticamente desapareceram. pode-se atribuir a esta recepção unilateral pe!o Concilio. Mas o aspecto negativo desse processo é que, inclusive no meio católico, o hiato entre exegese e dogma a partir daí é total e que a Escritura tornou-se para a exegese uma palavra do passado que cada um se esforça, à sua maneira, por traduzir para o presente, sem poder ter muita confiança na barca que tomou. A Fé decai assim numa espécie de filosofia... O dogma, privado do fundamento da Escritura, não subsiste mais [exatamente como a definição solene do primado, feita pelo Concílio Vaticano I, não mais subsiste, a prevalecer a exegese «científica» de Romano Penna, exegese que já era a de Zerwick e antes ainda a de Loisy]. A Bíblia, que foi separada do dogma, tornou-se um documento do passado, ela própria pertence ao passado» [28].
Depois de tão graves considerações, o que poderíamos esperar do cardeal Ratzinger, senão uma rejeição categórica do «método histórico-crítico»? Pois bem, não! Eis que o cardeal afirma a necessidade de conciliar este «método histórico-crítico» com as premissas dogmáticas da exegese católica reafirmada pelo Concílio na Dei Verbum. Porque - é um dogma para os adeptos da «nova exegese» - «é preciso levar em consideração as inegáveis aquisições do método histórico e conseguir encontrar «uma visão de conjunto convincente», que concilie o dogma católico e o «método histórico-crítico». É a quimera perniciosa já buscada em vão pelo cardeal Bea, a quadratura do círculo, da qual toda a «nova exegese» com seus erros e suas heresias confirma a impossibilidade: é a ilusão culposa de que se pode fazer uma «distinção clara» entre esse método e suas «premissas contestáveis» [29], quando é manifestamente evidente que toda a «nova exegese» vive dessas premissas heréticas, tal como a rejeição da Tradição (a Igreja primitiva, no lugar de guardá-la com zelo e de transmiti-la fielmente, teria alterado e deformado a doutrina autêntica de Jesus) e a negação, em conseqüência, da historicidade dos Evangelhos (o Jesus dos Evangelhos não é o «Jesus histórico», mas o «Jesus da fé»), etc.
E - o que é pior - para encontrar sua «visão de conjunto convincente», o cardeal Ratzinger, a quem cabe, na sua qualidade de presidente, propor ao papa tanto a nomeação do secretário como a dos membros da Comissão Bíblica Pontifícia, o cardeal Ratzinger, pois, reuniu nessa «nova» comissão, personagens como aqueles de quem mencionei acima o «senso católico»: oficialmente são «especialistas em ciências bíblicas» distinguidos «por sua ciência, sua prudência e seu senso católico» segundo o Motu proprio de Paulo VI: mas, na realidade, como prenunciava Brown desde 1973, são seguidores do «criticismo» bíblico.
Francesco Spadafora
[1] Cf. G. Ravasi in Jesus fev.1994.
[2] Cf. Courrier de Rome julho-agosto 1995.
[3] Carta apostólica Vigilantiae E. B. 137-146. V. SimsimNãonão fev. 1995.
[4] Ibid
[5] SimsimNãonão março 1995.
[6] E.B.B. no. 722 ss.: E.B.B. é O novo Enchiridium Biblicum bilíngüe editado pelos dehonianos de Bolonha, 1993.
[7] Prefácio à Interpretazione della biblia nella Chiesa.
[8] A versão original americana foi editada por Paulist Press. Nova York 1973.
[9] Ver também The Birth of the Messiah, A commentary on the Infancy. Narratives in Mattew and luke, Nova York 1977 pp.60; cf. F. Spadafora, L 'Evangelo dell'infanzia in Palestra del Clero no. 18-19, 1980, pp. 27; F. Spadafora, La risurrezione di Gesu, Rovigo 1978, p.57 em nota: pp. 7,12,21.22 ... V.Mons. Pier Carlo Landucci Il Gesu della storia e il Cristo della fede em Studi cattolici, julho 1973, pp.441-445.
[10] R. E. Brown La concezione verginale e la resurrezione corporea di Gesu pp. 103-107, em particular na nota 128.
[11] Ibid. pá. 143 e nota 175, que envia à A estrutura das narrações evangélicas da ressurreição, in Biblica 40 (1959).
[12] Entrevista citada por Mons. Pier Carlo Landucci in Studi cattolici julho 1973 pp. 441-445 no artigo Il Gesu della storia e il Cristo della fede.
[13] A Descamps Essai d' interprétation de Mt 5, 17-18 "Formgeschichte" ou "Redaktiongeschichte" in Studia Evangélica 73 (1959) 156-173; v. A. Loisy Les évangiles synoptiques, I, Paris 1907, pp.557-580.
[14] V. SimsimNãonão, julho 1995.
[15] V SisiNono, 30/4/89, pág. 3.
[16] V. SisiNono 15/3/87: «Jesus não era sacerdote»: palavra do jesuíta A. Vanhoje.
[17] V. SimsimNãonão set. 1995.
[18] R. E. Brown op. cit. pág.17.
[19] V. SisiNono 15/2/92 Ed ora Renan...
[20] Il giornale 8 maio 1994; v. SimsimNãonão set 1995.
[21] J. Ratzinger. prefácio à L 'interpretazione della Biblia nella Chiesa pág. 22.
[22] V. SisiNono 15/6/92. pp.1 sq.
[23] A lista dos membros do qüinqüênio 1990-1995 foi dada no Anuário Pontifício: cinco são jesuítas (inclusive o secretário) e são como os outros - menos dois dominicanos - todos alunos do Instituto Bíblico Pontifício «novo curso».
[24] V. Courrier de Rome julho-agosto 1995;
[25] L 'esegesi cristiana oggi, Éd. Piemme 1991 p. 99. v. também a partir da pág. 103.
[26] Ibid, p.94.
[27] J. M. Lagrange O.P.M. Loisy et le Modernisme, Ed. du Cerf Paris 1932 pp. 178 sq.
[28] J. Ratzinger op. cit. pág. 100.
[29] Segundo o discurso de João Paulo II relatado pelo L´Osservatore romano 8 abril 1959. p.5; SiSiNoNo de 30.4.89.