o triunfo do modernismo sobre a EXEGESE CATÓLICA

16. o Cardeal Ratzinger e a Exegese Católica «Em Crise»

Antes de fechar o círculo que abri, voltando ao meu ponto de partida - isto é, ao recente documento da Comissão Bíblica Pontifícia - devo deter-me sobre o estudo do cardeal Joseph Ratzinger, A interpretação bíblica em questão, publicada numa obra chamada L'Esegesi Cristiana oggi (A exegese cristã hoje), editada pela «Edicão Piemme» em 1991. Esta obra contém textos de diversos autores, encabeçando-os o padre Ignace de la Potterie S.J., do Instituto bíblico Pontifício, com uma exegese que - como se podia esperar - não é mais católica, mas ecumenicamente misturada com a exegese protestante, para produzir uma única exegese «cristã».

No seu estudo, o cardeal Ratzinger faz alternar luzes e sombras num crepúsculo que é humanamente sem esperança; ora faz julgamentos - às vezes exatos - sobre a crise da exegese católica, sobre o recuo pós-conciliar da Dei Verbum, sobre os princípios dogmáticos da exegese católica, ou substancialmente negativos sobre o sistema Bultmann-Dibelius (a Formengeschichte); ora são afirmações que se opõem às precedentes, do tipo: a Dei Verbum «enfatizou a legitimidade e também a necessidade do método histórico»!

Mas, leiamos juntos o que diz o cardeal Ratzinger nesta obra (págs. 98-100).

Estado de «crise»

Depois de ter admitido e ilustrado o «estado critico no qual caíram a exegese e a teologia», o cardeal Ratzinger continua: «Esta situação é, hoje, bastante semelhante, tanto na teologia católica como na evangélica, mesmo se cada uma, segundo suas próprias tradições cientificas, possui diversas maneiras de exprimir-se em relação a alguns detalhes. No que diz respeito ao lado católico, o Concilio Vaticano II, certamente, não criou esta situação, mas não foi capaz de impedi-la».

Donde conclui-se que em ponto tão fundamental como o «estado de crise» da exegese católica (na pág. 97 o cardeal Ratzinger fala até em «decomposição»), o Concilio Vaticano II teria se revelado totalmente inútil. Na realidade - já demonstramos - o Concílio não se revelou inútil, mas nocivo, porque com seus textos equívocos consolidou a posição dos jesuítas modernistas do Instituto Bíblico Pontifício, os coveiros da exegese católica.

Seja como for, aparece sempre mais clara e urgente a necessidade de estabelecer quando, como e por quem foi criada «esta situação» que - como admite o cardeal Ratzinger - atormenta o campo da exegese católica (e as diversas correntes do protestantismo) com conseqüências negativas graves sobre a teologia e a catequese.

Porque o Vaticano II «não foi nem mesmo capaz de impedir» a crise? O cardeal Ratzinger deveria sabê-lo, posto que fez parte dos experts progressistas, a alma da Aliança Européia, que no Concílio fizeram sua «revolução», dominando, intrigando e conseguindo, algumas vezes, enganar a massa ignara dos Padres conciliares [1]. No decorrer destes artigos dei alguns exemplos. [2]

No entanto, o Concílio tinha tanto o poder como o dever de impedir «esta situação». Ainda mais que «esta situação» para a exegese foi claramente denunciada por Mons. Romeo [3] e por mim mesmo, e que o Santo Ofício já o tinha nitidamente condenado, seja no Monitum de 1961 em defesa da plena historicidade dos Evangelhos,  ou ainda com o afastamento da docência e de Roma, dos jesuítas Lyonnet e Zerwick, responsáveis pela «nova exegese» no Instituto Bíblico [4]. Foi o filomodernista Montini que precipitou «esta situação» quando, mal eleito papa, tomou a gravíssima responsabilidade de trazer de volta às suas cátedras os dois «exilados», humilhando com isso o Santo Oficio (e era apenas um começo...) e autorizando em Roma a criação de uma «diarquia»: o Instituto Bíblico Pontifício oposto ao Santo Ofício, único competente no domínio bíblico [5]. Sua Eminência, o cardeal Ratzinger, tem na sua Congregação (o ex-Santo Oficio) toda documentação sobre os acontecimentos que determinaram «esta situação» que o Concílio não criou - é verdade - «mas que nem mesmo foi capaz de impedir» e que, ao contrario, agravou sensivelmente.

O equilíbrio

«A Constituição sobre a Revelação divina - continua o cardeal Ratzinger - procurou estabelecer um equilíbrio entre os dois aspectos da interpretação. a "análise" histórica e a "compreensão" de conjunto [ou, ainda, entre a "nova exegese" e a exegese católica]».

Esse «equilíbrio» - espetáculo de circo que não convém a doutrina - certamente não estava nas intenções dos Padres do Concílio que pediram, às centenas, de modo insistente, a intervenção de Paulo VI como Vigário de Nosso Senhor, para que fossem afirmadas pelo Concilio, com clareza, primeiro a inerrância absoluta da Escritura Santa e em seguida a historicidade dos Evangelhos. Esta intervenção ocorreu e foi claríssima: «... o Santo Padre não poderia aprovar uma formula que deixasse dúvidas quanto à historicidade desses Santos Livros» [6]. Se a intervenção não foi inteiramente eficaz, isso deve-se particularmente às intrigas dos membros neomodernistas da Comissão doutrinal, que conseguiram inserir seus equívocos lá e cá e fazê-los passar imperceptíveis. Mas o iter conciliar da Dei Verbum ou a Constituição sobre a Revelação Divina estão aí para atestar que nenhum «equilíbrio» estava no espírito do Concílio e o texto, apesar das «cunhas», palavras ambíguas, submergidas na prolixidade e escondidas nas notas, contêm em primeiro lugar a reafirmação solene da doutrina católica, especialmente no que concerne à origem apostólica e à historicidade dos Evangelhos combatidas pela «nova exegese».

Aliás, não há lugar para o «equilíbrio» entre a exegese católica e a Formengeschichte, «a não ser que se deseje incorrer em contradição»: a inspiração divina dos Livros Santos com o dogma conexo de sua inerrância absoluta e o dogma da Igreja - única depositária e intérprete da Sagrada Escritura - são incompatíveis com o que se chama «método histórico-crítico» (Formengeschichte, Redaktionsgeschichte etc.), fundado, ao contrário, sobre a negação preconcebida do sobrenatural e sobre a «metafísica fantástica» da «comunidade» que criou a religião (no nosso caso, os Evangelhos) [7].

Uma opinião insustentável

Lê-se ainda: «De uma parte [a Dei Verbum] enfatizou a legitimidade do método histórico, reconduzindo-o a três elementos essenciais: a atenção aos gêneros literários, o estudo do contexto histórico (cultural, religioso, etc), o exame do que se costuma chamar Sitz im Leben».

Essa é também uma opinião pessoal do cardeal Ratzinger que, como os «novos exegetas», acredita poder deduzi-la do fato de que na Dei Verbum (c.V. no 19), à reafirmação solene da historicidade dos Evangelhos seguem-se três proposições acerca da maneira segundo a qual teriam sido compostos os Evangelhos: proposições extraídas da famosa Instrução proposta pelo cardeal Bea, que também sustentava a quimera de um impossível «equilíbrio» entre a Formgeschichte e a exegese católica. Trata-se, no entanto, de três proposições em si insignificantes e secundárias, mas que lá foram deixadas, mesmo depois da intervenção de Paulo VI, justamente para neutralizar a precedente reafirmação solene da plena historicidade dos Evangelhos [8]. Proposições que se prestam a equivoco, mas que, em todo caso, não podem ser interpretadas em oposição com a doutrina constante da Igreja, nem em antítese com a afirmação imediatamente precedente, da plena historicidade dos Evangelhos, nem com a opinião manifestada pela maioria dos Padres conciliares e pelo próprio Paulo VI, na sua intervenção. O próprio Mons. Galbiati lembra que, no primeiro esquema sobre as Fontes da Revelação, elaborado pela Comissão preparatória do Concílio, «havia não somente uma afirmação da historicidade dos Evangelhos, mas também uma tomada de posição enérgica contra certas idéias e certos métodos utilizados pelos exegetas católicos» [Formgeschichte, Redaktionsgeschichte, etc.]. E ele deve reconhecer que «isso estava em harmonia com um estado de inquietação espalhado em certos meios teológicos e também no episcopado». Mas vemos, ao contrário, que esse mesmo episcopado teria, no Concílio, nitidamente «enfatizado a legitimidade e também a necessidade» dessas mesmas « idéias» e desses mesmos «métodos» com os quais estava (justamente) alarmado [9].

O principio dogmático fundamental da exegese católica

«Mas o documento do Concílio - segue o cardeal Ratzinger - quer, ao mesmo tempo, manter firme o caráter teológico da exegese e indicou os pontos fortes do método teológico na interpretação do texto: a hipótese fundamental sobre a qual baseia-se a compreensão teológica da Bíblia é a unidade da Escritura. A esta hipótese corresponde como caminho metodológico "a analogia da Fé", isto é, a compreensão de textos particulares a partir do conjunto. O documento acrescenta duas outras indicações metodológicas: a Escritura é uma coisa única a partir do povo único de Deus que a conduziu através de toda a história. Em conseqüência, ler a Escritura como uma unidade significa lê-la a partir da Igreja como seu lugar vital, e considerar a Fé da Igreja como a verdadeira chave de interpretação. Por um lado, isso significa que a tradição não fecha o acesso às Escrituras, antes o abre; por outro, significa que volta de novo à Igreja, nos seus organismos institucionais, a palavra decisiva na interpretação das Escrituras».

Porque girar assim em círculos? Com muito mais clareza e eficácia, bastaria lembrar o principio dogmático fundamental, fixado pela exegese católica do Concílio de Trento e pelo Concílio dogmático Vaticano I nesses termos inequívocos: «Ninguém nas matérias de Fé ou de costumes que fazem parte do edifício da doutrina cristã deve, fiando-se em seu julgamento, ousar desviar a Sagrada Escritura para seu sentido pessoal, contrariamente ao sentido que deu e dá nossa Santa Madre Igreja, à qual pertence julgar o sentido e a interpretação verdadeira das Sagradas Escrituras, nem interpretar esta Escritura Santa contra o consentimento unânime dos Padres» [10].

Quanto aos «organismos institucionais», aos quais o cardeal Ratzinger chegou num vôo ascendente começado democraticamente a partir do «povo de Deus», estes organismos, depois da reforma da Cúria e do próprio Santo Ofício, passam seu tempo, como as estrelas de Cronin ... a olhar ou, pior, a fomentar a «decomposição» da exegese católica, como justamente a nova Comissão Bíblica, ainda «Pontifícia», mas que não é mais órgão do Magistério, da qual o cardeal Ratzinger é presidente.

O repúdio desse princípio dogmático fundamental pela «nova exegese»

«Mas esse critério teológico do método - deve admitir o cardeal Ratzinger - está incontestavelmente em oposição com a orientação metodológica de fundo da exegese moderna: é precisamente, ao contrário, o que a exegese tenta eliminar a qualquer preço».

O que significa que o «fundo» da «exegese moderna» não é mais católico. Em suma, a «nova exegese», e é o próprio cardeal Ratzinger que o admite, excedeu «os limites designados pejo Magistério infalível da Igreja, que é a norma próxima de verdade para lodos os fieis», incluindo os teólogos e exegetas [11]. Não basta que estes últimos professem uma vaga disposição de submeter-se ao Magistério, enquanto depois, nos seus escritos de exegese, não levam em consideração nem os princípios dogmáticos fixados pelo Magistério nem o sentido da Sagrada Escritura que «deu e dá nossa Santa Madre Igreja». Pior ainda: eles reclamam a «liberdade» do erro e pretendem tornar a oferecer à Igreja o «verdadeiro» sentido da Escritura e o que ela (a Igreja) deve ensinar, de tal maneira que os pobres batizados, para conhecer o que Jesus disse e ensinou, devem dirigir-se não à Igreja, infalível no seu dever e ao qual ela não pode renunciar, mas à «nova exegese» com suas hipóteses fantásticas e arbitrárias, mas que se pretendem, no entanto, crítico-científicas.

A rejeição do Magistério

E ainda: «Essa concepção moderna [da exegese] pode ser descrita dessa maneira: ou a interpretação é critica, ou se volta para a autoridade [da Igreja]: as duas coisas juntas não são possíveis. Fazer uma leitura "crítica" da Bíblia significa abandonar o recurso a uma autoridade na sua interpretação. Sem dúvida, a "tradição" não deve ser totalmente excluída como meio de compreensão, mas ela conta somente na medida em que suas motivações resistem aos métodos "críticos". Em nenhum caso a "tradição" pode ser critério de interpretação. Tomada em seu conjunto, a interpretação tradicional é considerada como pré-científica e ingênua, somente a inter prelação histórico-crítica parece capaz de abrir realmente o texto».

«Pré-científica e ingênua»: é exatamente o julgamento que expressava La Civilta Cattolica de 20 de fevereiro de 1993, pondo-se como juiz de toda a exegese tradicional. Nós, entretanto, julgamos a «nova exegese» ex fructibus.

A «concepção moderna» da exegese, ou ainda, o novo caminho no qual se empenhou o Instituto Bíblico Pontifício, deu seus frutos venenosos na «situação» atual, que o próprio cardeal Ratzinger definiu como «crítica», e mesmo de «decomposição». Estava claro, desde o inicio aliás, que o «novo curso» desembocaria nessa situação. Basta lembrar os jesuítas Lyonnet e Zerwick. O primeiro explicava, com Pelágio, Erasmo e Lutero e contra o Concilio de Trento, que na frase da Epistola aos Romanos (Rom 5, 12) («a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram») deve-se tratar de pecados pessoais e não do pecado original [12].

Lembro-me ainda da conferência que pronunciou numa quinta feira, no Instituto Bíblico, o jesuíta Zerwick, sobre a «humanização» da Virgem Maria que, aos pés da Cruz ... não compreendia ainda nada de seu Filho! E nesta série de artigos, recordei com que entusiasmo o mesmo Zerwick acolheu e difundiu a hipótese arbitrária de A. Vögtle que, opondo artificialmente os textos paralelos dos Evangelhos sinóticos, concluía que a promessa do Primado (Mt 16, 17: Tu es Pedro, etc.) é uma invenção do evangelista Mateus! [13]. Era o prelúdio dessa «situação», pela qual temos hoje o escândalo de um Romano Penna, professor de exegese na Universidade de Latrão, que, na «Universidade do Papa», em presença de colegas, alunos e de um «pastor», nega, sobre as pegadas de Loisy, de Vögtle, de Zerwick e contra o concílio dogmático Vaticano I a autenticidade e a historicidade de todas as passagens evangélicas que fundam o Primado do Pontífice Romano a partir de Mt. 16, 17-19 [14]. E. no entanto. o sentido autêntico dessa passagem e dos outros textos relativos ao primado foi infalivelmente definido pelo Concilio Vaticano I, pense o que pense o padre Betti o.f.m ... reitor (!) da Universidade de Latrão que, para aumentar o escândalo, obteve do cardeal Ruini, presidente da C.E.L que Penna (em recompensa pelo seu grande mérito?) fosse logo depois nomeado consultor da Congregação pela Fé! [15].

No meu livro La Resurrezione di Gesu (A Ressurreição de Jesus, Rovigo, 1978), denunciei também o caso mais flagrante (até o de Penna descrito acima): a negação da Ressurreição corporal de Jesus pelo jesuíta Xavier Léon Dufour [16], seguindo os passos do protestante Willi Marxen, que deu o nome de Redaktionsgeschichte ao novo «método histórico-crítico», que reavalia, contra Bultmann, o papel dos «redatores» evangelistas, fazendo deles (é muita honra!) «teólogos». Marxen, (e Dufour o segue fielmente) reduz tudo a uma questão ... de léxico: que significa o termo «ressurreição»? Não um fato real, mas somente a «crença» subjetiva dos discípulos de Jesus em suas um tanto ou quanto subjetivas «visões» pascais. Com esta diferença: que Marxen, por tal «exegese», foi expulso, como já o havia sido Bultmann, da sua seita evangélica, enquanto que em Roma, o Instituto Bíblico continuou a exaltar (ver La Civilta Cattolica) os seguidores dos «excomungados» evangélicos alemães com anuência, ou coisa pior..., de cima. E preciso dizer que se o estado desastroso da exegese «é hoje bastante parecido, na teologia católica e na evangélica», a «teologia evangélica», contudo, reagiu bem melhor que os «organismos institucionais» romanos.

Contradição incurável

O cardeal Ratzinger continua: «Enfim, é por esta razão que a unidade da Bíblia torna-se também um postulado ultrapassado. Do ponto de vista da exegese histórica, o que vale para a relação entre o Antigo e o Novo Testamento, mesmo para as relações internas de cada um dos Testamentos, é unicamente a descontinuidade: e não mais a unidade. Partindo de tal ponto, o papel dado pelo Concilio à exegese - a saber, de ser ao mesmo tempo crítica e dogmática - parece em si contraditório: sendo esses dois requisitos inconciliáveis para o pensamento teológico moderno».

O papel que o cardeal Ratzinger diz, erradamente, ser atribuído pelo Concílio à exegese, não parece, mas é, uma contradição in terminis. Contradição nitidamente percebida pelos próprios neo-modernistas que, querendo adotar a Formengeschichte, ingeniam-se rapidamente para criar uma nova doutrina sobre a inspiração, que admite a possibilidade de afirmar a presença de erros na Sagrada Escritura, e que, contra o ensinamento constante do Magistério, jogam no lixo a autenticidade e a historicidade dos Evangelhos, atitude comum dos heréticos e rebeldes de rodos os tempos.

O equivoco de fundo

Não obstante o desastre, o cardeal Ratzinger continua a sustentar a «quimera»: «Estou pessoalmente convencido de que uma leitura atenta de todo o texto da Dei verbum permitiria encontrar elementos essenciais para uma síntese entre o método histórico e a "hermenêutica" teológica. A concordância, no entanto, não é imediatamente evidente. Assim, a "redução" pós-conciliar da Constituição praticamente deixou cair a parte teológica da própria Constituição como uma concessão ao passado, compreendendo o texto unicamente como uma aprovação oficial e incondicional do método histórico-crítico».

O cardeal Ratzinger, numa entrevista. afirma que as fontes do último concílio são os Concílios dogmáticos, particularmente o de Trento e o Vaticano I e toda a Tradição. É pois, à luz do Magistério perene e infalível que os textos do Vaticano II, e entre eles a Dei Verbum, são «recebidos» e interpretados. E não somente essas passagens que dão lugar à dúvida ou à perplexidade, mas também aquelas que são mais claras, mas às quais se pretende dar uma interpretação deformada, tornando necessária uma pequena nota!

Todos os documentos do Magistério até o Monitum do Santo-Ofício sobre a plena historicidade dos Evangelhos (1961) são muito claros para uma exegese realmente católica dos nossos santos Evangelhos. O problema está resolvido, e há muito tempo. Por que, então, insistir sobre esta questão depois do Vaticano II? Para agir exatamente como aqueles que o próprio cardeal Ratzinger deplorou por terem «dado a impressão que depois do Vaticano II tudo mudou e que o que o precedeu não tem mais valor ou, no melhor dos casos, só o possam ter algum à luz do Vaticano II», E que «o interpretam como o super-dogma que tira toda a importância de todo o resto»! [18]. Ainda mais que Vaticano II, à diferença dos outros documentos, é muitas vezes equívoco em razão das "cunhas" que nele foram introduzidas de propósito e maliciosamente, iludindo a boa fé dos Padres conciliares.

Na realidade, a «redução pós-conciliar», não somente da Dei Verbum, mas igualmente dos outros documentos do Vaticano II, foi preparada durante o Concilio e em seguida favorecida por Paulo VI, que chegou ao ponto de declarar o Vaticano II «mais importante» que o Concílio de Nicéia e, depois de o ter querido «pastoral» e não dogmático, ao contrário, quis impô-lo como dogmático aos católicos. Esse é o maior equivoco de fundo, continuado e agravado por João Paulo II que, a qualquer propósito e em toda a ocasião, chama-o de Concilio «pastoral» Vaticano II, ignorando todo o Magistério precedente e a doutrina definida infalivelmente e com precisão inequívoca pelos Concilias dogmáticos.

Constatação desoladora, mas infrutífera

O cardeal Ratzinger continua: «O fato de que, deste modo, depois do Concílio, as diferenças confessionais entre as exegeses católica e protestante praticamente desapareceram, pode-se atribuí-lo a esta "redução" unilateral do Concílio. Mas o aspecto negativo desse processo é que, inclusive no meio católico o hiato entre a exegese e o dogma é de agora em diante total e que a Escritura tornou-se igualmente, em si mesmo, uma palavra do passado que cada um se esforça por traduzir no presente, sem poder confiar muito na barca em que entrou. A Fé decai, então, a uma espécie de filosofia de vida que cada um, no que lhe diz respeito, procura destilar da Bíblia. O dogma. privado do fundamento da Escritura, não subsiste mais. A Bíblia, que se separou do dogma, tornou-se um documento do passado: ela própria pertence ao passado»

Esta desoladora constatação dá plena razão à reação católica dirigida contra a «nova exegese» por Mons. Romeo, em 1960, e que eu continuei nas minhas publicações [19]; reação que se opõe a essa «situação» a qual a hierarquia, que nela consente, levará diante de Deus a gravíssima responsabilidade.

E, por outro lado, o cardeal Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Fé, conclui assim, pág. 110: «Aliás, ninguém poderia pretender que já se tivesse encontrado uma visão de conjunto convincente que, de um lado, levasse em conta os inegáveis aquisições do método histórico e de outro ultrapassasse seus limites e se abrisse a uma hermenêutica apropriada. Será necessário pelo menos, o trabalho de uma geração, para conduzir a bom fim uma tal empresa». O que vale dizer, mais uma vez, que os danos produzidos até agora pela «nova exegese» não são suficientes. Para o cardeal prefeito da Fé, é necessário que ainda, «pelo menos ... uma geração» seja enganada e privada das certezas fundamentais da Fé, por uma exegese protestantizada de modo racionalista, mas que usurpa o nome de «católica».

Francesco Spadafora

 

Notas:

[1] SimSimNãoNão Fev. 1996

[2] SimSimNãoNão Março 1996

[3] SimSimNãoNão Set. 1995

[4] SimSimNãoNão Out. 1995

[5] Ibid.

[6] SimSimNãoNão Março 1996

[7] SimSimNãoNão Nov. 1995

[8] SimSimNãoNão Mar. 1996

[9] E. Galbiati A constituição dogmática sobre a Revelação Divina. Elle Di Ci, Turim 1966. pág. 265; para condenação enérgica contida no esquema De fontibus Revelationis v. Courrier de Rome Junho 1995

[10] Concílio de Trento sess. IV 8 de abril de 1546 e Vaticano I sess. III 24 de abril de 1870.

[11] Cf Paulo VI em Julho de 1966

[12] SimSimNãoNão Abril 1995

[13] SimSimNãoNão Julho 1995

[14] SiSiNoNo 15 Set. 1993 Scandalo alla Lateranense.

[15] SimSimNãoNão Fev. 1995.

[16] X. Léon Dufour S. Résurrection de Jesus et message pascal ed. du Seuil, Paris 1971

[17] Jesus, Nov. 1984

[18] V. Il Sabato 30 de Julho/5 de Agosto: Trata-se do discurso de Ratzinger à Conferência episcopal chilena, depois das sagrações episcopais de Mons. Lefebvre. V. também Courrier de Rome Nov. 1988

[19] De Leão XIII e os estudos bíblicos, a A Ressurreição de Jesus, e aos dois últimos volumes sobre o Concílio, etc.