o Triunfo Do Modernismo Sobre a Exegese Católica
15. o PÓS-CONCÍLIO FRUTO DA AMBIGÜIDADE DO CONCÍLIO
«Liberdade» do erro
No pós-concílio, o triunfo da «nova» exegese neomodernista é o fruto dos equívocos do Concílio. É esta «nova exegese» que nega - o cardeal Martini em primeiro lugar - a inerrância absoluta da Sagrada Escritura, a autenticidade e a historicidade dos Evangelhos, e que rejeita a direção do Magistério infalível da Igreja. Mas ao mesmo tempo ela proclama sua fidelidade à Divino Afflante Spiritu de Pio XII (reduzida ao preâmbulo com algumas passagens interpretadas de maneira neomodernista), à Instrução da Comissão Bíblica Pontifícia (preparada pelo cardeal Bea que a fez ser aprovada), assim como à Dei Verbum (do Vaticano II), reduzida, esta também, às partes que podem servir a causa dos neomodernistas, graças à uma interpretação partidária.
A interpretação neo-modernista da Dei Verbum foi e é proposta pelos jesuítas: do padre Ignace de La Potterie S.J. aos seus irmãos de La Civilta Cattolica; todos estão substancialmente de acordo com o padre Rouquette S.J. que, em 1965, escrevia com entusiasmo: «O esquema sobre a Revelação, na sua forma definitiva, vem a ser um grande texto liberador que não fecha nenhuma porta: ele consagra o trabalho da exegese católica contemporânea [aquela - como se compreende - que nega os dogmas fundamentais da exegese católica]. Ele deixa o caminho aberto à pesquisa. Os Romanos [os jesuítas do instituto Bíblico, em particular Lyonnet e Zerwick] que tinham sido tão violenta e injustamente atacados alguns anos atrás, exprimem unanimemente sua satisfação» [1].
De sua parte, o cardeal Carla Maria Martini, atual cardeal de Milão e ex-reitor do Instituto Bíblico Pontifício, proclamava com ênfase em La Civilta Cattolica: «A Dei Verbum, em uma síntese, retoma as indicações autorizadas das encíclicas [uma só, em todo caso: a revolucionária, segundo o Instituto Bíblico, Divino Afflante Spiritu] e não somente tira toda dúvida possível sobre a validade do uso desses métodos modernos na exegese católica. mas indica também as vias de uma profundidade ulterior» [2]. E depois de ter sustentado «sua» interpretação do capitulo V da Dei Verbum (inerrância e historicidade) conclui, com ainda mais entusiasmo «Pode-se dizer que nesse capítulo o movimento bíblico atual encontrou seu mais alto reconhecimento e sua "magna carta ", que lhe permitirá impregnar eficazmente e livremente [ele procura a liberdade, mas há muito tempo que a possui!] todos os aspectos da vida da Igreja... ».
Liberdade! A liberdade de pesquisa em exegese católica sempre existiu .. Basta lembrar a obra realizada no domínio dos estudos bíblicos pelo padre M. J. Lagrange O.P. com sua École Biblique (Escola Bíblica) e pelo próprio Instituto Bíblico até cerca de 1950 [3]. Mas não é a liberdade de pesquisa nos estudos científicos que os «novos exegetas» procuram... Cegos por estarem cobertos pelos sistemas racionalistas protestantes, eles pedem ser libertados - e hoje, eles acreditam terem conseguido - da direção luminosa do Magistério infalível da Igreja, ao qual todo exegeta católico é obrigado a se conformar, segundo os concílios ecumênicos e dogmáticos de Trento e Vaticano I que declaram que, «em matéria de Fé e de costumes que fazem parte do edifício da doutrina cristã, deve-se ter por verdadeiro sentido das Sagradas Escrituras aquele que teve e tem nossa santa Madre Igreja, a quem pertence o julgamento do sentido e da interpretação verdadeira das Sagradas Escrituras: e que, desde então, não é permitido a ninguém de interpretar esta Santa Escritura contrariamente a esse sentido nem contrariamente ao consentimento unânime dos Padres» [4]
Silêncios e omissões do cardeal Martini
Para o cardeal Martini e os «novos» exegetas, o Concilio Vaticano II teria aprovado ... duas heresias: 1) a inerrância da Sagrada Escritura não é absoluta, mas limitada a «verdade de salvação»; 2) os Evangelhos não são livros históricos e não foram escritos por Mateus, Marcos , Lucas e João, mas sim por «redatores» desconhecidos.
Qual é a argumentação do cardeal Martini? «Vejam [diz ele em substância] as formulações sucessivas que, em particular o no. 11 [sobre a inerrância], o texto recebeu nos diversos esquemas»: da profissão nítida de inerrância se passa para a «verdade de salvação» e enfim à «verdade [...] consignada nas Sagradas Letras para nossa salvação»; da mesma maneira, da afirmação claríssima sobre a autenticidade e historicidade dos Evangelhos passa-se ao texto atual, que faz sua a Instrução do cardeal Bea, a qual aprova a Formgeschichte e abre assim o caminho para a negação da autenticidade e historicidade dos Evangelhos.
Cicero pro domo sua. Nenhuma alusão de Martini às manobras sonsas da comissão doutrinal, à oposição tenaz de centenas de Padres culminando no recurso ao Papa, nenhuma alusão à intervenção de Paulo VI relatada pelo jesuíta Caprile (do qual Martini cita o artículo somente em nota), a fim que seja reafirmada a inerrância absoluta e a historicidade total dos Evangelhos, por um texto sem equívocos, contrariamente ao texto proposto ao voto da assembléia [5]. Martini, em suma, finge ignorar que as formulações sucessivas, todas insatisfatórias, sobre as quais ele apóia «sua» interpretação da Dei Verbum, foram obras não do Concilio, mas dos membros neo-modernistas (quase todos antigos alunos do Bíblico), eleitos na Comissão teológica dos Cardeais e Bispos da «Aliança Européia».
Vimos corno a subcomissão presidida por Dodeward tenta um mau golpe com o acréscimo furtivo da «veritatem salutarem», conseguindo ter o acordo da comissão doutrinária inteira, graças à «inocente» explicação seguinte: pelo adjetivo («salutarem») não queremos limitar o efeito da inspiração, mas afirmar somente seu «objeto formal». O que convenceu somente a «massa amorfa», ignorante, confiante, desatenta, cansada e, como o padre Bern faz notar, «sempre disposta a dizer sim». Mais de trezentos padres protestaram, mas a Comissão, imperturbável, resistiu. Somente depois da intervenção de Paulo VI que o adjetivo «salutarem» foi eliminado. Mas, aqui está a fraude: acrescenta-se a incisa «veritatem [ ... ] salutis nostrae causa», a «verdade [ ... ] para nossa salvação» (fórmula considerada hoje como equivalente à «veritatem salutarern», incluída no novo Catecismo), e apõe como nota com um texto de são Tomás que diz: «o que não pode pertencer à salvação é estranho à profecia» e então de profético nas Escrituras há somente a «verdade de salvação»! [6]. Assim, até os Padres que tinham reagido, seguros como estavam com a intervenção direta de Paulo VI, aprovaram sem censurar a fraude. E hoje, post factum, nos perguntamos se essas intervenções estéreis de Paulo VI, que poderiam e deveriam defender a verdade revelada com uma outra eficácia, não teriam por simples objetivo tranqüilizar a oposição desses Padres que se guardavam contra o modernismo.
Aqui o leitor pode avaliar a importância fundamental das comissões conciliares e compreender melhor porque os cardeais Liénart, Frings. Bea, Lefebvre (de Bruges: não confundir com Mons, Lefebvre), Léger, Montini, Tisserant, etc., principais representantes da «Aliança Européia». se esforçaram tanto para introduzir em cada uma delas, e em particular na Comissão teológica, seus próprios elementos «liberais» ou neo-modernistas [7]. Estes conseguirão nas suas comissões ter a maioria e, ainda por cima, protegidos e decididos, terão a vantagem sobre os outros membros, que poderiam e deveriam se opor e que, pelo contrário, «pacíficos» ou ignorantes, se adaptaram ao compromisso.
Eu tenho a esse respeito uma experiência pessoal. Mons. E. Florit, Bispo na espera do cardinalato, era membro da Comissão teológica. Antigo aluno do Instituto Bíblico, e antigo professor de Sagrada Escritura em Latrão, tinha escrito contra a Formgeschichte: «[nela] não se dá nenhum lugar a uma intervenção sobrenatural na composição dos Evangelhos, cuja inspiração divina e inerrância, que seriam a conseqüência, são excluídas» [8]. Nós discutíamos uma tarde, durante o concilio, justamente sobre a inspiração dos Livros Sagrados: «o senhor tem razão - concluiu ele em resposta às minhas observações sobre o texto conciliar - mas nós devemos dar uma pequena satisfação à outra parte, aos da oposição». Antes a diplomacia, o compromisso, que propor, em sua integridade e precisão, a doutrina católica que emerge tão límpida dos documentos do Magistério!
A parábola descendente
O cardeal Martini tem razão sobre um ponto: no concilio se deriva formulações claras e sem equívocos da fase preparatória para textos matizados e equívocos, e que permanecem em substância apesar da reação dos Padres, da intervenção de Paulo VI, e das modificações sucessivas. Vejamos para nos limitar a um só exemplo, o texto claro e preciso que a comissão teológica preparatória tinha preparado sobre a autenticidade e historicidade dos Evangelhos [9]: « 19. [...] A Igreja de Deus sempre e em todo lugar creu e crê sem hesitação que os quatro Evangelhos são de origem apostólica e constantemente sustentou e sustenta que eles têm por autores humanos aqueles cujos nomes levam no Cânon dos Livros Santos, a saber, Mateus, Marcos, Lucas e João a quem Jesus amava.
20. A mesma Santa Madre igreja, de uma Fé firme e constante, creu e crê que esses quatro Evangelhos transmitem fielmente o que Jesus, Filho de Deus, fez realmente e ensinou, para a salvação eterna dos homens, vivendo no meio deles (cf.At. 1, 1). De fato, apesar de que os Evangelhos não respondam em tudo (e isso não é necessário) aos critérios de composição histórica usada pelos especialistas do nosso tempo, contudo as palavras e os atos relatados por eles sob a inspiração do Espírito Santo, foram escritos segundo o testemunho verídico daqueles "que viram, eles próprios, desde o começo, e que foram ministros da Palavra" (Lc. 1, 2 ss.)»
E, para fechar toda as portas ao erro, a afirmação da verdade foi seguida da condenação, também esta clara e precisa, dos erros relativos a ela:
«21. Este santo Concílio Vaticano, legitimamente unido no Senhor, condena esses erros com os quais é negada ou atenuada, de qualquer maneira e por qualquer motivo que seja, a verdade pura e objetiva dos fatos da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo tais quais nós lemos nesses Santos Evangelhos. Os quais [erros] são extraídos de erros ainda mais perniciosos se se põe em discussão os fatos que tocam à própria Fé, como por exemplo: a história da infância de Nosso Senhor, os prodígios e milagres do Redentor, sua admirável Ressurreição dos mortos e sua gloriosa Ascensão ao Pai.
22. Do mesmo modo, este santo Concílio condena os erros pelos quais se nega que as palavras divinas de Cristo relatadas nos Evangelhos, mesmo se não sempre literalmente, foram contudo sempre pronunciadas realmente em substância, e com sua força, pelo próprio Nosso Senhor. E devemos acusar de uma grande temeridade esses erros pelos quais se considera que essas santas palavras do Filho de Deus revelam na maioria das vezes o pensamento da comunidade cristã primitiva em vez de relatar fielmente a doutrina do Nosso Salvador».
Evidentemente, o «sim» claro à verdade e o também claro «não» ao erro, não deixam lugar à interpretações facciosas. Mas, o que resta desse texto inicial, sem nenhuma ambigüidade, no texto definitivo? No que concerne à autenticidade, a reafírmação solene da Fé constante da Igreja na origem apostólica dos Evangelhos permanece, mas somente de maneira implícita é que se afirma que seus autores são Mateus, Marcos, Lucas e João (autenticidade). De fato, foi dito: «O que os Apóstolos por ordem de Cristo pregaram em seguida ... eles próprios e os homens do circulo dos apóstolos nos transmitiram em escritos que são o fundamento da Fé, isto é o quádruplo Evangelho segundo Mateus, Marcos, Lucas e João».
O que é, sem dúvida alguma, uma atenuação notável da afirmação solene e precisa precedente: «A igreja de Deus [...] constantemente sustentou e sustenta que eles [os Evangelhos] têm por autores humanos aqueles cujos nomes levam no Cânon dos Livros Santos, a saber, Mateus, Marcos, Lucas e João, a quem Jesus amava».
É verdade que, no texto definitivo, há em nota, a chamada a santo Irineu. Mas não é somente por santo Irineu mas por todos os Padres, e sempre na Igreja, que os quatro evangelistas são apresentados como os autores verdadeiros e únicos, cada um do Evangelho que leva seu nome. O silêncio sobre a tradição unânime e a atenuação do texto não podiam senão favorecer o erro que quer que os Evangelhos sejam a obra de «redatores» desconhecidos.
Quanto à historicidade dos Evangelhos, o texto definitivo conserva somente a afirmação solene inicial sobre sua historicidade aceita in extremis depois da protestação dos Padres e da intervenção de Paulo VI: mas essa afirmação é balanceada num sentido negativo, pelas proposições seguintes, tomadas quase à letra da tristemente célebre instrução do cardeal Bea [10], que os irredutíveis «inovadores» se servem para continuar sobre sua rota, que é justamente a dos erros condenados no texto claríssimo da comissão preparatória do Concílio. E é sobretudo o desaparecimento dessa condenação enérgica dos erros contra a historicidade dos Evangelhos que favoreceu e favorece a «nova exegese». Efetivamente, temos no concílio uma decadência, a partir de textos sem equívocos e que não dão lugar ao erro, à textos equívocos que permitem uma interpretação neo-modernista, em oposição mesmo a outros textos, com o contexto e todas as circunstâncias que acompanharão o penoso percurso durante o Concílio.
Porta aberta ao erro
«Quando se quer aproveitar das ambigüidades. não há nada melhor que confundir os pontos fundamentais. no meio de um mar de muitas outras considerações» escreveu Mons. P. C. Landucci. E o professor R. Amerio ilustra bem a «hermenêutica inovadora» pós-conciliar ou ainda a interpretação neo modernista do Concílio [11]: «Mais importante ainda é o fato do método do "mais ou menos" [11a] [ou ainda o fato de exprimir-se por aproximação, de maneira ambígua] ter sido utilizado muitas vezes na própria redação dos documentos conciliares. Ele foi imposto intencionalmente a fim de que a hermenêutica pós-conciliar pudesse, em seguida, jogar para um lado ou para o outro as idéias que lhes interessassem». «Nós o exprimimos de uma maneira diplomática, mas depois do Concílio nós tiraremos as conclusões implícitas» [declaração do P. E. Schillebeeks, na revista holandesa De Bazuin (A Trombeta) no. 16, 1965, tradução francesa de Itinéraires n° 155 (1971) pág. 40]. Assim, por exemplo, o texto da Dei Verbum declara sem nenhuma ambigüidade que a Santa Igreja «afirma sem hesitação» a historicidade dos Evangelhos: «quorum [Evangelorium] historicitatem [Sancta Mater Ecclesia] incunctanter affirmat», mas Mons. Galbiati afirma em seu comentário que isto vale somente para a «história da salvação», [12]. De onde ele tira essa interpretação limitativa, que restringe a historicidade dos Evangelhos à «história da salvação» somente, excluindo assim a história profana? Da afirmação seguinte: que os Evangelhos «transmitem fielmente o que Jesus, Filho de Deus, vivendo entre os homens, fez e ensinou realmente para sua salvação». Então - conclui - os Evangelhos transmitem fielmente somente o que concerne à nossa salvação. Assim, por um jogo de sintaxe, transportando e destacando uma expressão do seu contexto assim como da história da sua elaboração, Galbiati quer limitar também a historicidade (tanto quanto a inerrância) às coisas concernentes somente à Fé e aos costumes.
Fazemos notar com o professor Amerio que «A esse propósito, um fato extremamente importante é que, bem que o Concilio tenha, segundo o costume, deixado depois dele uma comissão para a interpretação autêntica dos seus decretos, esta nada publicou da explicação autêntica e não se encontra citada em parte alguma. É assim que a época pós-conciliar, em vez de ser a época da execução do concilio, foi a de sua interpretação [quase sempre arbitrária e sectária]. Na ausência de uma interpretação autêntica dos pontos em que a mentalidade do Concílio parecia incerta e prestava a objeções, sua definição foi entregue às disputas dos teólogos [...]
O caráter anfibológico [= ambíguo n.r.] dos textos conciliares forneceu assim um fundamento tanto à hermenêutica inovadora quanto que à hermenêutica tradicional» [13]. Em nota ele observa: «A imprecisão do Concilio é admitida mesmo pelos teólogos mais fiéis da Santa Sé, que se empenham em desculpar o Concilio. Ora, está claro que a necessidade de defender a univocidade do Concilio já é um indicio da sua equivocidade».
O esforço inútil do cardeal Bea
Para a Dei Verbum o esforço de defesa da univocidade do Concílio foi cumprido pelo próprio cardeal Bea. Este último, no ano precedente à sua morte, publicou como seu testamento um comentário completo da Dei Verbum: «A palavra de Deus e a humanidade» [14].
Ai ele toma posição contra a interpretação neo modernista da Dei Verbum e defende a doutrina católica. Em um momento escreve: «A maior parte, uma boa metade do nosso Capitulo é consagrado aos Evangelhos». E notem o motivo, que devemos enfatizar: «A razão disso é que, nas últimas décadas, houve, nesse domínio, dificuldades particulares e graves, dificuldades que perduram e que vão mesmo se agravando para muitos. Partindo dos estudos de critica literária, e especialmente dos gêneros literários, vários pesquisadores puseram em dúvida não somente a autenticidade dos Evangelhos, a saber, que estes remontam aos autores dos quais levam o nome, mas também negaram sua origem apostólica, isto é, que eles relatam efetivamente a pregação dos Apóstolos. Chegou-se a negar o valor histórico dos Evangelhos, com um grande dano. evidentemente, para a Fé» [15]. O cardeal Bea se esforça pois, em demonstrar que o Concílio reafirma sem equívoco a origem apostólica dos Evangelhos e sua absoluta historicidade. A respeito da historicidade escreve: «Consideremos as diversas partes desse texto (no. 19). No que concerne à afirmação inicial, fazemos notar a força extraordinária - única em seu gênero em toda nossa Constituição - com a qual é afirmado o caráter histórico dos Evangelhos. Começa com uma grande solenidade: "Nossa santa Madre, a Igreja, sustentou e sustenta" e continua insistindo: "firmemente e com a maior constância". Como se isto não fosse suficiente. acrescenta-se que a Igreja "afirma sem hesitar a historicidade" [dos Evangelhos]».
Essa última incisa - precisa o cardeal em nota - foi acrescentada quase no fim da última revisão do texto, para sustentar as justas preocupações daqueles que queriam que a historicidade dos Evangelhos fosse exprimida e afirmada sem nenhum equívoco.
«Essa força não surpreende - continua o cardeal - quando se sabe quantas são as ruínas acumuladas, sobretudo pela escola dita de desmistificação dos Evangelhos, ao mesmo tempo que pela História das formas. Ela é a expressão da grave preocupação do Concílio diante dos perigos - nada imaginarias - que, desse lado, ameaçam a Fé de tantos cristãos e não somente de católicos» [16].
O cardeal Bea se esforça igualmente em propor uma interpretação de três proposições tomadas literalmente em sua Instrução, de modo algum em oposição com a historicidade dos Evangelhos: «Se queremos tornar mais explícito no seu conjunto o raciocínio do Concilio, poderíamos talvez formulá-lo assim: é verdade que os Apóstolos transmitiram as palavras e as obras de Jesus com essa inteligência superior que eles gozavam depois dos acontecimentos gloriosos de Cristo e da vinda do Espírito Santo. [nós já vimos que isso é inexato: os Evangelhos transmitem as palavras de Jesus tais quais foram pronunciadas e seus atos tais quais se produziram, e depois de maneira distinta eles exprimem a «maior inteligência» que eles adquiriram depois da Ressurreição e de Pentecostes]. É igualmente verdade que os autores sagrados, pondo por escrito as pregações apostólicas, fizeram uma verdadeira obra de autores, escolhendo, na abundância de materiais disponíveis orais ou escritos, sintetizando. [isso é válido, já vimos, em uma certa medida somente para Lucas; João e Mateus só tinham que expor suas lembranças de testemunhas oculares e Marcos a narração de Pedro, outra testemunha ocular], explicando, em função da situação das Igrejas. Tudo isso. no entanto. não cala a autoridade histórica dos Evangelhos. O Concilio, de fato. afirma que os evangelistas trabalhavam "de tal modo, a referir sobre Jesus, coisas verdadeiras e sinceras" e que eles escreveram "com a intenção de fazer-nos conhecer a verdade das coisas sobre as quais fomos instruídos» [17].
As interpretações tardias do cardeal Bea não converteram infelizmente seus companheiros do Bíblico. Elas confirmam que, se o Concílio tivesse explicado diretamente seu «raciocínio» sem deixar à posteridade o cuidado de tomá-lo «mais explicito», não teria dado lugar à interpretações erradas. Claro que os neo-modernistas, no Concílio. jogaram justamente com o caráter equívoco dos textos, para tirar, em seguida suas conclusões erradas e heréticas. Finalmente, está claro que, se no pós-concílio, a autoridade tivesse intervindo no tempo oportuno para defender a doutrina católica, não se veria hoje triunfar a interpretação neo-modernista do Concílio.
A quimera
Pode-se notar que o cardeal Bea, defendendo a «origem apostólica» dos Evangelhos [18], reafirmando com força sua total historicidade [19], e dando-se conta das «ruínas que continuam a acumular» a «História das formas», considera até o fim que essa última pode se conciliar com a doutrina católica. Uma verdadeira quadratura do círculo, visto que, o método da Formgeschichte parte da hipótese da negação da historicidade dos fatos e das palavras de Jesus que nos transmitiu os Evangelhos, fatos e palavras cuja tradição católica unânime afirma, ao contrário, a verdade histórica autêntica.
O cardeal Bea se cansou, durante anos, tentando realizar essa quadratura do círculo. Algumas vezes de maneira manifesta e mesmo contra suas convicções. Por exemplo, quando empenhou-se em salvar da condenação do Santo Oficio o primeiro volume da Introdução à Bíblia de Robert Feuillet, no qual o sulpiciano sustentava a inspiração «coletiva» (é a «comunidade» e não um autor particular que recebe a inspiração divina) [20], eu fui ao Colégio Brasileiro para lhe comunicar a minha insatisfação; e ele me respondeu: «Quem é sacrificada e que sofre nesse negócio é justamente a doutrina católica». Porque, então, se empenha ele em salvar uma obra que não tinha nem mesmo sua aprovação? Certamente havia no meio de tudo isso, um pouco «d' esprit de corps»: o prestigio da sua «Companhia de Jesus» (a obra tinha saído do Instituto Bíblico); mas não era somente isso. Havia também essa quimera de querer conciliar a Formgeschichte com a doutrina católica.
Em seguida, durante o Concílio, o cardeal Bea se empenhou-se com todos os meios [21] para convencer os Padres que, nessa Formgeschichte que se incriminava, havia algo de bom. Ele contrabalançava assim o efeito produzido pelo meu opúsculo de denúncia da Formengeschichte [22] no qual ilustrava e refutava os postulados errôneos, pilastras do «método».
Eu escrevia: «Basta avaliar a consistência de tais pilastras para verificar se o castelo construído sobre elas é de pedra ou de papelão. As pilastras da Formengeschichte são:
1. A espera do fim do mundo iminente entre os primeiros fiéis, que não pensavam estar cumprindo uma obra histórica a transmitir às gerações futuras.
2. O dogma fantástico da coletividade criadora: os Evangelhos seriam uma criação da comunidade cristã primitiva.
3. A hipótese de base que os autores dos três Evangelhos sinópticos fazem somente da coleta e da compilação de informações ou de documentos.
4. A afirmação que eles terminaram suas compilações depois do ano 70, afirmação baseada sobre a hipótese que um período de ao menos quarenta anos é necessário para fazer aparecer as diferentes formas: mitos, lendas, etc .... e para uma nova elaboração [23].
Nada mudou - observava eu - um sistema nascido sobre as ruínas dos precedentes, mas no mesmo meio racionalista, com os mesmos fins e os mesmos preconceitos! Seja o que for, é interessante notar como a Formengeschichte é demolida na sua substância pelos acatólicos, justamente quando, de maneira estranha, ela encontra simpatia nos círculos "progressistas" católicos habituais que a retomam - já moribunda - na orientação dada à sua exegese e na rejeição, superficial e injustificada dos dados históricos que nos oferece a antiqüíssima e sólida tradição».
O cardeal Bea conhecia muito bem os graves desvios dos professores do Instituto Bíblico e dos exegetas neo-modernistas, denunciados por Mons. Romeo e por mim mesmo. No entanto, ele se empenhou em salvar a Introdução à Bíblia [de Feuillet], trabalhou com maior tenacidade ainda para o lançamento da Instructio (1964) e se irrita com os cardeais da Aliança Européia contra os esquema de Fontibus Reveiationis, a fim de repeli-lo integralmente, alegando que lhe faltava ar pastoral e «ecumenismo», essência e fim do Concílio.
Mas há ainda mais: a intervenção do cardeal Bea, querida por Paulo VI, em favor da inerrância absoluta, tranqüiliza os Padres que, contentes da exclusão da «veritatem salutarem», aceitaram e votaram com confiança por um texto equivoco que é hoje interpretado como o equivalente dessa expressão que se havia excluído [24]. Da mesma maneira, para a historicidade dos Evangelhos, uma segunda intervenção do cardeal Bea, além daquela de Paulo VI, assegurou as centenas de padres que protestavam contra o caráter equívoco do texto e contra as tramóias da Comissão doutrinal, e deixou passar, com a reafirmação da historicidade dos Evangelhos, as três proposições tiradas da Instructio e que facilitava o caminho para a negação da mesma historicidade [25].
Aqui também houve certamente, o desejo do Cardeal Bea de inocentar seus companheiros do Instituto Bíblico, atacados diretamente pelo Monitum de 1961 sobre a historicidade dos Evangelhos, assim como pelas medidas do Santo-Ofício [26], mas houve também essa ilusão tenaz de poder conciliar a Formgeschichte com a verdade católica. Ilusão perniciosa que favoreceu a exegese atual, a qual, mais coerente no erro, vai hoje tirando das premissas dos métodos racionalistas todas suas ruinosas conseqüências. Com isso fica mais uma vez demonstrado que sobre o plano inclinado do modernismo, como de todo erro, os que se dizem moderados são somente míopes ou incoerentes.
Francesco Spadafora
Notas:
[1] Études 1965, pág. 680.
[2] Alcuni aspetti della Dei Verbum (Alguns aspectos da Dei Verbum), in La Civilita Cattolica, 7 maio 1966, pp. 216-266: em particular as págs. 211-226: O Concílio e a ciência bíblica.
[3] Cf. École Biblique e Istituto Biblico no Dizionario Biblico (dirigido por F .Spadafora).
[4] Vaticano I, Constituição De Fide Catholica, Dz. 3007. V. Giorgio Castellino, S.D.B. La Costituzione dogmatica sulla divina rivelazione, pág. 208. Cf F. Spadafora Esegesi e Teologia, il principio fondamentale per la sana esegesi in Renovatio 1967 págs.233-264 e in Palestro dei Clero no. 12-13. 1972.
[5] V. SimSimNãoNão de fevereiro de 1996.
[6] V. SimSimNãoNão de fevereiro de 1996; para o novo Catecismo, v. SimSimNãoNão de Setembro de 1994: O novo Catecismo não é católico.
[7] V. SimSimNãoNão de fevereiro de 1996.
[8] E. Florit, Il metodo della «storia della forma» e la sua applicazione al racconti della Passione 1935, pp. 227-230. (O método da «História das formas» e sua aplicação na narração da Paixão).
[9] Acta et Documenta Concilio OEcumenico Vaticano II apparando. Series (Praeparatoria) vol. II, pars I, pp. 428-429; tradução do latim por F. Spadafora.
[10] V. SimSimNãoNão de março de 1996.
[11] R. Amerio Iota Unum N.E.L 1987, pág. 96.
[11a] Em italiano «circiterismo» do latim «circiter» que significa «em torno de».
[12] E. Galbiati, La Costituzione dogmatica nelle Divina Revelazione. Elle Di Ci, Turim, 1966, pág. 255.
[13] R. Amerio, op. cit, pág. 91.
[14] A. Bea, La parola di Dio e l'umanità. Cittadella ed. Assise, 1967
[15] Ibid., pp. 240 sq.
[16] Ibid. pág. 255.
[17] Ibid., pp. 254 em nota.
[18] Ibid. pp. 249-525.
[19] Ibid. pp.252-262.
[20] v. SimSimNãoNão de julho de 1995.
[21] v. SimSimNãoNão de março de 1996.
[22] La Critica e gli Evangeli, substancialmente publicado por F.Spadafora em Settimana del Clero 22 e 29 de novembro de 1959.
[23] Seguia a crítica para cada um dos pontos mencionados; de acordo com todos os autores católicos que tinham tratado do nosso problema: Simon-Dorado (1951); E. Florit em Biblica 1933, pp. 212-248; Ibid .. Il metodo ... Roma 1935; P. Benoit em Revue Biblique 1946, pp. 481-512; J. Heuscher - L. Cerfaux - J. Levie ... La formation des Évangiles ... Baruges 1957; A.Tricol, Initiation Biblique (3a. ed.), 1954, pp. 324-327. F. M. Braun em Dict, de lo Biblie. supl. E a partir de 1948 os próprios críticos partidários do novo sistema «sobre a história da redação dos Evangelhos» (Redaktionsgeschichte) estão de acordo em considerar como errôneos os postulados da Formengeschichte.
[24] V. SimSimNãoNão de fevereiro de 1996
[25] V. SimSimNãoNão de março de 1996
[26] V. SimSimNãoNão de outubro de 1995.
[27] Cf. São Pio X, Pascendi.