o Triunfo do Modernismo sobre a EXEGESE CATÓLICA

14 - Vaticano II contra a historicidade dos Evangelhos

Uma maioria ignorante e sem desconfiança

Os bispos reunidos no Concilio não tinham dúvida sobre a origem apostólica e a plena historicidade dos Evangelhos. Na sua grande maioria, viviam desta fé de sempre e como Mestres da Fé, tinham comunicado a seus fiéis o ensinamento dado sobre este assunto pela Igreja há dezenove séculos. A essa maioria ignorante e sem desconfiança, se opunha entretanto, como já lembramos, o círculo restrito mas muito ativo dos neomodernistas da «Aliança Européia», com suas manobras e os membros eleitos por eles nas diversas Comissões Conciliares [1].

O torpedo: a Instrução Sancta Mater Ecclesia

Já fiz alusão a essa Instrução. O artigo-manifesto do Jesuíta Alonso Schökel: Oú va l'exégèse catholique? [2], foi publicado pela La Civiltà Cattolica e extratos foram enviados a todos os bispos da Itália [3], com o fim de preparar insensivelmente os membros do Concílio a aprovar a «nova exegese» e sua negação de inerrância absoluta da Sagrada Escritura, da origem apostólica e da plena historicidade dos Evangelhos.

O golpe fatal, entretanto, o torpedo lançado à distância contra a exegese católica, foi a Instructio de historica Evangeliorum veritate, Instrução denominada por suas primeiras palavras, Sancta Mater Ecclesia (a qual sempre ensinou o contrário). Esta instrução foi preparada pelo cardeal Bea que procurou tenazmente aprová-la. Ele tinha servido Pio XI e Pio XII, do qual foi o confessor durante treze anos. Seu prestigio e sua influência sobre João XXIII o designaram para a difícil tarefa de fazer digerir as «novidades» do Instituto Bíblico aos Padres Conciliares, persuadindo-os de que no método histórico-crítico dos racionalistas protestantes havia alguma coisa de boa, e que os jesuítas do Instituto Bíblico tinham justamente tomado da Formgeschichte esta coisa boa para dar vida à nova exegese «científica».

Nessa Instrução dizia-se, de fato, que «onde for útil, será permitido à exegese examinar os eventuais elementos positivos oferecidos pelo "método da história das formas" para servir como se deve, a um entendimento mais profundo dos Evangelhos»; chegava-se mesmo a fazer um dever de consciência para o exegeta católico: se o «exegeta (...) não faz uso do que os estudos recentes trouxeram de bom, ele não cumprirá seu papel, que é de procurar qual era a intenção dos autores sagrados e o que eles realmente disseram».

Apesar de seu título: A Verdade Histórica dos Evangelhos, a Instrução tinha claramente por objetivo apoiar a abertura do Instituto Bíblico aos sistemas racionalistas, Formgeschichte e Redaktiongeschichte, que negam esta historicidade tanto nas suas premissas como nas suas conclusões.

Recusada uma primeira vez pela Comissão Bíblica Pontifícia, em 1962, a Instrução pôde ser aprovada somente em abril de 1964, logo depois que Paulo VI chamou para fazer parte da Comissão Bíblica os cardeais Alfrink e Koenig (da Aliança Européia e antigos alunos do Bíblico) e quatro pesquisadores de tendência progressista (escolhidos pelo próprio Bea). [4].

Enquanto esperava esta aprovação (1962-1964), o cardeal Bea não ficou inativo. Como ele próprio escreve, compôs «um manuscrito, que policopiado foi posto à disposição dos Padres (conciliares)», manuscrito que tratava das «questões levantadas pela "história dos formas" que preocupava e atribulava porque seus representantes pareciam [sicl] quase sempre minar os fundamentos da historicidade dos Evangelhos» [5] . «Pareciam»! A negação da historicidade dos Evangelho - vimos [6] - é seu ponto de partida e de chegada. Mas é assim: o panfleto manuscrito do cardeal Bea tinha a pretensão de apresentar aos Padres a Formgeschichte sob uma aparência católica!

Desde que o cardeal Bea, graças ao apoio de Paulo VI, obteve da Comissão Bíblica Pontifícia a aprovação da Instrução, ela foi logo publicada pela editora Morcelliana, de Brescia (dirigida pelo padre Bevilacqua, amigo de Paulo VI) e distribuída aos Padres do Concílio. Em seguida, distribuiu-se também aos Padres um comentário da Instrução, feito pelo cardeal Bea, intitulado, A Historicidade dos Evangelhos (sempre editado pela Morcelliana, Brescia, 1964) comentário que foi também publicado em dois artigos sucessivos da La Civiltà Cattolica [7].

Uma «questão» inexistente

O padre Stjepan Schmidt S.J., secretário particular do cardeal Bea, atesta que «o cardeal preparou boa parte dos princípios de base sobre os quais se apóia a Instrução. Mas, além disso, ele também exerceu uma influência profunda sobre sua elaboração efetivo e sobre sua redação» [8]

Quais eram esses «princípios de base»? Deixemos ainda a palavra ao jesuíta Schmidt:  «... o cardeal considera como legítimo aplicar também ao Novo Testamento a doutrina da encíclica Divino Afflante Spiritu, de Pio XII, sobre os gêneros literários. [É o erro fundamental: nenhuma comparação é possível entre o Antigo e o Novo Testamento, a historicidade deste último sendo confirmada por inumeráveis testemunhos externos que faltam ao primeiro] [...]. E como a encíclica enumera, entre os gêneros, igualmente o gênero histórico, isto abre sem nenhuma dúvida a possibilidade de um gênero histórico particular dos Evangelhos. Além disso, na própria obra de Bea é estabelecido explicitamente o principio [...]: "Os apóstolos explicam a mensagem de Cristo e os fatos que lhe concernem depois do dom de Pentecostes, e eles explicam evidentemente à luz da fé amadurecida que eles então possuíam" [falarei adiante da inexatidão desse princípio]. Logo depois é estabelecido outro principio mencionado concernindo "a aplicação das narrações, e especialmente da doutrina, à necessidade de auditório" (...). De onde se segue a conclusão geral sobre a natureza do caráter histórico dos Evangelhos: "O exame da história das formas, dos fatos que ela mais pôs em evidência e sobre os quais se baseia, nos revelou [sic] o quanto é complexa a realidade de onde nasceram nossos Evangelhos, isto é, a pregação viva dos Apóstolos [o Kerygma] substancialmente concordante e ao mesmo tempo multiforme, e a questão dos documentos dos quais ela foi fixada antes que existissem nossos Evangelhos"» [9].

O cardeal Bea com essa Instrução, defende e sustenta seus irmãos do Instituto Bíblico Pontifício que tinha dado direito de cidade ao racionalismo dissolvente em exegese católica. Ele que, interrogado por Pio XI sobre a data da morte de Jesus para fixar o jubileu, tinha respondido que os Evangelhos não eram do domínio de seu trabalho exegético e que tinha então confiado este trabalho ao padre Holzmeister S.J. ... Ele que, enfim, como atesta também seu secretario pessoal, o jesuíta Schmidt, «numa outra ocasião escrevia que não era competente no domínio do Novo Testamento» [10], entrava agora, com a Instrução, num terreno inteiramente novo para ele. E aí entrava contra suas próprias convicções, como aparece no seu último livro [11] no qual - como se sentisse necessidade de reparar o mal que tinha causado à doutrina católica - defende a inerrância absoluta da Sagrada Escritura e a apostolicidade e historicidade dos Evangelhos. Entretanto, então «o cardeal tomou parte de muitas maneiras, mesmo se indiretamente, no ensinamento do Concílio sobre a historicidade dos Evangelhos», como lemos de seu secretário. Se, Como veremos, o cardeal Bea não atinge plenamente seu objetivo, consegue entretanto fazer inserir na Dei Verbum três parágrafos da Instrução, que são hoje o cavalo de batalha da exegese neomodernista contra a historicidade dos Evangelhos.

Reafirmação solene da autenticidade e da historicidade dos Evangelhos

O artigo no. 18 e o começo do no. 19 da constituição dogmática Dei Verbum do Concilio Vaticano II, são consagrados à autenticidade ou origem apostólica dos Evangelhos e à sua historicidade. Neles, a Dei Verbum só faz repetir solenemente a doutrina ininterrupta da Igreja universal sobre a questão:

1) Os autores de nossos quatro Evangelhos são dois apóstolos, Mateus e João e dois discípulos, Marcos e Lucas, discípulos muito fiéis e íntimos colaboradores respectivamente de São Pedro e de São Paulo (origem apostólica dos Evangelhos).

2) Os quatro Evangelhos narram fielmente o que Nosso Senhor realmente (reapse) diz e faz (plena historicidade dos Evangelhos).

Demolição completa

A premissa pela qual debuta o no. 18 sublinha a importância única dos quatro Evangelhos para nossa Fé: eles «têm uma excelência justificada porque são o principal testemunho da vida e doutrina do Verbo encarnado, Nosso Senhor».

É pena que justamente este «principal testemunho» seja hoje atacado pela «nova exegese». «A vida do Filho de Deus sobre a terra é o coração da revelação cristã, e as principais fontes históricas desta vida são os Evangelhos. Se os Evangelhos não são fontes dignas de fé, como minha fé pode ser ainda razoável e prudente? Se os Evangelhos não são documentos puramente históricos, isto é, se narram o que a Igreja primitiva achava que tivesse acontecido durante os anos do vida de Cristo, em lugar dos fatos realmente acontecidos, como posso acreditar neles?»: é assim que o Jesuíta Mc Cool, partidário da Formgeschichte, formulava o estado de dúvida, de embaraço, de grave desorientação e - digamos - de verdadeiro escândalo criado entre os padres (e os fiéis) pela «nova exegese». Qual é a resposta do jesuíta Mc Cool ao pregador ou ao padre que lhe põe justamente as questões acima? Ei-la: o padre, o pregador, para saber quais são realmente as palavras de Jesus e qual é, por outro lado, a interpretação da «comunidade primitiva», deve esperar «com confiança» que o exegeta, o «crítico» e o historiador levem a cabo seus trabalhos, que por ora estão apenas começando!

E a Igreja infalível de Deus? Há vinte séculos, e sobre uma matéria tão fundamental, teria ficado na mais completa ignorância!

A estas questões precisas e graves, a Dei Verbum, por outro lado, depois de ter sublinhado antes que, para a fé cristã, é de extrema importância que Jesus tenha realmente dito e feito o que dizem dele os Evangelhos, e que estes últimos, então «não são uma obra de fantasia, mas de história» [12], responde em seguida com o ensinamento constante, e por isto mesmo infalível, da Igreja: «A Igreja sempre e em todo lugar conservou e conserva» a origem apostólica dos Evangelhos (no. 18); «conservou e conserva firmemente e com a maior constância» sua plena historicidade (no. 19). E - acrescentemos - é somente com a tentativa de introduzir a Formgeschichte e a Redaktiongeschichte protestantes no domínio da exegese católica que se começa a falar no mundo católico de «comunidade primitiva» e de «redatores» desconhecidos, que teriam escrito mais de quarenta anos depois da morte do Senhor, negando assim tanto a origem apostólica dos Evangelhos quanto sua completa historicidade.

De modo ininterrupto = infalivelmente

É claro que o jesuíta Mc. Cool, como todos os neomodernistas, não acredita que a Igreja, no seu magistério ordinário universal e constante, seja infalível. O que também não crê o cardeal Martini, Arcebispo de Milão, antigo Reitor do Instituto Bíblico Pontifício, mas o mesmo Martini não tem dificuldade em admitir que no fragmento do papirus 7Q5 [13], que prova cientificamente que o Evangelho de Marcos é anterior ao ano 50 depois de Cristo, «estaria contida uma informação documentaria excepcional do que a Igreja ensinou de modo ininterrupto durante dezenove séculos». E ele não tem dificuldade em admitir, que sustenta (para este Evangelho de Marcos) uma data muito posterior, simplesmente porque, para ele, o que a Igreja ensinou «de modo ininterrupto» não equivale a «infalivelmente», o que é, no entanto, equivalente. Mons. E. Galbiati, doutor da Biblioteca Ambrosiana e professor da Faculdade de Teologia de Milão não parece mais crer no Magistério ordinário infalível da Igreja, quando escreve: «A notar que a Constituição conciliar reafirma certa a convicção tradicional sobre a identidade dos autores e também sobre a ordem cronológica dos quatro Evangelhos, mas não pretende definir de modo particular este ponto, senão ela teria feito compreender mais claramente» [14].

Mas, tirando o fato de que toda «definição» tenha sido banida a priori deste Concílio que se diz «pastoral», a constituição conciliar usa uma linguagem muito clara: «A Igreja sempre e em todo lugar conservou e conserva que os quatro Evangelhos têm uma origem apostólica». Logo, trata-se do Magistério Ordinário universal e perene da Igreja, cujo ensinamento é infalível, tanto quanto as definições dogmáticas e independentemente destas [15].

Talvez Galbiati quisesse somente um álibi para poder afirmar que «O trabalho dos evangelistas foi antes de tudo redacional» [16]. A idéia fixa de Bultmann, que se tornou dogma para os jesuítas do Instituto Bíblico Pontifício e seus ex-alunos renovados! Não, o próprio Concílio, reafirmando a doutrina tradicional, fala dos evangelistas - apóstolos e pessoas do círculo apostólico - como verdadeiros autores redatores dos Evangelhos: «O que os Apóstolos pregaram pelo mandato de Cristo, eles próprios e pessoas do circulo apostólico nos transmitiram em seguida por escrito, como fundamento da fé, a saber os quatro Evangelhos segundo Mateus, Marcos, Lucas e João». Sobre a «comunidade primitiva», cavalo de batalha da Formgeschichte, nenhuma alusão, nem uma palavra! Até aí a Dei Verbum confirma a doutrina católica, tão claramente reafirmada e defendida em todos os documentos do Magistério, inclusive no Monitum do Santo Ofício de 1961 sobre a plena historicidade dos Evangelhos [17].

Um texto comprometido

O no. 19 da Dei Verbum continua entretanto a se estender sobre a catequese-pregação dos Apóstolos e sobre o modo segundo o qual os evangelistas teriam escrito os Evangelhos:

«Os Apóstolos, em seguida, depois da Ascensão do Senhor, transmitiram àqueles que os escutavam o que Ele tinha dito e feito, com essa inteligência mais completa que possuíam, instruídos que foram pelos acontecimentos gloriosos de Cristo e iluminados pela luz do Espírito da verdade.

Os autores sagrados escreveram, então, os quatro Evangelhos, escolhendo algumas coisas entre as numerosas transmitidas em viva voz ou já postas por escrito, fazendo uma síntese de outras ou explicando-as, dando conta da situação das igrejas, conservando, enfim, o caráter de pregação, entretanto sempre de modo a narrar sobre Jesus coisas verdadeiras e autênticas [vera et sincera]».

E aqui uma nota refere à Instrução Sancta Mater Ecclesia, do cardeal Bea. O texto prossegue assim: «De fato, seja tirando de sua própria memória e de suas lembranças, seja pelo testemunho daqueles que "foram testemunhas desde o começo e que se tornaram ministros da palavra", eles [os Evangelistas] escreveram com a intenção de nos fazer conhecer a "verdade" (conf. Lc 1,2) dos ensinamentos sobre os quais fomos instruídos».

Depois vem três parágrafos que não têm nada a ver com a doutrina católica precedentemente repetida. Eles são "deduzidos [quase literalmente] da Instrução da Comissão Bíblica Pontifícia "Sancta Mater Ecclesia", publicada em 21 de abril de 1961 e citado no próprio esquema» segundo o jesuíta Schmidt, secretário do cardeal Bea [18]. Esses três parágrafos teriam constituído todo o no. 19 de Dei Verbum se o texto não tivesse obtido entre os Padres conciliares o número mais elevado de non placet: 61 [19]. E as mais numerosas proposições de correção concerniam justamente ao no. 19 (historicidade dos Evangelhos) aí onde se disse que «os autores sagrados escreveram, então, os quatro Evangelhos, escolhendo algumas coisas entre as numerosas transmitidas em viva voz ou já postas por escrito, fazendo uma síntese de outras ou explicando-as, dando conta da situação das igrejas, conservando, enfim, o caráter de pregação, sempre entretanto de modo a narrar sobre Jesus coisas verdadeiras e autênticas [vera et sincera]».

Este «vera e sincera», não agradou aos Padres. «A expressão - explica o Pe. Caprile S.J. - era considerada insuficiente: verdadeira significa também uma coisa não real que o autor queria afirmar; a sinceridade denota somente a ausência de dolo em em uma narração que, em si, poderia ser imaginária. Ou seja, segundo estes Padres, não se afirmava sem equívoco o caráter histórico dos Evangelhos.

Neste caso também [como no caso da «veritatem salutarem»] a comissão hesitava e se recusava a mudar o texto. O Santo Padre, por outro lado, pensava em como assinalar à Comissão a necessidade de reexaminar este ponto do texto, em que as afirmações pareciam insuficientes porque, não obstante todas as explicações, a palavra "sincera" poderia ser interpretada com alguma indeterminação (a sinceridade pode ser subjetiva apesar de inteiramente honesta, enquanto que quando se diz que um texto é digno de fé histórica, atribui-se um outro valor, muito mais preciso e explícito a seu testemunho.

Em 17 de outubro, o Papa preparou a carta na qual fez muitas vezes alusão, pedindo que a veracidade histórica dos Evangelhos fosse expressamente defendida pela fórmula "vera seu historica fide digna" no lugar de "vera et sincera". Lemos nesta carta: "Parece de fato que a primeira [vera et sincera] não garantia a historicidade dos Evangelhos; e sobre este ponto, como é evidente, o Santo Padre não poderia aprovar uma fórmula que deixasse dúvida da historicidade destes santíssimos Livros" [20].

Mais uma vez a intervenção de Paulo VI devia obter somente um compromisso, como vimos para a «veritatem salutarem» [21]: «Na reunião da Comissão, em 19 de outubro ... para reafirmar sem equívocos a historicidade dos Evangelhos, à luz da qual deveria-se entender o «vera et sincera», propunha-se acrescentar no mesmo parágrafo, mas um pouco acima, uma afirmação clara sobre este assunto» [22].

E assim, no texto definitivo, no no. 19 onde há a reafirmação solene da plena historicidade dos Evangelhos, seguem os três parágrafos narrados acima, deixados ai voluntariamente para contrapor-se às duas verdades solenemente reafirmadas no no. 18 (origem apostólica dos Evangelhos) e no início do no. 19 (plena historicidade dos Evangelhos).

A trapaça pós-conciliar

Hoje, estes três parágrafos são a peça mestra dos jesuítas do Instituto Bíblico, encabeçado pelo cardeal Carlo Maria Martini, Arcebispo de Milão, antigo Reitor do Instituto Bíblico Pontifício e de seus «novos exegetas», para sustentar que o Concílio Vaticano II, na Dei Verbum, aprovou não a doutrina católica. mas os erros e as heresias desses «novos exegetas» contra a origem apostólica e a historicidade dos Evangelhos.

Porém, os fatos do Concílio atestados pejo próprio jesuíta Caprile, e em particular a intervenção de Paulo VI, são decisivos para esclarecer o sentido exato do no. 19 da Dei Verbum. O próprio Mons. Galbiati reconhece: «Não é necessário sublinhar que a insistência com que foi reclamada uma afirmação mais explícita da historicidade dos Evangelhos e a intervenção pessoal do próprio Papa não podem ser sub-avaliados por aqueles que têm a tarefa de interpretar este ponto da Constituição conciliar, não simplesmente segundo o teor de todas as palavras e de todas as expressões, mas também segundo a intenção daquele que as escreveu e sobretudo da assembléia que as aprovou» [23]. E o que dizem ainda hoje os exegetas neomodernistas? Que «a segunda parte do no.19 retoma alguns pontos da Instrução da Comissão Bíblica já mencionada, que é explicitamente citada e por isso implicitamente aprovada inclusive nas partes que não são narradas. É então necessário recorrer a este documento para explicar as expressões um pouco concisas da Constituição conciliar» [24]. Ou seja, Dei Verbum passa a ser a aprovação da «nova exegese».

Uma prova da trapaça

Mons. Galbiati pessoalmente, fez o esforço de comentar a Dei Verbum à luz da Instrução acima, Com que resultados? Demonstrou que os três parágrafos mencionados acima são um corpo estranho, uma contradição com a reafirmação da historicidade dos Evangelhos que abre o no. 19 da Dei Verbum.

De fato, enquanto se restringe ao no. 18 e à primeira parte do no. 19 da Dei Verbum, ele escreve com brilho sobre a historicidade dos Evangelhos: «A Constituição conciliar afirma claramente que Jesus agiu e ensinou "na realidade" [reapse, a tradução por efetivamente é menos clara] o que os Evangelhos narram d´Ele, e que esta narração é fiel (...); para a fé cristã é de uma importância extrema e única que Jesus tenha realmente feito e dito o que os Evangelhos contam dEle. Em conseqüência, é extremamente importante que os Evangelhos não sejam uma obra de fantasia mas de história.

É a justo titulo que a Constituição se apegue ao ensinamento constante, firme, tanto atual quanto do passado, e afirme incuncanter (sem nenhuma hesitação) o caráter histórico dos Evangelhos. Nesta afirmação se cita, de propósito, a frase dos Atos 1,2: "Até o dia em que ... foi elevado ao Céu", incluindo assim as aparições de Jesus ressuscitado, com todo seu peso para a apologética e a teologia» [25].

Quando, entretanto, ele se deixa guiar pela segunda parte do no. 19, «explicado» à luz da Instrução, Mons. Galbiati passa ao oposto e chega a negar tanto a origem apostólica dos Evangelhos quanto sua historicidade. «É então verdade - escreve Mons, Galbiati - que os Apóstolos não narram simplesmente o que viram e ouviram, mas tornaram seus ouvintes participantes dessa inteligência mais completa que possuíam daí em diante. Este é certamente um fato de variação em relação aos dados primitivos» [26]. Dedução não somente prejudicial à plena historicidade dos Evangelhos, mas ainda dedução precipitada e errada.

Conclusão

Mons. Galbiati tem razão de lembrar que o no. 19 da Dei Verbum sobre a historicidade dos Evangelhos deve ser interpretada «não simplesmente segundo o teor de todas as palavras e de todas as expressões, mas também segundo a intenção de quem escreveu, e sobretudo da assembléia que as aprovou». intenção que, neste caso, é evidenciada pelos pedidos e pelos votos dos Padres, desejosos de uma afirmação mais explícita da historicidade plena e inteira dos Evangelhos, assim como pela intervenção de Paulo VI: «O Santo Padre não poderia aprovar uma fórmula que deixasse duvidas do historicidade desses três Livros santos» Entretanto, permito-me observar que se, como em todos os Concílios, tivessem tido cuidado de, em se tratando de doutrina, garantir que «o sentido de todas palavras e de todas as expressões» respeitasse exatamente e somente a «intenção» que deviam exprimir, suprimindo todo palavreado, mesmo aparentemente inocente, não haveria lugar para as manobras neornodernistas, e hoje não haveria pretextos para interpretações facciosas em oposição evidente com as verdades de fé divina e católica. Interpretações que são difundidas até agora impunemente, e que revelam sempre mais o verdadeiro rosto deste funesto conciliábulo «pastoral», que deveria ser jogado no lixo e esquecido o mais rápido possível.

 

Francesco Spadafora

 

Notas:

[1] ver o artigo do nosso número anterior.

[2] 3 de setembro de 1960.

[3] ver SimSimNãoNão de setembro de 1995.

[4] La Stampa, 24 de julho de 1964, ver SimSimNãoNão, outubro de 1995.

[5] A. Bea, La storicittà degli Evangeli, Morcelliana, Brescia, 1864, pág. 628.

[6] ver SimSimNãoNão novembro de 1995.

[7] Cadernos no. 2735 e 2736, de 1964.

[8] S. Schmidt, Agostino Bea il cardinale dell´unita. Citta Nouva, pág. 628.

[9] Ibid, pág. 627-628.

[10] Ibid, pág. 215.

[11] La Parola di Dio e l´umanità, Cittadella, ed. Assis.

[12] E. Galbiati, La constituzione dogmatica sulla divina Revelazione. Elle Di Ci, Turim, 1966, págs. 253 e segs. Notar que o comentário não respeita sempre o espírito da Constituição.

[13] SimSimNãoNão, no. 5, maio de 1993.

[14] E. Galbiati, op. cit., pág. 252.

[15] Vaticano I, DB 1792, e Pio XI, Breve ao arcebispo de Munique, DH 1623.

[16] E. Gabliati, op. cit., pág. 260.

[17] Todos os autores católicos expõem e confirmam esta doutrina - até Vaticano II, é claro. Ver SimSimNãoNão, fevereiro de 1995.

[18] S. Schmidt, op. cit., pág. 626.

[19] G. Caprile S.J. «Tre emendamenti allo schema sulla revelazione» em La Civiltà Cattolica, 5 de fevereiro de 1966, pág. 228.

[20] G. Caprile S.J., op. cit.

[21] ver SimSimNãoNão, fevereiro de 1996.

[22] G. Caprile, ibid.

[23] E. Galbiati, op. cit.

[24] E. Galbiati, op. cit., págs. 257 e segs.

[25] Galbiati, op. cit., págs. 253 e segs.

[26] Mons. Galbiati, op. cit., pág. 259.