o triunfo do modernismo sobre a EXEGESE CATÓLICA
11- Métodos fundados sobre a negação do dogma católico
No capítulo precedente (10), vimos como respondi ao jesuíta Zerwick: «Nos é atribuída uma "aversão afetiva" pela Formgeschichte. No entanto, no único artigo de nosso Dicionário [que lhe é consagrado] aparece que não é o sentimento, mas exatamente o exame crítico objetivo que é a única causa deste julgamento negativo» [1].
Na realidade, não vejo - e a exegese «de hoje» me confirma - como um exegeta católico pode adotar os sistemas racionalistas chamados pelo cardeal Ratzinger de «método histórico-crítico» (Formgeschichte e Redaktiongeschichte), sem renegar os dogmas, isto é, as verdades de fé divina e católica que devem ser as bases da exegese católica e que foram reafirmadas numerosas vezes pelos Papas contra a agressão do modernismo: inspiração divina, inerrância, historicidade dos Evangelhos e submissão da exegese ao Magistério infalível da Igreja [2]. Nesta minha convicção não estou sozinho, mas em muito boa companhia, como veremos. Por ora, basta citar Simon-Dorado: A Formgeschichte, contra o dogma católico: «perverte as noções de inspiração, inerrância, e de tradição apostólica - notiones inspirationis, inerrantiae, traditiones apstolicae pervertit» [3].
Apenas um simples olhar bastará a um «não especialista» para que seja capaz de compreender a impossibilidade de conciliação dos dois sistemas racionalistas mencionados (Formgeschichte e Redaktionsgechichte) com o dogma e, portanto, com a exegese católica.
Os fundamentos comuns: a negação do sobrenatural
A «história das formas» ou formengeschichte, nasceu na Alemanha, na sombra do racionalismo protestante, nos anos 1919-1922, Foram seus autores: Schimdt, Dibelius e Bultmann.
Por ocasião da segunda guerra mundial, ela foi revista em parte e deu origem a Redaktionsgechichte ou «história da Redação». Seus autores: Marxen, Conzelmann e Bornkmamm. Os fundamentos comuns dessas escolas, como de todas as escolas racionalistas, que se sucedem a partir da segunda metade do século XVIII, se sobrepõem, se entrecruzam, se contradizem (conf. G. Ricciotti, Vita di Gesu, introdução). Este fundo comum é o racionalismo, negador do sobrenatural ou dos fatos milagrosos narrados nos Evangelhos: «Para nós é indiscutível - escrevia Harnack - que tudo o que se passa no espaço e no tempo obedece às leis gerais do movimento e, por conseqüência, os milagres, se se entende por ai infrações da ordem natural, não são possíveis ... Que uma tempestade seja apaziguada pelo efeito de uma palavra, é uma coisa que não acreditamos e que jamais acreditaremos» [4]. E Rudolph Bultmamm acrescenta: «Os milagres, a ressurreição... são simples mitos, é preciso desmistificar os evangelhos». Como explicar, então, os inumeráveis acontecimentos milagrosos narrados pelos Evangelistas?
A resposta das diversas «escolas» racionalistas é substancialmente a mesma: o sobrenatural dos Evangelhos só pode ter sido inventado, não pelos discípulos diretos de Jesus, mas pelo povo, do qual se conhece a capacidade de inventar. Os evangelistas não são os autores, mas redatores dos Evangelhos; separados de Jesus por uns trinta anos, não são testemunhas auriculares nem oculares, mas seus escritos são o eco de uma tradição que não se limitou a recolher e a guardar, mas sobretudo inventou e criou, mesmo se de boa fé, segundo as leis de todas as literaturas populares.
Como é evidente, estas teorias não se fundam em fatos ou documentos, mas unicamente sobre a negação preconcebida do sobrenatural: como os milagres são impossíveis, os milagres narrados no Evangelho. necessariamente, devem ser o fruto da imaginação lenta, progressiva, inconsciente, à qual a fé ardente dos primeiros cristãos submeteu a figura histórica e real de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Negação do dogma católico
É claro que, nos sistemas racionalistas, como escreve E. Florit, «não se concede nada a uma intervenção sobrenatural na composição dos Evangelhos, o que exclui a inspiração divina e sua conseqüência, que é a inerrância», [5]
E A. Tricot ilustra assim este postulado da Formengeschichte (que ele distingue bem, como se deve, do estudo dos gêneros literários): «Os redatores dos Evangelhos, no seu trabalho de compilação, sempre modificaram a fisionomia original do que a tradição lhes havia transmitida» [6].
Acha-se este postulado em todos os escritos dos «novos exegetas». Como pode concordar com a doutrina católica sobre a inspiração divina e a inerrância da Sagrada Escritura? Não é fácil compreender.
Àqueles que afirmam que, adotando tais «métodos», é possível respeitar a doutrina católica da inspiração e da inerrância absoluta das Sagradas Escrituras, se impõe o grave dever de demonstrá-lo. É fácil afirmar gratuitamente, mas na realidade, nos ensaios da «nova exegese» não há lugar para os princípios dogmáticos que são a base da exegese católica.
Em seguida, deforma-se a noção de Tradição evangélica, a qual, nos «métodos» racionalistas, é assimilada à vida espontânea e irrefletida do povo. Assim, ao conceito católico de tradição se substitui a «metafísica fantástica» da consciência coletiva da comunidade que cria a religião (é o sociologismo de E. Durkheim); no nosso caso, que cria o Evangelho, quando é exatamente o contrário: é o Evangelho pregado pelos Apóstolos - São Pedro como chefe que dá vida à Igreja de Jerusalém na Palestina e no mundo inteiro, como diz São Lucas nos Atos dos Apóstolos.
Nestes «métodos» é negada absolutamente a historicidade dos Evangelhos e, portanto, seu verdadeiro sentido histórico, sempre reivindicado pelo Magistério infalível da Igreja, pela crítica sã [7]. De fato, como escreve Ricciotti, segundo tal «método» ou sistema, «as narrações evangélicas seriam uma elaboração da comunidade cristã primitiva: elaboração de natureza religiosa popular que conservou isto e aquilo de alguns elementos de objetividade histórica, apesar de hoje ser muito difícil (para não dizer impossível) extrair com precisão estes elementos para empregá-los numa biografia de Jesus» [8].
Por sua vez, A. Tricot escreve: «O objetivo dessas críticas [dos partidários da Formengeschichte]... é atingir na sua realidade histórica o substrato primitivo, e isso através dos textos evangélicos e para além de uma tradição elaborada durante trinta ou quarenta anos no seio das comunidades fundadas nos meios helenizados da Síria e da Ásia Menor» [6]. O que é contra a Tradição católica, unânime e indiscutível, que atesta a verdade histórica natural dos atos e das palavras de Jesus narrados nos Evangelhos «com um cuidado religioso» por aqueles que o «tinham visto e ouvido» (Bento XV, Spiritus Paraclitus). Logo, a Formengeschichte tem seu ponto de partida na negação do sobrenatural e da historicidade dos Evangelhos.
Ora, o valor histórico dos Evangelhos, «além de ser evidentemente certo para a crítica é, para o católico, uma verdade de fé divina e católica, ensinada pela tradição, pelo magistério ordinário e pela prática constante da Igreja, que sempre utilizou os Evangelhos pressupondo-os históricos» [9].
Bento XV se refere a esta tradição católica ininterrupta e infalível, na encíclica Spiritus Paraclitus: «E que pensar daqueles que, expondo os Evangelhos, diminuem a confiança que se deve ter nos homens e modificam a que se deve ter em Deus? Eles acham que as palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo e suas ações não são apresentadas inteiras e intactas por essas testemunhas que, religiosamente. transcreveram o que eles próprios tinham visto e ouvido, mas ... viriam, em parte, dos pensamentos e adições dos próprios evangelistas e, de outra parte, de um amálgama das narrações dos fiéis da segunda geração.
Não é assim que Jerônimo. Agostinho, e os outros doutores da Igreja compreenderam o valor histórico dos Evangelhos... » [10]
Mas, ao contrário - afirmam a Formengeschichte e os sistemas parecidos - é preciso finalmente compreender que a realidade é completamente diferente: os evangelistas são mais redatores do que autores. Separados do tempo de Jesus por mais de quarenta anos, eles não têm nenhum conhecimento direto do que narram. Narrações preexistiam, pericópios destacados criados pela «comunidade primitiva» para responder às exigências da pregação e do culto, uma vez que se esperava iminente o fim do mundo, e que não se tinha nenhuma preocupação de caráter histórico. Essa tradição popular que, como todas as tradições desse gênero, foi formada na alma popular, segundo as exigências do meio, foi transmitida por numerosos intermediários anônimos e sob forma de inúmeros fragmentos. Os três Evangelhos sinóticos seriam uma síntese dessas folhas esparsas. (E toda a Sagrada Escritura, em livros que sempre foram considerados históricos, é considerada como uma série de citações implícitas!).
«O que sobra então de histórico - pergunta o Pe Benoit - se se eliminam todas estas criações da comunidade? Muito pouco, quase nada; um resumo totalmente incolor; Jesus da Galiléia que se considera como um profeta, e que deveria falar e agir neste sentido, sem que se possa dizer com exatidão o que ensinou e o que fez; e enfim que morreu miseravelmente. Todo o resto, sua origem divina, sua missão de salvação, as provas que deu nos seus discursos e por seus milagres, a Ressurreição que sancionou sua obra, tudo isso é puro artifício proveniente da fé e do culto, e é revestido de uma tradição legendária que se formou durante pregações e lutas da comunidade primitiva».
Opiniões arbitrárias disfarçadas em ciência
Portanto, não cabe a demonstração da impossibilidade de se conciliar o dogma católico com tais «métodos» ou tais «sistemas», porque ela é evidente. Antes, caberia aos católicos adeptos desses «métodos» demonstrar que seriam conciliáveis, se seus ensaios «exegéticos» inspirados nesses métodos não tivessem já demonstrado que é uma tarefa impossível. Sem dizer que se pode aplicar a esses métodos e a seus adeptos o que Lagrange escrevia de Loisy: «Já que nos propõem substituir a fé tradicional pelos resultados da crítica [é o caso de Zerwick e, hoje, de R. Penna], temos o direito de perguntar aos inovadores se estão de acordo entre si nos seus resultados (...). Ora, não somente os resultados não são idênticos mas, como se esperava, outras observações não menos inconciliáveis são deles deduzidas. É o que os leitores de Loisy nem sempre assinalaram, ou então não se deram conta ... Imaginam ouvir o veredicto da ciência quando, ao contrário, trata-se de uma opinião ...
Aliás, ele é o primeiro a reconhecer o quanto muitos desses raciocínios têm de conjeturas [as ... hipóteses de trabalho!]. A adição das probabilidades não equivale a uma certeza, muito menos a de possibilidades» [11].
Falando da Formengeschichte, Tricot diz que seus «princípios são, no máximo, postulados não demonstrados» e que «etiquetar sob nomes diferentes as "pequenas unidades" das quais são formados os evangelhos, especificando a origem, a antiguidade, o tipo, o fim, o Sitz im Leben, etc ... de cada um, é e será uma atitude das mais temerárias: o arbítrio joga fatalmente um papel muito grande num exercício tão delicado e tão arriscado» (op. cit.), E. Florit também escreve: «De todo o conjunto de critérios ... sobre os quais se apóia a história das formas no seu exame da narração em questão [a Paixão], resulta somente uma obra de demolição sem nenhuma reconstrução que se possa considerar fundada sobre uma base cientifica» (op. cit. pág. 164).
L. de Grandmaison tinha dado um mesmo julgamento definindo a Formgeschichte como uma «decomposição artificial», à qual «nenhuma página da história resistirá» [12]. Mas o padre Schökel S.J. [13] e, hoje, a jovem geração do Bíblico, pretendem que Pio XII. em Divino Afflante Spiritu, teria recomendado e mesmo imposto aos exegetas católicos a Formgeschichte! Como é possível atribuir ao papa Pacelli uma tal loucura? Finalmente, deve-se notar que o próprio cardeal Joseph Ratzinger, na sua obra Esegesi cristiana oggi (Exegese cristã hoje), Piemme 1991 - sobre a qual voltaremos, expõe nas páginas 103-111 «Os principais elementos do método e suas condições necessárias», e nota o «caráter arbitrário» dos critérios ou princípios empregados pelo «método R. Bultmann - M. Dibelius» na exegese crítica dos textos evangélicos. Exposição e crítica que estão de acordo com os autores católicos citados acima, de Florit a Ricciotti, mesmo se, em seguida, no mesmo livro e no recente documento sobre a exegese, em evidente contradição com a exposição critica da Formgeschichte, o cardeal Ratzinger a considera útil e mesmo necessária à exegese católica.
O julgamento do Magistério
Aliás. o julgamento sobre esses sistemas foi dado por Leão XIII na Providentissimus Deus: eles são a cauda venenosa do protestantismo, a saída fatal do «livre exame» de Lutero, a dissolução final da pretensa «Reforma». Escreve o Papa: «Como antes tivemos que lutar principalmente contra aqueles que, apoiados sobre seus próprios julgamentos privados e tendo repudiado as tradições divinas e o Magistério da Igreja, fizeram da Escriture a única fonte da Revelação e o julgamento supremo da fé, temos agora que lutar contra os racionalistas que, como seus filhos e herdeiros, baseando-se igualmente sobre seu próprio julgamento, rejeitaram completamente mesmo esses restos de fé cristã recebidos dos pais. Eles negam, de fato. toda revelação divina ou inspiração ou Sagrada Escritura. e vão dizendo que são somente invenções e tagarelices humanas e que, então, não são verdadeiras narrações de coisas que tenham acontecido, mas sim de fábulas vazias ou histórias falsas; que não são profecias ou oráculos, mas ou predições simuladas depois dos acontecimentos ou pressentimentos naturais; que não são milagres no sentido próprio da palavra e a manifestação do poder divino, mas algumas coisas maravilhosas não superiores às forças da natureza ou prodígios ou alguns mitos; os evangelhos ou escritos apostólicos devem ser atribuídos a outros autores». Isto é o fundamento comum dos sistemas racionalistas: a Formgeschichte ou a Redaktiongeschichte, sua variante. Dizer que em tudo isto há uma «parte de verdade» (qual?) que as críticas atingiriam somente os adeptos extremistas [14], é simplesmente ridículo: a Formgeschichte é inseparável de seus postulados: ou bem se aceita com seus postulados essenciais ou não há Formgeschichte [15]. A «nova exegese» - veremos - está aí para demonstrá-lo
Francesco Spadafora
Notas
[1] SimSimNãoNão, outubro de 1995, pág. 5.
[2] SimSimNãoNão, janeiro de 1995, págs. 2 e segs.
[3] Novum Testamentum, Turim-Roma 1903. pág. 11.
[4] L 'Essenza del cristianesimo, trad. ital. Turim 1903. págs. 26-28.
[5] E. Florit. ll metodo della "storia della forma" e sua applicazione ai raccontí della Passione. 1935. págs. 227-230.
[6] A.Tricot, Initiation Biblique, 3a. ed., 1954, págs. 324-327.
[7] A. Puech, Histoire de la litterature grecque chretienne, I, Paris 1928. pág. 60.
[8] D. G. Ricciotti. Vita di Gesú Cristo, 1941, Le interpretazíone razionaliste de la vita de Gesú. parag. 217
[9] Francisco de Vizmanos e Ignacio Rudor. Teologia Fundamental para Seglares. Madrid (BAC. 229) 1963, págs. 297 e segs. Ver também M. Nicolas S.J e Salaverri S.J.; Sacrae theologiae Summa. I, II, 352-362, Madrid 1962, ver edição BAC 61: L. Billot S.J. De Ecclesia Christi, Roma 1927, págs. 51-52 e Pe Garrigou-Lagrange, De Revelatione, II, Roma 1950, págs. 130-152
[10] Encíclica Spiritus Paraclitus, 15-9-1920; E.B. no. 444-495.
[11] F. M. Lagrange, M. Loisy et le modernisme, A propos des mémoires, Ed. du Cerf, Paris 1932
[12] L. de Grandmaison, Jésus Christ. ed. Paris 1928, I págs. 41-56: 328-330.
[13] Ver SimSimNãoNão, setembro de 1995, págs. 1 e segs.
[14] Zerwick na sua polêmica contra mim (ver SimSimNãoNão. out.1995, págs. 5 e segs.). Declaração feita numa circular enviada a todos os bispos italianos, professores das Universidades pontifícias etc, contra meu comentário ao Monitum do Santo Oficio, publicado na Palestra del Clero de 15-9-1961.
[15] Os outros autores que trataram da questão não apresentam de forma diferente a Forrngeshichte. Para se limitar aos católicos: Benoit, Braun, C. Zedda, o próprio cardeal Bea (La storicita dei Vangeti, Brescia 1964, págs. 18-42) cuja claríssima exposição do método concorda bem com minha síntese. O futuro cardeal Florit consagrou sua atenção à Formgeschichte em La storia delle forme nei Vangeli in rapporto alla dottrina cattolica. publicado em Bíblica 14 (1933) págs. 212-248, quando o Pe. Bea era o reitor. Dois anos mais tarde, E. Florit publicava Il metodo della storia delle forme e sua applicazione al racconto della Passione, Roma 1935, com a conclusão citada acima. O mesmo Florit, professor em Latrão, consagra catorze páginas da Bíblica para expor o método e vinte e quatro às observações críticas do método. E já na Littérature (ou bibliografia) de la Méthode, às obras ou artigos dos fundadores (pág. 212 n° 1 e 2; pág. 113 no. 3. 4 e 5), seguem em B - «Critique de la rnéthode», sete números de autores católicos e nove de não católicos