o triunfo do modernismo sobre a EXEGESE CATÓLICA
10 - pAulo vi
O ano crucial é 1960. Neste ano foi publicado o artigo-programa do jesuíta Schökel, que pretende justificar pela encíclica Divino Afflante Spiritu de Pio XII, a traição do Instituto Bíblico Pontifício à exegese católica e ao «depósito da Fé»; segue-se a refutação de Mons. Romeo e a reação do Instituto Bíblico (que me acusa também), a intervenção do Santo Ofício e, em conseqüência, em 1962, o afastamento de Roma e do ensino dos dois jesuítas, Lyonnet e Zerwick, professores do Instituto Bíblico [1].
Durante as vivas polêmicas, um monsenhor da Cúria, meu amigo fraterno, me advertiu: «Cuidado! o Papa muda, mas a Companhia de Jesus fica». Ele tinha razão sobre este ponto: os jesuítas do Bíblico preparavam sua revanche contra o Santo Ofício, enquanto que o Papa ia logo mudar, mas infelizmente para benefício deles.
A luta surda contra o Santo Ofício
O Santo Oficio, já vimos, havia imposto às partes o fim de toda polêmica, mas enquanto Mons. Romeo e eu nos fechamos no silêncio que nos foi imposto, o jesuíta Silverio Zedda, presidente da Associação Bíblica italiana, enviou a todos os bispos italianos uma circular de denúncia (contra nós, mas de fato contra o Santo Ofício) na qual se lia: «Imploramos à Santa Sé que pusesse fim a esta campanha de perseguição contra o Instituto Bíblico Pontifício e contra a Associação Bíblica, que é aprovada ... abençoada ... que tem por presidente honorário perpétuo o eminentíssimo cardeal Ernesto Ruffini e que procura cumprir sua tarefa na mais sincera docilidade às normas oficiais dos órgãos da Santa Sé no domínio bíblico e teológico: o Santo Oficio e a Comissão Bíblica».
Convém notar a diarquia no dualismo «domínio bíblico e teológico» com o emparelhamento correlativo: Santo Oficio e Comissão Bíblica. Mais uma vez se insinuava a incompetência do Santo Ofício no domínio bíblico ou, ao menos, que o Santo Oficio só tinha competência neste domínio depois de receber instruções da Comissão Bíblica Pontifícia ou do cardeal Tisserant e, portanto, dos jesuítas do Bíblico. Quanto ao cardeal Ruffini, apresentado agora como fiador da ortodoxia da Associação Bíblica, tinha sido objeto de ataques, junto com Mons. Romeo e comigo [2] quando, no Osservatore Romano de 24 de abril de 1961, criticara as «novidades» propagadas pela Revista Bíblica, que era justamente o órgão da Associação Bíblica citada acima, «novidades» heréticas, sobre as quais já dei um vasto parecer [3].
A «mais sincera docilidade às normas oficiais dos órgãos da Santa Sé», assim afirmada, encontrou aplicação no acolhimento que o jesuíta Zedda e os «novos exegetas» deram ao Monitum pelo qual o Santo Ofício reafirmou a historicidade dos Evangelhos, como acabamos de ver no n° 9.
Em 1962, o cardeal Ottaviani, no seu escritório no Santo Ofício, me deu uma folha datilografada e me disse: Leia isto. Era um texto que o cardeal Tisserant, com aprovação escrita do cardeal Bea, se propunha fazer aprovar por membros da Comissão Bíblica Pontifícia, para introduzir na exegese católica a Formgeschichte, que nega a priori as origens e a historicidade dos Evangelhos: era, na prática, a rejeição do Monitum do Santo Oficio! A tentativa fracassou, pois o texto foi afastado pelos cardeais membros da Comissão Bíblica. Ela vai ressurgir dois anos mais tarde, em 1964, quando o cardeal Bea poderia contar com o favor do novo Papa. Este texto se tomará então a instrução Sancta Mater Ecclesia (21 de abril de 1964), que influenciará os trabalhos do Concílio e que é, até hoje, o documento sobre o qual se apóia a «nova exegese».
«Paulo VI fala à direita mas age à esquerda»
Fascinado pelo modernismo desde sua juventude, Montini, eleito Papa, pôs decididamente sua mais alta autoridade a serviço do renascimento do modernismo ou do neo-modernismo, ou ainda da «nova teologia», mas evitando cuidadosamente comprometer-se.
«Paulo VI fala à direita mas age à esquerda, e são estes fatos que contam», escreveu em seu tempo Congar, e nisso não posso contrariá-lo, pois o experimentei pessoalmente.
Como já escrevi, o Papa Montini chamou de volta a Roma e ao ensino no Instituto Bíblico os dois jesuítas Lyonnet e Zerwick, reabilitando-os em autoridade, sem que sua ortodoxia tenha sido demonstrada e, assim, humilhando publicamente o Santo Oficio, que os havia condenado depois de um exame minucioso das graves acusações contra eles.
«Os dois jesuítas professores são reabilitados depois de sua condenação pelo Santo Oficio», intitulava La Stampa um artigo sobre o assunto, onde se lê:
«Dois professores de renome internacional, do Instituto Bíblico de Roma, os jesuítas Stanislas Lyonnet, francês, e Maximilien Zerwick, alemão, foram reintegrados na cadeira de exegese da qual tinham sido afastados, por disposição do Santo Oficio, em 1962, no auge de uma grande polêmica com os exegetas tradicionalistas da Universidade de Latrão. O Instituto Bíblico, ligado à Gregoriana, sempre seguiu os métodos da vanguarda, aplicando às pesquisas sobre a Sagrada Escritura todas as ciências modernas e as teorias progressistas, segundo as normas da encíclica Divino Afflante Spiritu, de Pio XII. A disputa entre o Bíblico e a Universidade de Latrão, que explodiu em 1960, atingiu o máximo da aspereza em certos escritos de Mons. Spadafora e de Mons. Antonino Romeo, que acusavam os pesquisadores jesuítas de introduzir na Igreja o criticismo racionalista e protestante, afastando-se assim da ortodoxia» [4].
Os qualificativos («dois professores de renome internacional» vitimas dos exegetas «tradicionalistas» da Universidade de Latrão), a inexatidão partidária («máxima aspereza» teria sido atingida pela polêmica nos escritos, e nestes somente, de Mons. Spadafora e Mons. Romeo), o elogio dos «métodos de vanguarda» do Instituto Bíblico e de sua pretensa fidelidade à Divino Afflante Spiritu, desvendam o «Sitz im Leben», o meio onde nasceu o papel enviado, na ocasião, aos órgãos de imprensa.
Uma série de golpes
O golpe dado por Paulo VI no supremo Dicastério para a defesa da doutrina e da disciplina na Igreja foi grave, e não era o primeiro. Nesta ocasião, La Stampa [5] evocou toda uma série deles. Em setembro do ano anterior (1963), Paulo VI já tinha nomeado o cardeal Bea para membro do Santo Oficio. A significação desta nomeação foi assim sublinhada em La Stampa: «Um dos primeiros atos de Paulo VI foi, em setembro do ano passado, a nomeação do cardeal Bea como membro do Santo Oficio. Assim, ao lado da tendência tradicionalista personificada por Ottaviani, estava representada na maior Congregação a tendência inovadora. Além disso [é a acusação de incompetência dirigida ao Santo Oficio pelos jesuítas do Instituto Bíblico] o cardeal Bea é o único exegeta que faz parte do Santo Oficio».
Outro ato de Paulo VI em favor dos «progressistas» do Bíblico: «Em 31 de outubro, o Papa, no seu discurso de abertura do ano acadêmico da Universidade de Latrão, condenou com força a "concorrência invejosa e a fastidiosa polêmica" entre correntes exegéticas». Aqui. no entanto, o jornalista não menciona a visita feita pouco depois, pelo mesmo Paulo VI, à Gregoriana, à qual é associado o Instituto Bíblico, durante a qual o Papa repetiu para os jesuítas deste Instituto as mesmas palavras que La Stampa tinha relatado na visita à Universidade de Latrão.
Os bastidores
Tenho boas condições para revelar os bastidores deste episódio. Logo depois da visita de Paulo VI ao Latrão, disse ao reitor, Mons. Piolanti, então cônego na Basílica de São Pedro e ainda diretor da revista Divinitas, que eu me demitia por causa dessas palavras injustas de condenação, que eram claramente dirigidas contra mim. O reitor me respondeu que ficasse tranqüilo pois «Eu já apresentei - disse - minha demissão... ». O resultado foi que, não somente Paulo VI recusou esta demissão, mas fez chegar a Mons. Piolanti uma carta elogiosa confidencial, na qual anunciava que pronunciaria uma reprimenda idêntica na sua visita iminente ao Bíblico. Teria ele pronunciado esta segunda reprovação sem a demissão de Mons. Piolanti? Tenho boas razões para duvidar. E, de fato, logo depois, «em abril último [1964] - para retomar uma citação do La Stampa - [Paulo VI] chamou para fazer parte da Comissão Bíblica os cardeais Alfrink e Koenig e quatro pesquisadores de tendência progressista». Imparcialidade aparente, em palavras (já repreensível diante da agressão contra o depósito da fé), mas que, de fato, favorecia os «progressistas»: «Paulo VI fala à direita. mas age à esquerda, e são os fatos que contam».
Os resultados desta política filomodernista de Paulo VI foram muito ruinosos. «A Comissão renovada - prossegue La Stampa - publicou em 21 de abril uma importante «instrução» sobre a verdade histórica dos Evangelhos». Tratava-se justamente do documento que o cardeal Ottaviani me tinha mostrado, dois anos antes, em seu escritório no Santo Oficio! Documento que era a rejeição em regra do Monitum do Santo Oficio sobre a historicidade reafirmada dos Evangelhos, com a introdução no domínio católico da Formgeschichte que parte, ao contrário, da negação da historicidade. Voltaremos a falar sobre isso.
Como antes, pior do que antes
Para tirar todas as dúvidas sobre o filomodernismo do Papa Montini eis, enfim, a reabilitação de fato e injustificável dos dois jesuítas, Lyonnet e Zerwick, já condenados pelo Santo Oficio: «Agora - concluía La Stampa - a reintegração dos dois insignes professores do Instituto bíblico é uma evidente confirmação [dos «métodos de vanguarda» e das «teorias progressistas» do Bíblico] e um convite para avançar pelo caminho da renovação exegética traçada pela encíclica Divino Afflante Spiritu».
O padre Stanislas Lyonnet e o padre Maximilien Zerwick voltaram para suas cadeiras como heróis; e desse dia em diante, sem véus, continuaram como antes, com mais estragos que antes, ensinando e difundindo suas teses heréticas. Um único exemplo: em 1963 saía pela Studium a terceira edição do Dizionario Biblico, que eu dirigia. O jesuíta Zerwick felicitou-me, como diretor e autor da maior parte do Dizionario, pelo sucesso da obra que, publicada em 1955, oito anos depois via sua terceira edição, com doze mil exemplares; mas ele manifestou também seu desacordo sobre alguns «pontos discutíveis». Um desses «pontos discutíveis» era a historicidade dos Evangelhos, verdade de fé divina e católica, mas posta em dúvida pela «nova» (e herética) exegese. Assim, no verbete Páscoa, era exposta e criticada a teoria de A. Jaubert que situa na noite de terça-feira e não na quinta, a celebração da última ceia. A hipótese - escrevi - parece privada de qualquer fundamento «além do que, está em oposição com os próprios textos dos quatro Evangelhos».
Eis a critica de Zerwíck: «[para o autor] a hipótese de Jaubert parece privada de qualquer fundamento, além do fato de contradizer os quatro Evangelhos. Esta última coisa, para o autor, é evidente, visto que ele tem dos quatro Evangelhos um conceito de ferro» [6].
Contentei-me em responder que todos os exegetas católicos - Benoit, Fernandez, Leal e o padre Huby, que ele louvava - tinham dos Evangelhos «o mesmo conceito de ferro que nos reprovavam», e que os três primeiros, Benoit, Fernandez e Leal, tinham sublinhado unanimemente a oposição da tese de Jaubert «com os textos dos Evangelhos sinópticos e do quarto Evangelho». [7].
A briga de faca - A «Formgeschichte»
Zerwick me reprovava (erradamente) por excluir dos Evangelhos o que Pio XII havia dito dos gêneros literários na Divino Afflante Spiritu, e que eu expunha «muito bem» - escrevia ele - no verbete Inspiração.
«Daí a irascível aversão do autor contra o método morfocritico [isto é, a Formgeschichte], aversão afetiva que quer [em itálico no texto] considerar somente as origens infelizes e abusivamente deletérias deste método» [8].
Considerando o que estava em jogo, que não era minha pessoa mas a historicidade dos Evangelhos, respondi-lhe longa e claramente:
«A teoria dos "gêneros literários" não deve ser confundida com a Formgeschichte: sua relação não é necessária: a primeira tinha mais ou menos vinte anos quando a segunda viu o dia. A Divino Afflante Spiritu expõe a teoria dos gêneros literários, mas não a faz sua: ela não expõe a Formgeschichte. O padre Zerwick parece fundi-las e confundi-las, e é somente esta confusão que lhe permite afirmar que rejeitaríamos o que a Divino Afflante Spiritu diz dos gêneros literários no tocante aos Evangelhos.
Atribui-nos uma "aversão afetiva" à Formgeschichte. E, no entanto, no único artigo de nosso Dicionário [que lhe é consagrado], aparece que não é o sentimento, mas exatamente o exame crítico-objetivo, que é a causa única deste julgamento negativo».
E continuava eu, passando ao contra-ataque: «Aqueles que têm um conceito bastante ... flexível, para não dizer o pior, da verdade histórica dos Evangelhos, afirmaram como princípio a "liberdade que a tradição (?) e os evangelistas tomam com a realidade histórica dos atos e das palavras de Jesus ". Teríamos nos Evangelhos a "interpretação" (um dos postulados da Formgeschichte) que os Apóstolos, a comunidade primitiva, deram aos atos e palavras de Jesus. Postulado que estudos, mesmo muito recentes, demonstram estar em oposição flagrante com os modos de transmissão oral em uso no meio judaico». E aqui eu citava o estudo de Gerhardsson [9] do qual o padre Benoit fez a recensão seguinte [10]:
«O capítulo 11 é a seção mais nova e mais interessante. Estuda no detalhe as técnicas postas em prática [pelos judeus] para assegurar uma boa transmissão oral. Um primeiro princípio é que é preciso reter exatamente tanto quanto possível os "ipsissima verba" dos Mestres».
Eu comentava assim o Pe. Benoit: «Isso é bem diferente de uma interpretação! - E de que Mestre os Apóstolos, assistidos pelo Espírito Santo, eram os repetidores! Recusamos os postulados [da Formgeschichte] e estudos como o de Gerhadsson continuam a nos dar razão.
Nosso exame não para nas origens "infelizes". nas aplicações mais ou menos "deletérias "no domínio acatólico, mas se posiciona precisamente sobre os ensaios propostos por autores católicos (e o Pe. Zerwick sabe disso). Apresentam-nos tais ensaios como "hipóteses de trabalho". Invoca-se, também, para sua justificação, a analogia com os outros domínios da pesquisa científica. Mas não se presta atenção a esta diferença substancial: no domínio das ciências positivas a hipótese de trabalho abre, efetivamente. novas perspectivas e orienta para um progresso real, com resultados às vezes excelentes. A razão é evidente: uma vez formulada a hipótese, começa-se toda uma série de ensaios, de experiências que, num dado momento, demonstram irrefutavelmente a verdade ou não da intuição inicial. Pense-se nas famosas intuições de Galileu, que experiências repetidas e sempre mais aperfeiçoadas transformaram em leis físicas. Em outra palavras, nas ciências positivas a hipótese inicial tem um valor na medida em que, pelas pesquisas que ela origina, pode ser "provada" e então passar do estado de "hipótese" ao de "lei", a uma realidade.
Em exegese, ao contrário, e todos os exegetas sabem disso, a hipótese inicial fica em hipótese: ela não tem em si o meio de controlar o fundamento. De tal modo que, depois de ter escrito um grosso volume, partindo de uma proposição hipotética, chega-se à conclusão, deixando intacta a hipótese inicial (...).
No seu ensaio sobre Mt.16, 13-19, o próprio Pe. Zerwick declarava: "Os resultados de tais investigações raramente ultrapassam a probabilidade" (...).
Temos somente hipóteses, soluções hipotéticas. que depois de volumes cheios de reprovações mais ou menos insolentes e aventurosas, continuam sendo hipóteses. Seu único efeito certo é a dúvida dissolvente inoculada na alma dos fiéis, do próprio clero; dúvida que desemboca facilmente na negação da realidade histórica dos atos e das palavras de Jesus.
Tal estado de alma é bem descrito por F. Mc Cool na Revue Biblique 10 (1962): «O pregador adverte que a versão moderna do testemunho histórico dos Evangelhos [isto é, a que é suposta pelo método morfocritico] não lhe parece evidente. Mas, diante dela, ele é levado a raciocinar assim: a vida do Filho de Deus sobre a terra é o centro da revelação cristã, e as principais fontes históricas desta são os Evangelhos. Então, se os Evangelhos não são fontes dignas de fé, como minha fé pode ainda ser razoável e prudente? Se os Evangelhos não são documentos históricos, isto é, se narram o que a Igreja primitiva achava que tinha acontecido durante os anos da vida de Cristo, e não os fatos realmente acontecidos, como posso lhes prestar fé?
"Todo sistema errado tem alguma coisa de verdadeiro", escrevíamos (pág. 12) num opúsculo (Roma 1962). A utilização desta parte da verdade é natural: mas com a condição de se proteger do erro, ou antes, dos erros que constituem seus fundamentos. É então lógico criticar - e mesmo vivamente - os autores "que propagam" a Formgeschichte, que é um método não somente errado, mas ultrapassado, combatido pelos próprios acatólicos. (cf os estudos da escola de Uppsala).
Quanto mais frutos e quanto mais seriedade cientifica não teríamos, se procedêssemos independentemente, com sua própria escola, em lugar de seguir (além do mais com atraso!) uma orientação dada por outros, manifestando um complexo de inferioridade absolutamente injustificado! Que estima, de fato, pode-se ler por um pesquisador que muda de sistema como um polichinelo que vira a casaca em cada cidade, segundo o partido que aí domina?
Por outro lado, não vejo razão desta obstinação contra o abaixo assinado, e praticamente só contra ele. O Pe. Zerwick poderia. por exemplo. voltar sua atenção para os autores de La Sagrada Escritura, seus confrades, os padres Juan Leal, Sebastian Bartina e outros (cf Verbum Domini, pág. 97). cerca de dez professores de Sagrada Escritura, nas universidades e faculdades teológicas (...).
Ora, os claros autores de La Sagrada Escritura têm o mesmo conceito de ferro sobre os Evangelhos, que pôs em desgraça o abaixo assinado diante dos exegetas que «marcham cientificamente» atrás da insígnia do método «morfocritico»!
Vãs tentativas de recursos ao Papa Paulo VI
A aposta era elevada demais para que ficasse inativo. Preparei então uma documentação de quarenta fichas datilografadas para apresentar a Paulo VI. sobre o triste e gravíssimo caso do Instituto Bíblico.
Antes, entretanto, fui ao encontro do novo Geral da Companhia de Jesus. o R. Pe. Arrupe, que acabava de chegar do Japão. Dei-lhe cópia das quarenta fichas; queria, por deferência, mostrá-las antes de as apresentar ao Papa: «Dizem que sou contrário à Companhia». O padre Arrupe me interrompeu dizendo que me conhecia e acrescentou: «O problema do Bíblico é um dos primeiros que pretendo resolver». Recebido em audiência por Paulo VI, o padre Arrupe expressou entre outros seu projeto de intervir acerca de alguns professores do Instituto Bíblico Pontifício. O Papa lhe respondeu para não fazer nada e lhe fez a famosa pergunta: «A Santa Sé pode ainda contar com a Companhia de Jesus?» O padre Arrupe lhe respondeu afirmativamente. Isto parecia uma pergunta supérflua, mas era, ao contrário, o preâmbulo necessário para quem tinha por programa o abalo da própria constituição divina da Igreja.
Mons. Del Ton, da Secretaria de Estado, insistiu para que apresentasse a Paulo VI as quarenta fichas sobre o problema das novidades no domínio bíblico ensinadas no Instituto Bíblico Pontifício, e para que nesta ocasião eu oferecesse a Sua Santidade alguns de meus livros sobre a questão. Ele me disse para apresentar o pedido ao Mestre de Câmara. Era abril, mas durante todo o verão não recebi nenhuma resposta. Depois das férias, a Mons. Del Ton que me perguntou em que pé estava a audiência, respondi que ainda não me tinha sido concedida. Ele próprio perguntou a razão ao Mestre de Câmara, que lhe confiou: «o teólogo do Papa, Mons. Colombo, aconselhou-o a não receber Spadafora». Mons. Del Ton protestou e, não sei como, obteve que eu fosse recebido à parte, depois de uma audiência geral.
Assim que me aproximei com meus livros, Paulo VI abriu os braços dizendo: «Há muito tempo que desejava vê-lo». Estendi meus livros a um monsenhor «a latere» e me ajoelhei: «Santidade - disse - preparei para Vossa Santidade quarenta fichas sobre os problemas do Instituto Bíblico Pontifício». E ele: «quer dizer que nos encontraremos novamente. Renove então seu pedido... »
Informei Mons. Del Ton e renovei meu pedido. Mas não recebi mais nenhuma resposta. Como sempre, Paulo VI tinha falado, ou pelo menos tinha dado a impressão de querer falar à direita, mas em seguida agiu decididamente à esquerda.
A «influência discreta» de Paulo VI
É preciso reler o testemunho que já transcrevemos neste periódico (11), do jesuíta Latourelle (de «esquerda»): «Muitos teólogos de grande renome [ou ainda suspeitos ao Santo Ofício e alguns já condenados], ausentes no início, entraram progressivamente no circulo dos experts, graças à influência discreta de Paulo VI, que lhes manifestava seu favor recebendo-os em audiência particular, concelebrando com eles, louvando sua colaboração» (12). E com a mesma «influência discreta», isto é, com os mesmos sistemas, Paulo VI afastou de si e da Cúria Romana todos os que se opusessem ao renascimento do modernismo. Os fatos estão aí.
Veremos como esta «influência discreta» de Paulo VI iria pesar sobre o Concílio e sobre o triunfo da «nova exegese» ou ainda do neomodernismo, inclusive no domínio bíblico.
Francesco Spadafora
Notas:
[1] SimSimNãoNão, setembro de 1995.
[2] Le Monde, 30 de abril de 1994.
[3] SimSimNãoNão, maio de 1995.
[4] La Stampa, julho de 1964.
[5] Julho de 1964.
[6] In Verbum Domini 2. 1964.
[7] A resposta, publicada logo depois em Palestra del Clero, é retomada inteiramente em meu livro Attualità Bibliche. Citta nuova editrice, Roma 1965, pág. 422.
[8] Op. cit.
[9] Birger Gerhardsson, Oral Tradition and Written Transmission in Rabbinic Judaism and Early Christianity, Uppsala 1961.
[10] Revue Biblique, 62, (1963).
[11] Paulo VI e o golpe de mestre de Satanás. SimSimNãoNão no. 15. março de 1994.
[12] Vaticano II. Bilancio e Prospettive, Citadella ed., Assis.