o triunfo do modernismo sobre a EXEGESE CATÓLICA
9 - A Diarquia
A nova leitura da Divino Afflante Spiritu
No excelente artigo que citamos no último número, Mons. Romeo demonstrou de maneira irrefutável que a Divino Afflante Spiritu está em perfeita concordância com todo o Magistério infalível da Igreja, como, aliás, havia solenemente afirmado o próprio Pio XII na sua encíclica seguinte, Humani Generis.
Os «novos» exegetas, admiradores das velhas «novidades» do racionalismo protestante, apegam-se ao contrário, a expressões isoladas da encíclica, como esta:
«Que todos os filhos da Igreja se lembrem que são obrigados a julgar não somente com justiça, mas ainda com a maior caridade, os esforços e os cansaços desses valorosos trabalhadores da vinha do Senhor [os exegetas católicos] e, além disso, todos devem evitar esse zelo pouco prudente segundo o qual dever-se-ia contestar e opor-se a tudo o que tem ar de novidade, e por este único motivo» [1]. Eles próprios se identificam como «valorosos operários da vinha» do Senhor e afirmam que, com o último pedido, o Papa os havia liberado completamente dos «obstáculos» precedentes, a saber, dos decretos da Comissão Bíblica Pontifícia e de suas perpétuas referências à Tradição constante da Igreja e ao Magistério infalível. Em conseqüência, ninguém devia (e não deve) ousar criticar seus erros; aquele que ousasse fazê-lo estava (e está) classificado entre esses escrupulosos que se espantam com qualquer novidade, e era (e é) logo visto como rebelde à Igreja, pois em oposição à encíclica Divino Afflante Spiritu, a única encíclica que, para os inovadores, vale alguma coisa (na interpretação deles, é claro). Que ninguém ouse tirar dos «novos» exegetas a liberdade dos «filhos de Deus» que lhes tinha sido concedida tão liberalmente por Pio XII.
Para bem interpretar a Divino Afflante Spiritu - clamavam e clamam ainda em coro - é necessário e suficiente estabelecer o «Sitz im Leben», isto é, sua gênese. A encíclica seria uma obra de diplomacia, ou ainda, de duplo sentido, a ser lida nas entrelinhas. Ela enuncia, é verdade, os princípios da exegese católica tais como são definidos na Providentissimus, de Leão XIII, a qual aparentemente elogia, o que é lógico: Pio XII não podia dizer claramente: «até agora a Igreja sempre ensinou e definiu assim; agora nós, Magistério vivo (que enterra todo o Magistério passado), estabelecemos o oposto», mas «intellegenti pauca». É preciso compreender a Encíclica e o leitor inteligente não precisa, para isso, de longos discursos. De fato - diziam e dizem - enunciado um princípio, algumas linhas adiante aparece, quase insensivelmente, uma afirmação que o derruba ou, ao menos, o toma tão inofensivo que só serve para jogar no lixo, no ridículo.
Um exemplo: a Divino Afflante Spiritu reafirma muitas vezes que o exegeta, in rebus fidei et morum, no que concerne à fé e à moral, não pode atribuir ao texto que examina um sentido diferente do que manteve constantemente nossa Santa Madre Igreja (sensus quem tenuit ac tenet Sancta Mater Ecclesia), sentido que resulta dos documentos do Magistério extraordinário e ordinário, do consenso unânime dos Padres, e que é, enfim, confirmado e pedido pela analogia da fé. Ora, este princípio - dizem os «novos» exegetas - pode ser conservado, mas no museu, entre as antiguidades, somente para a história da exegese. Atualmente, «hoje», isto impediria todo progresso científico da exegese. Eis por exemplo, na Divino Afflante Spiritu uma anotação que a demoliria: a precisão «pauca tantum»: «os casos em que se aplica (a nota ou o princípio) são pouco numerosos».
Conclusão: ninguém se preocupa mais com este princípio e o exegeta procede, na prática, dando atenção somente à filologia e à crítica histórico-literária. Ei-los que negam, seguindo este princípio, «a rainha das profetizas messiânicas» (ls. 7,14; Mt. 1,22): «Eis que a Virgem conceberá e dará à luz...»; afirmam, contra o Concílio de Trento, que Rm 5,12 não fala do pecado original, mas dos pecados pessoais (Lyonnet S.J.); negam até que Mt. 16, 17-19 («Feliz és tu Simão etc») sejam palavras de Jesus sobre o primado de Pedro e de seus sucessores (Zerwick S.J. e hoje, Romano Pena. Este último, consultor da Congregação para a Fé?). [2]
Era esta a interpretação da Divino Afflante Spiritu em voga no Instituto Bíblico Pontifício a partir de 1950, mais ou menos [3].
Enquanto isso, Mons. Romeo, com clareza e documentação inatacável vinha ilustrar a «perfeita ortodoxia» da Divino Afflante Spiritu, de Pio XII, de acordo com o Magistério solene, infalível da Igreja sobre os princípios dogmáticos que sempre regeram a exegese católica. Se há uma passagem, uma frase da encíclica - dizia ele - «que suscite alguma dúvida» ou pareça imprecisa, deve ser entendida no contexto e ilustrada com as outras passagens muito claras, e não é permitido, ao contrário, jogar fora ou deformar as passagens claras, segundo a própria tese pré estabelecida e errada que se quer impor a todo custo, explorando qualquer frase menos clara. Aliás, o próprio Pio XII, sete anos mais tarde, na Humani Generis (1950), não deixaria nenhuma escapatória aos «novos exegetas» condenando suas novidades erradas. A traição do Instituto Bíblico Pontifício «novos tempos» era assim revelada às claras.
Reação desleal do Instituto Bíblico Pontifício
Ao ataque direto e leal de Mons. A. Romeo, o reitor do Instituto Bíblico Pontifício, Pe. Ernst Vogt S.J., respondeu com infâmias e por ataques pessoais desleais. Contando com o prestígio de que gozavam o Instituto e os Jesuítas no mundo e particularmente na Itália, Vogt acusou Mons. Romeo de ser um inimigo da exegese científica e, logo, do Instituto Bíblico Pontifício, (acusação análoga à dirigida contra o piedoso Dom Dolindo Ruotolo, que se limitava à Vulgata, a tradução da Bíblia por São Jerônimo). Assim, Mons. Romeo teria desobedecido a Pio XII, enquanto que os jesuítas do Instituto Bíblico Pontifício teriam seguido fielmente suas diretivas!
Incrível, mas verdade: na sua resposta em Verbum Domini (outra revista do I.B.P.), Vogt nem tocava no assunto, isto é, nem se preocupava em demonstrar que a tese do P. Alonso Schökel S.J., refutada por Mons. Romeo, era fundada e que, portanto, Pio XII tinha efetivamente, com a Divino Afflante Spiritu, avalizado o «método novo» ou a nova exegese «filológico-histórico», liberando-a do controle do magistério infalível da Igreja (4).
O Instituto Bíblico Pontifício «trapaceava» evidentemente, contando com a superficialidade indolente do público, em particular do clero. Quem iria perder tempo lendo sessenta e nove páginas de Mons. Romeo, «texto e ricas notas» de refutações eruditas e exaustivas, publicadas por Divinitas, uma revista para professores de universidade.
Vogt, no seu injusto ataque pessoal, une também minha pessoa a Mons. Romeo, na sua acusação de hostilidade à exegese católica e ao Instituto Bíblico Pontifício. Fábula retomada em seguida num panfleto distribuído aos Padres conciliares, em resposta a meu opúsculo Racionalismo, exegese católica e Magistério, no qual citava o Monitum do Santo Ofício (1961) com meu comentário já publicado na Palestra del Clero e uma exposição crítica da Formgeschichte.
A mesma fábula é retomada por Mons. G. Ravasi (Jesus, outubro de 1993): «No início do Vaticano II... dois eclesiásticos romanos, Romeo e Spadafora, iniciaram um violento ataque contra o próprio Instituto Bíblico, conseguindo fazer parar de ensinar dois grandes mestres, os jesuítas Lyonnet e Zerwick. Paulo VI os reintegrou». Fábula caluniosa, pois, no artigo de Mons. Romeo, todo mundo pode ler o elogio e a veneração por seus professores (que foram também meus) do Instituto Bíblico Pontifício. Não é possível encontrar hostilidade à exegese realmente científica (mas também realmente católica) nos escritos exegéticos de Mons. Romeo e nos meus, inclusive no artigo pelo qual demoli, com argumentos de crítica e de filologia, a exegese herética de Rm 5, 12 do jesuíta Lyonnet [5]. Nas fichas que, em seguida, apresentei ao Santo Oficio, sobre a Introdução à Bíblia, não há nem mesmo uma alusão ao Instituto Bíblico Pontifício; inclusive porque, então, eu ignorava que a inspiração «coletiva» da Sagrada Escritura era um produto do sulpiciano Cazelles e dos jesuítas deste Instituto. E com prazer que cito aqui, para honra dos dignos filhos de Santo Inácio, hoje oprimidos por seus indignos confrades, a carta que o jesuíta Arconada, professor e exegeta conhecido, escreveu de Tóquio para Mons. Romeo, nesta ocasião.
«Caríssimo Monsenhor,
Acabando hoje, vigília de Pentecostes, a leitura de vosso estudo em Divinitas (1960, no. 3), sinto-me inclinado a vos dirigir minhas mais ardentes felicitações, e isso como antigo condiscípulo, que aprecia a obra tão oportuna e necessária de um ilustre companheiro de armas, como uma participação efetiva nas idéias, nas preocupações, nos gritos de alarme lançados. O Espírito Santo, me parece, vos escolheu, Monsenhor, para esta intervenção; queira o mesmo Paráclito fazer que vós contribuais muito para afastar da Igreja o perigo tão grave que a ameaça, perigo que somos muitos a ver, sem dúvida, e que o zelo iluminado de Monsenhor esteve em situação de denunciar.
Seu trabalho me trouxe muitos detalhes neste extremo oriente, mas, com as impressões desfavoráveis que tinha sentido antes, quando tive ocasião de ler as obras incriminadas (à exceção de uma ou outra que não conhecia), como, por outro lado, com a satisfação que me trouxe o discurso do cardeal Bea na Semana Bíblica, fico feliz de ter encontrado em vós, Monsenhor, um «dimidium animae meae». Não me foi dado conhecer a integralidade de seu artigo, mas somente algumas referências por cartas, na minha residência habitual (Philipinas ... Collège Bellarmin); se ao retornar, em algumas semanas, pudesse ali encontrar uma cópia para mim e para meus colegas professores, o quanto eu vos seria reconhecido!
No Senhor e no amor da Igreja me uno a vós, Monsenhor. A vós em Cristo.
Pe. Arconada S.J.»
O Santo Ofício intervém. O Monitum de 1961
A reação desordenada do reitor do Instituto Bíblico provocou a intervenção do Santo Oficio.
Mons. Piolanti, reitor da Universidade de Latrão, me comunicou a determinação deste supremo Dicastério: a Sagrada Congregação impunha o silêncio às duas partes, reivindicando para ela a solução da disputa: queria assim pôr fim ao escândalo de uma polêmica (que tinha degenerado, da parte de Vogt, em ataques pessoais) entre um membro também autorizado da Sagrada Congregação dos Seminários e das Universidades que era Mons. Romeo, um professor titular de exegese bíblica na Universidade de Latrão, que eu era, e o Instituto Bíblico Pontifício, na pessoa de seu reitor, o jesuíta Vogt.
Ordenava-se às partes remeter ao Santo Oficio os materiais sobre a questão. O Dicastério interrogou os jesuítas Stanislas Lyonnet e Maximilien Zerwick, os quais, tendo admitido os erros que ensinavam sobre a inspiração, a inerrância e a historicidade dos Evangelhos (sem escrever nada sobre este assunto, pois não era nem «prudente» nem «oportuno»), foram suspensos do ensino e afastados de Roma. Em 20 de junho de 1961, o Santo Oficio publicava o Monitum seguinte sobre a inseparável verdade histórica e objetiva da Sagrada Escritura (De germana veritate historica et obietiva Sacrae Sripturaet): «Neste tempo de louvável fervor para com os estudos bíblicos difundem-se. em diversas regiões, pontos de vista e opiniões que põem em discussão a verdade histórica e objetiva autêntica da Sagrada Escritura, não somente no Antigo Testamento (como o soberano pontífice Pio XII já deplorou na encíclica Humani Generis), mas também no Novo, inclusive no que concerne às palavras e às obras de Jesus Cristo.
Como tais pontos de vista e opiniões desorientam os pastores e os fiéis cristãos, os eminentíssimos padres, prepostos à defesa da doutrina da fé e dos costumes, acharam por bem advertir a todos aqueles que tratam dos livros santos, seja por escrito, seja verbalmente. para que enfrentem sempre com a prudência necessária e com respeito uma questão tão importante, e que considerem sempre a doutrina dos santos padres como o próprio sentido e o Magistério da Igreja, a fim de que as consciência dos fiéis não sejam perturbadas, e que as verdade de fé não sejam ofendidas.
N.B. Este monitum é publicado igualmente com o consenso dos eminentíssimos padres da Comissão Bíblica Pontifícia. Roma, Palácio do Santo Oficio, 2D de junho de 1961».
A Diarquia
A nota que figura ao pé do Monitum tem muita significação: «Este monitum é publicado igualmente com o consenso dos eminentíssimos padres da Comissão Bíblica Pontifícia». Em Roma havia então, em ação, uma diarquia: contra o Santo Oficio se opunha, como único competente in re biblica, o cardeal Tisserant, que personificava de modo arbitrário a Comissão Bíblica Pontifícia e agia em estreita ligação com os jesuítas do Instituto Bíblico Pontifício, sobretudo com Lyonnet. O cardeal Ottaviani o sabia e quis, para este Monitum de importância fundamental, o assentimento dos cardeais membros da Comissão Bíblica Pontifícia (Ruffini, Pizzardo, Mercati).
O contra-processo
O afastamento dos jesuítas Lyonnet e Zerwick do Instituto Bíblico e de Roma suscitou a cólera - é preciso dizer - do cardeal Tisserant. «O padre Lyonnet foi cassado? Bem, Spadafora também deve deixar Roma»... e imaginou contra mim outro processo diante da Comissão Bíblica Pontifícia. Seu dócil secretário, o padre premonstratense Wambacq, ordenou-me que lhe entregasse meus escritos. Este rnesmo Wambacq reprovou, entre outros, o artigo pelo qual eu tinha refutado a tese herética de Lyonnet sobre Rom. 5,12. Acusaram-me - injustamente e como se isso tivesse sido um crime e não um mérito - por ter fornecido a Mons. Romeo uma boa parte de sua rica documentação contra o artigo do jesuíta Schöckel. Em seguida, certo dia, encontrando-me na Congregação para as Universidades, o mesmo Mons. Romeo me estendeu um jornal em alemão, pedindo-me uma tradução improvisada. «Está bom», interrompeu-me satisfeito depois de algumas linhas. Apesar de surpreso, não lhe perguntei o motivo deste comportamento estranho. Soube mais tarde que me acusavam de ... conhecer pouco a língua alemã. Enfim, a Comissão Bíblica Pontifícia se reuniu sob a direção do cardeal Tisserant, presidente, e com a presença dos cardeais Bea, Ruffini, Pizzardo e Mercati. Na ordem do dia, a cerca de minha pobre pessoa, o cardeal Ruffini tomou a palavra. Mons. Romeo lhe relatara o resultado de meu imprevisto exame de língua alemã (mas todos os meus escritos bastariam, da minha tese de doutorado até minha tradução de Ezequiel). Assim que o cardeal Ruffini começou a falar, o cardeal Bea deixou a sessão. O cardeal Tisserant, como presidente, teve que suportar em silêncio a sábia e calorosa defesa em meu favor do cardeal competente. E assim, o contra-processo terminou miseravelmente para o despótico cardeal Tisserant.
Que o leitor me perdoe essas lembranças pessoais; elas são, entretanto, necessárias para compreender-se que a oposição que se manifestou no Concílio já era vivida em Roma há muitos anos.
Tarde demais!
Voltemos ao Monitum do Santo Ofício. De 1949 a 1960, o Instituto Bíblico Pontifício se introduziu decididamente no «novo» curso do velho modernismo e do velhíssimo racionalismo. Por mais de dez anos os infelizes alunos, futuros professores de Sagrada Escritura nos Seminários e nas Universidades do mundo inteiro, foram deformados pelo neomodernismo. Durante mais de dez anos! Era realmente um pouco demais.
«Resista
ao mal desde o começo, pois tarde vem o remédio quando cresceu o mal com a longa
demora»
(Imitação de Cristo L I, cap.13).
Logo, não devemos nos espantar se os antigos alunos do l.B.P. «novo curso». assim como seus próprios membros, reitores e professores, consideravam que o Monitum do Santo Ofício não lhes dizia respeito. Foi exatamente a atitude que adotou Loisy, corifeu do modernismo bíblico, diante da Providentissimus Deus, de Leão XIII: a encíclica era válida para os fiéis, não para os pesquisadores:
«Eu me permitia insinuar ao Papa, direta e realmente, que sua encíclica era muito boa para a direção dos teólogos e dos pregadores, mas que os historiadores e os críticos deveriam guiar-se por outros princípios» [6].
No nosso caso, referia-se à diarquia: o Santo Oficio para os fiéis; para os exegetas: a Comissão Bíblica Pontifícia (= cardeal Tisserant) e o Instituto Bíblico Pontifício (a diarquia se refletia, aliás, naqueles anos, também nos órgãos de imprensa: no Santo Oficio as Acta Apostolicae Sedis, no l.B.P. a La Civiltà Cattolica).
Uma confirmação acima de qualquer suspeita
Escutemos como Pierre Grelot, «novo exegeta», ilustra e confirma esta diarquia explicando o levante que houve no Concílio por parte dos «liberais» contra o esquema De fontibus Revelationis devido à Comissão teológica preparatória, presidida pelo cardeal Ottaviani:
«Para resolver de uma vez - escreve ele - vamos logo às causas profundas do acontecimento. Enfim, nem a composição da Comissão teológica pré-conciliar, nem o estado de alma da maioria de seus membros, refletia de maneira aproximada a assembléia geral [ler, os cardeais liberais] à qual esse trabalho era agora submetido. Desde o momento em que a composição desta comissão foi conhecida, já se podia fazer duas observações:
1) a maioria de seus membros e consultores tinha uma atitude teológica resolutamente conservadora;
2) os biblistas profissionais [ler, os novos exegetas] representavam número muito restrito, de modo que não tiveram possibilidade de fazer ouvir suas vozes. Estes dois/atos podiam ter sérias conseqüências no esquema De Revelatione, tão estreitamente ligado com as questões bíblicas. Sintoma ainda mais revelador: nenhum especialista do corpo professoral de um organismo tão oficial quanto o Instituto Bíblico Pontifício de Roma foi escolhido para dar assistência autorizada ao trabalho desta comissão. A coisa era tão clara que na mesma época, certos meios romanos fizeram uma áspera campanha contra este Instituto e contra as orientações atuais da exegese católica. A ofensiva chegará logo ao ponto de privar de sua cátedra (mas não de seu titulo) [?], dois mestres do Instituto Bíblico, para grande escândalo dos exegetas do mundo inteiro». E em nota: «Tratava-se do padre Lyonnet e do padre Zerwick, o primeiro, decano da Faculdade Bíblica, e o segundo, professor. Pelo que se sabe, parece que a campanha caluniosa [?] desencadeada contra eles emocionou as autoridades que tinham a tarefa de velar pela fé na Igreja [Santo Ofício], mas a Companhia de Jesus não achou qualquer motivo para mudar os dois professores. De onde armar-se uma situação ambígua que necessitou de dois ou três anos para seu esclarecimento [7].
Sic! O ponto de vista da Companhia posto no mesmo plano que o julgamento do Santo Ofício; os jesuítas do Bíblico, feitos antagonistas do supremo Dicastério pressuposto à proteção da Fé!
O cartão de visita do Papa Montini
Quanto ao «esclarecimento» de que fala Grelot, veio com a eleição de Paulo VI, que ficou feliz em dar o primeiro golpe no Santo Oficio: acolhendo a petição do novo reitor do Bíblico, padre Roderick Mac Kenzie S.J., apoiada pelos dois cardeais, Tisserant e Bea, e trouxe de volta a Roma os dois expulsos, Lyonnet e Zerwick, e lhes restituiu, sic et simpliciter, suas cátedras! A humilhação do Santo Ofício e a significação desta medida foram sublinhadas num comunicado à imprensa: «Agora a reintegração dos dois insignes professores do Instituto Bíblico é uma confirmação evidente e um convite para o avanço sobre o caminho da renovação exegética traçada pela Divino Afflante Spiritu». Com o seguinte comentário: «É o triunfo de Bea sobre Ottaviani» [8].
Mais exatamente: era o triunfo do neomodernismo no Instituto Bíblico Pontifício sobre a ortodoxia católica defendida pelo Santo Oficio. Era também o cartão de visita do Papa filomodernista Montini.
Francesco Spadafora
Notas:
[1]) Humani Generis, nos 564-565.
[2] Ver A. Gelin. em Introduction à la Bible, de Robert Feuillet, 1. pág. 509, contra a opinião unânime dos Padres; conf. L.Reinke, Die Weissagung der Jungfrau und von Emmanuel, Münster 1951, págs. 233-260.
[3] Para maiores detalhes, v. F. Spadafora, Leone XIII e gli studi biblici, ed. I.P.A.G., Rovigo, pág. 127 e segs.
[4] Ver Alonso Schökel S.J., Argument d'Écriture in Nouvelle Revue Théologique, 91, 1959, abril, págs. 337 e 354; e F. Spadafora, op. cit. págs. 139-164.
[5] Divinitas, 1960; cf. SimSimNãoNão, no. 28, abril de 1995.
[6] A. Loisy, Mémoires pour servir à l 'histoire religieuse de notre temps, 1, pág. 314.
[7] P. Grelot, Etudes, janeiro de 1966, págs .99-113: La constitution sur la Révélation. La préparation d'un schéma conciliaire.
[8] La Stampa, 24 de julho de 1964, pg.9; conf. Corriere della Serra, 30 de agosto de 1964. pág. 4.