o triunfo do Modernismo sobre a EXEGESE CATÓLICA
8 - Cartas sobre a mesa
Os votos do Instituto Bíblico Pontifical para o Concilio
Em 25 de janeiro de 1959 - três meses depois de sua eleição - na Basílica de São Paulo, João XXIII anunciou, de modo inesperado, a convocação de um concílio ecumênico. Em 17 de maio de 1959 é nomeada a Comissão ante-preparatória presidida pelo cardeal Tardini. Esta comissão tinha por tarefa recolher e examinar as propostas formuladas pelos Dicastérios da Cúria Romana, pelos bispos do mundo inteiro e pelas Universidades Católicas e deduzir as linhas gerais das questões que o Concílio teria que tratar.
Os votos formulados pelo Instituto Bíblico Pontifício, assinados pelo padre Ernst Vog S.J., reitor, e datados de 24 de abril de 1960, reafirmam um ataque dissimulado contra dois dogmas: da total historicidade e da inerrância absoluta dos Evangelhos [1]. Parte-se da hipótese - não demonstrada - de que os Evangelhos estão em desacordo e às vezes até em contradição entre si, e que limitar a «liberdade» dos evangelistas «em nome da fidelidade histórica» significaria impedir as explicações dessas divergências ou contradições. É exatamente o que pensava o jesuíta Zerwick para Mt. 16, 17-19: Mateus em oposição flagrante, irredutível, com o Evangelho de Marcos (e também o de Lucas), com a dedução da «liberdade» que teriam tomado os autores inspirados da Tradição narrando os fatos e as palavras de Jesus [2].
Para resolver «cientificamente» a dificuldade dessas pretensas divergências ou mesmo contradições, as propostas enviadas pelo Instituto Bíblico para o Concílio pedem que se considere o que o hagiógrafo queria afirmar e as formas e os gêneros literários utilizados. Estas propostas pedem igualmente que a Igreja dê aos exegetas a liberdade de resolver, por todos os meios oferecidos pela pesquisa científica moderna, as numerosas dificuldades que ainda encontram na Sagrada Escritura. E este é o desejo, não de um único professor, mas da «coletividade do Instituto Bíblico» [3].
O «manifesto»
O Instituto Bíblico Pontifício se preparava, assim, para chegar a seu objetivo: a aprovação solene, impondo a toda a Igreja a «nova exegese» dita «científica», ou seja, a «nova era» escolhida e realizada há mais ou menos um decênio sob o reitorado do Pe. Ernst Vog S.J.
Prevendo a oposição às «novidades» por parte do episcopado e do clero italiano, pensou-se em preparar os espíritos por um artigo-programa, praticamente um «manifesto» da nova era, enviado a todos os bispos italianos: «Para onde vai a exegese católica?», sob a assinatura do Pe. Luigi Alonso Schökel S.J. [4]. A partir de 1943 - afirmava Schökel - e precisamente com a encíclica Divino Afflante Spiritu (1943), a exegese católica mudou de rumo. Pio XII com sua encíclica, em contradição com a Providentissimus Dei, enterrou o trabalho dos exegetas dos quatro decênios precedentes e deu partida à exegese «científica»: ecce nova facio omnia [5].
Finalmente o Instituto Bíblico Pontifício revela, dez anos depois, suas intrigas contra a exegese católica, contra o Magistério infalível da Igreja, ordinário e extraordinário, com a negação de fato das verdades de fé divina e católica da inerrância absoluta dos Livros Sagrados e da plena historicidade dos Santos Evangelhos, e repudiando o princípio dogmático que rege a exegese católica, a saber: as passagens que concernem ao dogma e à moral devem ser entendidas e explicadas no sentido fixado e sempre mantido pelo Magistério da Igreja, a quem cabe, por mandato divino, a tarefa de interpretar a Sagrada Escritura. Tentativa inconcebível, infeliz, superficial e, diria, pueril, do «jovem» Pe. Schökel, de opor a Divino Afflante Spiritu, de Pio XII, à Providentissimus, de Leão XIII, e a todos os documentos do Magistério, e de tornar inofensiva a forte condenação de Humani Generis contra a «nova exegese». Basta ler a Divino Afflante Spiritu para constatar a incrível mistificação: Pio XII louva muitas vezes a Providenusstmus, cita-lhe textos e reafirma os princípios dogmáticos da exegese católica, e é o que faz também na Humani Generis.
A resposta
Veio a resposta sem demora, graças a Mons. Antonino Romeo, da Sagrada Congregação dos Seminários e das Universidades, com o estudo A encíclica Divino Afflante Spiritu e as "Opiniones novae" [6]. Lamentamos não poder publicar aqui por inteiro, por falta de espaço, esse estudo realmente precioso pela clareza de exposição e pela refutação inatacável, rica em referências essenciais, tanto no texto quanto nas notas, expressão tangível da competência e da extraordinária erudição do autor. Às onze páginas de Schökel, sempre simples alusões, sempre afirmações sem nenhum documento para provar e confirmar a tese sustentada, Mons. Romeo opõe nas suas sessenta e nove páginas uma lógica cerrada e uma documentação inatacável, seguindo ponto por ponto as afirmações de Schökel, para demonstrá-las arbitrárias e desvendar a falsidade e a falaciosidade. Limitaremos nossa crítica a algumas passagens.
O desprezo pelo passado
«O padre Alonso estabeleceu uma "trajetória", como diz. "Trajetória" fixada em dois pontos, que poderiam ser: a encíclica bíblica Divino Afflante Spiritu (1943) de Pio XII, e as últimas palavras pronunciadas sobre a Bíblia, pelo Papa, seis semanas antes de sua morte, na mensagem enviada aos exegetas católicos reunidos em Bruxelas» [7].
«Querendo demonstrar que, entre 1943 e 1958. houve "uma estranha mudança de direção" na exegese católica, o padre Alonso é levado a afirmar: 1) que antes de 1940 os exegetas católicos, a começar pelos mais famosos professores do Instituto Bíblico Pontifício, não tinham nenhuma idéia do método científico; 2) que a partir de 1943, a ciência exegética católica finalmente nasceu, cresceu e se desenvolveu prodigiosamente, tudo isso no breve intervalo de quinze anos».
«A primeira tese é de amarga polêmica com todos os grandes exegetas que se sucederam em dezenove séculos de história da Igreja, aos quais não vemos o que o padre Alonso, representante dos quinze anos de 1943 a 1958, tem a opor. O religioso espanhol se põe resolutamente à obra. Sigamo-lo na sua exposição dos fatos e dos textos (...)».
«Para começar, o Pe, Alonso escolheu como alvo três mestres insignes da Companhia de Jesus, mortos antes dos quinze anos da "nova história". Infelizmente, constatamos que o padre Alonso leva seu mau gosto ao ponto de não compreender que diante de homens da estatura de L. Billot, L. Fonck, L. Murillo, ele deveria, sem dúvida nenhuma, inclinar-se respeitosamente. Mas, talvez, ele não tenha tempo de pensar no assunto, tomado como é pelos "novos tempos". Com textos manipulados como faz, o Pe. Alonso poderá demonstrar qualquer coisa. O seu método exegético, que tem como única diretiva uma tese a demonstrar por fas ou nefas [8], demonstra, de fato, que estamos muito longe da verdadeira ciência, que é privilegio de muito poucos homens, mesmo depois de 1940».
«Cita-se um texto de BilIot que ironiza um pouco algumas pretensões de alguns orientalistas. A este texto opõe-se uma passagem da encíclica Divino Afflante Spiritu (1943) que recomenda a utilização, para ilustração dos Livros Sagrados, de muitas peças da arqueologia oriental, assim como dos últimos estudos filológicos. Seguindo um procedimento simulado, conclui-se: Logo, antes de 1943 os exegetas católicos não trabalhavam cientificamente. É realmente lamentável ver os jovens e amadores levados a se alinhar a esse modo de raciocinar».
«Quanto à encíclica Humani Generis, que o padre Alonso utiliza para condenar o padre Murillo, uma das belas figuras do Instituto Bíblico Pontifício, é preciso dizer que ele não a compreendeu, para não se supor que ele tenha intencionalmente mutilado o texto e deformado o ensinamento. Citemos as palavras da Encíclica que o padre Alonso não citou (...)».
«O venerando cardeal Bea comenta energicamente o texto da Encíclica: "a advertência que faz a Encíclica, falando da relação entre história e exegese, é de grande importância e atualidade. O Santo Padre deplora "um certo sistema de interpretação, livre demais, dos livros históricos do Antigo Testamento", que ultrapassa "os limites e as precauções estabelecidas pela Igreja". Esta interpretação se refere, erradamente, à carta enviada pela Comissão Bíblica Pontifícia depois da queixa do cardeal Suhard, arcebispo de Paris (16 de janeiro de 1948). Na verdade. muito se abusou desta encíclica, deliberadamente prudente e ponderada; muitos a consideraram como a carta magna de toda a exegese livre, como um documento que legitimaria todas as opiniões, mesmo as mais extravagantes. Está errado, diz o Santo Padre. Esta encíclica não é um programa, mas uma simples resposta a dois pedidos propostos à Comissão Pontifícia, na qual se pede a ab-rogação de dois decretos que tratam do caráter mosaico do Pentateuco (1906) e do caráter histórico dos três primeiros capítulos do Gênese (1909). A Comissão Bíblica repele absolutamente estes pedidos (...)."
«Resulta destas palavras autorizadas que nada mudou, nem na ciência exegética, sempre cultivada apaixonadamente pelos católicos, nem no Magistério supremo da Igreja, que tanto na encíclica Providentissimus (1893) quanto na encíclica Divino Afflante Spiritu (1943), recomenda ao mais alto grau os estudos bíblicos com um método rigorosamente cientifico. Somente vulgarizadores e amadores podem afirmar que a verdadeira ciência exegética dos católicos começa somente depois de 1940. Evidentemente, aquele que criou esta idéia só pode ter desprezo pelo passado, concebido como um tempo de sombrio obscurantismo (...)».
«Estreitos» e «largos»
«O único intento do escrito do Pe. Alonso é levar todo o clero a achar que a exegese católica só depois de 1943 chegou a sua perfeição através de um processo dialético: graças a idéias "novas" e diretivas "novas" a encíclica de Pio XII, Divino Afflante Spiritu "canonizou" [a expressão é do Pe. Alonso] a escola "moderna'' e "larga" à qual pertence, entenda-se, o Pe. Alonso, ao mesmo tempo que ela enterrou a "escola estreita". E tudo: ciência, crítica, história, crônica, pessoas, documentos pontificais, são considerados sempre em função da oposição entre "estreitos" e "largos". Diante de uma afirmação relativa aos fundamentos da religião, ao invés de julgá-la verdadeira ou falsa, eles a declaram "moderada" ou "exagerada".
«Para o pesquisador, esta distinção ou esta oposição não tem nenhum sentido, e é deplorável que os mestres do jovem clérigo a tenham relançado, como se diz hoje. A ciência, como a verdade, não é nem "estreita", nem "larga", nem "moderada", nem "exagerada", nem de direita ou de esquerda ou do centro. A ciência, como a verdade, impõe-se como uma luz que domina a vontade ou a liberdade de quem quer que seja, sem se preocupar com referências e sentimentos aprioristicos deste ou daquele (...)».
«Os falsos dilemas: "estreito" ou "largo", "exagerado" ou "moderado", não são de ordem intelectual, mas sim da ordem da moral e da vontade. Como os progressistas não se importam com a categoria, tipo ou grau, e se propõem infalivelmente derrubar quem não participa de suas opiniões, seu recurso freqüente a estes adjetivos deve ter por finalidade a desqualificação moral daqueles que estudam ou que pensam sem se submeter às "pressões do grupo". Resulta disto, que não param enquanto não tenham organizado uma corrente, um partido, que vai multiplicando seus ramos, para em seguida "criar" uma opinião coletiva que derruba tudo. Aquele que não serve a seu sistema é apresentado por eles como "extremista", enquanto que os "seus" são sempre louvados como "moderados"».
Uma «abertura» inexistente
«Em 1943, ninguém percebeu a mudança de orientação. A radiosa encíclica Divino Afflante Spiritu é uma lembrança continua da gloriosa Tradição, sobre a qual se apóia sempre a exegese católica. Quando ela encoraja a ciência exegética a progredir, mostra constantemente o caminho já traçado pelos exegetas precedentes, o exemplo brilhante dos Padres. Ela não faz nenhuma alusão, mesmo indireta, a «exageros» ou «extremismos» a combater, mas alerta sem cessar contra o perigo de infidelidades, especialmente no que concerne à inerrância dos enunciados bíblicos entendidos no seu sentido literal. A encíclica jamais qualifica as teses nem de «estreitas», nem de «largas», mas condena toda infidelidade contra os princípios imutáveis. Não opõe «antigos» a «modernos», «velho» a «novo», mas exorta a progredir sem poupar nem o esforço de estudo pessoal, nem a fidelidade à Revelação e a seu Magistério vivo, sobre o caminho rude, mas vivificante começado há mais de dezenove séculos e que se deverá prolongar até o último suspiro da humanidade. Hoje, dezessete anos depois da morte do grande Pio XII [quando escreve Mons. Romeo], o padre Alonso nos avisa de uma mudança, de uma transformação, de uma novidade introduzida pela Divino Afflante Spiritu, tal que «abre um caminho amplo e novo» (págs. 455-56). Ele faz questão de nos dizer que Pio XII «se deu conta que abria uma nova e larga porta, e que através dela muitas novidades que surpreenderiam os espíritos excessivamente conservadores, entrariam no circuito da exegese católica».
Que novidades? Há uma única passagem da encíclica que fala de novidades, e é um chamado ao bom senso para aqueles que estariam inclinados a "crer que tudo que tem ar de novidade deve-se, por isso mesmo, contestar ou ter como suspeito". Isto não basta para falar-se de reviravolta, de uma era nova. E de resto, esta fugitiva concessão é largamente compensada pelo cuidado repetido contra as novidades e pelos incessantes chamados à Tradição imutável, especialmente na encíclica Humani Generis. As novidades derivadas do estudo puramente científico sempre foram admitidas pelo Magistério supremo. Querem, talvez, indicar como novidade o convite para o exegeta pesquisar os gêneros literários? Ou o papel da «crítica», ou as ciências a empregar? Mas todos os manuais bíblicos falam disso há décadas. Por isso, é inconcebível o estranho louvor feito a Pio XII para explicar sua pretensão inovação: «confiança imediata nos exegetas católicos, mas através do Espírito Santo que sopra sobre a Igreja»: a tal ponto que os papas que precederam a "mudança" não tiveram confiança nos exegetas católicos, nem mesmo no Espírito Santo! Deus nos guarde do «Espírito Santo» dos iluminados (...)».
«Nada se acha, com certeza, nos documentos sucessivos de Pio XII e de João XXIII citados pelo Pe. Alonso em conclusão de seu artigo, nada que faça alusão, nem de longe, a uma mudança, uma novidade, a uma abertura de portas, a novas liberdades concedidas da parte do Magistério supremo, em 1943 (...).
O testemunho «oficioso» do cardeal Bea
«Além do que temos um testemunho autorizado, de primeira mão, que se poderia qualificar de "oficioso", quanto à finalidade, à significação e ao ensinamento da Divino Afflante Spiritu. O insigne cardeal A. Bea, então reitor do Instituto Bíblico Pontifício, cuja competência é superior nas questões teológicas e exegéticas, críticas e históricas, publicou um comentário muito preciso (ignorado pelo Pe. Alonso!) da grande, luminosa e encorajadora encíclica (...) [9]. "A primeira parte do novo documento pontifical é consagrada, como convém a urna encíclica comemorativa, a uma lembrança da encíclica Providentissimus Deus e a seus efeitos ... De um lado, lançado um enérgico desafio a urna ciência orgulhosa e presunçosa, contra a qual fazia valer os direitos e privilégios da Palavra divina, os quais não podem ser derrogados, e em particular o carisma da inspiração divina e a conseqüente inerrância, com a enérgica afirmação: "Esta é a antiga e constante fé da Igreja" ... O Soberano Pontífice chamava nesta hora com autoridade os sábios católicos à defesa desta inalterável verdade ... e com mão segura lhes traçava um vasto e erudito programa que será sempre, como afirma Pio XII, a grande Carta dos estudos bíblicos ... " (pág. 273). Depois de haver descriminado as numerosas e freqüentes iniciativas dos Papas para encorajar e guiar os estudos bíblicos, o cardeal Bea revela que Pio XII não esquece as graves medidas tomadas pela Santa Sé para proteger a pureza da doutrina e para lembrar aos exegetas dos Livros Sagrados estas santas leis de interpretação católica, que os próprios Santos Padres, os Doutores da Igreja e os Soberanos Pontífices transmitiram (...). O biblista deve enfrentar as difíceis questões que não puderam ser até hoje resolvidas, não somente para afastar as objeções dos adversários, mas também para tentar uma explicação sólida, que se encaixe realmente na doutrina da Igreja, e especialmente com o sentimento tradicional que exonera a Sagrada Escritura de todo erro, e que dê sempre a satisfação conveniente às conclusões bem certas das ciências profanas (pág. 215) (...). Somente dois pontos são tratados mais largamente: o uso que se deve fazer dos escritos exegéticos dos Santos Padres, dos Doutores da Igreja e dos ilustres exegetas do século passado, e a questão dos gêneros literários. Aí também a encíclica mostra esta ligação feliz e orgânica da religiosa fidelidade à Tradição e do proveito consciente que se pode tirar das pesquisas modernas, ligação ... que é proposta corno um ideal. No que concerne aos escritos dos Santos Padres e dos antigos exegetas, notaremos a insistência com que o Santo Padre fala sobre seu estudo e sobre a necessidade, para os pesquisadores em história da exegese, de fazerem tudo "para melhor aprofundar e apreciar no seujusto valor um ponto de tal importância", porque a "contribuição destes antigos para penetrar e elucidar a divina doutrina dos Livros sagrados, aparece sempre de modo mais manifesto". Passando em seguida aos gêneros literários, o cardeal evoca de novo a decisão pela qual a Comissão Bíblica Pontifícia ... em 3 de junho de 1905, propõe algumas precauções ... mas sem afastar de modo geral o principio ... Facilmente se compreende ... que nos tratados de hermenêutica fala-se pouco disso. Mas ... no caso onde existem gêneros literários - ninguém nega - o princípio hermenêutico que se aplica é que o exegeta, para determinar a intenção do autor sagrado e o sentido do que escreveu, deve simplesmente se perguntar qual o gênero literário que ele utilizou e qual é a conseqüência no que concerne ao sentido. Felizmente, hoje, a ciência bíblica não tem necessidade de criar gêneros literários como que apriori ( ... ). [10].
A «central» de propaganda
«Não há, então, nada, nem mesmo um vago indício, na encíclica Divino Afflante Spiritu, nem mesmo no comentário que abalizado (e que é, com certeza, "autorizado") do cardeal Bea, que possa justificar a opinião ativamente difundida por uma "central" de propaganda facilmente identificável (o Instituto Bíblico Pontifício), de que a admirável encíclica rompa com a prática precedente do Magistério supremo, para imprimir uma nova orientação à exegese católica. Somente aqueles que não leram nem Divino Afflante Spiritu nem os dois estudos bíblicos, a saber, Providentissimus e Spiritus Paraclitus, podem aceitar e repetir o "slogan" fabricado e difundido com intenção precisa. Infelizmente, parece que são numerosos. De qualquer forma, é certo, indiscutível, para quem lê a encíclica Divino Afflante Spiritu, e isto se torna ainda mais claro para quem acrescenta o estudo da encíclica Humani Generis, que a encíclica bíblica do grande Pio XII adere totalmente à Providentissímus (de Leão XIII) que ela confirma, alarga e precisa em diferentes pontos, e que, por intermédio da Providentissimus, se apega ao espírito dos princípios e às normas da tradição ininterrupta no que concerne ao culto da palavra de Deus através do árduo e austero trabalho exegético (...)».
«Humani Generis»? Não é mais da atualidade
«Reduzamos esta segunda tese do padre Alonso ao essencial: Humani Generis "queixou-se" ou "denunciou" (o padre Alonso não utiliza o termo "condenou") alguns desvios ou erros que não tocam à exegese atual, senão talvez, no máximo, no que elas têm das imprudências de alguns tradutores desastrados. De tal modo que se deveria, tacitamente, concluir: Humani Generis não tem mais importância "hoje, dez anos depois da Encíclica" (pág. 457). Ela não é mais atual (...).
A Encíclica Humani Generis é apresentada, para tudo o que concerne aos exegetas em somente vinte e três linhas, seja uma meia página. Isto é surpreendente da parte de quem ouve falar da catolicidade inteira da orientação da exegese católica (...).
Com incrível desenvoltura, o Pe. Alonso nos declara que a inspiração e a hermenêutica, a "inerrância, a relação entre a autoridade da Escritura e do Magistério", não lhe concernem, porque os erros sobre isto "são mais teológicos que exegéticos, isto é não se referem tanto à interpretação dos textos concretos quanto a princípios teológicos. [11]. E repete: «O modo concreto da inspiração e da inerrância são problemas com que se deve ocupar a teologia dogmática (pág. 457). Para isto, seja pela "liberação" que deve ter recebido de Pio XII, seja pelos direitos inalienáveis da "ciência" que representa, seja porque se trata de questões de teologia, o exegeta católico "novo, moderno" não deveria dar atenção à inspiração e à inerrância, mas somente à interpretação dos textos concretos (pág. 456). Esta posição aparece, a partir do texto considerado em si, tão grave num eclesiástico que ensina a Sagrada Escritura em Roma, que preferimos supor que o Pe. Alonso não pôde expressar-se corretamente. Mas, somos obrigados a pensar com tristeza que é somente hoje que tais atitudes se apresentam, a título pessoal, como modelos que o Clero, o jovem Clero, deveria imitar.
Contra o Primado, no desprezo da Tradição do Magistério
«Outro exemplo típico do mau caminho em que anda a intransigência subjetivista do Pe. Alonso encontramos quando ele põe sobre o mesmo plano "aquele que afirma a historicidade integral do livro de Judith'' e "aquele que nega toda historicidade do cap. XVI de São Mateus ... sobre o primado de Pedro".
«Sem querer dramatizar, é preciso simplesmente assinalar que aquele que emite tais veredictos perdeu o senso das proporções (...). Que analogia há, inclusive de um simples ponto de vista "crítico", ente o caráter histórico de um livro inteiro, remontando a um período muito obscuro, e a historicidade de alguns versículos de um capítulo do Evangelho sobre o qual se funda o dogma católico do Primado e que, por isso, contestado há séculos pelos cristãos dissidentes? (...).
«Conviria, por outro lado, julgar com severidade o inciso: "quem nega toda a historicidade do cap. XVI de São Mateus". A formulação é, no mínimo, equívoca. Para garantir o fato do primado de Pedro, é preciso a historicidade simpliciter, isto é, a historicidade sem limitações e não uma historicidade de baixo nível. A persuasão escondida, do Pe. Alonso, sobre este ponto fundamental, é facilmente deduzida à vista do meio em que ele se encontra [o Instituto Bíblico Pontifício, com o padre Zerwick]. Justamente, enquanto representantes "inquisidores" protestantes, como O. Cullmann, reconhecem simplesmente a historicidade de Mateus 16, 16-19, um colaborador íntimo do padre Alonso a afasta para sustentar que não podemos admitir o caráter histórico da passagem de Mateus sobre o primado de Pedro. "Tomemos a descrição de Mateus como a descrição historicamente fiel [assinalada pelo Pe. Zerwick] do acontecimento de Cesaréia de Filipe" (pág. 7), conclui o incrível "crítico literário"; e ele prossegue afirmando "a liberdade da hagiografia na apresentação e utilização de fatos fundamentalmente históricos". A historicidade se dissipa num nevoeiro distante, porque os mitos e as lendas também têm algum fundamento histórico, isto é, uma relação longínqua com os fatos históricos dos quais foram tirados».
Na nota 116, Mons. Romeo sublinha no jesuíta Zerwick seu «sarcasmo contra a Tradição e o Magistério que durante dezenove séculos puseram em acordo os dois primeiros Evangelhos: "Eis as duas versões de uma confissão de Pedro que é historicamente única e igual. Inútil negar que elas são profundamente diferentes e historicamente incompatíveis, não obstante as tentativas sempre repetidas de fundi-las numa só. E porque não podemos chegar a um acordo, com muito boa vontade e um pouco de doce violência, especialmente se se crê que a concordância seja necessária ou até vital?" (pág. 3). Eis o tom peremptório utilizado pelos "inquisidores" de hoje, que de Roma (ou Pádua) insultam com insolência aqueles que consideram necessário ou até vital o "consensus evangelistarum", pois, uma vez este "consensus" negado, o princípio vital da inerrância desmorona. M. Zerwick, reconhecendo que a exclusão da contradição entre dois autores inspirados é "vital" para aqueles que conservam "a antiga fé", replica friamente: "Mas esta necessidade [da não contradição] é justamente o que está em questão". O que só pode significar: hoje ela pode ser tranqüilamente negada. E, prossegue imperturbável: "Para a questão da historicidade segue-se que: se a relação de Marcos é historicamente fiel, Jesus nesta ocasião não respondeu (sublinhado por Zerwick) por um macarismo [12], e pela promessa do primado". A negação da historicidade desta passagem do primeiro Evangelho é nítida. Como nos explica em seguida, para o conjunto do Evangelho de Mateus, o interesse kerigmático [13], e doutrinal (de professar a fé total no mistério de Cristo, tal como é vivido na comunidade cristã) para a pessoa é a importância soteriológica [14] de Jesus, ultrapassa o interesse por um registro fiel de dados históricos e hagiográficos (pág. 4). O macarismo é uma criação de Mateus, pela qual ele aplica uma verdade ensinada pelo próprio Jesus num caso concreto e individual (pág. 6); é a obra do evangelista, que põe na boca de Jesus uma frase fictícia, sim, mas em plena conformidade com a doutrina explícita de Jesus expressa em todos os lugares (pág. 5). M.Zerwick afirma que a confissão de Pedro "Cristo, filho de Deus vivo", não é provável [sublinhado por Zerwick] historicamente antes da Ascensão de Jesus (pág. 6); em outros termos, ela é estranha ao próprio Jesus (que depois da Ascensão não estava mais lá), e reflete então somente "a fé tal qual vivia na comunidade cristã" (pág. 4). No final das contas, a fé da comunidade cristã primitiva é a fonte da narração de Mateus, segundo estas afirmações que diferem muito pouco das de R. Bultmann, que declara realmente que não tem fé. Dá-se, em seguida, algumas mostras do que tais professores vendem abertamente; é certo que o que eles dizem a seus alunos entre quatro paredes vai ainda muito mais longe... ».
Francesco Spadafora
[1] Acta et Documenta Concilio Ecumenico Vaticano II, Series I, vol. IV, parte I, págs.125-136, Ed. Poliglotta, Vaticano, 1961.
[2] Courrier de Rome de outubro de 1994 - págs. 3 e segs.
[3] No mesmo volume, págs. 171-442, são narradas as propostas da Pontifícia Universidade de Latrão, sob a assinatura do reitor, Mons. A. Piolanti. Nas páginas 263-270, consta a proposta formulada por mim para definir formalmente a inerrância absoluta da Sagrada Escritura.
[4] La Civíltà Cattolica, vol.III, q. 2645, de 27 de agosto de 1960, págs. 449-460.
[5] La Cívíltà Cattolica, de 20 de fevereiro de 1993, repetia ainda recentemente.
[6] In Divinitas 4, 1960, págs. 387-456, Universidade de Latrão.
[7] La Civiltà Cattolica, III, 1960-III pág. 449.
[8] Expressão latina: o que é permitido pelas leis divinas e naturais, o justo, o legítimo, o lícito: fas; o que é contrário à vontade divina, às leis religiosas, às leis da natureza, o que é ímpio, sacrílego, injusto, criminoso: nefas.
[9] La Civiltá Cattolica, 94, 1943-IX, págs. 212-224
[10] Em nota Mons. Romeo escreve: É o que acontece quando se utiliza uma "crítica literária" que leva a esta höhere Kritik posta em voga pelos racionalistas do século passado, como demonstrou brilhantemente, para a formgeschichte, de R. Bultmann e similares, o grande teólogo luterano Paul Althaus. Das sogenannte Kerygma und der historische Jesus. Zur Kritik der heuligem Kerygma - Theologie - Beiträge Z. Forderung Chríst! Theologíe, 48), Gütersloh 1958
[11] Em nota se lê: A luminosa encíclica diz "retomemos às novas teorias ... , diversas opiniões são propostas ou instiladas no espírito que diminuem a autoridade divina da Sagrada Escritura. Com audácia alguns pervertem o sentido das palavras do Concílio Vaticano ... e renovam o julgamento, já muitas vezes condenado, segundo o qual a inerrância da Sagrada Escritura se estenderia somente no que concerne ao próprio Deus ou à religião e à moral. Eles falam, ao contrário, falsamente, de um sentido humano da Bíblia, sob o qual estaria escondido o sentido divino que é, como declaram, o único infalível (La Civiltà Cattolica 10 I, 1950-111, pág. 465). Tudo isso, que toca os próprios fundamentos da fé cristã na Revelação divina, não concerne nem ao padre Alonso, nem ao exegeta "moderno", porque é "teologia dogmática", (pág. 457)! Notaremos que, justamente, a encíclica Humani Generis inclui a exegese bíblica entre "as partes da teologia" (La Cíviltà Cattolica 101, 1950-III, pág. 465, no. 25), o que sempre foi considerado como evidente tanto pelos católicos quanto pelos cristãos dissidentes de qualquer denominação que seja.
[12] Fórmula bíblica começada pela palavra "Bem-aventurado" - em grego, makarios. Exemplo: Bem-aventurados os puros de coração, pois eles verão a Deus - Mt. 5,8.
[13] Que se relaciona ao Kérigma - do grego Kérugma = proclamação, mensagem, seja seu conteúdo, seja a maneira persuasiva com que o apóstolo a proclama.
[14] Que se relaciona à soteriologia, a parte da cristologia que concerne à história da salvação