o triunfo do Modernismo sobre a EXEGESE CATÓLICA
6 - A «Nova Exegese» da «Nova Teologia»
A «Nova» Exegese
Já foi visto que o pedido de ab-rogação dos decretos emitidos pela Comissão Bíblica Pontifícia sobre a autenticidade mosaica do Pentateuco (1906) e sobre a historicidade dos primeiros capítulos do Gênese (1909) vinha da França. E não era sem motivo. (cf. SimSimNãoNão, março de 1995)
De fato, nestes anos fervilhava na França uma propaganda muito ativa da «nova teologia», sustentada por Henri de Lubac S.J. e por seus confrades Daniélou, Fessard, Bouillard, etc (La Nouvelle Théologie, ou va-t-elle?, Pe. Garrigou Lagrange, O.P., in Angelicum 23, 1946). Em abril de 1946, o jesuíta Fessard tinha manifestado claramente que os «novos teólogos» não aceitavam os decretos emitidos pela Comissão Bíblica Pontifícia, escrevendo que esses decretos eram «uma proteção, mas não uma resposta» (Les Études, abril de 1946). Na realidade a «nova teologia» sustentava igualmente uma «nova» exegese, chamada por De Lubac de «exegese espiritual».
O que queria dizer com isto? ... Não era muito claro (a «nova teologia» gosta da cortina de fumaça). J. Coppens explica assim esta «exegese espiritual»: uma leitura dos Livros Sagrados, sob a direção do Espírito Santo, em contato direto com o Espírito de Deus, ou seja, a inteligência da Sagrada Escritura mediante uma espécie de ciência sobrenatural que agiria no espírito de cada um (J.Coppens, Vom christlichen Verständnis des Alten Testaments - As Harmonias dos dois Testamentos. Suplemento bibliográfico. Bibliografia J. Coppens. Bruges-ParisFriburgo i.B. 1952, pág. 99; ver Francesco Spadafora Esegesi spirituale in Saggi di critica di esegesi biblica, Laterano).
Coppens e De Lubac assinalam o «perigo de suscitar uma espécie de ilusionismo, de modo que, para se proteger de tal perigo [ou para evitar esta acusação], eu recomendava conduzir uma "exegese espiritual" sob a direção da Igreja e no sentido por ela estabelecido. Entretanto, neste caso, a leitura carismática não oferece nada de novo. Na nossa opinião - continua Coppens - a influência da Sagrada Escritura é rebaixada a uma espécie de "ocasionalismo ". Por ocasião da leitura dos Livros Sagrados, Deus falará, mas os textos que lemos tem uma ligação orgânica com a palavra que Deus nos dirige, no nosso interior?»
Por sua vez, o jesuíta Daniélou (em seguida feito cardeal por Paulo VI), insistia por um retorno, não sem inovações, à tipologia de Orígenes: é somente lendo «tipologicamente» o Antigo Testamento, isto é, somente lendo como uma figura do Novo Testamento, que se pode extrair o mel da edificação espiritual.
O Risco de fazer do Evangelho de Deus um Evangelho do Homem
Na realidade, sob o pretexto de uma leitura edificante e construtiva do Antigo Testamento, desviava-se cuidadosamente, num sentido protestante, da exegese católica e se repropunha um erro condenado muitas vezes pelos Pontífices Romanos: a desvalorização, ou melhor, a negação do sentido literal histórico da Sagrada Escritura.
Por ocasião do décimo quinto centenário da morte de São Jerônimo, Bento XV, na encíclica Spiritus Paraclitus, havia lembrado aos exegetas a «via segura que todos devem seguir para tirar dos Livros Sagrados sua verdadeira significação», via traçada pelo próprio Nosso Senhor Jesus Cristo e por seus Apóstolos, e seguida por todos os Padres e doutores da Igreja, inclusive São Jerônimo. Citando muitas das obras do santo exegeta, Bento XV escreve:
«Antes de tudo nosso espírito se aplicará a descobrir o sentido literal ou histórico: Eu sempre dou aos leitores prudentes, [escreve São Jerônimo] o conselho de não aceitar interpretações supersticiosas que isolam partes do texto seguindo o capricho da imaginação, mas examinar o que precede, o que acompanha e o que segue, e de estabelecer uma ligação para toda a passagem em questão».
«Todas as outras maneiras de interpretar as Escrituras - acrescenta São Jerônimo - são baseadas no sentido literal (...)». Estando o sentido literal ou histórico estabelecido com certeza, São Jerônimo procura o sentido menos óbvio e mais profundo em vista de alimentar seu espírito com um alimento mais escolhido (...).
Também o que ele reprova em muitas interpretações místicas de autores antigos é sobretudo o negligenciar completamente o apoio sobre o sentido literal: "Não é possível que todas as promessas que cantaram, no sentido literal, os lábios dos santos profetas, sejam reduzidas a não mais que a fórmulas vazias e termos materiais de uma simples figura de retórica; elas devem, ao contrario, repousar sobre um terreno firme, e tão estabelecidas sobre fundações da história que poderão se elevar até o cume do sentido místico". A este propósito, ele observa sabiamente que não se deve afastar do método de Cristo e dos Apóstolos: apesar de que o Antigo Testamento só seja a seus olhos como que uma preparação e a sombra da Nova Aliança e que, além disso, eles interpretam no sentido figurado um grande número de passagens, eles não tomam todo o conjunto como figuras. Para apoio de sua tese, freqüentemente São Jerônimo invoca o exemplo do apóstolo São Paulo que, para citar um caso «expondo as figuras místicas de Adão e Eva, não negava que eles tenham sido criados, mas baseando a interpretação mística sobre o fundamento da história, escrevia: por isso, o homem deixará...»
E ainda:
«Quanto ao modo de exposição e de expressão, como é a fidelidade que se procura nos dispensadores dos mistérios de Deus, São Jerônimo põe em princípio que é preciso manter antes de tudo a "exatidão da interpretação" e que o "dever do comentarista é expor não suas idéias pessoais, mas sim as do autor que comenta"; aliás, acrescenta, "o orador sacro está exposto ao grave perigo de, por uma interpretação defeituosa, transformar o Evangelho de Cristo no Evangelho do Homem"» (Enchiridion Biblicum, n° 485 e seguintes).
Sentidos bíblicos e sentidos não bíblicos
Lembro que a Sagrada Escritura, como livro humano e divino, tem um duplo sentido: literal e típico (ou espiritual). O sentido literal é, como para qualquer livro, o sentido expresso pelos termos; este sentido é aquele que estava, seja na intenção de Deus, seja na do escritor sagrado (ou hagiógrafo). O sentido típico, por outro lado, é um sentido exclusivo dos Livros Sagrados e foi concebido somente por Deus e não pelo escritor sagrado. Deus, autor principal da Sagrada Escritura, quis, no Antigo Testamento, preparar e como que mostrar o Novo sob um véu. Ele dispôs dos fatos e dos personagens do primeiro para preparar, para prenunciar as verdades do segundo (conf. São Tomás Quodl. 7 a 16). Assim o maná foi disposto por Deus para exprimir a Eucaristia, e o cordeiro pascal é o «modelo», a figura de Jesus Redentor, etc. Nosso Senhor e os Apóstolos nos ensinam, de fato, que no Antigo Testamento algumas pessoas e episódios anunciam e figuram aspectos do Messias e de seu Reino, e isso faz da existência do sentido típico uma verdade de fé. Contudo: 1) nem toda frase ou narração contem um sentido típico ou espiritual; o sentido típico deve ser revelado por Deus : «deve-se provar ou ser estabelecido seja pelo uso que fizeram Nosso Senhor, os Apóstolos ou os escritores inspirados» (Enchiridion Biblicum, n°524); 2) o sentido típico pressupõe o sentido literal e sobre ele deve fundar-se. Não é permitido, sob pretexto de uma leitura edificante ou «espiritual» da Bíblia, negligenciar esta «regra de ouro» formulada, sobre a base da Tradição divino-apostólica, em particular por Santo Agostinho, São Jerônimo e São Tomás (Suma Teológica la. q1 a. 10 ad 1m) e sancionada pelos Pontífices Romanos (ver Leão XIII, Providentissimus Deus; Bento XV, Spiritus Paraclitus; Pio XII, Divino Afflante Spiritu), porque se arriscar então a reduzir a Bíblia a uma série de figuras de retórica sem fundamento real e de oferecer às almas o sentido não realmente querido por Deus, mas o fruto de sua própria fantasia.
É verdade que a Igreja permite, e ela própria dá o exemplo na liturgia, com o fim de edificação, adaptar os textos bíblicos com significações diferentes das intenções de Deus e do escritor sagrado. Mas estes arranjos ou significados alegóricos, justamente porque não foram a intenção de Deus nem do escritor sagrado, não têm um sentido bíblico propriamente dito e são considerados bem distintos dos sentidos bíblicos verdadeiros. Fica, assim, claramente estabelecido que a exegese «espiritual» de De Lubac e a exegese «tipológica» de Daniélou nada têm a ver com o verdadeiro significado espiritual ou típico da Sagrada Escritura e têm o grave erro de querer reduzir os sentidos bíblicos verdadeiros ao chamado sentido alegórico ou acomodatício, que não é o sentido bíblico (ver Francesco Spadafora - Dizionario Biblico, verbete Sensi biblie)
Nota: O sentido «acomodatício» é um sentido bíblico estranho à Escritura, um sentido que lhe atribuem aplicando a um objeto o que o Espírito Santo inspirou referente a um outro objeto).
Pelo caminho da fantasia
Estes princípios, que sempre foram os da exegese católica, vieram a ser lembrados mais uma vez, em 20 de agosto de 1941, pela Comissão Bíblica Pontifícia (Enchiridion Biblicum n° 524) contra a pretensão de que «para bem compreender a Bíblia, é preciso deixar livre curso ao espírito, como se cada um estivesse em comunhão pessoal com a Sabedoria divina e devesse receber do Espírito Santo luzes especiais, como pretendiam os primitivos protestantes».
Pode-se ler na carta da Comissão Bíblica Pontifícia aos bispos italianos: «Seria uma interpretação absolutamente subjetiva e alegórica segundo a inspiração pessoal, ou antes, segundo a imaginação mais ou menos viva e fecunda de cada um. Certamente, um princípio fundamental ensinado pela fé e que se deve guardar, é que a Sagrada Escritura contém, além de um sentido literal, um sentido espiritual ou típico, como é ensinado pelo modo de agir de Nosso Senhor e dos Apóstolos; entretanto, nem toda sentença ou texto bíblico contém um sentido típico, e foi um grave erro da Escola Alexandrina ter procurado, em todo lugar, um sentido simbólico, mesmo em detrimento do sentido literal e histórico. O sentido espiritual ou típico deve-se provar ou ser estabelecido seja pelo uso de Nosso Senhor, dos Apóstolos ou dos escritores inspirados, seja pelo uso tradicional dos Santos Padres e da Igreja, especialmente na liturgia sagrada, porque "lex orandi, lex credendi". A aplicação mais larga dos textos sagrados poderia se justificar com um fim de edificação na pregação e nos escritos ascéticos; mas o sentido que resulta das acomodações mais felizes, quando não foi aprovado, como dito acima, não pode ser dito o verdadeiro e o estrito sentido da Bíblia nem o sentido que Deus inspirou ao hagiógrafo».
Pio XII volta a esta questão na Divino Afflante Spiritu (30-09-1943):
«Que os exegetas, no cumprimento desse trabalho, tenham sempre diante dos olhos que devem, antes de tudo, aplicar-se a discernir e a precisar este sentido das palavras bíblicas que se chama sentido literal (...).
«Que eles se esforcem de um modo particular por não se contentar em expor o que se refere à história, à arqueologia, à filologia e às outras ciências parecidas como lamentamos que se faça em alguns comentários - mas além de fornecer essas informações, na medida em que elas ajudam a exegese, que exponham sobretudo qual é a doutrina teológica de cada um dos livros ou dos textos, em matéria de fé e de costumes (...).
Quando os exegetas católicos derem uma interpretação parecida, antes de tudo teológica, como dissemos, eles reduzirão definitivamente ao silêncio aqueles que asseguram nada achar nos comentários da Bíblia que eleve o espírito para Deus, alimente a alma e estimule a vida interior, pretendendo, em conseqüência, que é preciso recorrer a uma interpretação espiritual ou, como dizem, mística (...).
O que certamente não significa que todo sentido espiritual seja excluído da Sagrada Escritura, pois as palavras e os fatos do Antigo Testamento foram maravilhosamente ordenadas e dispostos por Deus, de tal maneira que o passado prefigurava, de uma maneira espiritual, o que devia acontecer sob a nova aliança da graça. Por isso o exegeta, assim como deve procurar e expor o sentido literal das palavras tal como o hagiógrafo quis e exprimiu, assim deve expor o sentido espiritual, para que resulte certamente o que foi querido por Deus. De fato, só Deus pode conhecer este sentido espiritual e nos revelá-lo. Ora, este sentido, nosso próprio Divino Salvador nos indica e nos ensina nos santos Evangelhos; a exemplo do Mestre, os Apóstolos o assinalam abertamente nas suas palavras e seus escritos; a tradição constante do Igreja o mostra; enfim, o antigo uso da liturgia o exprime sempre que se deve aplicar o conhecido adágio: A lei da oração é a lei da crença.
Então, os exegetas católicos devem pôr em destaque e propor com o cuidado que exige a dignidade da palavra divina este sentido espiritual querido e fixado pelo próprio Deus. Que eles estejam religiosamente vigilantes, para não apresentar como sentido autêntico da Sagrada Escritura os significados metafóricos das coisas. Pois, e sobretudo no ministério da pregação, o emprego mais amplo e metafórico do texto sagrado pode ser útil para clarear e valorizar alguns pontos da fé e dos costumes, à condição de fazê-lo com moderação e discrição, não pode jamais esquecer que este uso das palavras da Sagrada Escritura lhe é extrínseca e adventícia. Acontece mesmo, sobretudo hoje, que este costume não está isento de perigo, porque os fiéis, e em particular aqueles que estão a par das ciências sagradas como das ciências profanas, procuram o que Deus quer dizer pelas Cartas sagradas, de preferência ao que um escritor ou um orador expõe, jogando habilmente com as palavras da Bíblia. "A palavra de Deus, viva e eficaz, mais afiada do que uma espada de dois gumes, tão penetrante que chega a separar a alma e o espírito, as juntas e as medulas, distinguindo os sentimentos e os pensamentos dos corações" (Heb. IV, 12), não tem necessidade de artifícios nem de acomodações humanas para emocionar e balançar os espíritos. De fato, as páginas sagradas, escritas sob a inspiração de Deus, são por si mesmas ricas em significado; dotadas de virtude divina, elas valem por si mesmas; ornadas de uma beleza que vem do alto, brilham e resplandecem por si mesmas, para que o comentarista as explique tão plenamente, tão cuidadosamente, que todos os tesouros de sabedoria e de prudência que contêm sejam postos em evidência» (Enchiridion Biblicum n°551 e seg.).
A condenação
Lembranças inúteis. A «nova teologia», inclusive neste domínio, continuou, com desprezo flagrante ao Magistério, «pelo caminho da fantasia». Volta-se, então, à condenação da «nova» exegese na Humani Generis (1950):
«Alguns, de fato, ousam falsificar o sentido da definição do Concílio Vaticano I que proclama Deus como autor das escrituras, retomando assim uma opinião muitas vezes condenada, segundo a qual a inerrância da Escritura só se estenderia no que concerne a Deus e às coisas morais e religiosas». «Além disso, dizem eles, falam erradamente do sentido humano dos Livros Sagrados, sob o qual se esconderia o sentido divino, único infalível». «Na interpretação da.Escritura, eles não querem de modo algum que se leve em conta a analogia da fé e da tradição da Igreja». «Além disso, o sentido literal da Escritura e a exposição que se elaborou sob a vigilância da Igreja, tantas e por tão grandes exegetas, devem ceder, segundo os decretos falaciosos destes mestres, diante da nova exegese, que eles chamam simbólica e espiritual. É por ela que os Livros do Antigo Testamento, que permanecem hoje na Igreja como numa fonte selada finalmente seriam de novo inteligíveis a todos. Asseguram eles, por esta via desaparecem todas as dificuldades que só bloqueiam aqueles que ficam apegados ao sentido literal das Escrituras». «Todo mundo vê quanto estas doutrinas se afastam dos princípios e das normas da hermenêutica que foram justamente fixadas por Nossos Predecessores de feliz memória: Leão XIII na Encíclica Providentissimus; Bento XV na Encíclica Spiritus Paraclitus; assim como por Nós mesmos na Encíclica Divino Afflante Spiritu» (Enchiridion Biblicum n°612 e seg.)
E no entanto, justamente no decênio 1950-1960, imediatamente depois da Humani Generis e logo antes do Concílio Vaticano II, assistimos, em Roma e na Itália, como veremos proximamente, a escalada progressiva do neomodernismo rio domínio dos estudos bíblicos.
Em 1920, Bento XV havia revelado a necessidade urgente de suscitar «defensores mais numerosos e mais competentes possíveis» para combater não só o racionalismo protestante, mas igualmente, no interior da Igreja, «aqueles que sedentos de novidades profanas ... rejeitam as opiniões recebidas na Igreja desde a antiguidade ou provocam o desprezo pelo seu magistério até desdenhar, enterrar sob o silêncio, ou mesmo trazer para sua própria interpretação, desnaturando-as, seja sutilmente, seja com afrontas, as Constituições da Sé apostólica e os decretos da Comissão Pontifícia para os estudos bíblicos» (Enchiridion Biblicum n°474).
Trinta anos mais tarde, esta corrente, ou melhor, esta rebelião ao Magistério romano se apressava, ao revés, a triunfar com o enterro da Comissão Bíblica Pontifícia e a traição perpetrada pelos jesuítas do Instituto Bíblico Pontifício «renovado». E hoje, entre os adeptos da exegese «espiritual», encontramos o padre Ignace de la Potterie S.J., colaborador e grande conselheiro do cardeal Ratzinger! (ver Esegesi Cristiana Oggi, ed.Piemme).
Francesco Spadafora