o triunfo do Modernismo sobre a EXEGESE CATÓLICA

5 - «A Companhia de Jesus, no Instituto Bíblico Pontifício, traiu a Igreja»
(padre Vitti S.J.)

Os sintomas do mal

Projetado por Leão XIII e realizado por São Pio X (carta apostólica Vinea Electa de 7 de maio de 1907) como «centro de estudos superiores, em Roma, para a formação dos futuros professores da Sagrada Escritura e línguas orientais», o Instituto Bíblico Pontifício foi confiado à Companhia de Jesus.

«Com a Escola Bíblica (dos Dominicanos de Jerusalém), o Instituto Bíblico Pontifício - escrevia eu em meu Dicionário Bíblico - é a mais providencial das instituições católicas modernas para a formação cultural do clero» (F. Spadafora Dizionario Biblico, ed. Studium III, edição de 1963, pág. 359). Na realidade, assim foi até 1949, quando o padre Ernst Vogt S.J. sucedeu o padre Agostino Bea S.J. Com Vogt se manifestavam os primeiros sinais do trabalho de demolição, eu diria quase sectário, cumprido pelas toupeiras neomodemistas no outrora glorioso Instituto Bíblico.

O episódio seguinte bastará para ilustrar esta demolição. Em 1952, o religioso Calixto Vendrame veio me pedir a gramática síria do beneditino L. Palacios (Ed. Monastère de Montserrat, 1931. Dom L. Palacios O.S.B. foi morto em Barcelona pelos comunistas espanhóis em julho de 1936. Ele tinha as matrizes de sua síntese da língua síria e preparava a correção definitiva. Com sua morte, tudo ficou perdido). Vendrame era então aluno do Instituto Bíblico Pontifício. Contou-me que o jesuíta Robert Dyson, professor de exegese do Antigo Testamento, fazia uma exegese inquietante dos 1° e 2° livros de Samuel. Tendo Vendrame lhe perguntado: «Padre, como pode o senhor conciliar a exegese que propõe, com o dogma da inspiração divina das Sagradas Escrituras?», o jesuíta Dyson soltou uma gargalhada e respondeu maliciosamente: «Como? Você segue ainda o ensinamento do padre Bea?» Como se a inspiração divina das Escrituras não fosse um dogma, mas uma opinião pessoal do padre Bea! Narrei o episódio ao antigo reitor do Instituto Bíblico, que me respondeu amargamente: «Caro Spadafora, o padre Dyson não tem consciência do grave mal que faz aos alunos». E apesar disso, o jesuíta Dyson continuou tranqüilamente seu ensinamento até 1958, quando teve um digno sucessor no padre Alonso Schökel S.J., de quem nos ocuparemos mais tarde.

Era 1952; fazia portanto alguns anos que, em Roma, corriam vozes de que «estranhas novidades» eram ensinadas no Instituto Bíblico. Na realidade os dois últimos sistemas racionalistas (Formgeschichte e Redaktionsgeschichte), que hoje o cardeal Ratzinger, adotando urna terminologia mais atraente, chama «método histórico-crítico» tinham sido adotados por alguns professores do Instituto Bíblico e, em particular, pelos jesuítas Stanislas Lyonnete Maximilien Zerwick.

Nestes sistemas não há lugar para a inspiração divina das Sagradas Escrituras, tão bem ilustrada por Leão XIII na encíclica Providentissimus e que, como a inerrância absoluta, é verdade revelada, dogma de fé divina (por constar da Sagrada Escritura) e católica (por confirmação do Concílio Vaticano I); não há também lugar para o Magistério da Igreja, que deve ser a norma próxima para a exegese católica (cf. SimSimNãoNão, n° 25, jan. 1995, pág. 2: A base da «nova exegese»: a heresia).

Clima «misterioso» e manobra sectária

Os dois sistemas mencionados acima, imaginados pelo racionalismo protestante, excluem os princípios dogmáticos da exegese católica e negam, a priori, o sobrenatural e portanto todo milagre nos Evangelhos. E os responsáveis pela «nova orientação» não o ignoram. Alguns alunos ou antigos alunos do Instituto Bíblico, entre os quais Lugi Moraldi (1945-1948), Leone Algisi (1948-1950), Giovanni Canfora (1944-1946), me diziam:

«É nossa tarefa informar aos Bispos os resultados da nova crítica e dispô-los a aceitar os resultados»; «Meus alunos e eu, há muito tempo ultrapassamos a doutrina sobre a inspiração ensinada até agora...»; «A inspiração [da Sagrada Escritura] é coletiva, ela termina na coletividade»; «Preparei um estudo decisivo sobre a doutrina da inspiração, mas ainda não é prudente publicá-lo».

Criou-se um clima que eu qualificaria de «misterioso» e os amigos das «novidades» se consideravam como depositários de verdades desconhecidas dos outros, que seria perigoso manifestar no momento, ao menos na Itália, mas que precisavam inculcar e difundir por todos os meios. A difusão destas novidades era considerada por eles como um trabalho de zelo, tendo em vista chegar à compreensão correta das Sagradas Escrituras, e para atingir este fim eles lançavam habitualmente o descrédito sobre toda a exegese e sobre todos os exegetas católicos, de Lagrange a Vaccari, de Allo a Clamer, a Braun, a Spicq etc, com insinuações e frases do gênero: «ele está ultrapassado», «é um conservador». Um aluno me contou que o padre Vogt, apresentando meus comentários sobre o livro de Ezequiel, me definia como um «conservador»! Ao contrário, os «novos» exegetas, que são freqüentemente simples vulgarizadores (como os padres Zerwick e Vogt, que se contentavam em repetir alguma «crítica» acatólica), eram celebrados e levados às nuvens.

Num dado momento, o mundo católico achou-se em plena subversão, assim tenazmente preparada nos bastidores.

Um sinal

A alma desta traição do Instituto Bíblico Pontifício - para adotar o termo e o conceito que o padre Vitti S.J. me expressou pessoalmente - foi o padre Stanislas Lyonnet S.J. Ele deu o sinal, o ruidoso sinal do novo curso no qual se engajava o Instituto Bíblico, publicando em 1956, depois de ter ensinado durante anos a «novidade»: O pecado original e a exegese de Rom. 5,12 (Pesquisas de Ciência Religiosa 44 (1956), págs. 63-84).

Contra a Tradição divino-apostólica, contra toda a exegese católica dos Padres da Igreja até os dias de hoje, contra o Concílio de Trento, o jesuíta Lyonnet sustentava uma «nova» exegese ou interpretação da famosa passagem da Epístola aos Romanos de São Paulo: «Assim como por um só homem entrou o pecado neste mundo, e pelo pecado a morte, e assim passou a morte a todos os homens, porque todos pecaram» (Rm. V,12).

Segundo o jesuíta Lyonnet, a expressão «porque todos pecaram» deveria se entender como os pecados pessoais de cada homem e não o pecado original transmitido por Adão a todos os seus descendentes, e comentava assim o texto de São Paulo: «a morte passou a todos os homens, dado que (mais precisamente, sendo realizada a condição que) todos (os adultos) pecaram (pessoalmente, ratificando assim e se apropriando da revolta de Adão)».

O jesuíta Ugo Vanni, da Universidade Gregoriana Pontifical, na novíssima Bíblia das Edições Paulinas, apresenta e faz seu o pensamento de seu confrade Lyonnet, hoje falecido, sobre o comentário de Rm V,12: «O sentido do versículo 12, segundo Lyonnet é então: pela transgressão de Adão, o pecado entrou no mundo e assim a todos os homens passou a morte, a separação de Deus, mas sob a condição (já completada) ou, (uma condição estando por completar-se), que os homens tenham pecado pessoalmente» (exposto em Rm V, 12).

Nas pegadas dos heréticos e contra o Magistério ordinário e solene da Igreja

Na realidade, o jesuíta Lyonnet desenterrava uma velha interpretação herética de Rm V, 12, presente já em Pelágio (Expositio in Rom. V; 12), retomada em seguida por Erasmo de Rotterdam, que Lutero fez sua, e que ainda hoje prevalece, sob formas diversas mas vizinhas, nos racionalistas protestantes (ver B. Mariani, La personne d'Adam et le péché originel selon Saint Paul; Rm 5, 12,21 em Divinitas 2, 1959). Esta interpretação, que tem seus reflexos negativos sobre a doutrina do pecado original, que é «una por sua origem e é transmitida a todos pela propagação e não pela imitação» (D. 790), contradiz o Concílio de Trento que, fixando infalivelmente a doutrina revelada sobre o pecado original, dá também o sentido autêntico de Rm V, 12, de modo que não é mais permitido a qualquer católico pôr em discussão.

Eis os textos do Concílio dogmático tridentino:

2 - «Se alguém afirmar que a prevaricação de Adão prejudicou a ele só e não à sua descendência; e que a santidade e a justiça recebidas de Deus e por ele perdidas as perdeu só para si e não também para nós, ou [disser] que, manchado ele pelo pecado de desobediência, transmitiu a todo o gênero humano somente a morte e as penas do corpo, não porém o mesmo pecado, que é a morte da alma - seja excomungado, porque contradiz o Apóstolo que diz: por um só homem entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte e assim a morte passou para todos os homens, porque todos pecaram» (Rm V,12).

4- «Se alguém negar que se devam batizar as crianças recém-nascidas, ainda mesmo quando nascidas de pais batizados; ou disser que devem ser batizadas, sim, para a remissão dos pecados, mas que nada trazem do pecado original de Adão que seja necessário expiar-se no lavacro da regeneração para conseguir a vida eterna, donde resulta que neles a forma do batismo não deve ser entendida como em remissão dos pecados - seja excomungado porque não é de outro modo que se deve entender o que diz o Apóstolo: Por um só homem entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte e assim a morte passou a todos os homens naquele em que todos pecaram (Rm5, 12), senão do modo que a Igreja Católica, espalhada por todo o mundo, sempre o entendeu; porquanto em razão desta regra de fé, segundo a tradição dos Apóstolos, ainda as criancinhas que não puderam cometer nenhum pecado, também são verdadeiramente batizadas para a remissão dos pecados, a fim de ser nelas purificado pela regeneração o que contraíram pela geração... (sessão V, 17 de junho de 1546, D.B. 788-792. Tradução do frei Juvenal Sansão, OFM, para a Editora Vozes, 1953).

O padre Labourdette O.P. faz os seguintes comentários: «O Concílio [...] retoma (4° Canon) a citação de São Paulo que terminava já o Canon 2°; ele afirma então que não se deve entender este texto do Apóstolo num outro sentido do que naquele em que sempre o compreendeu a Igreja Católica. Qual é este sentido? Ele é manifestado pela prática do batismo das criança; batiza-se para remissão dos pecados antes que elas possam cometer o menor pecado pessoal; é, então, certo que elas já são pecadoras de um outro modo; elas levam o pecado que contraíram pela geração [...] Esta prática da Igreja tem por fundamento a regra de fé que constitui a afirmação de São Paulo; ela é a aplicação e a conseqüência. A Igreja recebeu esta prática, como a verdade que a funda, da tradição dos Apóstolos. E é à luz desta tradição que a Igreja católica lê a Escritura e estabelece o sentido com autoridade» (Fr. M. M. Labourdette, Le péché originel et les origines de l'homme, Paris 1953, págs. 26-49). E ainda: «Um estudo atento do texto (tridentino) à luz de sua preparação, mostra bem que ele muito conscientemente quis se pronunciar sobre o sentido do texto de São Paulo, adicionando assim, ao ensinamento do Magistério ordinário, o peso de sua declaração».

E o sentido de Rm V, 12, tal como a Igreja Católica sempre e em todo lugar entendeu, e tal como é infalivelmente definido pelo Concílio de Trento, é que São Paulo aí fala do pecado original e não dos pecados pessoais que os homens cometem imitando Adão, contrariamente ao que queriam Pelágio, Erasmo, Lutero, os racionalistas protestantes e hoje o jesuíta Lyonnet e seus confrades do Instituto Bíblico Pontifício.

O contexto

Aliás, a exegese católica tradicional, sancionada solenemente pelo Concílio de Trento, segue logicamente o contexto de Rm V,12.

Na realidade, em Rm V,12, São Paulo, para demonstrar a universalidade e a eficácia da redenção de Cristo, estabelece o paralelo entre a obra de Adão pecador, cabeça e causa da humanidade decaída (Gen. III; Eccl. XXV,23; Sab. II,23 e segs.) e a obra de Cristo, que é a antítese, cabeça e causa da humanidade resgatada. Duas relações de solidariedade eficaz se contrapõem: 1) Adão e todos os homens; 2) Cristo e todos os homens.

A primeira solidariedade, fundada sobre a natureza, estabelece o reino do pecado e da morte; a segunda solidariedade, fundada sobre a adesão livre a Cristo, estabelece o reino da graça e da vida. Diz São Paulo: «Assim como por um só homem entrou o pecado neste mundo, e pelo pecado a morte e assim passou a morte a todos os homens, no qual todos pecaram» (Rm V,12). Aqui o apóstolo interrompe o paralelo, omitindo «assim como por Jesus Cristo a graça e a vida entraram no mundo» (ele dirá adiante, no versículo 18), para desenvolver, nos versículos 13 e segs., a última proposição causal: «no qual todos pecaram». Antes da Lei de Moisés - diz o apóstolo - uma vez que não havia nenhuma sanção de morte da parte de Deus para os pecados pessoais, morreram as crianças e também muitos adultos não culpáveis de pecados pessoais. Sua morte - conclui São Paulo - só se pode explicar em sua solidariedade com Adão, na culpa herdada dele e, logo, na pena. É o que ele diz expressamente no versículo 19: «pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim, pela obediência de um só (Cristo) muitos virão a ser justos». Todos então pecaram por Adão, apesar de que a expressão da Vulgata «in quo omnes peccaverunt» não se refere a Adão, mas pode-se explicar, como faz Cajetan, in eo quod = porque (conf. Ph III, 12) e em grego o correspondente efô = epi tûto oti, é certamente causal (conf. 2 Cor. 5,4 e Ph 4, 10). Esta é a exegese católica, unânime e constante, desde os Padres da Igreja até hoje; exegese clara não somente pelo contexto, mas também pelo Magistério ordinário e solene da Igreja.

O fundo luterano da «Nova Exegese»

A «novidade» de Lyonnet foi um sinal significativo e alarmante da «nova exegese» que chocava então o Instituto Bíblico, no qual os piores membros da Companhia de Jesus se apressavam em trair a Igreja, e junto com a Igreja, a Tradição divino apostólica e a própria Revelação Divina.

De fato, com Lyonnet descobria-se o fundo da «nova exegese»: é o próprio fundo luterano da «nova teologia» tão remarcadamente expressado por Romano Amerio: «Dos dois princípios que regulam a procura teológica, a saber a Escritura e a Tradição, eles reconhecem somente a Escritura. não a Escritura transmitida e interpretada pelo Magistério, mas a Escritura ensinada pelos filólogos e interpretada à luz privada da razão crítica.

Não podemos alegar, na disputa contra eles, definições dogmáticas dos Concílios e decretos do Magistério, simplesmente porque eles não os reconhecem, não os citam nunca e não os aceitam. Para eles, os atos do Magistério são a expressão de momentos históricos, para os quais a atualidade e o valor são inteiramente ultrapassados (...); no fundo da nova exegese há o repúdio à Tradição e ao Magistério. É um fundo antigo onde fermenta a famosa Klage und Bitte, de Lutero» (cf. SimSimNãoNão, n°10, out. de 1993, Bispos sem Fé)

Francesco Spadafora