o triunfo do Modernismo sobre a EXEGESE CATÓLICA

4 - o Enterro da Comissão Bíblica Pontifícia

 

Antiga e nova, ou católica e não católica?

A Comissão Bíblica Pontifícia cumpriu fielmente, durante muitos anos, sua dupla função de obstáculo e estímulo para a pesquisa científica sobre a Bíblia. Ela assegurou a unanimidade na verdade entre os exegetas católicos, assim como um aprofundamento científico no domínio dos estudos bíblicos capaz de se impor até aos não católicos. E isto até 1937. Foi então que, à unanimidade dos objetivos e ao trabalho frutuoso, sucederam a discórdia e a confusão que se cristalizaram na terminologia errada em uso: «velha e nova exegese». «exegetas conservadores e exegetas progressistas».

Na realidade, não se trata de exegese «nova», mas de exegese que não é mais católica e que é freqüentemente racionalista, tomada emprestada aos acatólicos e aos racionalistas. O fenômeno se reduz, de fato, à rejeição mais ou menos tácita das normas próprias da exegese católica e da autoridade do Magistério. Aqueles que gostam de se dizer «novos» exegetas, exegetas «progressistas», consideram como ultrapassadas as normas lembradas solenemente pela encíclica Providentissimus, de Leão XIII, confirmadas não menos solenemente por São Pio X, por Bento XV e assim por diante até João XXll,. em seu discurso no Instituto Bíblico Pontifício, e mesmo por Paulo VI.

É justamente para fazer respeitar essas normas que foi instituída a Comissão Bíblica Pontifícia, em 1902; é para aplicá-la na formação dos jovens padres, futuros professores de Sagrada Escritura nos seminários que, como veremos, foi fundado o Instituto Bíblico Pontifício, em 1907. Era a tarefa principal desta Comissão e deste instituto. E, é um fato, hoje os «progressistas» invocam uma e outra para sua proteção.

Falaremos mais tarde da traição do Instituto Bíblico. Por ora, sigamos as diversas etapas do enterro da Comissão Bíblica Pontifícia.

A tática das omissões e das ambigüidades

Do exame dos documentos à minha disposição - que são numerosos - resulta que o desvio, a «metamorfose» da Comissão Bíblica Pontifícia começou sob a prefeitura do cardeal Eugéne Tisserant, em 1937, mesmo se as manifestações deste triste fenômeno só apareçam claramente a partir de 1948.

Os decretos da Comissão Bíblica Pontifícia - já dei alguns exemplos a propósito dos Evangelhos - são todos de uma clareza cristalina. Falo daqueles que apareceram até 1937. A última tomada de posição clara, sob a assinatura de G. B. Frey, que condena a obra de Frédéric Schmidtke porque ela não leva em conta as normas que devem reger a exegese católica, data de 1934 (ver SimSimNãoNão, fevereirode 1995).

De 1937 a 1948 é o silêncio que domina, conquanto uma intervenção na Comissão Bíblica Pontifícia teria sido extremamente necessária. Um único exemplo, mas decisivo: conhecemos a tentativa dos progressistas de roubar a encíclica Divino Afflante Spiritu para sua bandeira, apresentando-a em nítida divergência e mesmo oposição à Providentissimus, de Leão XIII, e como a matriz de suas «novidades». Ora, a Comissão Bíblica Pontifícia não disse uma palavra sobre uma controvérsia tão fundamental. No entanto, ela engajava e engaja os próprios princípios da exegese católicas, os pontos nevrálgicos que concernem às principais verdades reveladas:

1°) A doutrina católica sobre a inspiração dos Livros Santos: Deus é o verdadeiro autor (literário) de toda a Sagrada Escritura (Concílio Vaticano I e documentos do Magistério).

2°) Inerrância absoluta dos textos sagrados, conseqüência imediata e direta da inspiração divina (Concílio Vaticano I e documentos do Magistério).

3°) Historicidade dos Evangelhos (ver documentação no meu estudo Origine apostólica e storicità degli Evangeli nella "Dei Verbum", em Palestra del Clero n° 15-16, outubro de 1972).

O primeiro ato importante da gestão do cardeal Tisserant aconteceu somente em 1948 e não foi feliz: a publicação da famosa carta da Comissão Bíblica Pontifícia ao cardeal Suhard, arcebispo de Paris. Ele foi o autor da carta pastoral Agonia da Igreja (1946), na qual, depois de ter descrito o fracasso da ação pastoral na França, doravante terra de missão, propunha «novas» idéias e «novos» métodos de apostolado. O cardeal Suhard pedia agora ao cardeal Tisserant a abolição dos dois decretos emitidos pela Comissão Bíblica Pontifícia para a defesa da autenticidade mosaica do Pentateuco (1906) e da historicidade dos primeiros capítulos do Gênesis (1909). Este último decreto estabelecia que «não se pode pôr em dúvida o sentido literal-histórico nos três primeiros capítulos do Gênesis, quando se trata de fatos que concernem aos fundamentos da religião cristã: a criação do universo a partir do nada, a criação particular do homem, a formação da primeira mulher a partir do primeiro homem, a transgressão do preceito divino diabolo sub serpentis specie suasore, a primeira promessa da salvação (proto-evangelho)».

A carta de resposta, escrita em francês, se estende em comprimento... em detrimento da clareza. Eis algumas expressões: «Convidamos os pesquisadores católicos a estudar esses problemas sem tomar partido, à luz de uma sã crítica e dos resultados das outras ciências... A questão das formas literárias dos onze primeiros capítulos do Gênese é muito mais obscura e complexa. Estas formas literárias não respondem a nenhuma de nossas categorias clássicas... Não se pode então negar nem afirmar a historicidade em bloco...»

Na compilação deste documento engenhou-se em inserir algumas frases de duplo sentido, ou ao menos de dupla interpretação. Os «progressistas» exultaram, e vão repetindo ainda hoje que esse documento nega todo valor ao decreto de 1909: reconhecendo - dizem eles - que não se pode falar de gênero histórico para os onze primeiros capítulos do Gênesis, deixando-se a maior liberdade de escolha aos exegetas. Estes podem então falar de «simples símbolo», de «mito» e assim por diante. Eles citavam e citam sempre (cf. Pierre Grelot, em La Pensée Catholique, nov-dez, de 1972, págs. 5 e segs.), como sua pretensa desculpa e mesmo proteção, a expressão seguinte da Divino Afflante Spiritu, de Pio XII:

«Dos modos de falar que a linguagem humana tinha costume de usar para exprimir o pensamento dos povos antigos, em particular Orientais, nenhum é excluído dos Livros Sagrados, contanto que o gênero empregado não repugne em nada nem à santidade nem à verdade de Deus

Citação feita, entretanto, com inteira má fé. Os progressistas, de fato, agarram-se corajosamente à... primeira metade do período e omitem o texto em negrito: «contanto que o gênero empregado não repugne em nada nem à santidade nem à verdade de Deus».

A condenação de Pio XII

Mas a jogada foi descoberta, ao menos em parte. Em 1950, Pio XII, na encíclica Humani Generis, condenou pessoalmente a interpretação modernista da Carta ao cardeal Suhard: «E em particular, devemos deplorar a maneira realmente livre demais de interpretar os livros históricos do Antigo Testamento, que são invocados erradamente para justificar a carta recente da Comissão Bíblica ao Arcebispo de Paris». E no seu comentário desta encíclica o cardeal Bea escrevia: «Desta carta [ao cardeal Suhard], voluntariamente prudente e ponderada [não teria sido melhor que ela fosse mais sóbria, mas clara e nítida?], muito se abusou; muitos a consideram como a "carta magna" de toda exegese livre, como um documento que legitimaria todas as opiniões, mesmo as mais extravagantes: "errado", diz o Santo Padre. Esta carta pedia a aprovação dos dois decretos de 1906 e de 1909 (caráter histórico dos três primeiros capítulos do Gênesis). A Comissão Bíblica Pontifícia afasta absolutamente esses pedidos. Quanto aos onze primeiros capítulos do Gênesis... a Comissão insiste sobre o fato de que se trata de "história" no sentido verdadeiro, mesmo que não seja o sentido histórico clássico ou moderno... A Comissão se dirige aos pesquisadores mais sérios e competentes, e não retira nada da autoridade das decisões e das normas promulgadas até agora sobre este assunto» (La Civiltà Cattolica 1950, págs. 41O-416; IV, págs. 417-430).

Tentativa de golpe

Notemos que o pedido de ab-rogação veio de Paris. A intenção subsistirá, apesar de tudo. Em 1954, numa dessas raras assembléias, deram aos eminentes membros da Comissão Bíblica Pontifícia um texto em que se propunha declarar ultrapassados os decretos emitidos até então pela mesma Comissão Bíblica. Era justamente a ordem do dia desta assembléia! Os eminentes cardeais membros, Mercati, Pizzardo e Ruffini afastaram a proposta que, por outro lado, recebeu o apoio do Prefeito, o cardeal Tisserant. A ab-rogação destes decretos, pontos seguros colocados pela Igreja como guias de exegese católica, teria significado o caminho livre aos «progressistas», que teriam prosseguido seus desígnios, estando protegidos oficialmente, livres de todo respeito, mesmo puramente formal, para com o Magistério da Igreja. Isto teria vindo apagar de uma só vez a obra de Leão XIII, de São Pio X e de seus sucessores, seus esforços para defender a Sagrada Escritura da dissolução dos modernistas e dos racionalistas em geral. A oposição de suas eminências os cardeais Ruffini e Pizzardo, fez fracassar esta tentativa.

O expediente

Não tendo obtido a ab-rogação dos decretos pelos eminentes membros, recorreu-se a um expediente típico: dois artigos apareceram simultaneamente, um em alemão com a assinatura de A. Miller, secretário da Comissão Bíblica Pontifícia, e outro em latim assinado por A. Kleinhans, subsecretário da mesma Comissão (Os dois artigos foram publicados respectivamente em Benedictin Monatschrift 31, 1955, págs. 49 e segs., e em Antonianum 30, 1955, págs. 63 e segs.). Os dois artigos diziam as mesmas coisas com as mesmas expressões, e dados os cargos ocupados por seus autores, é evidente que seu fim era fazer avaliar o conteúdo pela autoridade da Comissão Bíblica Pontifícia, mesmo tendo ela se pronunciado num sentido exatamente oposto. De fato, nos dois artigos falava-se no interesse «histórico» dos decretos emitidos pela Comissão Bíblica Pontifícia: «Hoje é muito difícil fazer-se uma idéia exata da situação em que se achavam os pensadores católicos na virada do século; é difícil representar o perigo em que se achava então a doutrina católica sobre a Escritura e a inspiração, no momento em que a onda de crítica liberal e racionalista ameaçava abater todas as barreiras de tradições que se tinham mantido até ai como sagradas. Hoje, que o combate apaziguou consideravelmente [?], que muitos problemas se apresentam sob um aspecto inteiramente novo [?], é muito fácil sorrir da "contrariedade" e da "estreiteza" [sic] que então reinava».

«Enfim, o Secretário e o Sub-secretário da Comissão Bíblica nos convidam a distinguir os tempos - escrevia então Dupont - tenhamos a eqüidade de compreender no seu contexto histórico as medidas tomadas pelo Magistério há cinqüenta anos (...) As circunstâncias de cinqüenta anos atrás não eram as de hoje, e as de hoje não são mais as que eram antes (Revue Biblique, julho de 1955, págs, 414-419).

Além disso, Miller e Kleinhans diziam: «Na medida em que esses decretos (da Comissão Bíblica) sustentam maneiras de ver que não têm nenhuma relação, nem mediata nem imediata, com as verdades da fé e dos costumes, o exegeta pode com toda liberdade prosseguir suas pesquisas e fazer valer seus resultados, sempre sob reserva, é claro, da autoridade do Magistério eclesiástico».

Esta distinção estava em oposição com a doutrina definida por São Pio X e reafirmada por Bento XV e Pio XI, concernindo à autoridade dos decretos da Comissão Bíblica Pontifícia, doutrina até agora comum entre os exegetas católicos: todos os decretos da Comissão Bíblica Pontifícia, sem distinção, têm valor de mandamento, obrigam em consciência; se o exegeta tem graves dificuldades, deve submete-Ias à própria Comissão. (ver São Pio X, Motu Proprio Praestantia Scripturae Sacrae, 1811-1907, E. B. no. 271; Bento XV, E. B. no. 474; Pio X, E. B. no. 516; Acta Apostolicae Sedis 26, 1934, págs. 131 e segs.)

A distinção introduzida por Miller e Kleinhans permitia a Dupont escrever: «Consideram-se então dois tipos de decisões. Pode ser que uma decisão esteja em relação com a fé e os costumes; na própria medida desta relação, ela guarda naturalmente todo seu valor e fica obrigatória. Mas quase sempre as decisões da Comissão Bíblica, pela própria natureza de seu objetivo, não têm nenhuma relação com a fé e os costumes: a Comissão geralmente intervém sobre questões de ordem crítica ou histórica».

O leitor que tem presente no espírito os decretos da Comissão Bíblica Pontifícia sobre a autenticidade e a historicidade dos Evangelhos, decretos que citei no número anterior, pode bem compreender a gravidade da manobra que procura obter, por outros meios, o que os membros da Comissão Bíblica Pontifícia tinham se recusado a ratificar, a saber, a autorização para os exegetas católicos considerarem ultrapassados todos os decretos emitidos pela referida Comissão até o momento.

A torre de Babel

A maior parte dos exegetas católicos continuou a seguir e a propor a doutrina comum sobre a autoridade dos decretos emitidos pela Comissão Bíblica Pontifícia, considerando, com razão, os artigos de Miller e Kleinhans como a expressão do ponto de vista de duas pessoas privadas (Cf. a 6a. edição de Introductio Generalis, do padre H. Höpfl, a cargo do confrade do autor e do padre Miller, dom L. Leloir, Nápoles-Roma 1958, págs. 487-488, os dois artigos de Miller e Kleinhans mencionados são completamente ignorados, e a doutrina fixada por São Pio X que é apresentada para definir a autoridade dos decretos da Comissão Bíblica Pontifícia; ver também todas as outras introduções gerais). Os participantes da «nova» exegese, entretanto, saudaram os artigos de Miller e Kleinhans como o enterro implícito dos decretos da Comissão Bíblica Pontifícia (por exemplo, E. Vogt em Bíblica 36, 1955, págs. 564 e segs.; J. Dupont em Revue Biblique citada), e consideram como autorizada no domínio católico a Babel que deu seus frutos envenenados atuais. E hoje, de fato, quantos vemos que, difundindo o criticismo (que atualmente se chama «método da história das formas»), se consideram livres para afirmar teses, posições em nítida oposição com os decretos da Comissão Bíblica Pontifícia sobre os Evangelhos, uma vez que esses decretos foram conservados sem nenhuma reserva na segunda, terceira e quarta edições do Enchiridion Biblicum, que é a única publicação oficial desta Comissão.

Assim, por exemplo, Xavier Léon Dufour, escrevendo pouco tempo depois do Concílio Vaticano II sobre a historicidade dos Evangelhos, declarava sem valor os decretos publicados sobre o assunto com a maior precisão e clareza pela Comissão Bíblica Pontifícia.

O plano

Em face a uma tal confusão, a Comissão Bíblica Pontifícia sempre se calou. Ela nunca interveio, mesmo quando se tratava de livros que a concerniam particularmente como, por exemplo La Vie de Jésus, de J. Steinmann (com imprimatur do bispado de Paris, louvores do padre Benoit na Revue Biblique, mas posta no index pela Sagrada Congregação do Santo Ofício da época) e a Introduction à la Bible, de Robert-Feuillet, que deveria ter sido condenado (pelo menos o 1° volume publicado em Paris em 1957), e que deve sua existência somente às pressões do cardeal Bea, que quis evitar sua condenação porque - todo mundo sabia - ela «saía» do Instituto Bíblico Pontifício.

Ao contrário, o cardeal Tisserant e o último de seus secretários, o padre Wambacq, tomaram mesmo sua defesa! (para a condenação de La Vie de Jésus, de Steinmann, ver Osservatore Romano de 2S-6-1961, pág. 1). Estes fatos mostram um objetivo bem preciso e perseguido desde muito tempo: impor, em nome da Comissão Bíblica Pontifícia, o «novo» caminho do criticismo.

Na minha crítica à Introduction à la Bible, já citada, escrevi: «Introduction que, seja-nos permitido dizer, revela suficientemente a fisionomia e os desejos dessa pretensa escola francesa, que (salvo julgamento melhor) só faz retomar e recopiar as tentativas feitas. no passado, desses mesmos meios, condenados por Leão XIII. São Pio X; Bento XV e pela própria Comissão Bíblica Pontifícia sob Pio XII.

Isto pareceria quase uma revanche contra a obra desses venerandos Pontífices. De fato, posições idênticas que tinham sido condenadas, foram adaptadas em alguns pontos ao criticismo prudente atualmente em voga e apresentadas como aquisições definitivas da exegese "cientifica ", da "crítica" histórica e literária» (Palestra del Clero, 9-5-1960).

Uma confirmação insuspeita da e insuspeitável

Do que foi exposto aqui, temos a confirmação insuspeitada e insuspeitável por Pierre Grelot, na revista Études, de janeiro de 1966. Depois de haver feito alusão a seu modo, à debandada no domínio exegético e às inquietações de João XXIII, ele continua assim: «Coisa paradoxal, a atividade da Comissão Biblica parecia dormir, quando ela deveria ter se ocupado destas questões fervilhantes que eram de sua alçada: ela não sabia? Ou outros se ocupavam por ela? Ou então, talvez, a orientação dada por seu presidente (o cardeal Tisserant) e seu secretário (Don A.Miller O.S.B.) não foram divididas entre a maioria de seus membros?» (Etudes, janeiro de 1966, págs. 99-113; La constitution sur la Révélation - I - La préparation d'un schéma conciliaire).

É visível, de qualquer modo, que o silêncio, durante mais de vinte anos, da Comissão Bíblica Pontifícia, contribuiu de modo decisivo, primeiro à afirmação em seguida à confirmação, mesmo depois da arrumação de Humani Generis, de orientações que aparecem em nítida oposição com as diretivas do Magistério e da doutrina católica. Mas não houve só silencio. Demonstramos que houve também atos, intervenções, mesmo que não fossem oficiais, a favor da rebelião neomodernista no domínio bíblico. Assim, progressivamente e trabalhando no interior, graças a estas omissões, ambigüidades e um favor oficioso para com a «nova» exegese, os modernistas eliminaram a Comissão Bíblica Pontifícia, um dos baluartes erigidos pelos Pontífices Romanos para a defesa da ortodoxia.

Francisco Spadafora