o triunfo do modernismo sobre a EXEGESE CATÓLICA

3 - A COMISSÃO BÍBLICA PONTIFICAL, UMA BARREIRA AO MODERNISMO
NOS ESTUDOS BÍBLICOS

 

Para que os princípios dogmáticos lembrados na Providentissimus Dei fossem fielmente respeitados pelos exegetas católicos, Leão XIII instituiu a Comissão Bíblica Pontifical pela carta apostólica Vigilantiae, de 30 de outubro de 1902 (E.B. [Enchiridion Biblicum] no. 137-14S). Desde o início, o Santo Padre sublinha que o que está em jogo é a integridade do «depositum fidei».

 «Lembrando-nos da vigilância e do zelo com que Nós devemos, em razão de nosso cargo e bem mais que os outros, guardar intacto o depósito da fé, publicamos no ano de 1893 Nossa Carta Encíclica Providentissimus Dei [...]. Mas para que o efeito desejado seja obtido com mais facilidade e abundância, Nós resolvemos acrescentar à Nossa autoridade um novo apoio».

O «novo apoio» era justamente a Comissão Bíblica Pontifical para a qual Leão XIII fixou as finalidades práticas seguintes:

1) Guardar a verdade da Fé no domínio dos estudos bíblicos.

2) Promover com a competência conveniente o progresso da exegese católica (em particular pelos estudos filológicos e das disciplinas anexas, o conhecimento das línguas orientais da antiguidade, etc).

3) Decidir por seu próprio julgamento as controvérsias particularmente graves entre os pesquisadores católicos. [1]

A «excessiva estima» pelos protestantes e o desprezo do Magistério da Igreja

Leão XIII parece perfeitamente consciente das emboscadas que desde este momento já ameaçavam a exegese católica. De fato, ele pede aos exegetas católicos «que se esforcem para jamais deixar prevalecer a opinião e o método, certamente repreensíveis, que consistem em concordar demasiadamente com as opiniões dos heterodoxos, como se o verdadeiro sentido das Escrituras devesse ser procurado em primeiro lugar nas construções da erudição estrangeira [ou diretamente nos próprios heterodoxos]. De fato, nenhum católico pode considerar duvidoso o que Nós lembramos em outro lugar: Deus não deixou as Sagradas Escrituras ao julgamento pessoal dos estudiosos, mas confiou a interpretação ao magistério da Igreja: nas coisas da fé e dos costumes que se prendem ao corpo da doutrina cristã, deve ser visto como verdadeiro sentido das Sagradas Escrituras aquele que adotou e que mantém Nossa Santa Madre Igreja, à qual pertence julgar o verdadeiro sentido e a interpretação das Sagradas Escrituras; além disso, a ninguém é permitido interpretar a Sagrada Escritura de modo contrário a este sentido, nem de encontro ao sentimento unânime dos Padres (Concílio Vaticano I, sessão III, cap.II, De Revelatione)... enfim, o sentido legítimo do divina Escritura não pode ser encontrado em nenhum lugar fora da Igreja, nem ser dado por aqueles que rejeitaram seu magistério e sua autoridade.

Se os membros da Comissão Bíblica Pontifical encontram, então, «alguns espíritos professando uma admiração excessiva pelos heterodoxos», pela persuasão eles os levarão a seguir e escutar fielmente o ensinamento da Igreja, e se o estudo obriga ao contato com obras de autores não católicos, «a prudência e o discernimento são necessários [...] mas que eles cuidem de não tomar, com a leitura habitual destes escritores, a temeridade do julgamento (intemperantiam iudicii)».

As três velhas «novidades» da exegese «cientifica» de hoje

A Comissão Bíblica Pontifical cumpriu fielmente seu papel, emitindo, entre 1905 e 1934, entre outras, dezoito decisões sob forma de perguntas e respostas. Para o tema tratado aqui, narrarei as intervenções sobre os Evangelhos. O leitor poderá constatar por ele mesmo a desordem realizada pela exegese neomodemista hoje reinante. Considere-se, em particular, os elementos apresentados de modo conciso na pergunta e que justifica o «sim» ou o «não» da resposta. Acharemos aí a condenação e a refutação, há quase um século, dos erros que hoje são difundidos até nas páginas do mais modesto boletim católico e que se passa como a última aquisição da exegese «científica».

Evangelho de São João: autor e historicidade

A seguinte decisão da Comissão Bíblica Pontifical sobre o autor do quarto evangelho é datada de 29 de maio de 1907:

«Dúvida l. A tradição constante, universal e solene da Igreja, desde o século 11, tal como ressalta principalmente:

a) do testemunho e alusões dos Santos Padres, escritores eclesiásticos e mesmo heréticos: testemunhos e alusões que, só podendo vir dos discípulos ou dos primeiros sucessores dos Apóstolos, estão em conexão necessária com a própria origem do livro.

b) da admissão em todo tempo e em todo lugar, do nome do autor do quarto Evangelho no Cânon e nos catálogos dos Livros Sagrados.

c) Dos mais antigos manuscritos desses mesmos livros e de suas antigas versões em línguas diversas.

d) Do uso litúrgico público universalmente difundido desde a origem da Igreja; esta tradição constitui, abstração feita da prova teológica, uma demonstração histórica que o apóstolo João e não um outro, deve ser tomado como autor do quarto Evangelho, demonstração bastante sólida para que não seja anulada pelas razões que os críticos alegam contra?

Resposta: Sim.

Dúvida II. As razões internas que se tiram do texto do quarto Evangelho considerado separadamente, do testemunho do autor e da visível semelhança deste Evangelho com a primeira Epístola do apóstolo João, devem ser consideradas como confirmação da tradição que atribui com toda certeza a este mesmo apóstolo o quarto Evangelho? Além disso, as dificuldades que provêem da comparação deste Evangelho com os três outros podem, visto a diversidade de tempo, de finalidade, dos ouvintes por quem ou contra quem o autor escreveu, se resolvem racionalmente como fizeram em diversos lugares, os Santos Padres e os exegetas católicos?

Resposta: Sim, sobre os dois pontos.

Dúvida III. Não obstante a prática constante, em vigor desde os primeiros tempos, em todo a Igreja, de classificar o quarto Evangelho como um documento propriamente histórico, entretanto, em razão do caráter particular deste Evangelho e da intenção manifesta do autor de realçar e defender a divindade de Cristo por meio dos próprios atos e dos discursos do Senhor, não podemos dizer que os fatos narrados no quarto Evangelho foram inventados no todo ou em parte, em forma de alegorias ou de símbolos doutrinais, e que os discursos não são própria e verdadeiramente aqueles do próprio Senhor, mas de composições teológicas do escritor, só que colocados na boca do Senhor?

Resposta: Não.

(E,B. n° 187-189) - «Documents Pontificaux de Sa Sainteté Saint Pie X», Tomo I pág. 848 (publicações de Courrier de Rome).

A Confirmação da Arqueologia

Contra a atividade de demolição do criticismo, a Comissão Bíblica Pontifical reafirmou assim a «tradição constante, universal e solene da Igreja» no que toca ao autor do quarto Evangelho e a historicidade dos fatos que este Evangelho narra fielmente. A Providência quis também dar aos tempos modernos uma confirmação científica da tradição católica. No Dizionario Biblico que dirigi, o padre Luigi Moraldi escreveu: «O apóstolo São João escreveu o Quarto Evangelho. A tradição desde a época pós-apostólica [imediatamente depois dos Apóstolos] o reconhece explicitamente ... e é o testemunho unânime e muito antigo de toda a Igreja ... Da tradição, há agora a confirmação mais clara no papiro Rylands 457 [fim do século I depois de Cristo] contendo Jo 18,31-37 e segs. [ ... ] e no papiro Eyerton 2 [primeira parte do século II depois de Cristo] que reagrupa fragmentos dos quatro Evangelhos e versículos 5,39-45; 7-30 (44?); 8,59; 9,29: 10,31 (39?) do Evangelho de São João; eles demonstram que, pelo ano 100, o Evangelho de São João já era conhecido no Egito e aceito pela mesma razão que os Evangelhos sinópticos [Mateus, Marcos, Lucas] [2]. Aliás, sobre o autor e a historicidade do quarto Evangelho, os exegetas católicos foram unânimes, até a virada neomodernista, como atestam diversos comentários e introduções do Evangelho de São João (3).

Evangelho de São Mateus: autor, historicidade, data de composição e língua

Em 19 de junho de 1911, a Comissão Bíblica Pontifical interveio com sete respostas sobre o Evangelho de São Mateus:

«I - Dado o sentimento universal e constante da Igreja desde os primeiros séculos, abundantemente manifestado pelos testemunhos formais dos Padres, pelos títulos dos manuscritos dos evangelhos, pelas versões, mesmo as mais antigas, dos Livros Sagrados, pelos catálogos que nos transmitiram os Santos Padres, os escritores eclesiásticos, os Soberanos Pontífices e os Concílios, enfim pelo uso litúrgico da Igreja oriental e ocidental, pode-se e deve-se afirmar que Mateus, apóstolo de Cristo, é realmente o autor do Evangelho publicado sob seu nome?

Resposta: Sim.

II - Deve-se considerar como suficientemente fundada na tradição a opinião de que Mateus escreveu este Evangelho antes dos outros, e compôs o primeiro evangelho na língua nacional então empregada pelos judeus da Palestina, aos quais essa obra foi destinada?

Resposta: Sim, sobre os dois pontos.

III - Pode-se retardar a redação deste texto para depois da época da destruição de Jerusalém, de modo que as profecias que aí se lêem sobre esta destruição teriam sido escritas depois do acontecimento? Ou o testemunho habitualmente invocado de lrineu (Adv. Haer., III, 1,2), cujo sentido é duvidoso e controvertido, deve ser visto como de importância suficiente para obrigar a rejeitar a opinião daqueles que estimam mais conforme à tradição de datar esta redação como anterior à vinda de Paulo a Roma?

Resposta: Não, sobre os dois pontos.

IV - Pode-se sustentar, mesmo como simplesmente provável, a opinião de alguns modernos para quem Mateus teria composto, não propriamente dito e absolutamente o Evangelho, tal como nos chegou, mas somente uma espécie de coleção de palavras ou discursos de Cristo, utilizado como fonte para um outro autor anônimo que eles consideram o verdadeiro redator do Evangelho?

Resposta: Não.

V - Do fato de que os Padres e todos os escritores eclesiásticos e também a própria Igreja desde seu começo, empregaram unicamente como texto canônico o texto grego do Evangelho conhecido sob o nome de Mateus, sem excluir os que afirmaram expressamente que o apóstolo Mateus tinha escrito na sua língua nacional, pode-se tirar uma prova certa de que o evangelho grego é idêntico, substancialmente, ao evangelho que o próprio apóstolo havia escrito na sua língua nacional?

Resposta: Sim.

VI - Do fato de que o autor persegue um fim principalmente dogmático e apologético para demonstrar aos judeus que Jesus é o Messias predito pelos profetas e descendente da raça de David e que, além disso, ele não segue a ordem cronológica na colocação dos fatos e das palavras que conta e narra, podemos concluir que estes fatos e palavras não são para ser vistos como reais? Ou ainda pode-se afirmar que os textos dos atos e dos discursos de Cristo que se lêem neste evangelho foram modificados e adaptados sob a influência dos profetas do Antigo Testamento e, portanto, não estão conforme à verdade histórica?

Resposta: Não, sobre os dois pontos.

VII - Deve-se ver, especialmente, como desprovidas de base sólida as opiniões daqueles que põem em dúvida a autenticidade histórica dos dois primeiros capítulos onde é dada a genealogia e narrada a infância de Cristo, e também algumas sentenças de importância considerável, como as que concernem ao primado de Pedro (Mt XVI,17-19), a fórmula do batismo e a missão confiada aos Apóstolos de pregar a todas as nações (Mt XXVIII,19-20), e outras palavras do mesmo gênero que são narradas de um modo particular em Mateus?

Resposta: Sim.»

(E.B. N° 383-389). Documents Pontificaux de Sa Sainteté Saint Pie X, Tomo 2, págs. 674-675, publicações de Courrier de Rome. O decreto é ratificado, como o precedente, por São Pio X, e como o precedente, é assinado pelos padres F. Vigouroux e L. Janssens, secretários da Comissão Bíblica Pontifical.

A Confirmação Científica

A confirmação científica veio recentemente, de três pesquisadores que não temeram ir contra a corrente. Trata-se de um anglicano, J .A. R. Robinson, e de dois católicos, C. Tresmontant e o padre Jean Carmignac. Robinson trabalhou com um método unicamente histórico, e Carmignac com um método principalmente filológico, mas às vezes igualmente histórico. Todos os três chegaram cientificamente a conclusões quase idênticas: os Evangelhos foram escritos antes dos anos 60 a 70 de nossa era, e seu valor histórico é de primeira ordem.

Eis o que Tresmontant escreve sobre o Evangelho de São Mateus:

«O Evangelho de Mateus é uma tradução em língua grega de documentos inicialmente redigidos em língua hebraica; esta tradução é muito antiga, não data do fim do século I, como dizem hoje (1983) os componentes da maioria reinante em exegese. Todos os sinais, todo o caráter, todos os indícios desta tradução que chamamos o Evangelho de Mateus nos levam a um período muito arcaico, logo após os acontecimentos dos anos 39, e antes da passagem do feliz Anúncio aos pagãos, aos incircuncisos, então antes de 36-40. Nada permite a suposição de uma composição tardia, jogada ao fim do século I, nada, nem um texto, nem um começo de texto, nem uma vírgula. A afirmação segundo a qual o Evangelho de Mateus seria uma composição tardia, pelo fim do primeiro século é, portanto, uma afirmação totalmente arbitrária. Ela não tem a seu favor senão a força da opinião da maioria reinante, opinião baseada apenas sobre si mesma. É uma pura petição de princípio: a maioria atual dos exegetas pensa que é assim, então eu faço como eles. Penso como a maioria» [4].

Por maioria, é preciso entender aquela que pensa e escreve sob a influência da «estima excessiva pelos heterodoxos» e exatamente sob a influência do criticismo protestante (Formgeschichte e Redaktiongeschichte), porque a datação dos evangelhos sinópticos antes de 70 depois de Cristo e a língua aramenha ou hebraica como língua original dos Evangelhos de São Mateus, são de «tradição constante, universal e solene» da Igreja, protegida contra o modernismo pela Comissão Bíblica Pontifical e ao mesmo tempo seguida e ilustrada pelos exegetas fiéis à luz que vem da Tradição católica e do Magistério da Igreja (5), Em 1982, fazendo-me eco do julgamento dos Padres, eis o que escrevi em minha obra, La Chiesa di Cristo e la formazione degli Apostoli (A Igreja de Cristo e a formação dos Apóstolos), ed. Rogate, Roma:

 «O primeiro a escrever o Evangelho foi o apóstolo Mateus... Antes de deixar a Palestina junto com os outros (Apóstolos) para pregar, ele deu a seus fiéis seu precioso Evangelho escrito em sua língua, o aramaico. Ora, a partida dos Apóstolos da Palestina para a conversão dos gentios parece ligada ao sinal dado pelo Céu: a famosa visão dos animais impuros, que São Pedro teve em Jope; sinal divino para o batismo do primeiro pagão, o centurião Cornélio e de toda sua família (Atos X, 11). Além disso, a partir dos Atos, pode-se deduzir seguramente que em 42 depois de Cristo, por ocasião da perseguição de Herodes Agripa I, nenhum apóstolo se achava mais em Jerusalém e na Palestina, quando Tiago foi morto ... e que Pedro, depois de ter sido jogado na prisão e liberado pelo Anjo, deixa também a Palestina. O primeiro Evangelho foi, portanto, escrito por volta do ano 40 depois de Cristo, dez anos apenas depois da morte do Redentor.

Logo se pensou em traduzi-lo para a língua grega, língua oficial do império, para os próprios judeus que moravam fora da Palestina e que somente conheciam o grego. Quando São Paulo, em 50-51 depois de Cristo, escreveu de Corinto suas duas epístolas aos Tessalonissences, a tradução para o grego do Evangelho de Mateus já estava feita; estas epístolas dependem dela literariamente, em particular a segunda.

O autor dos Atos e do terceiro Evangelho é São Lucas ... Ora, os Atos não passam do ano 63 depois de Cristo; eles não fazem alusão à liberação de Paulo pelo tribunal de César, acontecida neste ano. O terceiro Evangelho, que é anterior, como é dito no prólogo dos Atos, foi composto por Lucas durante a prisão de São Paulo em Cesaréia. Esta é uma referência para a datação do segundo Evangelho: Marcos narrou a pregação de Pedro em 50-55; São Lucas, de fato, muitas vezes o segue e depende dele» (pgs.317 e segs.).

Evangelhos de Marcos e Lucas: autores, data de composição, verdade histórica.

A 26 de junho de 1912, a Comissão Bíblica Pontifical interveio para os Evangelhos de São Marcos e São Lucas:

«1 - O testemunho tão nítido da tradição, maravilhosamente concordante e apoiado em provas múltiplas desde o começo da Igreja - a saber, as declarações formais dos santos Padres e de escritores eclesiásticos, as citações e alusões que se acham em seus escritos, o emprego feito pelos heréticos dos primeiros séculos, as versões dos livros do Novo Testamento, e imensa maioria dos manuscritos mais antigos, e também os argumentos intrínsecos tirados do próprio texto dos livros sagrados - obriga a afirmar com certeza que Marcos, discípulo e intérprete de Pedro, e que o médico Lucas, auxiliar e companheiro de Paulo, são os autores dos evangelhos que lhe são atribuídos?

Resposta: Sim.

2 - As razões levantadas por muitos críticos para provar que os doze últimos versículos do evangelho de Marcos (Mc XV1, 9-20) não foram escritos por ele, mas que foram acrescentados por outra mão, são tais que dão o direito de afirmar que estes versículos não devem ser tidos como inspirados e canônicos? Ou ao menos, que provam que Marcos não é o autor?

Resposta: Não, sobre os dois pontos.

3 - Igualmente, pode-se duvidar da inspiração e da canonicidade dos textos de Lucas sobre a infância de Cristo (Lc 1-2) ou da aparição do anjo que confortou Jesus, e do suor de sangue (Lc XXII 42 e segs.)? Ou pode-se provar por argumentos pelo menos sólidos - segundo uma opinião cara a heréticos antigos e em voga em alguns críticos modernos - que estes mesmos textos não pertencem ao evangelho primitivo de Lucas?

Resposta: Não, sobre os dois pontos.

4 - Os documentos poucos numerosos e de caráter bastante peculiar, onde o canto do Magnificat é atribuído não à bem-aventurada Virgem Maria, mas a Isabel, podem e devem prevalecer contra o testemunho concordante de quase todos os manuscritos, tanto do texto grego original quanto das versões, e também contra as interpretações que exigem para este cântico não somente o contexto, mas ainda o estado de alma da própria Virgem e a tradição constante da Igreja?

Resposta: Não.

5 - Pode-se, quanto à ordem cronológica dos evangelhos, afastar-se da opinião fundada sobre o testemunho às vezes muito antigo e constante da tradição, seguindo Mateus, o primeiro que escreveu um evangelho na língua de seu país, vem na ordem de composição, Marcos em segundo lugar e Lucas em terceiro? Ou deve-se ter por oposto a este sentimento a opinião daqueles que afirmam que o segundo e o terceiro evangelhos foram compostos antes que se tenha feito a versão grega do primeiro evangelho?

Resposta: Não, sobre os dois pontos.

6 - É permitido recuar a época de composição dos evangelhos de Marcos e de Lucas para depois da ruína da cidade de Jerusalém? Ou, do fato de que em Lucas, a profecia do Senhor falando da ruína desta cidade parece mais circunstanciada, pode-se sustentar que ao menos seu evangelho foi composto com o cerco já começado?

Resposta: Não, sobre os dois pontos.

7 - Deve-se afirmar que o evangelho de Lucas é anterior ao livro dos Atos dos Apóstolos (At. I, 1 e segs.); e porque este livro, que tem por autor o próprio Lucas, foi terminado cerca do fim do cativeiro do apóstolo em Roma (At XXVIII, 30 e segs.), deve-se afirmar que o evangelho de Lucas não foi composto posteriormente a esta época?

Resposta: Sim

8 - Levando-se em conta, de um lado, o testemunho da tradição e, por outro, os critérios internos relativos às fontes que alimentaram cada evangelista para compor seu evangelho, pode-se prudentemente pôr em dúvida a opinião de que Marcos escreveu segundo a pregação de Pedro, e Lucas segundo a de Paulo, tendo estes evangelistas tido à sua frente outras fontes dignas de fé, sejam orais ou mesmo já consignadas por escrito?

Reposta: Não.

9 - Os discursos e os fatos que são narrados por Marcos, segundo a pregação de Pedro, com cuidado e como que naturalmente, e que são expostos com uma perfeita lealdade por Lucas, "que se aplicou a conhecer exatamente todas as coisas desde o começo", informando-se com testemunhas dignas de fé, porque "desde o começo eles foram testemunhas oculares e ministros da palavra" (Lc. I, 2 e segs.) merecem toda a confiança que a Igreja lhes deu sempre? Ou então, pelo contrário, deve-se recusar a estes fatos e gestos um valor histórico, ao menos parcialmente, seja porque aqueles que os narram não foram testemunhas oculares, seja porque, com muita freqüência, se encontra em um ou outro destes evangelistas uma falta de ordem e um desacordo no seguimento dos fatos; seja porque, tendo vindo e escrito tardiamente, eles devem ter narrado certamente concepções estranhas ao pensamento de Cristo e dos Apóstolos ou dos fatos já mais ou menos alterados pela imaginação popular; seja, enfim, porque eles obedeceram, cada um tendo em vista seu próprio fim, a idéias dogmáticas preconcebidas?

Resposta: Sim para a primeira parte. Não para a segunda.

(E.B.n° 390-398). Documents Pontificaux de Sa Sainteté Saint Pie X, Tomo 2 págs. 676-677, publicações de Courrier de Rome.

A confirmação da arqueologia

A confirmação científica desejada pela Providência para este século doente de racionalismo veio, desta vez, do fragmento de papiro achado na sétima gruta de Qumran (7Q5), decifrado pelo jesuíta espanhol O'Callaghan, É um fragmento do Evangelho de São Marcos e exatamente dos versículos 52-53 do capítulo VI (ver SimSimNãoNão, no. 5, maio de 1993, com ilustração fotográfica; igualmente, 30 Dias de junho de 1991 e Il Sabato de 25 de maio, 1 e 15 de junho de 1991), datado pelos especialistas por voltado ano 50 depois de Cristo. Sem dúvida, este fragmento foi escrito antes de 68, porque neste ano as grutas de Qumram foram seladas pelos habitantes deste lugar, em fuga diante das tropas de Vespasiano que marchavam sobre Jerusalém. 7Q5 é então a confirmação científica do que os Padres e o Magistério da Igreja atestam e que os historiadores e os exegetas católicos provaram sobre a data da composição dos Evangelhos, sua autenticidade e seu valor histórico de primeira ordem (ver todos os grandes exegetas católicos nas coleções citadas acima, de Lagrange a Vaccari; O Evangelho de São Marcos, do Pe. Francesco M. Uricchio - Padre Gaetano M. Stano dos Irmãos Menores Conventuais, Marietti, ed. Turim, Roma 1966, e o ensaio filológico, em particular para Mc. III, 20-21 de F. Spadafora em Saggi di critica ed esegesi biblica, [Ensaio de crítica e exegese bíblica], Lateranum, Roma 1962, págs. 139-201). O cardeal Martini, admirador da «nova exegese», foi forçado a admitir que «No pequeno fragmento estaria contida uma excepcional confirmação documentária do que a Igreja ensinou de modo ininterrupto durante dezenove séculos» (30 Dias de junho de 1991; SimSimNãoNão de maio de 1993). Frase na qual o condicional relativo a 7Q5 («estaria») não tira nada da força de reconhecimento do que «a Igreja ensinou de modo ininterrupto durante dezenove séculos», porque este reconhecimento basta a um católico, mesmo sem confirmações científicas, sendo a Igreja infalível no seu ensinamento tradicional.

Francesco Spadafora

[I] A comissão «para a promoção dos estudos bíblicos» era composta de cardeais da Santa Igreja Romana, assistidos por «pesquisadores renomados, preparados em santa teologia e sobretudo nos estudos bíblicos», com o título e a tarefa de consultores. Os primeiros membros escolhidos por Leão XIII foram cinco [sob a presidência do cardeal Parochi) e quarenta consultores entre os quais F. Vigouroux, sulpiciano, e D. Fleming O.F.M. [Ver F. Spadafora - Dizionario Biblico - palavra Comissão Bíblica).

[2] Conforme M.J.Lagrange O.P. em «Revue Biblique 45»,1936, págs. 269-272; A. Merk S.J. em «Biblica 27», 1936, págs. 99 e segs.

[3] Ver M. J. Lagrange, Évangile selon Saint Jean, VII edição, Paris 1948 e Le réalisme historique de l'Évangile selon Saint Jean, in Revue Biblique 46, 1937 págs. 321-341; A. Durand na coleção Verbum Salutis, Paris 1927; F. M. Braun O.P. Évangile selon Saint Jean, Paris 1950, 3a. edição; La Sainte Bible, dirigée par L. Pirot e A. Clamer; Alberto Vaccari S,J. La S. Bibbia, Florença 1961, págs. 1921-1973. Para citar apenas as obras mais acessíveis aos leitores.

[4] J. A. R. Robinson, Redating The New Testament, Londres 1976; ver a recensão favorável do Pe. Benoit na Revue Biblique 1979, págs. 281-287, que reconhece em Robinson uma «probidade científica»; Cl. Tresmontant, Le Christ Hébreu, La langue et l'âge des Évangiles Synoptiques, Paris, O.E.I.L., 1984. Para mais detalhes, ver meu artigo em Palestra dei Clero, 15 de fevereiro de 1986 e meu artigo em Si Si No No de 15 de maio de 1985: La data di composizione degli Evangili [A data de composição dos Evangelhos].

[5] Ver o grande volume que o padre M. J. Lagrange consagra ao Evangelho de São Mateus na coleção Études Bibliques, 4a. edição, Paris 1927 e outras coleções, até o Pe. Vaccari, 1961 págs. 1763-1836. Cf. Pe. Giuseppe Turbessi, verbete Matteo, no Dizionario Biblico, 1963, págs. 406 e segs.