o triunfo do modernismo sobre a EXEGESE CATÓLICA
1 - Como em Roma não se defende mais o "DEPÓSITO DA FÉ"
No artigo precedente, mostramos como em Roma, inclusive no domínio da exegese católica, alguns «pensam que venceram». Vitória aparente, efêmera, como nos assegura a promessa divina «Non praevalebunt» , mas vitória que no presente tem repercussões devastadoras sobre toda a vida da Igreja, da teologia à catequese, e ameaça demolir e desenraizar a fé nas almas dos clérigos e até dos simples fiéis. Basta lançar um olhar sobre as heresias propagadas sobre a Sagrada Escritura, até nos mais modestos boletins paroquiais.
De São Pio X até 1960 muito tempo passou, durante o qual a Igreja parecia haver triunfado sobre o assalto da heresia moderna. Na realidade, as forças do mal estavam escondidas na sombra e preparavam a explosão da crise modernista no concílio pastoral Vaticano II. «Os modernistas - havia advertido o próprio Pio X - mesmo depois da encíclica Pascendi Dominici Gregis, tinham tirado a máscara. não escondendo seus desejos de atrapalhar a paz na Igreja. De fato. eles não cessaram de procurar agrupar novos adeptos» (Motu Proprio Sacrorum Antistitum, de 1 de setembro de 1910).
Já antes do último Concílio, sintomas alarmantes de um renascimento modernista começavam a aparecer aqui e ali no domínio da cultura católica, notadamente no domínio dos estudos bíblicos. Pode-se bem dizer que, como o modernismo chegou à maturação em primeiro lugar no domínio bíblico, com A. Loisy, foi igualmente no domínio bíblico que o renascimento do modernismo fez sua aparição oficial. Desta vez, entretanto, não foi em Paris, no «Institut Catholique», que aconteceu este renascimento, mas em Roma, no Instituto Bíblico Pontifical, que os Papas Leão XIII e São Pio X tinham respectivamente, projetado e realizado para defender do modernismo os estudos bíblicos. O veneno que São Pio X havia denunciado (Pascendi - 1907) como escondido «nas veias e nas entranhas» da Igreja, atacava agora até a cabeça.
Para ilustrar este tristíssimo e gravíssimo fenômeno, ninguém nos pareceu mais competente do que Monsenhor Spadafora, que com Monsenhor Romeo, hoje desaparecido, a tal se opôs com toda coragem desde sua aparição, em 1960 (v. artigo precedente).
Nota: Os título e subtítulos são de nossa redação.
Nem se pensou numa questão capital
«Ela veio finalmente, (Perpétua) com uma grande couve nos braços, ousada como se nada tivesse acontecido», e deixou com seus tormentos o pobre Sr. Abbondio que, com insistência a havia chamado para solução de seu problema.
Esta passagem de Manzoni (I Promessi Sposi [Os noivos], cap.II) me voltou à memória quando tomei conhecimento do documento da Comissão Bíblica Pontifical, anunciado há muito tempo e publicado somente em novembro do ano passado, sob o título: Interpretação da Bíblia na Igreja (Libreria editrice Vaticana - Cidade do Vaticano, 1993 - 126 páginas). Este documento é precedido das palavras de João Paulo II, «pronunciadas em 23 de abril de 1993, durante uma reunião comemorativa do centenário da encíclica Providentissimus Deus, de Leão XIII e do cinqüentenário da encíclica Divino Afflante Spiritu, de Pio XIJ, ambas consagradas às questões bíblicas». Na Sala Clementina do Palácio Apostólico, estando presentes os membros do Colégio Cardinalício, do corpo diplomático acreditado junto à Santa Sé, da Comissão Bíblica Pontifical e do corpo de professores do Instituto Bíblico Pontifical.
Foi nesta reunião que o cardeal Ratzinger apresentou a João Paulo II o documento elaborado pela Comissão Bíblica Pontifical. «Com alegria - diz João Paulo II - recebo este documento, fruto de um trabalho conjunto, empreendido por vossa iniciativa, Senhor Cardeal, e continuado com perseverança durante muitos anos. Ele responde a uma preocupação que guardava no coração, porque a interpretação da Sagrada Escritura é de importância capital para a fé cristã e para a vida da Igreja...».
Este preâmbulo é seguido de esclarecimentos sobre o valor das duas encíclicas de Leão XIII e de Pio XII, consagradas às questões bíblicas; esclarecimentos que Monsenhor Gianfranco Ravasi resumiu assim no periódico Jesus de outubro: A Providentissimus (1893) de Leão XIII, é «apostólica», contra o racionalismo (modernismo); ao contrário, a Divino Afflante Spiritu (1943) de Pio XII, se situa sobre uma linha somente positiva, encaminhando os exegetas católicos para o estudo científico da Sagrada Escritura, à utilização de todos os instrumentos oferecidos pelo progresso das diversas ciências auxiliares: arqueologia, filologia, gêneros literários, etc.
No discurso de João Paulo II, a questão que perturbou a Igreja a partir de 1960 nem mesmo aflorou, uma vez que o Instituto Bíblico Pontifical aderiu abertamente aos dois últimos sistemas racionalistas: a Formengeschichete (R. Bultmann, Dibelius 1920) e Redaktiongeschichete (1945), fazendo abstração total da doutrina do Magistério, tão clara e tão precisa em todos os seus documentos, e renegando as três verdades que são a base da exegese católica: a inspiração divina das Santas Escrituras, sua impossibilidade de erro e a historicidade dos quatro Santos Evangelhos. A reafirmação dessas três verdades de fé divina e católica constante até o Concílio Vaticano II (constituição dogmática Dei Verbum), é hoje negada contra toda evidência, oferecendo uma interpretação forçada do texto conciliar, criada pelos padres jesuítas do Instituto Bíblico Pontifical, sob a chefia do cardeal Carlo Maria Martini, ex-diretor e atual arcebispo de Milão. O referido documento, aprovado pela Comissão Bíblica Pontifical, diz: «Não se tem aqui a pretensão de tomar posição sobre todas as questões concernentes à Bíblia, como por exemplo a teologia da inspiração» (pg.28), como se se tratasse de uma questão sobre ... «sexo dos Anjos», e não de uma questão de «importância capital para a fé cristã e para a vida da Igreja»!
O crédito (cauteloso) do Cardeal Ratzinger
No prefácio do documento (págs. 21-23), escrito pelo próprio cardeal Ratzinger, lemos: «Na história da interpretação, a utilização do método histórico-crítico marcou o início de uma nova era. Graças a este método, apareceram novas possibilidades para compreender o texto bíblico no seu sentido original». Até aqui, isto pareceria o ponto de vista de um incompetente, totalmente ignorante não somente dos grandes progressos conseguidos pela autêntica exegese católica, desde o pontificado de Leão XIII até nossos dias, mas principalmente das ruínas pelas quais é responsável o pretenso «método histórico-crítico». Entretanto, o cardeal prossegue: «Tudo o que ajuda a melhor conhecer a verdade e a avaliar suas próprias idéias, oferece à teologia uma contribuição válida. Neste sentido, é justo que o método histórico-critico seja aceito no trabalho teológico. Entretanto, tudo o que restringe nosso horizonte e nos impede de lançar o olhar e ouvir além do que é simplesmente humano, deve ser rejeitado a fim de que uma abertura seja mantida. É por isso que a aparição do método histórico-crítico logo suscitou um debate sobre sua utilidade e sua justa configuração, um debate que não terminou, de modo algum, até hoje (...). Neste debate, o Magistério da Igreja muitas vezes tomou posição com documentos importantes (...) Leão XIII sobretudo, expressava diversas criticas (...) O Papa Pio XII podia dar lugar mais importante aos encorajamentos (é a tese lançada pelos «inovadores» do Instituto Bíblico Pontifical, somente depois da morte de Pio XII). A Constituição do Concílio Vaticano II sobre a Revelação divina, Dei Verbum de 18 de novembro de 1965, retoma tudo isto, une as perspectivas duráveis da teologia patrística e os novos conhecimentos metodológicos dos modernos e nos dá uma síntese que fica autorizada (...). A Comissão Bíblica Pontifical fixou então sua tarefa, cem anos depois de Providentissimus Deus e cinqüenta anos depois de Divino Afflante Spiritu, a de procurar definir uma posição de exegese católica na situação atual [posição que, dadas as preliminares, é muito mais fácil de prever que será substancialmente favorável às «novidades» do Instituto Bíblico].
Na nova conformação que lhe foi dada depois do Vaticano II a Comissão Bíblica Pontifical não é um órgão do Magistério, mas sim uma comissão de experts que, conscientes de sua responsabilidade cientifica e eclesial, enquanto exegetas católicos, tomam posições sobre problemas essenciais de interpretação da Escritura e sabem que têm por isso a confiança do Magistério [ ... ]. Creio que o documento dá realmente uma ajuda preciosa para esclarecer a questão do justo caminho para a compreensão da Santa Escritura e que abre novas perspectivas. Ele prossegue na linha das encíclicas de 1893 e de 1943 e prolonga esta linha de maneira fecunda».
Concluindo: «Roma, na festa do evangelista São Mateus, 1993» (contudo, este evangelista, pelo «método histórico-crítico», é excluído de toda relação com o Evangelho que há vinte séculos leva seu nome!).
Somente algumas observações:
1 - Diz o cardeal Ratzinger: «Seria justo que o método histórico-crítico fosse aceito no trabalho teológico».
Esta linguagem não é clara. Ou teria ela sido escolhida para esconder a traição perpetrada em detrimento do Magistério da Igreja na exegese católica? A Formengeschichete ou teoria ou «história das formas», entendida aqui como «método histórico-crítico» [ver pág. 32 do «Documento»] é um método racionalista em nítida oposição às três verdades reveladas que são a base da exegese católica: inspiração divina da Sagrada Escritura, sua impossibilidade de erro (inerrância) e a historicidade de nossos quatro Santos Evangelhos. Este «método», além disso, nega o princípio dogmático pelo qual o magistério infalível da Igreja é a «norma próxima» para o exegeta católico. (Documentaremos amplamente o que aqui somente mencionamos).
Porque então, para o cardeal Ratzinger, «era justo que o método histórico-crítico fosse aceito no trabalho teológico»? Um teólogo digno deste nome, não pode deixar de se dar conta de que o caso é fundamentalmente dogmático: trata-se das bases da Igreja Católica. E por isso, com seu título de Prefeito da Congregação da Fé, o cardeal Ratzinger deveria ter intervindo há muito tempo para acabar o escândalo que se manifestou desde 1960 e que instilou e instila tanto veneno nos alunos do Instituto Bíblico Pontifical.
2 - O «Documento» em questão é atribuído à Comissão Bíblica Pontifical: «A Comissão Bíblica Pontifical assumiu a tarefa, cem anos após Providentissimus Deus e cinqüenta anos após Divino Afflante Spiritu, de procurar definir uma posição de exegese católica na situação atual». Entretanto, logo depois nos informa que a Comissão Bíblica Pontifical não existe mais, e que ela de hoje em diante está definitivamente enterrada: «Na nova forma que lhe foi dada depois do Vaticano II, a Comissão Bíblica Pontifical não é um órgão do Magistério mas sim uma comissão de experts...»
Hoje, só resta o nome da Comissão Bíblica Pontifical criada por Leão XIII (30 de outubro de 1902), que era composta por cardeais (os cinco primeiros membros escolhidos por Leão XIII) e quarenta consultores, e cujas decisões foram consideradas por São Pio X (1907) praticamente iguais às das outras Congregações romanas. E este nome é usurpado por esta «comissão de experts» (tipo G. Ravasi) criação de Paulo VI, comissão que não é um órgão do Magistério, mas à qual a maioria de ignorantes continua e continuará a atribuir a mesma autoridade da Comissão Bíblica Pontifical autêntica. Por que este grande equívoco e quem dele se aproveita? Além disso, como Ravasi declarou com ênfase na revista Jesus de setembro de 1993, na chefia desta comissão de experts que se deu a tarefa de «definir uma posição de exegese católica na situação atual», criada principalmente pelo Instituto Bíblico, há o padre Albert Vanhoye, jesuíta e antigo reitor do Instituto Bíblico Pontifical, Instituto este que se encontra como acusado e juiz na mesma causa!
3 - Afirma o cardeal Ratzinger: «O debate sobre a "utilidade" do método histórico-crítico até o momento não foi concluído de modo algum». Ele o reconhece, ou o admite prudentemente? Mas então por que trabalham há tanto tempo os experts inúteis? Por que os anúncios repetidos de um «precioso» documento (como anuncia Ravasi na revista Jesus de outubro de 1993) para não chegar a nenhuma conclusão? É o caso de dizer: «Dum Romae consulitur Saguntum expugnatur»; enquanto em Roma se estuda, ou melhor, diz-se que estuda a situação, a Santa Igreja de Deus está nas mãos dos heréticos.
No entanto, os elementos para encerrar o «debate sobre a utilidade do método histórico-crítico», existem. E como! Apenas fizemos alusão, e mesmo o leitor menos expert pode perceber. Mas o debate não é encerrado simplesmente porque não se quer encerrar, o que só serve ao erro e à heresia
Mas, para o cardeal Ratzinger, o debate já foi, de certo modo, encerrado, pela «síntese» do Vaticano II, que - afirma ele - «impõe sua autoridade». Mas em qual interpretação? Na interpretação modernista do Instituto Bíblico Pontifical.
4 - Enfim, é falso, absolutamente falso, que um tal documento «continue na linha das encíclicas de 1893 e de 1943, e prolongue esta linha de maneira fecunda». Isso é muito fácil de demonstrar e nós o faremos.
Vãs Tentativas
Contudo, quando o cardeal Ratzinger tomou posse no ex Santo Oficio, cumpri meu dever de lhe fornecer a documentação completa sobre o renascimento do modernismo no domínio bíblico. Esta documentação já estava quase completa no meu livro, Leone XIII e gli studi biblici (Rovigo 1976), como aparece no índice:
Leão XIII e os estudos bíblicos (págs. 5-13).
I - Encíclica Providemissimus Deus, págs. 13-59.
1a. parte: Situação. A.Loisy e o modernismo, págs.
63-80.
2a. parte:
A) Inspiração, págs. 80-81.
B) Absoluta impossibilidade de erro: documentos do Magistério, págs. 81-86.
- Encíclica Dei Verbum: discussões recentes, págs. 86-93.
- Confirmação dos Tratados, págs. 93-1 OS.
C) Somente a Igreja é intérprete autêntica:
a) Princípio dogmático, sempre atual (Paulo VI)
págs. 105-114.
b) De Providentissimus Deus até Humani Generis, pgs.114-124.
c) As «novidades» e Divino Afflante Spiritu - Alonso Schökel e Mons.
A.Romeo, págs. 125-134.
d) Nos tratados de hermenêutica, págs. 134-138.
e) Exegese somente «filológica» e teológica (K.Rahner, Alonso Schõkel: negação
prática do princípio dito acima, causa do marasmo atual inclusive em teologia,
págs, 139-164.
II - Comissão Bíblica Pontifical.
1) Instituição. Metas. Natureza. Carta apostólica
Vigilantiae, págs. 164-169.
2) M. J. Lagrange e a Escola Bíblica. Instituto Bíblico Pontifical, págs.
169-171.
3) Atividades da Comissão Bíblica Pontifical:
a) Até 1937, págs. 171-174.
b) A presidência do cardeal Eugène Tisserant (1937-197):
- Carta ao cardeal Suhard, págs. 175-179.
- Miller Kleinhans, Vogt e Dupont, sobre o valor da resposta da C.B.P., págs.
179-184.
- O caso dos professores Lyonnet e Zerwik, págs. 184-186.
- A última Instrução, págs. 186-188.
III - Apêndice
A) O perigo das «críticas»:
a) No domínio literário, filológico e «críticas
deificantes». págs. 189-210.
b) Na exegese bíblica no domínio católico, págs. 210-215. Exemplos:
- Mt. 16, 13-19; VögtleZerwick págs. 215-219.
- Jo. 6, 69-71 (A. Loisy), S.Cipriano págs. 219-222.
- Mt.13, 1-8; 18-23 (J. Jeremias), Fr. Mc Cool, págs. 222-224.
- Mt. 5,32; 19,9 (A. Loisy), A. Descamps atual sec. da C.B.P., págs. 224-22S.
- Exegese de Mt. 16, 13-19, págs. 228-24S.
B) Ressurreição de Jesus: acontecimento histórico e não «metahistórica» (Léon Dufour), Jo. 20, 1-10, págs. 245-267. (Em seguida, coloquei em dia e enriqueci esta documentação na Introdução ao livro La Ressurrezione di Gesu, Rovigo 1978; em particular para a Encíclica Divino Afflante Spiritu [págs. 27 e segs.]; a Instructio 1964 [págs. 29-35]; a Dei Verbum [pgs.35-67].
Ela será posteriormente enriquecida na obra La Tradizione contre il Concilio (Roma 1989). A dedicatória é significativa: À memória venerada do cardeal Alfredo Ottaviani, vingador da verdade revelada e da continuidade perene da Mãe dos Santos, a Igreja Católica.
A síntese sobre a grave situação que se criou no decênio 1950-1960 no domínio bíblico, é apresentada nas páginas 6 a 23. Seguem: Dei Verbum, págs. 59-80; Origem apostólica e autenticidade dos Evangelhos na encíclica Dei Verbum, págs. 80-108; Os jesuítas e o Cardeal Martini contra Dei Verbum, págs. 10-133; Interpretação das Sagradas Escrituras, «Gêneros Literários», págs. 133-142).
Quando, em 1991, tive em mãos a obra L 'Esegesi Christiana Oggi (A Exegese Cristã Hoje, Ed. Piemme, Pietro Marietti), com trabalhos de Ignace de la Potterie S.J., Romano Guardini, Joseph Ratzinger, Giuseppe Colombo e Enzo Bianchi, compreendi que hoje era vã a espera de uma intervenção corretiva por parte do dicastério guardião e protetor da doutrina católica.
Ao lado do nome do padre Ignace de la Potterie, do Instituto Bíblico Pontifical, participante e propagador da interpretação errada e herética de Dei Verbum, negador da absoluta impossibilidade de erro, da historicidade dos Evangelhos e participante do «método histórico-crítico», aparece o nome do Prefeito da Congregação pela Fé, cardeal J. Ratzinger, como simples «observador», com algumas considerações exatas, muitos julgamentos errados (ver págs. 98-100) e de numerosas contradições.
Voltaremos ao assunto.
Mais uma vez senti ser meu dever expor pessoalmente ao cardeal Ratzinger meu protesto. Pedi audiência no começo de junho e obtive para 25 de julho. Eu lhe disse entre outras coisas: «O Magistério está aqui, e não no Instituto Bíblico». O cardeal Ratzinger respondeu que o Santo Padre tinha a intenção de intervir pessoalmente sobre a questão bíblica, e gentilmente me despediu. Em 23 de abril de 1993, João Paulo II pronunciou seu decepcionante discurso, citado no inicio deste artigo!
Para não negligenciar nenhuma tentativa de defesa dos dogmas que são a base da exegese católica, pensei em conquistar o interesse dos bispos italianos. No encontro que me concedeu na «Domus Mariae», expus a gravíssima questão a Dom Giuseppe Agostino, arcebispo de Crotone e vice-presidente da C.E.I. (Comissão Episcopal Italiana), e lhe forneci a documentação correspondente. Mais ou menos um mês depois, chegou-me a seguinte resposta:
«Caro Professor:
Antes de tudo manifesto minha grande satisfação por vos haver reencontrado.
Compreendi a gravidade dos problemas que o senhor me submeteu. Li com atenção toda a documentação que o senhor amavelmente me remeteu.
É preciso, certamente, saber colher o que o Magistério nos propõe (conf Dei Verbum n.11, be 12, a.b.c.).
Como o senhor mesmo disse, sabemos que nestes últimos tempos houve posições avançadas, às vezes desviantes. Entretanto, posso vos confiar que a Comissão Bíblica Pontifical elabora normas e medidas para a interpretação da Sagrada Escritura.
Confiando na obra do Espírito e na esperança de uma Igreja mais humilde e clara, eu vos saúdo respeitosamente.
Crotone, 24 de Junho de 1993
+Giuseppe Agostino, arcebispo»
No fim de julho, enviei a seguinte carta a Dom Agostino:
«Excelência: A carta que vossa Excelência teve a bondade de me enviar, de 24 de junho último, frustrou amargamente minha expectativa (..).
Consagrei toda a minha existência aos estudos bíblicos (em Catanzaro, sob a direção do erudito e jamais esquecido professor Mons. Romeo; depois no Instituto Bíblico Pontifical - 1936 a 1939 - preparando uma tese dirigida pelos reverendos padres A. Bea e A. Viccari); e em seguida no ensinamento da Sagrada Escritura (nos Seminários Regionais durante onze anos, e depois em Roma na Universidade Pontifícia de Latrão até 1983, ou seja, durante quarenta e três anos) com numerosas publicações (um grande comentário de Ezechiel, o Dicionário Bíblico, 3a. edição; Leão XIII e os estudos bíblicos; Pilatos; A Ressurreição de Jesus). Permito-me .fazer algumas observações à sua carta de 24 de junho, certo da compreensão de Vossa Excelência e confiando na sua grande bondade para comigo:
1 - Não há verdade de fé formalmente expressa por todos os Padres, como eco fiel das palavras de Jesus: «scriptum est... et non potest falli Scriptura» (Está escrito ... a Escritura não pode falhar) (Jo. X, 34-35), como a absoluta impossibilidade de erro da Sagrada Escritura. É este o primeiro efeito da inspiração divina (2 Tm 3, 14-17; 2 Pl, 20-21). O magistério infalível é unânime sobre a questão: Vaticano I; Leão XIII: Providentissimus Deus, definira como a Carta Magna para a Sagrada Escritura e Pio XII que em Divino Afflante Spiritu repete e confirma com força o claro ensinamento sobre a natureza da inspiração e sobre a absoluta impossibilidade de erro da Sagrada Escritura.
Na documentação que deixei para Vossa Excelência, o estudo sobre a autenticidade e historicidade dos Evangelhos relaciona os textos publicados sobre o assunto pelo Magistério Eclesiástico: de Pio IX a Bento XV e a Pio XII (Humani Generis e «Instrução» da Comissão Bíblica Pontifical de 1950).
É somente para se adaptar aos racionalistas aceitando seus dois últimos (por enquanto) sistemas: a Formengeschichte (R. Bultmann - M. Dibelius, 1920) e depois a Redaktiongeschichte (W. Marxsen - G. Bornkann, 1946), que o Instituto Bíblico Pontifical renegou a doutrina católica, «doutrina de fé divina e católica» sobre a inspiração dos Livros Sagrados, sua absoluta impossibilidade de erro, e a historicidade dos Evangelhos (ver também La Civilta Cattolica de 20 de fevereiro de 1993). O voto dado pelos professores do Instituto Bíblico Pontifical no Concílio Vaticano II pedia a restrição da impossibilidade de erro da Sagrada Escritura às únicas passagens concernentes ao dogma e à moral, tendo como conseqüência tornar vã a Doutrina da Fé sobre a inspiração divina dos livros sagrados; e tudo isto já era proposto por eles, no encaminhamento a partir de 1960, quando interveio o Santo Ofício.
Não se trata pois de «algumas posições avançadas e às vezes desviantes», mas de desvio dogmático programado: verdadeiras heresias, tenazmente sustentadas e divulgadas, com verdadeiro escândalo para os fiéis. Por último: na Universidade de Latrão, 6 de maio último, diante de um grande público, de professores e de alunos e na presença de um Pastor valdense, Mons. Romano Penna, levado pela Secretaria de Estado à cadeira de Sagrada Escritura e pelo seu compatriota Mons.Rossano, que infelizmente era então (1983) Reitor desta universidade que é a «Universidade do Papa», Mons. Pena teve então o despudor de apresentar todas as argúcias e as invenções dos protestantes racionalistas, como provas contra a autenticidade e historicidade das palavras de Jesus sobre o primado de São Pedro e de seus sucessores, os Pontífices Romanos! Estes textos (Mt 16, 17-19; Lc 22, 8-13; Jo 21, 15-19, seriam apenas uma criação tardia (século II) da «facção petriniana» (de Pedro) da comunidade romana. Exatamente como sonhava Alfred Loisy, o corifeu dos modernistas, excomungado por São Pio X, mas que hoje volta atual!
2 - Quanto ao cardeal Ratzinger, realmente não há nada a esperar. Ele parece estar completamente sob a dependência dos jesuítas do Instituto Bíblico, em particular do padre Ignace de la Potterie S. J. Enfim, não se pode confiar nos diversos elementos desta larva que foi a Comissão Bíblica Pontifical.
O Senhor sabe que eu não minto: logo que Sua Eminência o cardeal Ratzinger chegou a Roma para tomar posse de sua função diante do ex Santo Oficio, fui recebido em audiência por ele, e durante uma boa meia hora lhe informei sobre a grave situação criada pelo Instituto Bíblico Pontifical, em ruptura com o Magistério da Igreja e em luta aberta contra o Dicastério Supremo do ex Santo Oficio. Eu levei meus livros como documentação.
Ele aquiescia sempre de modo afável. Algumas outras vezes procurei, sempre com a maior dificuldade, obter uma audiência. A última vez, consegui depois de um mês de espera, em 25 de julho do último ano. Desta vez, o cardeal Ratzinger me recebeu ainda afavelmente durante mais ou menos meia hora. Protestei vivamente contra a publicação do livro: Ignace de la Potterie, cardeal Ratzinger, etc ... Esegesi cristiana oggi (A exegese cristã hoje) Ed.Piemme, 1991, 246 páginas.
A Exegese Católica não existe mais, com o princípio dogmático (Concílios de Trento e Vaticano I): «in rebus fidei et morum», o exegeta tem que seguir o sentido «quem tenuit ac tenet Sancta Mater Ecclesia» à qual pertence dar o sentido autêntico da Sagrada Escritura. O primeiro a dar o mau exemplo foi o padre Stanislas Lyonnet S.J., que em artigo na revista Recherches de Science Religieuse (1956), retoma o erro de Pelágio e de Erasmo, isto é, nega que Rm. V, 12 fale de pecados pessoais, contra o sentido definido solenemente pelo Concílio de Trento em dois cânones (ver F. Spadafora, in Divinitas, 1960, 2o).
O padre de la Potterie S.J. repete, no livro mencionado acima, suas teses erradas: negação da absoluta impossibilidade de erro da Sagrada Escritura, a Dei Verbum teria feito justamente restrição à impossibilidade absoluta de erro às únicas passagens concernentes às verdades dogmáticas. Ele nega também a autenticidade e historicidade dos Santos Evangelhos, afirmando que essa é a doutrina de Dei Verbum (ver nums. 18-19). Sua Eminência o cardeal Ratzinger, cooperando no seu livro com um estudo sobre a Formengeschichte de R. Bultmann, deu a impressão lógica de concordar com as heresias do padre Ignace de la Potterie. Nesta segunda vez, ainda recebi do cardeal Ratzinger boas palavras e vagas promessas. Para enterrá-las completamente, eis a publicação de três artigos de La Civilta Cattolica, em particular o artigo central de 20 de fevereiro de 1993. Eis porque diante desta grave crise que vem desde 1960, com enormes danos para os alunos do Instituto Bíblico Pontifical (dos quais muitos são agora professores de Sagrada Escritura nos Seminários, nas Faculdades de Teologia e nas Universidades, mesmo aqui em Roma, como o professor Penna na Universidade do Papa) e do grave escândalo de todos os fiéis, pensei interessar a C.E.I (Conferência Episcopal Italiana) da qual Vossa Excelência é vice-presidente. É um grave dever de consciência diante de Deus, para os bispos, guardar e defender o depósito da Fé (São Paulo, 1 Tm. 6, 20; 2 Tm. 4,7)».
No post-scriptum acrescentei que enviava cópia de minha carta a Sua Eminência o cardeal Ruini, presidente da C.E.I. Não recebi resposta. Evidentemente havia este anúncio do «Documento» que a Comissão Bíblica Pontifical (!) deveria lançar brevemente. E ei-lo, finalmente, ridículo e prejudicial.
Com as coisas neste pé, pensei dever reclamar publicamente, acedendo ao pedido da redação de Si Si No No, os pontos essenciais fixados pelo magistério infalível (extraordinário e ordinário) na base da exegese católica e documentar seus leitores sobre a traição contra a Igreja, perpetrada pelas duas instituições: A Comissão Bíblica Pontifical e o Instituto Bíblico Pontifical em favor do «criticismo» que suprime o sobrenatural e nega os pontos essenciais fixados pelo Magistério para a exegese católica.
Francesco Spadafora